Eleições, Política, Republicados

Voto nulo não anula eleição!!!*

Há uma campanha que circula sempre que se aproxima uma eleição, tentando fazer com que os eleitores anulem seus votos, uma vez que as cabeças iluminadas que divulgam essa campanha tentam fazer crer que todo o político é ladrão. Não vou transcrever de novo “O analfabeto político”, nem tampouco vou entrar no mérito dessa ideia de anulação em massa dos votos, apenas repito o que venho dizendo há tempos: anular voto não é ato de protesto e sim de omissão.

O que me preocupa, na verdade, é um argumento utilizado pelos propagandistas do voto nulo, dizendo que 51%, ou 50% + 1, ou índice parecido de votos nulos vai provocar a anulação do pleito e a realização de uma nova eleição. ISSO NÃO EXISTE! Quem propaga essa falácia é mal intencionado ou muito desinformado, o que pouco importa, porque o efeito nefasto desse boato é o mesmo.

O Capítulo VI do Código Eleitoral, Lei nº 4.737, de 15 de julho de 1965, artigos 219 a 224, dispõe sobre as nulidades da votação e não há nenhuma previsão de anulação da eleição por votos nulos, seja qual for o seu número. Qualquer informação diferente É FALSA e só tem a intenção de confundir o eleitor. Quem quiser pode conferir na fonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4737.htm.

Antes de votar nulo, pensem bem nas consequências que essa omissão vai acarretar. Os políticos corruptos que forem eleitos vão praticar atos que vão interferir na vida de todos, mesmo daqueles que anularam o voto. Então, sem essa de “consciência tranquila” por não ter ajudado a eleger político ladrão. Votando nulo se está sim ajudando a elegê-los. A única forma de evitar isso é votando com consciência e, sobretudo, acompanhando, fiscalizando e cobrando o mandato dos eleitos.

Acima de qualquer coisa, lembrem-se:

VOTO NULO NÃO ANULA ELEIÇÃO!!!

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 31/8/2012.

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Política, Republicados

Inimigo na trincheira*

Num regime democrático, o parlamento deveria ser a Casa do Povo, tendo nos parlamentares os legítimos representantes dos anseios da sociedade, que os levou até lá. Só que não é bem assim…

Dia desses eu transcrevi  “O Analfabeto Político” num texto aqui. Pois isso que eu vou falar agora tem tudo a ver com essa joia do Brecht, principalmente com a última frase.

Na página 8 da ZH de sábado (18/08) tem uma matéria sobre o problema dos CCs da assembleia. (A propósito, a globinho só descobriu isso agora?) A repórter Juliana Bublitz, autora da matéria, faz uma rápida  entrevista com o deputado Alexandre Postal, do PMDB, que ocupa atualmente a presidência da Casa.

A questão: “Para cientistas políticos, o número poderia ser menor e os parlamentares deveriam divulgar os dados dos assessores.”

A resposta: “Cientistas políticos não conhecem o nosso dia a dia. Qual é a grande arma do político? É o adversário não saber qual é a tua estratégia e onde tu estás. Se souber, pode ir atrás. É a mesma coisa que eu pedir para a fábrica de chocolate quais são as empresas que o vendedor dela vai visitar. Para os concorrentes, isso é uma maravilha.”

A (excelente) questão:  “Mas não estamos falando de adversários. Estamos falando da população.”

A (lamentável) resposta: “O dia a dia, e eu falo isso com tranquilidade porque estou no quinto mandato, é diferente do prisma de quem está fora.”

Eu juro que tive que ler três vezes só pra ter certeza que o cara tinha dito isso mesmo. Sabe como é, era sábado bem cedo da manhã, eu havia acordado há pouco, então poderia estar com a vista turvada pelo sono recém interrompido. Mas era isso mesmo.

Sua excelência começa dizendo que os cientistas políticos não conhecem o dia a dia da Casa Legislativa. Bueno, se um CIENTISTA POLÍTICO ignorar o que acontece no funcionamento do parlamento, que é onde a política se realiza na sua plenitude, talvez seja melhor ele militar em outra área científica, botânico ou físico talvez.

Mas o pior vem agora: o deputado fala em “arma do político”. Ou seja, já está atribuindo um caráter bélico à sua atuação. E quando ele próprio responde a sua pergunta sobre qual é a arma, aí a vaca vai pro brejo com cinta e tudo. Vou transcrever de novo, em letras grandes, para facilitar a leitura:

“É o adversário não saber a estratégia e onde tu estás.”

Quem é o adversário? Se é durante a campanha ainda se justifica o emprego do termo adversário, mas não é disso que se está tratando na matéria. O adversário, no caso, é o outro deputado e para ele não descobrir as “estratégias” empregadas, usa-se um monte de assessores para, em vez de trabalhar nas funções institucionais, viabilizar a logística da politicagem praticada pelo parlamentar.

E quando a repórter questiona sobre o que ele chamou de adversário, o cara tergiversou.

Na visão do PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL, que se orgulha de ser o mais politizado do brasil, a política gira em torno de estratégias de guerra para a manutenção do poder. A assembleia é, então, palco de um combate, onde o que vale é chegar antes do “adversário”. O interesse comum, que é o que deveria permear a atuação dos mandatários do povo, bom, esse fica relegado a um segundo (terceiro, quarto…) plano.

Diante da confissão do senhor presidente, assumindo que faz política para si mesmo, começa a se justificar de pleno a campanha que se faz pelo voto nulo, da qual eu sempre discordei por considerar a anulação do voto uma omissão diante da ferramenta mais poderosa que a democracia nos coloca à disposição. Ademais, o voto nulo possibilita justamente a eleição de gente desse naipe, que trata a política dessa maneira. Só que está ficando difícil defender meus argumentos. Qualquer um que defenda a anulação pode pegar essa entrevista e dizer aos quatro ventos: “Entendeu porque eu não dou meu voto pra esse tipo de gente?”

E aí me resta contra-atacar com o velho Brecht:

“Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”
*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 20/8/2012.
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