Arte, Literatura, Política

Vida e arte, quem imita?

Infelizmente as notícias e os fatos perderam a capacidade de nos surpreender. Há algo que imaginamos não possa acontecer? Não. E tudo acontece.

Uma ONG chamada Rio de Paz fez uma instalação na Praia de Copacabana para homenagear as pessoas – mais de 40 mil pessoas – que perderam a vida em função daquilo que o chefe do Executivo chamou de gripezinha. Mais do que isso, a exposição tinha por objetivo dizer para as pessoas que perderam entes queridxs que essas vítimas não foram esquecidas e que não morreram em vão. Não era uma obra bonita, conforme o que convencionamos chamar bonito por aqui. Mas qual é a beleza da arte? Qual a função da arte? É possível que uma obra de arte não atenda uma função social? Atendendo essa função, a obra deixa de ser artística? Não, não vou propor aqui um debate sobre a estética da arte. É uma boa discussão, mas não é a questão que quero trazer.

Um sujeito chamado Héquel da Cunha Osório, um senhor de 78 anos, bastante jovial, entendeu-se no direito de ir lá e destruir a instalação. “Vou tirar essa aqui. Se eles têm direito de botar… A praia é pública. Eu tenho direito de tirar. Isso aqui é um atentado contra as pessoas. Isso aí é um terror. Tá criando pânico. Usando as cruzes… A cruz de Jesus para aterrorizar o povo. Sacanagem” Eis o argumento.

A afirmação “A cruz de Jesus para aterrorizar o povo.” precisa de uma atenção especial. Ao dizer isso, o senhor Héquel deu mostras de ser cristão. E como cristão deve saber quem foi Jesus (personagem histórico) e porque ele morreu (personagem bíblico). E deve saber também – ou pelo menos deveria saber – porque a crucificação foi o método escolhido para sacrificar o Messias, de acordo com o texto bíblico. Não vou entrar nessa seara da discussão religiosa também, basta por aqui lembrar que a cruz era um instrumento de tortura que o Império Romano utilizava nos piores criminosos. Então, se a ideia da instalação fosse de fato espalhar o terror entre a população, nada mais adequado.

Ao senhor Héquel, porém, não bastava ser naquele momento um imbecil, precisava que as pessoas soubessem da sua imbecilidade. “Alguém viu minha indignação, derrubando cruzes que a esquerda montou em Copacabana hoje? Não resisti”. Com essa chamada ele botou fotos e/ou vídeos nas suas redes sociais. Uma andorinha sozinha não faz verão. E um boi sozinho não faz boiada. Não que o senhor Héquel seja um boi, muito menos uma andorinha. Jamais faria essa comparação. Acho muito inadequado quando as pessoas fazem esse tipo de relação. O que os pobres animais têm a ver com essas coisas, afinal?

O fato me lembrou de uma passagem do livro “Cinzas do Norte”, do Milton Hatoum. Livro maravilhoso. Num dos momentos marcantes da história, Mundo, que é artista, cria uma instalação num bairro que foi aberto pelo coronel-prefeito-dono da cidade em que critica a destruição da floresta e dos povos originários. Chama-se “Campo de Cruzes” essa obra, que tem o seguinte destino: “No dia seguinte, bem cedo fui ao Novo Eldorado. O ‘Campo de Cruzes’ havia sido destruído pela polícia na tarde do feriado.” O relato é feito por Lavo, outro personagem central, e o fato acontece em meio ao nebuloso tempo da ditadura militar, quando autoridades sem autoridade se achavam no direito de fazer esse tipo de coisa. Nossas autoridades sem autoridade não fazem mais isso. Não porque hoje seja melhor, mas porque têm idiotas que fazem o trabalho sujo.

Tanto no livro quanto na praia, o que se escancara é um sentimento muito ruim, que faz as pessoas misturarem tudo, acharem argumentos onde eles são mais improváveis para destilar o seu ódio. O sr. Héquel, provavelmente eleitor do presidente atual, é mais uma prova de que o que levou Bolsonaro ao poder foi o ódio e não o antipetismo. Quando associa à Esquerda o manifesto feito na areia, ele passa por cima de tudo o que aquele trabalho representava, inclusive, e principalmente, do sofrimento humano. Ele simplesmente enxerga naquilo o que o ódio lhe permite ver. O resto é cegado por esse veneno.

Como tantas vezes se diz, a arte é a representação da vida. Casos há, porém, em que o caminho é inverso. Parece que a vida se vale do que o artista criou para ela traçar a sua história. Infelizmente, neste caso, a parte da obra que foi tirada do livro para descer à vida real foi a mais cruel. Pena que isso não nos surpreenda mais.

*Imagem de destaque copiada do site http://serfelizeserlivre.blogspot.com/2019/08/chamas-na-amazonia-cinzas-de-mentiras-e.html, visitado em 16/6/2020.

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Amor, Liberdade, Republicados

Ah, o amor…*

No último domingo, eu tive a honra e o prazer de assistir, junto com a minha família, um casamento em Brasília. Não foi um casamento que ainda se possa chamar de comum, eis que de duas MULHERES. Grafo em maiúsculas porque ainda (até quando?) é comum que se usem outros termos nesse caso, como lésbica, machorra, sapatão e por aí vai. Só que mulheres são mulheres e homens são homens, não importa a sua orientação sexual. No caso específico, trata-se de duas mulheres jovens, bonitas, inteligentes, bem sucedidas profissionalmente, de boa família e sólida formação moral. Sobretudo, trata-se de duas mulheres corajosas.

A partir desse evento, que incluiu uma festa nota 100, me permiti algumas reflexões, incentivado, inclusive, por algumas rápidas (re)leituras de “O homem e seus símbolos”, que havia na casa onde ficamos (muito bem) hospedados, pelo que já agradeço às pessoas que nos acolheram de forma tão carinhosa. Pensei sobre o que leva uma pessoa a compartilhar a sua vida com outra, oficializando, por assim dizer, isso através do casamento. Poderia falar em outras formas análogas ao casamento, mas uso uso este instituto porque foi o que ocorreu lá em Brasília, um casamento. Vários fatores motivam um casamento, e, infelizmente, nem sempre entre eles está o amor. As pessoas se casam por conveniências, por interesses financeiros, para manter aparências, por causa de alguma gravidez inesperada, para satisfazer as famílias etc. etc. etc. E, obviamente, muitas vezes por amor. Mas o que leva duas pessoas do mesmo sexo biológico ao altar (e uso altar como uma imagem simbólica, ao gosto do Jung)? No casamento a que estou me referindo, as companheiras (uso este termo porque não sei qual seria  mais adequado) não precisariam ter feito esse procedimento, porque já moram juntas há algum tempo, gozavam já de todos os direitos – embora haja ainda controvérsias – e, principalmente, não escondiam de ninguém a sua condição de casal. Como eu disse, elas são profissionais muito bem sucedidas, portanto uma não depende da outra no aspecto econômico. Então por que elas se casaram? Creio que posso responder sem medo de errar: por amor!

Uma pessoa rica que se casa com outra pobre, em geral sofre preconceito. Da mesma foram com uma pessoa branca que se casa com uma negra. Falo da relação homem e mulher. Acho, porém, que nenhum preconceito dessa natureza é capaz de superar aquele que se estabelece quando duas mulheres ou dois homens se casam. Retomo a pergunta, acrescentando este elemento: se não é por interesse diverso e se é sabido que o preconceito vai ser pesado, por que, então, duas mulheres se casam? Vamos de novo: por amor!

Não quero, neste momento, entrar em discussões maiores, coisas como a possibilidade de adoção por FAMÍLIAS (olha as maiúsculas de novo…) formadas por pessoas do mesmo sexo. Acho importante que se discuta isso, e se alguém quiser propor os temas nos comentários, agradeço. Mas o meu texto tem pretensão próxima bem menor, que é apenas prestar uma singela homenagem a essas duas MULHERES, que tiveram a coragem de praticar esse ato e nos deram a honra, a mim, particularmente, de tomar parte nesse que eu considero um momento de escrever a história. Minha psicóloga comentou sobre o que dirão os nosso netos (meus e da Patrícia), um dia, comentando sobre o fato dos avós terem estado presentes a um dos primeiros casamentos gays (peço permissão pra usar essa expressão) realizados no Brasil. Acho que isso vai ser umas das coisas de que eles poderão se orgulhar em nós.

Obrigado, gurias, por terem nos permitido compartilhar esse momento com vocês. E obrigado pelo enorme carinho que têm pelas nossas filhas, e saibam que com certeza o exemplo de vocês será muito importante pra elas.

 

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 26/6/2013.

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