Música, Rock

Sorry, Mick!

Camisa blog (3)O Camisa de Vênus veio aqui começar a turnê do disco/dvd Dançando em Porto Alegre. Nada mais apropriado. O Camisa é foda! E bota pra fudê!

A formação atual é, pra mim, a mais roqueira de todas. A “tosqueira” punk que existia lá no começo não perdeu a essência. 4 décadas depois, o Camisa continua sendo uma banda transgressora, mesmo quando o rock quase não transgride mais nada. Eu acho, na real, que esta é justamente a maior transgressão, continuar fazendo rock. E rock o Camisa faz bem desde sempre.

A banda já teve por um tempo o genial Luiz Carlini na guitarra, mas a dupla de hoje é espetacular. O Drake Nova é filho do homem, mas não é no carteiraço que ele garante lugar, não, o cara toca uma barbaridade. Os timbres que tira da guitarra são incríveis e é impressionante a capacidade que ele tem de reproduzir o clima de músicas que foram compostas quando nem tinha nascido. Na parceria, outro puta guitarrista, Leandro Dalle, que também toca muito e, talvez por ser também um baita baixista, sabe exatamente quando precisa economizar e quando pode voar. Quando os dois dobram as guitarras, criando uma sonoridade que lembra o Iron Maiden, por exemplo, realmente o circo pega fogo.Camisa blog (4)

Quando o Marcelo apresenta a banda, invariavelmente ele chama o batera, Célio Glouster, de Celinho Cadilac, O Trem. É um bom apelido, porque o cara realmente parece um trem, toca pesado, mas com balanço, e com uma precisão que mantém a banda o tempo todo nos trilhos, não importa a loucura que Mr. Marceleza e os outros estejam inventando.Camisa blog (5)

Robério Santana é a lenda, segundo Marcelo. Não é um baixista de jazz rock, daqueles de técnica altamente refinada, é um baixista de rock, e andando há mais de 30 anos juntos, ele e Marcelo têm uma parceria rara em bandas de rock.Camisa blog (2) Dá pra notar que a maneira como Robério toca fecha direitinho com a precisão já falada do baterista, o que deixa a banda tranquila pra viajar alto e voltar sempre pra música no tempo certo.

A história de uma banda de rock não é um conto de fadas, como algumas pessoas imaginam. Quando uma banda fica grande, alguma dose de profissionalismo é necessária e isso não falta pro Camisa. Só que o profissionalismo implica outras questões, contratos, direitos de uso do nome da banda e das próprias músicas, enfim, a parte do rock que não aparece no show. E o Camisa teve problemas com isso. Os dois guitarristas da formação clássica* tinham uma banda, em que tocou também por um tempo o Robério, e a chamavam de Camisa de Vênus. Depois de algum tempo, o Marcelo não gostou de como a coisa estava andando e entrou na Justiça pra impedir os ex-colegas de continuarem usando o nome. Brigas e trocas de farpas se seguiram, claro, e aí eu lembro que um amigo já me disse há muito tempo que se eu quisesse continuar sendo fã de alguém, era melhor nunca ler a sua biografia. É verdade isso, porque quando a gente admira e idolatra um/a artista, lembrar que ele/a é uma pessoa comum e que faz coisas de pessoa comum, pode ser um balde de água fria. A ideia de que o artista paira acima das coisas mundanas vale pra imagem idealizada que costumamos fazer dele, mas às vezes deparar com a humanidade do ídolo pode atrapalhar um pouco. Mas não é disso que estava falando e nem é exatamente o caso, porque o Marcelo Nova é adulto e vacinado e sabe conduzir as coisas da sua vida privada, que é… privada!, então voltemos ao show.

Bastidores à parte, o Camisa de Vênus é pra mim uma das maiores bandas da história do rock feito no Brasil e cada show deles é uma celebração ao rock and roll. E o momento atual do Camisa, com o Marcelo cantando a plenos pulmões e com uma performance de palco endiabrada como sempre, é excelente. Como eu disse, a formação atual é puro rock e o público sabe disso. E gosta. A piadinha que já virou clichê da banda, em que o Marcelo diz que o Mick Jagger se ressente de não ter um grito de guerra como o Camisa, se justifica quando um teatro cheio grita “Bota pra fudê” a cada intervalo de música. E o Camisa faz isso mesmo, Bota pra Fudê!Camisa blog (1)

*A formação clássica do Camisa tinha o Marcelo no vocal, o Robério no baixo, o Karl Franz Hummel (falecido em 2017) numa guitarra, o Gustavo Mullen na outra e o Aldo Machado na bateria. Mas antes disso, o Gustavo era o baterista e um cara chamado Eugênio Soares tocava guitarra. A título de curiosidade, o Aldo Machado largou o rock depois que se converteu ao cristianismo. Coerente, porque, afinal, quem é o pai do rock?

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Música, Republicados

Nos tempos da brilhantina*

Não foi exatamente um retorno aos tempos da brilhantina, mas foi quase como. O primeiro elepê de roque que eu ouvi na vida, e enlouqueci (Raulzito é outra conta), chama-se Volume 4, e quem toca ali é: Toni Iommi, Terry Geezer Butler, Bill Ward e Ozzy Osbourne, ou, dito de outro modo: Black Sabbath. O Ozzy ficou por último propositadamente, porque é o mais pop deles e estampa a capa do disco. Isso aconteceu na minha vida antes mesmo dos Beatles (heresia, dirão talvez) e mais ou menos junto com o AC/DC, O Led Zeppelin e o Deep Purple. Eu ouvia esse negócio incansavelmente, com requintes de crueldade, porque botava as caixolas do meu Conjuntojunto Polyvox na janela, pra que todos que passassem  tomassem conhecimento que ali havia um roqueiro, ou melhor, um metaleiro, era assim que eu queria passar à história.

Bueno, digo tudo isso por que mesmo? É porque ontem, depois de décadas, sim décadas, voltei a curtir um rock pauleira (putz, essa veio do fundo falso da arca do noé). Trata-se da banda Bladde, cujo guitarrista, um dos dois, é o Daniel, primo da Patrícia. Então fomos lá pro segundo show. O primeiro, que não conseguimos ir, ocorreu, ironias da vida, na Casa do Gaúcho. O evento estava marcado para um lugar chamado La Bodeguita, onde a Patrícia esperava talvez encontrar um tango e eu uma rumba ou quem sabe uma cumbia uruguaia (beijo Flavinha e Julinho!). La Bodeguita poderia ser uma sinistra casa escura e cavernosa que abrigaria um show de Révi Metal? Sim, senhoras e senhores, é isso mesmo. Show da Banda Bladde, heavy metal na veia, em La Bodeguita.

Passamos de carro pelo local e a primeira impressão é que o show tinha sido transferido e o Daniel esqueceu de nos avisar, desconfiança amparada também no fato de eu ter tentado falar com ele pelo telemóvel a tarde toda, sem sucesso. Vamos conferir, foi a ideia. Chegamos na frente, um cartaz do show, com a data certa, mas a casa hermeticamente cerrada. E agora, quem poderá nos salvar? Talvez a Patrícia não queira que eu fale, mas ela pensou em desistir -faríamos o que, sertanejo universitário ou samba de raiz? – na dúvida, resolvemos esperar um pouquito. Nisso chega um casal mais ou menos como nós, seja lá o que isso quer dizer em se tratando da possível plateia de um show heavy, dá uma olhada, pensa um pouco, troca uma ou duas letrinhas e se vão lá pra dentro. Vamo nessa! Quando adentramos a casa, o aspecto funesto ficou mais evidente. E aí estava o casalzinho trovando o cara do bar pra assistir a passagem de som, tentativa negada. Fomos eles e nós lá pra frente e entabulamos um começo de conversa. Ele não curte rock pesado e a moça nem rock curte, porque ela olhou o cartaz e achou que eram umas quantas bandas, incluindo Pantera. Perguntei quem eles vieram prestigiar e o cara disse simplesmente: – o Iuri. – Em que banda ele toca? – Não faço a mínima ideia. Nessa altura já tinha uma rapazote ali na frente, que eu achei era da plateia, mas depois vim a descobrir tratar-se do crooner da Bladde. Logo em seguida saiu o Iuri, com um par de tampões pros ouvidos, o que poderia denunciar que nem ele aguenta o (volume do) som. Conversaram um pouco, ele e o colega de trabalho, soube isso no decorrer dos eventos, e descobri que ele toca na Bladde. Então, convite pra entrar, o show vai ter início, ele se foi, nós ficamos um pouquinho mais e… porta fechada. De novo! Talvez os caras do bar estivessem a fim de um show mais intimista, só pra convidados, champanhe no gelo, sei lá…

Poucos minutos, talvez sete ou oito, depois, abriu-se a porta da esperança e finalmente penetramos o local de forma definitiva. Quando chegamos perto do palco, a Patrícia quase me mata de susto: – Olha ali quem tá aqui, a Carmela! – Foi isso que eu ouvi. No breu da coisa toda, divisei uma moça lá dentro e não identifiquei. Por alguns segundos imaginei a minha cunhadinha querida numas de head banger. Deus não joga mas fiscaliza, não era a Carmela e sim a Gabriela, a queridíssima senhora Daniel Portella (porque dois eles não sei), que é a fã número zero da banda, sem dúvida (ou será que é só colheita de material de pesquisa pra Psicologia? – brincadeirinha, gente!). Naquele momento vi que havia me livrado do pesadelo de ter que ver o Roberto pedir uma versão aditivada de Luiza ou do Canto de Ossanha… A Gabi veio nos receber cheia de surpresa, que eu não sei porque, afinal eu fui metaleiro quando era jovem e a Patrícia conhece mais músicas do Metallica do que eu talvez jamais venha a conhecer a não ser pelas bocas e instrumentos da Bladde. A propósito, eu achava que conhecia duas, mas quando eles tocaram uma delas, que eu marquei na cabeça, deu zebra, porque era do Iron Maiden, ou seja, de Metallica eu não entendo patavinas!

Começa o show, pelo menos era o que eu achava, e eu faço um comentário negativo sobre o baterista, que atravessou toda a música, no mínimo uns três compassos atrasado (ou adiantado, dá na mesma). Na segunda música eu disse que ele já estava melhor. E na terceira já não era mais ele. Só fui entender que ele era o batera da outra banda e que eles estavam apenas descontraindo um pouco, já comendo um Boka Loka no Cavanha’s. Deus de novo, porque eu estava ficando decepcionado. O Daniel tinha me mostrado umas duas músicas num estúdio e eu tinha achado tri bom, como é que agora era esse samba do crioulo doido? Na hora, olhando pro palco, vi que não tinha caixas de retorno e e me ocorreu que o batera não estivesse ouvindo a banda. Mas depois tudo ficou claro e cristalino, tal qual o ambiente.

E a banda? Bueno, a banda… Duas guitarras, formação clássica, o Daniel numa delas, um pouco mais econômico e contido, o que é excelente, porque solos “infinita highway” já não me gustam mais, embora às vezes eles sejam necessários no formato e na proposta da banda (certa feita, Eric God Clapton disse que o amadurecimento fez com que os solos dele perdessem alguns quartos de hora); o outro guitarrista, equipado com uma pedaleira maior, embarcava mais nos solos, o que confere um equilíbrio bem legal pra banda, mesmo quando os dois solam juntos, num efeito típico do estilo. (Já vi o Iron Maiden com quatro guitarras e todo mundo solando junto!) O baixista, o Iuri, toca tri bem também, tem uma segurança de veterano e me lembrou, vejam só, justamente o Gezzer Butler. O baterista, Flávio, se não me traem os recuerdos, é o que tem que ser: bate forte e pesado. Muito bom! Uma observação um pouco mais apurada cabe sobre o vocalista. Achei o timbre bem parecido com o Bruce Dickinson, o que faz com que os Iron Maiden saiam quase perfeitos. Pros Metallicas também fica muito bom. Quando eles tocaram Heaven and Hell, me pareceu que ele ficou um pouquinho acima do tom, mas isso não prejudicou a interpretação. Como ele é um piá (isso não é nenhuma ofensa, pelo contrário, apenas a constatação que ele é bem mais novo que este escriba), certamente vai evoluir muito, mas já é muito bom, inclusive na performance de palco.

Bueno, gente, era o que tínhamos para o momento. Dado o avançado da hora, deixo assim as côsa tudo. Só pra fazer um desfecho, se eu fosse o Veloso, diria que foi lindo, mas como o meu negócio é com outro baiano, prefiro dizer: FOI DUCARALHO! Obrigado pela noite, gurizada!

Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 8/2/2013.

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Cultura, História, Música, Republicados

Podem sacudir as joias*

Hoje é Dia Mundial do Rock e me deu vontade escrever alguma coisa sobre isso. Pensei em falar sobre a história do rock, desde os spirituals, no século XIX, mas desisti porque tem gente muito mais habilitada pra isso. Mas, pensando bem, se for assim não falo mais de nada, porque sempre vai ter (muita) gente mais habilitada que eu pra falar sobre qualquer assunto. Mas falar o quê?

Já quase desistindo da ideia, meio que por falta de assunto, meio que por falta de paciência, eis que lembrei de um programa que eu ouvia antigamente pra manter o nível de irritação elevado, quando os caras largam a maravilhosa balada Angie, dos Stones, a fim de homenagear o dia do rock. Aí um “intelectual” do Continente de São Pedro larga algumas pérolas como estas: “Essa sim é a maior banda de rock de todos os tempos. O rock maldito, transgressor, nada daqueles engravatadinhos bem comportados dos Beatles. O Stones são o Raul Seixas e os Beatles são a Cely Campello.” Quando um cara que tem doutorado na Sorbonne – é o caso do sujeito em questão – dispara uma metralhadora de balas molhadas assim, de manhã cedo, sem cuspe, é que a gente vê o que a Academia pode fazer com determinadas áreas não exercitadas do cérebro humano. Aliás, o próprio Raulzito já provou isso, quando passou em dois vestibulares no mesmo ano só pra poder dizer pro sogro caretão: “Viu como é fácil ser burro?” Eu ainda tenho esperança que o cara esse tenha dito essas bobagens só pra honrar a trajetória polemista e manter a fama de mau. Se bem que… um sujeito que trabalha na rede do pastor não deve ser tão malvado assim…

Pra começo de conversa, se o Dr… tivesse uma pequena noção do assunto que estava abordando, saberia que o Raul tinha os Beatles como uma grande influência, ao lado do Elvis e do Chuck Berry (vejam a versão que ele fez de “Lucy in the sky with diamonds” no “Raulzito e os Panteras”) e que ele pouco ou nunca na vida falou nos Stones. Acho até que gostava dos RS, é bem provável, mas tem uma outra frase dele que ficou famosa e que diz assim: “os Beatles me deram a porrada”, referindo-se ao fato de ter aprendido com os Beatles como fazer as coisas no estúdio (lembro que o Raul produziu e compôs pra muita gente nos 70’s – Jerry Adriani e Leno e Lílian, por exemplo). Ou seja, ele era fã declarado dos Beatles, mas se curtia os Stones, não compartilhava…

Os Stones são uma puta banda de rock, sem dúvida nenhuma uma das melhores. O Keith Richards é provavelmente o maior criador de riffs da história da guitarra elétrica. O Mick Jagger canta muito e tem uma performance de palco única e espetacular. Os caras fizeram desde rocks incendiários, como Satisfaction, até baladas lindíssimas, como a já citada Angie. Quebraram tudo, muitas vezes literalmente, em shows antológicos. Estão na estrada há meio século, o que não é pouco, mesmo que seja só por $$$, como dizem as (nem tão) más línguas. Tudo isso e muito mais é verdade.  Mas e os Beatles? Os Beatles? Bom, os Beatles, eles…

MUDARAM O MUNDO!

Sim senhores, daqui a 1.000 anos alguém falará em Bach, Beethoven e Mozart, em John Coltrane, em Jimi Hendrix, em mais um que outro, e falará, ou melhor, ouvirá muito Ringo/John/George/Paul. Talvez alguém esteja se perguntando de onde eu tiro isso, se as musiquinhas não são mais do que um iê-iê-iê gostosinho (vão tirar satisfações da notável escritora Martha Medeiros, porque foi ela que disse isso há alguns anos), se as letras só contam historinhas de amor, se o Ringo nem toca muito bem (santa ignorância, batimão), enfim, se eles nunca fizeram um rock sujo, visceral, transgressor como os Stones? Essas atrocidades são ouvidas por aí, podem acreditar, e de “gente grande”.

Nos anos 60, a indústria fonográfica estava a milhão. As gravadoras tinham um esquema bem definido. Tinham funcionários responsáveis pelos diversos setores de criação de um disco. Havia os músicos de estúdio (ah, os baixistas da Motown…), os compositores, os letristas, os arranjadores, o artista que fazia as capas etc. Quando os executivos encontravam um talento, enquadravam o cara e trabalhavam no sucesso. Imaginem, então, o que passou pelas cabeças dos donos das gravadoras quando eles viram chegar um grupo de piás, dizendo que eles mesmos iam fazer as suas músicas, letras, melodias, harmonias, arranjos; eles mesmos iam tocar os seus instrumentos, cantar, enfim, eles iam ser uma banda, no melhor sentido do termo. O troço era tão louco que a Decca dispensou os Fab Four!

Bom, só a provocação dessa mudança no padrão já seria suficiente para deixar os Beatles eternamente no Olimpo do rock. Mas eles fizeram muito mais. Eles lançaram um Rubber Soul em 65, que mudou tudo e ainda dá uns nozinhos na cabeça de muito entendido por aí. Em 66, eles lançaram o Revolver e se retiraram do palco, outra coisa que ninguém pensaria em fazer. Aliás, nem hoje em dia uma banda abre mão de sair em turnê pra lançar um disco, ou, como o disco parece estar com os dias contados (será?), pra divulgar a própria banda. É preciso ter muita bala na agulha pra fazer isso. A partir daí veio toda a história da psicodelia, das letras nonsense, da capa do Sargent Peppers , do próprio Sargent Peppers, dos orientalismos Georgianos, da capa do Abbey Road (mas afinal, o Paul morreu mesmo?), do Phil Spector e sua Wall of Sound produzindo o Let it Be, e por aí afora.

Sobre a falta de um comportamento mais radical, o que pode ser mais transgressor que um cara encarar a realeza britânica num teatro e dizer mais ou menos assim: “O pessoal desses lugares mais baratos pode aplaudir, os demais podem apenas sacudir as joias.” E que tal fazer um concerto de despedida sem avisar ninguém, no terraço da gravadora? Transgressão musical? Botem lá no google: tomorrow never knows e depois me contem o que os caras dos 60’s (não) entenderam.

Bah, eu podia escrever um livro explicando os motivos por que eu digo e redigo que os Beatles são definitivamente os caras. Então vou só reafirmar a ideia que expressei antes: Rolling Stones é uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, e merecem todas as homenagens no Dia do Rock, mas OS BEATLES MUDARAM O MUNDO.

Ah, e pra quem acha que acha que o Ringo toca pouco, abram um pouquinho mais as orelhinhas e escutem com alguma atenção a batida de Come Togheter ou de Helter Skelter. Se continuarem com essa opinião, podem continuar achando o Neil Peart o melhor do mundo…

Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 13/7/2012.

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Arte, Cultura, Filmes, Música, Raul Seixas, Republicados

O diabo é pai do rock*

Na última quinta-feira, enquanto no Rio de Janeiro o Inter reescrevia a crônica de uma morte anunciada, eu, que já li esse livro outras vezes, fui com a Patrícia ao cinema ver o filme do Raul.

A minha relação com o Maluco Beleza começa lá no final dos anos 70, começo dos 80, quando a minha mãe me falou de duas músicas dele que ela adorava: “Eu nasci há dez mil anos atrás” e “O dia em que a terra parou”. Aí eu pedi pra ela comprar um disco dele pra mim e enlouqueci. Comecei a colecionar tudo o que se referia ao Raul, principalmente notícias e matérias de jornais e revistas. Só que eu conhecia bem poucas músicas, só aquelas do disco que eu tinha, porque naquela época não tinha outro jeito de escutar músicas que não fosse comprando os discos ou ficar esperando o dia inteiro pra que a rádio tocasse alguma. Isso era o que eu pensava, mas tinha outro jeito, sim. Descobri que indo na Pop Som ou na Discoteca, ali na Galeria Chaves, a gente podia ouvir os discos com os fones que eles botavam nos toca-discos. Claro que os caras não gostavam muito quando a gente ia lá ouvir e não comprava nada, mas como eu pego amizade fácil, virei camaradinha (eu era um piá!) dos caras e eles me deixavam ouvir. Mas não muito tempo. Quando eu comecei a trabalhar, a coisa ficou melhor, porque eu pude começar a comprar os discos. Comprava um a cada mês mais ou menos. E como era a época das fitas K7 (as melhores eram TDK de chromo, caras pra caramba), eu descobri uma espécie de negócio. Ficava ouvindo os programas das madrugadas da Ipanema, que na época ainda não era Ipanema, que tocavam umas coisas meio raras pra época, como um show do Jethro Tull ou um pirata dos Beatles, muito mal gravado, por sinal. Então eu gravava isso nas fitas, no nosso (meu e do meu irmão – mais dele do que meu) Conjunto Junto Polyvox, que tinha controle do nível de gravação nos dois canais e possibilitava fazer fade outs quando a fita estava acabando antes da música terminar, e trocava por discos com os caras das lojas, na Free Som ou na Flora Discos, ali debaixo do Viaduto da Borges. Assim eu consegui montar uma razoável discoteca, que incluía, é claro, os discos do Raul, até umas raridades, como o Raulzito e os Panteras, ou o 20 anos de rock.

Falei isso tudo pra dizer que não esperava encontrar nenhuma coisa que eu já não soubesse no filme. E de fato não encontrei, mas mesmo assim o filme é ducaralho*. Não vou fazer muitos comentários, porque acho que todo mundo deve ir ver pra entender o que é um verdadeiro artista, ou melhor, pra usar uma figura mais adequada, o que é um verdadeiro rocker. Principalmente diante de tanto pastelão que a gente vê por aí hoje em dia. Apenas acho que o Caetano Veloso aparece demais. (A propósito, aparecer é o que ele mais gosta…) A relação dele com o Raul foi muito conturbada. Assim como foi com o Gilberto Gil, com o Belchior e com outros ícones da MPB. “Acredite que eu não tenho nada a ver com a linha evolutiva da música popular brasileira…”

Vão ver o filme. É obrigatório!

*O Caetano fala no filme de um dia em que ele foi no camarim depois de show do Raul com o Marcelo Nova. Ele chegou lá, abraçou os dois e disse o clássico “foi lindo”. Sobre isso, uma vez o Marcelo Nova disse que assim que o Caê (!) saiu, o Raul falou pra ele: “se esse merda entendesse o espírito da coisa, ia entrar aqui e dizer que o show foi ducaralho, mas pra ele foi lindo.” Esse era o Raulzito!

Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 14/5/2012.

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