Cinema, Literatura, Republicados

Quando nem o vento ajuda o tempo a passar*

Bueno, cumprindo um dever cívico, afinal somos soldados da Pátria Gaúcha, fomos assistir já na estreia o “Tempo e o Vento”, na sua segunda versão global. Começo dizendo que o filme é muito ruim, o que, no final das contas, acaba sendo muito bom, porque eu esperava um filme horrível. Mas se bamo adelante.

O Thiago Lacerda deu boa vida ao Capitão e a própria filha da Glória, cuja atuação era a que mais me metia medo, está razoavelmente bem, considerando o portfólio da moça, claro. O Zé Adão Barbosa emprestou um pouco do seu talento teatral e acabou construindo um Padre Lara convincente. E acabam por aí as coisas boas da película.

O roteiro é de uma pobreza franciscana, embora tenha sido feito pelo Tabajara Ruas. Talvez ele tenha dado muita liberdade à Letícia “Casa das 7 Mulheres “ Wierzchowski, não sei… A narrativa é lenta e truncada, em função da infeliz ideia de inventar uma Bibiana narrando suas memórias e aparecendo muito mais do que deveria – nem o talento da Fernanda Montenegro salvou. Nas primeiras cenas, quando tu pensa que a coisa vai engrenar, eis que há um corte para a anciã abraçada no seu capitão, que voltou do mesmo jeito que partiu a fim de buscá-la para a vida eterna. Prato cheio para as lágrimas dos adoradores de clichês cinematográficos. Chega a dar sono em alguns momentos. Meio ponto positivo na nota final é o fato de não terem tentando empurrar um sotaque estereotipado goela abaixo, o que faz com que a sonoridade do filme não provoque arrepios, mas, de qualquer maneira, mostrar uma mulher que mora num descampado em meio ao nada, na fronteira com o lugar nenhum, em pleno século 18, dizendo pra filha que não precisa contar logo ao pai que está “grávida” é de fazer chorar bacalhau em porta de venda. Fosse o homem, poderia dizer que ela estava prenha, e a mãe, na melhor das hipóteses, diria que ela estava “esperando”. Agora, gravidez na pampa gaúcha dos 1.700’s é dose pra leão!

As cenas finais mostram que o diretor, se leu o livro, não entendeu patavinas. E aqui novamente eu estranho que o Tabajara não tenha alertado para isto, mas quem sabe a liberdade que a rede bobo deu pra ele? Talvez o filme tenha que ter uma segunda parte e aí tenha ficado o gancho, sei lá. Acontece que botaram o Rodrigo (bisneto), num diálogo sem pé nem cabeça com a dona Bibiana, como uma espécie de reencarnação do Capitão. Tanto que só ele é capaz de enxergar o casal quando este se despede rumo ao infinito, ela já devidamente transfigurada na Bibiana guria, que apaixonou o soldado desde a primeira vez (aliás, atuação bem fraquinha da Marjorie Estiano). Se houvesse um pouco de atenção e respeito ao que pensou o Erico, saberiam que o futuro Doutor Rodrigo Cambará herdou de fato algumas características importantes do bisavô, mas o amor desmedido e até irracional pela guerra, destacado na participação do piá, ficou quase todo com o seu irmão Toríbio. Este sim não pagava imposto pra uma peleia e tinha a impetuosidade e o espírito selvagem do Capitão. O Rodrigo do retrato, como eu disse, tinha sim algo do Rodrigo do continente, mas era alguém muito mais cerebral, coisa que aparece de alguma forma muito mais nas mulheres da família e que fica bem clara, no livro, por exemplo, na maneira como o sobrado volta às mãos dos Terra-Cambará e nas relações que se podem estabelecer entre essa manobra e as articulações políticas do novo chefe da família, já no Estado Novo. Só que se a ideia for fazer uma parte 2, teria que ter muito talento, inteligência, ousadia e coragem pra fazer um filme sobre o filho mais velho do Licurgo. E essas qualidades, convenhamos, não são o forte do filho da Maysa, né?!

Depois do filme, a Patrícia observou que é uma característica do diretor compor belas fotografias, lindos cenários etc. Isso, pra mim, só contribui pra tornar o filme um melodramão* (sono)lento, chato, cheio de clichês românticos e bucólicos, que nada acrescenta a quem leu o livro e que pode ser muito prejudicial para quem não leu.

Enfim, como dizer para que não vão ver o filme? Sei lá, se conseguirem resistir talvez seja melhor. Mas se quiserem ir, nem que seja por curiosidade, escolham um dia de promoção de ingresso…

* Se procurarem aqui no blog por um texto sobre o asnaldo jabolor (http://wp.me/p3vLD3-B), verão que essa ideia de melodramão agrada muito à turma do plim-plim.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 21/9/2013.

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Ideologia, Imprensa, Mídia

Cidadania não é censura*

Na página 12 da zero hora de 15/07 está o editorial, intitulado por uma pergunta: “Democratização da mídia?” Atenção especial merece o aspecto semântico e o conteúdo subliminar deste aparentemente inofensivo ponto de interrogação, adicionado a algo que de certa forma anda funcionando como palavra de ordem de grupos bem articulados e verdadeiramente preocupados em mudar para melhor o país.  A partir do momento em que se transforma algo afirmativo em uma interrogação, naturalmente se está relativizando a importância e o conteúdo das palavras. Se fosse acrescentado um “será?” ao final, o sentido não se alteraria, pelo contrário, ficaria mais explícito (Democratização da mídia? Será?). Acontece que clarear as coisas, principalmente as intenções, não é o forte desse tipo de mídia.

A democracia é sempre uma obra inacabada. Até por isso tem que ser protegida da ação de pessoas comprometidas com ideologias autoritárias, que se fingem de vanguardistas para sufocar a liberdade de expressão.”

Pergunta 1: quem são as pessoas comprometidas com ideologias autoritárias, que se fingem de vanguardistas e ameaçam a democracia?

A resposta vem logo:

“Embora não seja uma demanda do país, mas sim de grupos minoritários movidos por ideologias fundamentadas no radicalismo, a chamada “democratização da mídia” tem aparecido secundariamente na pauta das manifestações que mobilizaram os brasileiros nas últimas semanas. Por conta de palavras de ordem plantadas por pseudolideranças avessas ao pluralismo de ideias e opiniões, alguns profissionais e veículos de comunicação, mais especialmente aqueles que têm liderança de mercado, têm sido inclusive hostilizados por manifestantes mais exaltados. Já se registraram em diferentes regiões do país casos de jornalistas agredidos, veículos incendiados e instalações vandalizadas _ atos que certamente não recomendam o modelo de “democratização” desejado pelos defensores da campanha.”

Aí vem todo aquele papo cansativo sobre liberdade de expressão – que certamente era a tônica no regime político que pariu a globo e suas sucursais – jornalismo responsável (hein?), e tudo mais, ou seja, aquele discurso pseudo-libertário, que comove os corações e trabalha as mentes dos leitores desavisados e, por que não dizer, daqueles que têm preguiça de procurar informação fora da mídia corporativa. Apresenta também números, querendo mostrar com eles que a distribuição dos espaços midiáticos e jornalísticos no Brasil é equilibrada e que não são poucos os grupos – ou famílias – que detêm o monopólio da imprensa. De tão ridículos, esses argumentos chegam a ser pueris e sequer é necessário muito aprofundamento para combatê-los, o que seria perda de tempo neste momento.

A questão aqui é outra: é preciso saber o que está por trás desse discurso, que mistura, como sempre, manipulação da informação, distorção dos fatos, acrescentada aqui de um visível temor por conta do que vem se tornando uma discussão séria no país, isto é, o controle social da mídia. É possível encontrar bons caminhos para uma resposta no artigo de Ranaud Lambert, publicado na edição de número 65 (12/2012) do Le Monde Diplomatique Brasil, sugestivamente intitulado “Abalos em uma passagem dominada por grupos privados – Na América Latina, governos enfrentam os barões da mídia”. O autor lembra que “Alguns meses antes de deixar o Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou um projeto de lei destinado a regular os meios de comunicação no Brasil. O texto propunha medidas de regulamentação de conteúdo, como a proibição da apologia ao racismo e à discriminação sexual, mas também de redução da concentração da propriedade no âmbito da comunicação, em um país onde catorze famílias possuem 90% desse mercado.” (Grifo meu.) A julgar pelo que reza o editorial do tabloide ora discutido, o jornalista que assina este artigo está mentindo, ou então há que se considerar essas quatorze famílias como representantes legítimas de todo o pluralismo jornalístico brasileiro. Não creio que um jornalista fosse escrever mentiras num órgão conceituado, como é o Le Monde, e muito menos que este órgão aceitaria publicar conteúdo inverídico. Também não acho que num país de 200 milhões de habitantes o número 14, por mais numerosas e ramificadas que possam ser essas famílias, seja muito expressivo.

Claro que Os meios privados protestaram contra um dispositivo considerado “autoritário” e suscetível a colocar a informação “sob controle político”.” E iam deixar barato? A consequência é que “Em janeiro de 2011, o projeto já estava enterrado. Mas Lula não deixou de ressaltar a questão que há anos ronda os governos da região: a liberdade de expressão pode existir sem um marco regulatório e decisões políticas que a afiancem?” 

E aí surge a pergunta 2: quem tem medo desse marco regulatório?

Quem responde, não por psicografia, é o finado Dr. Roberto Civita e a Dra. Judith Brito: “Há uma relação de interdependência indissolúvel entre democracia, meios de comunicação e livre mercado”, pondera Roberto Civita, diretor da revista Veja, a mais lida da América Latina (27 jun. 2012). Em resumo, defender a liberdade de expressão seria proteger a liberdade das empresas, a começar pela liberdade das empresas de comunicação. Mas o que aconteceria se o programa de governo que conduz um dirigente político ao cargo almejado ameaça os interesses do setor privado ou dos proprietários de meios de comunicação? Desde a chegada ao poder de dirigentes decididos a (tentar) virar a página do neoliberalismo e com o enfraquecimento dos partidos que tradicionalmente defendem as elites, os meios de comunicação latino-americanos parecem ter adotado uma missão que Judith Brito, diretora do jornal conservador Folha de S.Paulo, define nestes termos: “Já que a oposição está profundamente fragilizada, são os meios que, de fato, estão desempenhando esse papel” (O Globo, 18 mar. 2010). Com, às vezes, pouca criatividade.”

Pergunta 3: como se pode falar em imprensa livre quando a diretora de um dos maiores jornais do país diz abertamente que à imprensa cabe o papel de fazer uma oposição ao governo, porque, segundo ela, essa está muito enfraquecida?

A relação entre política e imprensa (leia-se mídia corporativa) fica escancarada pela informação trazida pelo autor, assim como desmontada resta a ideia da não existência de um monopólio nos meios de comunicação, defendida pela rbs: “No Brasil, onde os barões da mídia ocupam uma cadeira em cada dez na Câmara dos Deputados e uma em cada três no Senado, o grupo Globo detinha, em 2006, “61,5% dos canais de televisão” e “40,7% da difusão total dos jornais”. Com mais de 120 canais no mundo, a rede de televisão do magnata Roberto Marinho (cujo falecimento fez Lula decretar três dias de luto nacional em 2003) chega a mais de 120 milhões de pessoas por dia.”

O artigo traz ainda uma síntese da situação na América Latina, que pode ser melhor entendida a partir da compreensão da peleia do governo argentino com o grupo clarín, a globo dos hermanos. (Sobre isso, a propósito, cabe mais uma vez o alerta para que não nos deixemos cair na teia armada pela mídia podre. Procuremos os canais realmente interessados em informar, que estão invariavelmente na mídia alternativa.) Mais importante, contudo, é o alerta dado aos grupos que pretendem lutar por essa regulamentação e, consequentemente, pela efetiva democratização dos meios de comunicação, uma utilização e exploração verdadeiramente equilibrada dos espaços, e não essa ficção que o grupo da família (sempre uma família – máfia?…) sirotsky quer empurrar a fórceps:

“Esses esforços, contudo, ainda não deram os resultados esperados. Primeiro, em termos de pluralismo, porque esses novos organismos de imprensa [mídia alternativa] às vezes não resistem à tentação de compensar os desvios dos meios privados reproduzindo alguns deles de forma especular. Ken Knabb, pesquisador norte-americano desse fenômeno, observa que os militantes de esquerda “pensam, geralmente, que é preciso muita simplificação, exageração e repetição para contrabalancear a propaganda que sustenta a ordem dominante. Analogicamente, isso quer dizer que um boxeador zonzo porque tomou um gancho de direita recuperaria o equilíbrio graças a outro soco, de esquerda. 

Em segundo lugar, em termos de audiência. Um estudo recente do Centre for Economic Policy Research (CEPR) mostra que, entre janeiro de 2000 e setembro de 2010, a audiência dos canais públicos venezuelanos passou de 2,04% para 5,4%. Audaciosa, a reforma da Lei Geral dos Bancos de 2010 – inspirada em uma disposição similar da Constituição equatoriana de 2008 que proíbe os acionários de entidades financeiras de possuir meios de comunicação – sem dúvida não será suficiente para corrigir uma situação como essa.

Por outro lado, “já que supostamente nossa sociedade avança em direção ao socialismo”, questiona-se Aharonian, a Venezuela não deveria acabar com a atribuição de frequências e licenças de exploração do espectro eletromagnético aos interesses privados? “Não deveríamos imaginar, em vez disso, um único e grande espaço público […] regulamentado de forma a garantir sua utilização democrática?”

O artigo completo pode ser acessado em http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1309.

Bueno, como sempre há argumento pra tudo, alguém poderá dizer que o artigo é velho, ainda que tenha pouco mais de seis meses. Vejamos, então, o que se disse no último dia 16 (ontem!), durante a “Conferência Nacional  2003-2013: uma nova política externa”. O ex-Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (2009-10) e ex-Secretário- Geral do Itamaraty (2003-09), Samuel Pinheiro Guimarães, foi direto ao olho do furacão: “Democratização da mídia é prioritária para a defesa dasoberania.”, para depois explicar: “O controle dos meios de comunicação é essencial para o domínio da classe hegemônica mundial. Como esses meios são formuladores ideológicos, servem para a elaboração de conceitos, para levar sua posição e visão de mundo. Daí a razão da democratização da mídia ser uma questão prioritária”

Indo além, mais uma vez as palavras do diplomata contradizem absolutamente o editorial de zh: “O embaixador também condenou o fato de que um mesmo grupo possa deter emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas – a chamada propriedade cruzada. Conforme Samuel, esta concentração acaba concedendo um poder completamente desmedido para alguns poucos divulgarem as suas opiniões como verdade absoluta. “Quando estados como a Argentina, o Equador e a Venezuela aprovam leis para democratizar a comunicação, a mídia responde com uma campanha extraordinária, como se isso fosse censura à imprensa”, lembrou.”

E aqui se toca num ponto nevrálgico: censura. Como disse o palestrante, a primeira argumentação de que lança mão a mídia corporativa quando se fala em controle social, é que se estará reativando a odiosa censura. Censura é uma palavra pesada. Quem viveu os anos de chumbo sabe bem do que se trata, e as novas gerações recebem, em geral, informações muito negativas, com razão, sobre a tal censura. E quando a palavra é associada à imprensa a coisa toma ares de tragédia. Lembram da grita geral quando da criação do Conselho Estadual de Comunicação Social no Rio Grande? Aqui mesmo já falei sobre o tema: https://oximarraoalucinogeno.wordpress.com/2012/08/14/conselho-de-comunicacao/  .

Pois um sistema que possibilite à sociedade – que se frise isto: à sociedade – exercer o controle sobre aquilo que circula nos meios de comunicação só pode ser considerado censura na visão dos grandes grupos, que certamente têm muito a perder com isso. Afinal, a quem se destina a comunicação social? Se a resposta é à sociedade, como o nome permite antever, não se sustenta o argumento da censura.

Nas palavras do palestrante, um conteúdo absolutamente em voga: Em função dos interesses da classe dominante, alertou o embaixador, a mídia hegemônica pode, sem qualquer conexão com a realidade, “demonstrar que um regime político da maioria é uma ditadura e realizar campanhas sistemáticas que permitam uma intervenção externa, com o argumento que determinado governo oprime os direitos humanos”. “Podem inclusive se aproveitar de manifestações pacíficas para infiltrar agentes provocadores que estimulem o confronto”, alertou.” Mas não é a descrição do quadro visto hoje no Brasil?

Acesso ao texto completo: http://www.cut.org.br/destaques/23490/samuel-pinheiro-guimaraes-democratizacao-da-midia-e-prioritaria-para-a-defesa-da-soberania.

Poderia trazer toneladas de escritos que mostram a importância fundamental de que se estabeleça uma política de controle da mídia no Brasil, mas não julgo necessário. Com o que se apresentou aqui já é possível, creio, estabelecer o contraponto entre os interesses e  as artimanhas da mídia corporativa, muito bem exemplificados no editorial de zh que abriu o texto, e o interesse social, que não pode mais esperar pela democratização da mídia. Não se trata de censura, apenas de cidadania.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 17/7/2013.

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Mídia, Republicados

Outros carnavais…*

Na última quarta-feira,Imagem participamos de um debate, promovido pelo Museu de Comunicação Social, sobre a relação do humor com a tragédia, tendo como ponto de partida o incêndio da boate Kiss. Na mesa, comandada pelo Augusto Bier, diretor do Museu, só havia gente grande: da esquerda para a direita: Eugênio Neves, Edgar Vasques, o próprio Bier, Máucio e Leandro Bierhals. Além da plateia, reduzida, mas interessada, houve a participação em muitos momentos do ex-jornalista (ex segundo ele próprio) e escritor Rafael Guimaraens, que já escreveu belos livros sobre coisas de Porto Alegre.

O debate teve momentos comoventes, como os relatos do Máucio, que é professor da UFSM e mora em Santa Maria, além das palavras do Bier, no vídeo anexo.

VÍDEO INDISPONÍVEL

Foram analisados vários aspectos dessa relação que os profissionais do humor têm com eventos trágicos, aos quais deve ser dado naturalmente um tratamento todo especial. Foram mostradas em telão algumas charges, a maioria muito bem feita e com grande sensibilidade. A do Marco Aurélio, que ficou famosa por, entre outras coisas, ter como consequência uma geladeira dele na zh*, foi bastante discutida, e, porque não dizer, demolida.

CHARGE KISS MARCO AURÉLIO

Outra charge bem interessante apresentada é uma feita pelo Chico Caruso, que liga a Dilma à tragédia, de forma negativa, obviamente, afinal não se poderia esperar outra coisa de um destacado “colaborador” das organizações globo e cia.

CHARGE KISS CHICO CARUSO

Por vezes o debate fugiu um pouco aos limites impostos pelo tema e passou a analisar a atuação da mídia de forma mais ampla. Num dos melhores momentos, o Eugênio Neves fez relatos interessantíssimos do tempo em que trabalhou na zh, de onde saiu por não concordar com os mandalhetes representantes do ideário da alta cúpula. E é esse o gancho que eu quero pegar pra abordar o assunto de agora.

A zh nasceu apadrinhada pela repressão, acho que isso não é segredo pra ninguém. E se manteve nos 21 anos do regime extremamente afinada com as ideias da milicada, que, por sua vez, estavam afinadíssimas com as ideias de outros grupos econômicos e sociais. Dizer que a globo e seu séquito sustentou a ditadura ou vice-versa é como desenhar uma cobra mordendo o próprio rabo, porque elas foram e são, no fundo, engrenagens de uma máquina montada para atender interesses de certas elites que, por incrível que pareça, ainda se mantêm no domínio, justamente por intermédio da mídia corporativa, encabeçada pela globo, veja, folha de são Paulo e afins.

Eu quero, neste texto, dar uma pequena mostra de como funciona a manipulação feita pela grande mídia, que forma uma “ideologia” canhestra na cabeça das pessoas que têm preguiça de pensar ou que, por qualquer motivo, não têm acesso a canais de informação mais qualificados.

Na capa da zh de domingo, aparece em destaque a seguinte manchete:

Quem dá mais

Médicos ganham até R$ 32 mil no interior

Pra garantir permanência de profissionais, municípios pagam até o dobro do salário dos prefeitos.

Muito bem, um dos assuntos da última semana foi a iniciativa do governo central de chamar médicos estrangeiros para trabalhar nos locais em que os brasileiros não querem ir. Estão incluídos médicos portugueses, espanhóis e… cubanos. Bueno, aí é que a porca torce o rabo. Como assim, médicos cubanos? O que essa louca da Dilma está querendo? Encher o país de comunistas e reacender as chamas da Revolução? Pois é, e daí decorre um discurso violento contra a medida, que inclui os Conselhos de Medicina, falando do absurdo disso, que os cubanos não têm competência, que é preciso qualificar o serviço com os profissionais brasileiros etc., etc. e tal. Ok, mas só os cubanos são incompetentes? Quem sabe a gente dá uma olhadinha no outro lado da coisa, pelas palavras de quem entende do assunto:

http://www.sul21.com.br/jornal/2013/05/a-questao-da-vinda-dos-medicos-cubanos-para-o-brasil/

Talvez alguém esteja se perguntando qual o problema com a manchete da zh. Simples. Um dos argumentos para a importação desses profissionais é que os médicos brasileiros não têm interesse em trabalhar em alguns locais, seja pelo difícil acesso, pela distância dos grandes centros ou pelos baixos salários oferecidos. Ocorre que o cara que sai pra trabalhar todo o dia, sempre na correria, e não tem tempo de ler o jornal, ou, melhor, de se informar em outras fontes, passa pela banca e lê a tal manchete. Daí ele sai pensando mais ou menos assim: “Os caras pagam bem pros médicos, então por que essa mulher – a Dilma – quer trazer os comunistas?” E debate essa ideia com os colegas de escritório ou de repartição. E aí, como todos sabem, é o famoso telefone sem fio das brincadeiras de criança, a coisa virou um monstrengo. E a verdade? Bom, quem se interessa pela verdade? Mais uma vez a mídia corporativa – zh – cumpriu com extrema maestria o seu papel de distorcer os fatos, manipular a informação e formar uma opinião absolutamente limitada e míope no seu público. Ponto para os sirotsky.

Só que a coisa não para por aí. Eu tenho a mania de ler todo o jornal. E antes que alguém me pergunte por que eu leio a zh, se tenho tanto horror dela, digo simplesmente que se não lesse não poderia estar escrevendo este texto. Além do mais, não sou maniqueísta, e reconheço que até a zh tem algumas coisas boas, desde que os leitores não tenham preguiça de procurar. Então, lendo o miolo do jornal, chego lá na página de opinião (p. 16), onde de 15 em 15 dias escrevem o Marcos Rolim e o Percival Puggina. (Sobre este, chega a dar nojo…) Ali tem também as frases da semana, das quais a grande maioria é totalmente descontextualizada e trabalhada de acordo com os interesses editoriais, que, já vimos, são, no mínimo, questionáveis. Lá está a seguinte frase, da Marilena Chauí: “Eu odeio a classe média”. Frase forte. E num primeiro momento revoltante, certo? O engraçado é quem em todas as outras frases há uma pequena explicação que dá a ideia do contexto em que elas foram proferidas. Esta, porém, está lá solta no mundo.

Para quem não sabe, a Marilena Chauí é uma das grandes pensadoras do Brasil e do mundo, fundadora do Partido dos Trabalhadores, e tem a sua formação centrada no marxismo. Ah, bom, mas aí começa a ficar claro o que a editoria de zh fez. Acontece que o ódio que a Marilena devota à classe média não se refere à classe de trabalhadores, que sustentam o país, da qual ela é integrante convicta. Esse conceito de classe média é um conceito capitalista, criado para manter as coisas nos seus devidos lugares, de acordo com os interesses das elites dominantes. Sabem como é, aquela história de cada um no seu quadrado. É essa definição de classe média que ela pretende atingir por trás das suas palavras fortes e agressivas. E, sim, por consequência, também as pessoas que fazem parte deliberadamente desse grupo, que são usadas pelos sistema e que, por terem condições de andar de carro zero e mandar seus filhos pra Disney, acham que o país não tem problemas e que todo mundo tem os mesmos direitos a educação, trabalho, lazer e todo aquele blá, blá, blá irritante e repetitivo da desinformada (e/ou manipulada)… classe média. Vamos ver a coisa dita dentro do seu contexto:

Num livro muito bom, chamado “A máquina capitalista: como funciona – porque paga baixos salários – papel do intelectual na luta pelas mudanças – em exemplo: rbs”, escrito lá em 1988 (editora Vozes), o Pedrinho Guareschi, que, imagino, dispensa apresentações, e o Roberto Ramos, que é jornalista e professor, traçam um mapa do pensamento capitalista e do funcionamento da estrutura, usando, na segunda parte do livro, já que a primeira, a cargo do Pedrinho, é mais teórica, exemplos vividos pelo próprio Roberto, quando foi repórter da zh. Olha, gente…

No livro, fica clara a distinção entre as teorias de classe. Uma, a capitalista, que define as coisas pelo poder econômico, e assim cria a classe alta, a média – e suas subdivisões – e a baixa. Outra, alinhada com a ideia das relações de produção, estabelece que há somente duas classes, a dos detentores dos meios de produção e a dos trabalhadores. Ou seja, numa visão histórico-crítica, a classe média não existe, ela é uma criação da ideologia capitalista, com a intenção de acomodar as pessoas, afinal, quem atingiu o nível da classe média não tem do que reclamar…

Assim, amigos, vejam o que o trabalho minucioso da imprensa mau-caráter faz com a cabeça das pessoas. Aqueles que não se contentam em nadar na superfície, e porque buscam a raiz das coisas são muitas vezes chamados de radicais (radical vem de raiz), descobrem coisas interessantíssimas sobre essa forma de agir da mídia podre. Seria muito bom ter mais gente assim.

Para encerrar, relato três passagens do livro citado, tiradas da segunda parte, isto é, não são material teórico, mas sim experiências reais, protagonizadas por um dos autores:

“Na primeira semana de março [1987], corria uma ordem expressa emanada do editor-chefe, ex-porta-voz do governo Médici. Não podia sair nada contra o governador Pedro Simon. No Rio Grande do Sul não havia problemas. Sobrava dinheiro nos cofres públicos e os professores e os funcionários públicos estavam, integralmente, satisfeitos com os seus contracheques achatados.” (p. 102)

“A comunicação é, hoje, o grande poder. Alguns a chamam de quarto poder. Essa afirmação só não é totalmente verdade (não que a comunicação não seja um) porque, em vez de representar o quarto, significa o primeiro!” (p. 113)

“Se é a comunicação que constrói a realidade, que país é esse, onde essa comunicação, isto é, os meios de produção da comunicação, estão nas mãos de uma minoria reduzidíssima?” (p. 113)

Tiro três conclusões disso tudo:

1- a mídia corporativa (podre) manda no país;

2- a imprensa podre, que manda no país, é dominada pelos marinho e seus asseclas, a saber os sirotsky no Rio Grande; e

3- a canalhice da zh vem de outros carnavais…

*Adotarei o costume de usar letras minúsculas sempre que me referir à mídia corporativa.

Agradecimentos: Eliane Fay, que me emprestou o livro, e direção do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 20/5/2013.

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Cultura, Republicados, Televisão

Iconoclastia, que bicho é esse? – Ou: A hipocrisia da alta cultura nacional*

Houve um tempo, logo no início, lá no canal do Sílvio Santos, que o programa do Jô Soares era transmitido ao vivo. Depois, quando ele foi pra rede bobo, os caras, que não são burros, devem ter percebido que se mantivessem assim logo logo a “intelectualidade superior” do Gordo seria desmascarada. Editando o programa antes de ir ao ar fica mais fácil. A título de curiosidade, o funcionamento do programa hoje é mais ou menos assim: 1- a produção escolhe o entrevistado e o tema e submete ao Jô; 2- ele prepara as perguntas de acordo com o que permita que ele venda o cachorro da sua “grande” inteligência e cultura; 3- a produção envia o roteiro para o entrevistado, que, se aceitar, se compromete, informalmente, por óbvio, com o roteiro; 4- a entrevista é gravada e passa primeiro pela edição da produção e depois pela revisão do Jô, pra que fique bem determinado o que vai ou não ao ar.

Bueno, eu gostava dos personagens e dos programas humorísticos do Jô, embora o Chico sempre tenha sido muito mais inteligente. Quando o Gordo virou entrevistador, nos primeiros momentos tinha coisas legais, mas logo em seguida a coisa degringolou e eu passei a ver cada vez menos, culminando com o abandono total de hoje. A gota d’água foi uma entrevista que ele fez, já no plim-plim, com um “produtor cultural” que trazia ao Brasil um espetáculo de pigmeus. Já me invoquei com a natureza do show, que apresentava os pigmeus como uma coisa exótica, tipo atração de circo. A coisa toda girava toda em torno das danças e das músicas típicas deles, tidas como primitivas (Mãe, perdoa-os…). Pois o cretino do Gordo disse tanta bobagem, vomitando uma erudição que nem de almanaque pode ser chamada, que eu peguei nojo dele e do programa.

Sempre gostei de algumas coisas “esquisitas” na música e os sons africanos e orientais sempre me encantaram. Não conhecia quase nada da cultura dos pigmeus, mas já tinha lido, e só lido, porque na época não tinha internet, alguma coisa sobre a música dos povos africanos, asiáticos etc. E tinha bastante vontade de conhecer mais. O pouco que eu já sabia, porém, me permitiu reconhecer o festival de asneiras que o Gordo estava dizendo e a sacanagem do tal produtor, que queria só ganhar uma grana em cima da curiosidade que aquele grupo de SERES HUMANOS certamente despertaria nas audiências imbecilizadas pela grande mídia cultural, que em todos os tempos sempre impediu o acesso amplo, geral e irrestrito ao conhecimento, reservando este às castas superiores, por sua vez determinadas por interesses nada transparentes.

A partir desse episódio, comecei a questionar muito a “intelectualidade” do Jô e isso sempre provoca arrepios na “classe”, porque mexer com certos ídolos, como já falei outras vezes é muito arriscado. No mínimo tu vai ser chamado de invejoso, inculto, ignorante etc., etc., etc.

Eu quero retomar um assunto que já abordei por aqui, que é a maldita deusificação de certas figurinhas carimbadas da cultura nacional, tipo… o Gordo. É moeda corrente que o Jô Soares é praticamente um gênio (morou na Suíça, fala várias línguas, escreve, dirige teatro, toca trompete – há controvérsias – entende de vinhos etc. etc. etc.). Claro que ele tem seus méritos, e eu não quero contestá-los. Mas esses méritos estão longe de ser os que a maioria identifica. O problema é que pouca gente quer assumir o risco de falar mal de um cara desses. Mas quando alguém tem essa coragem… Vejam isto (está emhttp://e-proinfo.mec.gov.br/eproinfo/blog/preconceito/a-ideia-absurda-de-linguas-primitivas-i.html ): O linguista Sírio Possenti relata, por exemplo, numa de suas crônicas, um episódio ocorrido no programa de entrevistas de Jô Soares na televisão: Um dia desses, os entrevistados eram Martinho da Vila e o presidente de uma associação de magistrados. […] A conversa com Martinho ia bem, até que Jô perguntou sobre seu conhecimento de línguas africanas, já que de alguns dos discos de Martinho participam músicos angolanos cantando músicas nativas. Martinho disse o óbvio: que, tendo estado na África várias vezes, mesmo em temporadas curtas, aprendeu um pouco. Não conhece as línguas, mas se vira (e acrescentou que o mesmo ocorre com relação ao francês, o que mostra que ele é normal). Mas Jô o interrompeu para comentar que se pode aprender as línguas africanas, mesmo em pequenas temporadas, porque elas têm poucas palavras. E botou para funcionar suas leituras de almanaque. Informou que em suaíli as palavras querem dizer muitas coisas. E deu como exemplo certa palavra que pode ser empregada em várias situações. Decidi dormir, perdi a entrevista com o magistrado. Achei que não suportaria uma lição de direito constitucional do mesmo nível. Disse que Jô acionou suas leituras de almanaque, mas a coisa é mais grave do que isso: trata-se de grosseiro preconceito linguístico e cultural. Se a gente abre um dicionário […], a coisa mais interessante que se pode descobrir é que todas as palavras têm muitos sentidos, que todas as línguas são como o suaíli, ou o suaíli é como todas as línguas.”

Mas tem mais coisa. No livro “Raul Seixas por ele mesmo” (Coleção “O autor por ele mesmo”, editora Martin Claret), na página 171 (sugestivo, não?!) o Marcelo Nova responde assim a uma pergunta dentro do contexto de rebeldia rock’n’roll, aceitação na mídia, politicamente correto etc.: “Eu e o Raulzito estávamos absolutamente desiludidos com este país. Por exemplo, nós fomos fazer uma entrevista no Jô Soares Onze e Meia fui censurado pelo sr. Jô Soares porque citei nomes de pessoas da Rede Globo que queriam acabar com o Camisa de Vênus. Hoje o Camisa de Vênus é uma banda extinta [a entrevista é do começo dos anos 90], mas naquela época, a gente estava dando um ponta-pé na canela de um esquema que não estava habituado a levar sequer um beliscão. E a gente quem era? Cinco baianos que foram de ônibus da Viação São Geraldo para São Paulo e comiam sanduíche no almoço! Eu falei na entrevista que o Camisa de Vênus era um nome proibido, que foi proposta a mudança do nome da banda, que o sr. Heleno de Oliveira e o sr. João Araújo decidiram tirar o nosso disco de catálogo e nos mandaram embora, e o sr. Jô Soares me censurou. Essa parte não foi para a edição final. Então, eu pergunto: como é que um cara que faz esse papel de liberal vem me censurar? Este é um país assim, em que a pessoas posam de liberais, mas censuram.”

Então, como diria o Raulzito, falta cultura pra cuspir na estrutura.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 2/5/2013.

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Cultura, Filosofia, História, Religiões, Republicados

A cruz de Adolf – ou De como um símbolo sagrado virou sinônimo do mal nas mãos do Führer*

Em tempos de recriação da Arena e de bbb, lembrei de uma outra edição do programa em que o Marcelo Dourado participou (e ganhou). A saber, o Marcelo é conhecido da Patrícia, foi namorado de uma amiga dela de juventude e esfregou o Sagrado Manto Colorado na cara da globo quando ganhou o bbb. Uma das polêmicas em que ele se envolveu durante o programa (parece que foram muitas) diz respeito a uma suástica que ele tem tatuada. Parece que ele tentou explicar as coisas, mas não foi entendido.

Tempos atrás descobri um livro muito legal, que está referido ao final da transcrição, que continha esta passagem, e que talvez explique o que o Dourado não conseguiu:

“A VERDADE SOBRE A SUÁSTICA  

 

Esta cruz – falou Tsarong – é um dos mais antigos símbolos sagrados do Oriente. Os budistas chamam-na ‘Wan’. Nos templos tibetanos é comum encontrarmos este símbolo, gravado nos portais ou nas pedras. – Na Índia, também podem ver a Suástica sobre a cabeça da serpente Ananta, no Templo de Ouro, em Amritsar – falou Vessantara. Os brâmanes chamam a Suástica de Cruz Jaina. – Aliás, existem duas Suásticas – retrucou Tsarong. Uma positiva e outra negativa. Ambas são sagradas,  sendo que a positiva é usada pela magia branca e a negativa pela magia negra. – E qual a diferença entre ambas? – perguntei, sumamente interessada.

 

 

 

Apontando para o desenho que o velho estava traçando no chão, Tsarong disse: – Repare, aquela á positiva. Tem os braços dobrados no sentido dos movimentos dos ponteiros de um relógio. A negativa é o contrário. A positiva representa o contínuo movimento das fôrças do Cosmos. Simboliza a rotação da Terra nos eixos do mundo, porque as linhas que se cruzam significam o espírito e a matéria perfeitamente equilibrados. Aplicada ao homem, representa o elo entre este e a divindade, emblema de que o Criador está na humanidade e está no Criador, como as gôtas de água no oceano. – então Hitler usou a Suástica positiva? – indagou Pierre Julien. – Sim, meu amigo – retrucou Vessantara -, Hitler era um grande mago negro e sabia o poder da Suástica oriental. Por isso escolheu como símbolo a Suástica positiva, apenas inclinou-a a 45 graus, tornando-a um símbolo maléfica. Basta que você examine as fotos da guerra e compare-as com a Suástica positiva. O movimento dos braços é idêntico. Hitler degradou este poderoso símbolo e pereceu vítima da sua própria maldade. – Mas como conseguiu tornar a Suástica positiva maléfica, apenas com a inclinação de 45 graus? – perguntei perplexa.

 

 

Vessantara esboçou um leve sorriso e respondeu: – Bem… para explicar isto teremos que entrar no campo da Astrologia. Segundo os entendidos, a cruz positiva, colocada no círculo do Zodíaco sobre a influência dos planetas, está iluminada pelo Sol, que é o doador da vida, positivo, masculino e gerador da fôrça. Se esta mesma cruz for inclinada 45 graus, tal como fez o déspota alemão, sai da casa do Sol e entra na casa da Lua, que é feminina, negativa e criadora das forças maléficas.* – Mas o senhor tem certeza de que Hitler usou mesmo a cruz positiva? – perguntei um pouco incrédula. – Absoluta – respondeu Vessantara serenamente. –Êste foi um dos símbolos que mais estudei na Índia, e muito me surpreendeu observar a Cruz Jaina positiva como símbolo dos nazistas. Sei que alguns estudiosos ocidentais pensam que Hitler usou a Suástica negativa, mas estão errados. Nas inúmeras fotos publicadas nas revistas da época podemos constatar isto perfeitamente. O velho pastor terminou de desenhar a cruz suástica no chão e fez sinal para um môço alto e robusto, que estava à sua direita. O rapaz aproximou-se. Vestia uma túnica de sêda carmesim sobre umas calças fofas, que terminavam escondidas sob as longas botas de couro vermelho. Na cabeça, tinha um barrete de pele de castor. Sentando-se sobre a cruz, ele cruzou as pernas, pousou as mãos sobre os joelhos, cerrou os olhos e começou a cantar. Sua voz era clara e varonil. Subia através do ar dividindo brandamente as palavras da canção. Soubemos que era uma oração mística, cuja origem era impossível saber. Quando terminou de cantar, houve gritos e vivas de todos os presentes. Então, a uma ordem do chefe, começou uma farta distribuição de ‘cheng’, cerveja nepalesa feita de milho e servida em altos cilindros de bambu, chamados ‘paips’. Havia, também, vinho indiano, montanhas de bolos de mel e inúmeros outros quitutes estritamente vegetarianos. Mas não havia ordem. O povo avançava em tudo com verdadeira alegria. Muitos até lambuzavam as vestes e riam contentes. Após o banquete começaram as danças. Um grupo de moças e rapazes dançou em volta da grande fogueira. Cascatas de fitas coloridas flutuavam em seus capacetes dourados. Cada um trazia na mão uma flauta, que simulavam tocar. A música era exótica e harmoniosa. As môças usavam máscaras de deusas tutelares. Aliás, em quase todas as danças asiáticas, os dançarinos atuam mascarados. Isto porque acreditam que a máscara ajuda-os a elevarem-se da sua consciência do EU, libertarem-se de si mesmo a lcançar o êxtase divino. Cêrca de duas horas da manhã terminou a festa. Apesar do cansaço, nenhum de nós percebeu que o tempo passara tão depressa. E assim, regressamos ao palácio do Rajá, levando nos olhos a beleza agreste daquela festa bizarra aos pés dos montes Himalaia. Soubemos mais tarde, através das declarações do célebre astrólogo húngaro, Louis De Wolh – que foi Chefe do Escritório de Investigações Parapsicológicas de Londres e, logo, Capitão do Exército Britânico, graças à proteção de Lorde Halifax – que ‘Hitler se interessava profundamente pelas ciências ocultas e, em especial, pela Astrologia’. Apesar da Astrologia profissional ser proibida pelo governo alemão, soube-se que Hitler, extra-oficialmente e para uso próprio, mantinha uma plêiade de grandes astrólogos trabalhando para ele. Os demais astrólogos que vivam na Alemanha foram perseguidos e a maioria executada, pois as suas previsões astrológicas poderiam vir a prejudicar a propaganda política de Hitler. Conta Louis De Wolh que antes da II Grande guerra morou vários anos em Berlim  e lá fez amizade com Maximiliam Bauer, que era o astrólogo favorito de Gustav Stresseman, Ministro do Exterior da Alemanha. Através de Bauer, Louis De Wolh soube de várias coisas interessantes sobre o Fueher. Entre outras coisas, que ‘a sagrada cruz suástica dos antigos orientais foi escolhida por Hitler para símbolo do Nazismo, sob a influência de uma lama tibetano do Mosteiro de Tulung Tserpung, conhecido como um dos maiores redutos de magos negros do Tibet’. Soube também que em 1923, quando Hitler ainda era desconhecido do povo alemão, certa noite ao sair da famosa Cervejaria de Munique, onde se reunia com amigos para falar sobre política, Hitler encontrou-se com Aub, um velho mago muito conhecido em Munique como vidente. Em companhia de Aub estava um lama tibetano vestindo o hábito vernelho típico da sua seita. Aub conversou com Hitler por algum tempo e logo este segui-o à sua residência. Desde então, consta que Hitler foi iniciado nas ciências ocultas por Aub e o misterioso lama tibetano. Na primavera de 1940, Louis De Wolh publicou em Londres um estudo sobre o horóscopo de Hitler, no qual diz o seguinte: ‘A morte de Hitler será de natureza saturniana, ou seja, uma morte por envenenamento, ou prostração nervosa, ou quiçá se trate de uma morte misteriosa que nunca será esclarecida’. Mais tarde, num dos seus livros, intitulado ‘Astros, guerra e paz’, Louis De Wolh declara: ‘Após o trágico desaparecimento de Hitler – previsto por mim em 1940 – foi constatada a presença inexplicável de alguns lamas tibetanos da seita do chapéu vermelho nas cercanias de Berghof, o palácio montanhês de Hitler, na costa de Obersalzberg. Estes lamas foram presos, mas apesar de toda a vigilância das autoridades policiais, desapareceram misteriosamente da prisão e jamais foram encontrados’. É possível que este fato venha ao encontro das afirmações do astrólogo alemão Maximiliam Bauer de que Hitler, realmente, foi iniciado nas ciências ocultas por um lama tibetano do Mosteiro de Tulung Tserpung, situado perto de Lhasa.” (SING, Chiang. “Mistérios e magias do Tibet – Revelações do ocultismo tibetano, tal como foram observadas pessoalmente pela autora, a primeira mulher brasileira que êsteveentre os místicos e os magos do Tibet”. Rio de Janeiro. Ed. Rodemar. 2ª edição. p. 10-13). (Grifos meus.) (Grafia original.)

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 9/1/2013.

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História, Ideologia, Política, Republicados

O Grande Irmão*

Anuncia-se para amanhã a começo de uma nova edição do programa cujo nome foi inspirado pelo grande George Orwell, que, ao saber disso, dizem ter se revirado na tumba. É impressionante a capacidade da televisão brasileira (leia-se Globo, Record, SBT etc.) de tentar promover o emburrecimento do povo. Nesse aspecto, a companhia dos Marinho é imbatível. A pouquinho tempo o país parou, em comoção nacional, pra saber quem tinha matado o Max. Agora todo mundo anda às voltas com turcos que falam mais  chiado que os nascidos e criados nas areais de Copacabana. Amanhã, depois de mais uma etapa da estereotipização e caricaturização de um país muito mais antigo que o nosso, pelo qual deveríamos no mínimo ter respeito, o queridíssimo e filosofal Pedro Bial dará as boas-vindas aos guerreiros, que é como ele chama as pessoas que se submetem ao verdadeiro circo de horrores que é esse BBB. E assim estará oficialmente definida a pauta das conversas para os próximos meses.

Pois bem, lá pelos idos de 2003, estudando Letras na UFRGS, fiz um texto para a Cadeira de Panorama Cultural da Literatura Brasileira, que era brilhantemente mininstrada pelo professor Ricardo Postal. Não me importaria nem um pouco que alguém lesse o meu texto hoje e o qualificasse como datado e anacrônico. Mas infelizmente ele mantém uma certa dose de atualidade em muitos aspectos, como se verá. É certo que em uma década a qualidade da tv brasileira mudou. Seria injusto e desonesto omitir isso. Hoje está muito pior…

A ditadura do BBB

Neste trabalho, pretendo abordar um tema contemporâneo, que ainda está muito presente na memória de todos os brasileiros e cujos efeitos parecem ainda não ter atingido os seus limites.  Falo da agitação social, política e mesmo cultural verificada no Brasil a partir da chamada “Abertura Política”, ocorrida no final dos anos 70, que marcou o início do processo de retomada da democracia, após um longo período de regime de exceção.

Por certo serão necessários alguns resgates históricos a fim de que a questão possa ser contextualizada. Não há como falar na redemocratização do país sem passar, mesmo de forma rápida, pelo período anterior, que deu origem a esse processo. O objetivo final, contudo, é provocar uma reflexão sobre esses acontecimentos da história recente do país e projetar a maneira como essas lembranças podem servir para a formação de uma consciência crítica sobre o momento atual da sociedade brasileira e o seu futuro.

A primeira idéia que lanço e que submeto às críticas daqueles que porventura venham a ler este texto e que tenham pensamentos diferentes, é a de que não deixamos de estar vivendo uma ditadura nos dias modernos. Essa afirmação pode parecer estranha e mesmo absurda se analisada à luz do conceito formal que temos de ditadura. Refiro-me a outro tipo de ditadura, porém. A ditadura por excelência, aquela em que as casas legislativas são fechadas, as liberdades individuais são tolhidas, entre outros absurdos, essa sim ficou para trás e talvez não volte nunca mais. No entanto, acredito que hoje vivemos sob o regime de uma ditadura velada, que utiliza outros meios muito mais sutis para manipular a sociedade. Isso representa uma evolução do pensamento autoritário do homem, que já não encontra meios de subjugar o seu semelhante pela força e acaba descobrindo maneiras de fazê-lo sem que isso seja percebido. Basta que vejamos a verdadeira lavagem cerebral provocada na cabeça das pessoas pelo famigerado BBB.  Ninguém vai dizer que desconhece o significado desta sigla, certo? Sobre siglas, aliás, cabe uma pergunta: qual seria a média de acerto se perguntássemos a cem pessoas, escolhidas aleatoriamente entre o povo, o significado da sigla PEC, da qual tanto se ouve falar atualmente? Baixíssima, com certeza. E essas mesmas pessoas saberiam o que quer dizer BBB? Provavelmente, sim. Uma outra pergunta: o que altera mais profundamente a vida dessas mesmas pessoas: um Projeto de Emenda Constitucional que praticamente arrasa o sistema previdenciário público do país e faz com que o cidadão morra e ainda fique devendo tempo para a aposentadoria, ou o vencedor do prêmio do Big Brother Brasil? Esses são apenas alguns reflexos da ditadura velada a que me referi anteriormente.

Vamos fazer uma rápida viagem no tempo, para chegar ao fim dos anos 70 e começo dos anos 80, quando termina o governo Geisel e começa o governo Figueiredo (aquele mesmo que disse que preferia o cheiro dos seus cavalos ao cheiro do povo, lembram?). Esse período marca o início do processo de abertura política. Exilados, agora anistiados, voltando para casa; eleições diretas para os governos estaduais (aqui foi vencedor o atual candidato a prefeito Jair Soares, que disputou a eleição com o atual senador Pedro Simon); manifestações de trabalhadores no ABC paulista; bombas na OAB e Riocentro; surgimento de um novo partido, comandado por trabalhadores; etc. Muitas figuras se destacam: algumas velhas raposas da política, como o onipresente Leonel de Moura Brizola; o senador Ulysses Guimarães, que seria conhecido mais tarde como o símbolo da Constituinte de 1988; outro senador, Teotônio Vilela, o menestrel da nova república; aquele que seria o legítimo “salvador da pátria”, mas que morreu (???) antes de comer o bolo da festa, Tancredo Neves; alguns outros, que eram debutantes na política, dentre eles o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, que ganharia o mundo sob a alcunha de Lula. Essas são apenas algumas das peças que compunham o intrincado jogo político-social que representava o quadro da sociedade política brasileira na época.

De toda essa história, sobre a qual não vou descer a minúcias, tendo em vista que este não é um texto historiográfico, o que é importante destacar é a gigantesca capacidade de mobilização do povo brasileiro, que saiu às ruas para protestar e exigir uma mudança radical nos rumos da política brasileira, após os longos “anos de chumbo”. No início de 1984, cerca de 500 mil pessoas foram a um comício na Candelária, no centro do Rio. Em São Paulo, cerca de 1,7 milhão foram ao vale do Anhangabaú, na maior manifestação política da história brasileira até então. Os comícios contavam com as presenças de artistas e lideranças políticas, como Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Lula, Teotônio Vilela, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Fafá de Belém, Chico Buarque, entre outros. Em Porto Alegre, o palco principal das manifestações era o Largo Glênio Peres. Em 13 de abril de 1984, cerca de 150 mil pessoas (dados oficiais da Brigada Militar, o que significa que havia muito mais gente) ganharam as ruas entoando muitas palavras de ordem, cujas principais eram: “DIRETAS JÁ!”

A não aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que pedia eleições diretas para presidente já em 1984, foi um banho de água fria nas pretensões populares. Principalmente pelo fato de que ela não foi aprovada por falta de quorum. Como se pudesse existir maior quorum do que a esmagadora maioria de uma população de mais de 150 mil pessoas…

Na eleição, que teve como palco o Congresso Nacional, a disputa entre Tancredo Neves e Paulo Maluf foi acirrada, e a vitória do candidato oposicionista reanimou a nação. Apesar de indireta, a eleição de Tancredo foi recebida com grande entusiasmo pela maioria dos brasileiros. No entanto, Tancredo não chegou a assumir a Presidência. Na véspera da posse foi internado no Hospital de Base, em Brasília, com “fortes dores abdominais”. José Sarney, que nessa época ainda era um simples mortal, assumiu seu lugar interinamente. Depois de sete cirurgias, Tancredo veio a falecer em 21 de Abril (que data interessante para um mineiro morrer, não é mesmo?!?), aos 75 anos de idade, vítima de infecção generalizada (?!?). Ocorreu uma verdadeira comoção nacional, tantas as esperanças que haviam sido depositadas em Tancredo. Em 22 de abril de 1985, Sarney foi investido oficialmente no cargo. Há quem sustente a idéia de que Sarney não poderia ter tomado posse como presidente porque não havia sido empossado no cargo de vice, em função da morte de Tancredo. O fato é que ele foi diplomado e governou até 1990, um ano a mais do que o previsto na carta-compromisso da Aliança Democrática, pela qual chegou ao poder. Um fato importante, que não pode ser esquecido: o responsável pela divulgação, em rede nacional, da morte de Tancredo, foi, ninguém mais ninguém menos do que o nosso velho conhecido Antônio Britto, que era o porta-voz da Presidência. Hoje, para quem não sabe, após tantas idas e vindas, o Sr. Britto é membro do Conselho Administrativo da empresa Azaléia (ou Azalea?!?), e não tenho certeza se ele não é o próprio presidente do grupo. Achar que há alguma relação com vantagens fiscais e de outras naturezas obtidas pela empresa quando da sua gestão no governo gaúcho é muita viagem, certo? Será?

Voltando à história do país, o que vem a seguir, todos já sabem. Quero retomar a proposta inicial e provar a minha tese de que vivemos uma ditadura velada. Primeiramente, cabe lembrar a maneira através da qual legisla um governo que fecha as casas legislativas, que são as que têm a função institucional de criar leis. Isso se dá por intermédio da edição de Decretos, ou mesmo de Atos Institucionais. O que é a atual Medida Provisória se não o ressurgimento do Decreto-Lei? A Medida Provisória foi criada pela Constituição de 1988 com o intuito de possibilitar ao Executivo a normatização de algum tema de urgência e relevância, tendo caráter provisório, devendo ser convalidada no prazo de trinta dias pelo Legislativo. Vejamos, porém, como é utilizado o sistema. O governo edita MP’s sobre qualquer assunto, em qualquer período e, se não passar no Congresso, reedita sob outro número. Um governo que legisla pelo Executivo é, na minha opinião, ditatorial, sim senhor!

Vamos adiante. Quando há risco de que alguma proposta governamental seja rejeitada pelo Congresso, o presidente literalmente compra os deputados e senadores, como fez muitas vezes Fernando Henrique. Não caracteriza uma ditadura?

Recentemente, no curso do processo de aprovação da PEC da Previdência, um grupo de servidores públicos federais foi impedido de entrar no Congresso para acompanhar a votação. Barrar a entrada de cidadãos na “casa do povo” é prática comum de um regime democrático?

As emissoras de rádio e televisão funcionam por intermédio de concessões do governo. Façam o exercício de observar quantas concessões são autorizadas em anos eleitorais pelo Brasil a fora, particularmente nos estados do nordeste. Ainda acham que vivemos numa democracia plena?

Quando tempo a Rede Globo levou para lançar a nova versão do BBB? Dado o sucesso do programa, não é curioso que tenha ficado tanto tempo fora do ar, sendo lançado justamente num momento em que o país passa por drásticas transformações, principalmente na área previdenciária? E o que dizer desses constantes “escândalos” televisivos que surgem de tempos em tempos (Casseta e Planeta afrontando o povo gaúcho, Gugu armando farsa contra outros jornalistas, etc.).

Talvez eu seja um tanto quanto paranóico, mas tudo isso me parece um grande quebra-cabeças, cujas peças são lançadas gradativamente a fim de entreter o povo. Enquanto isso, em Brasília, ocorre uma convocação extraordinária do Congresso. E quem paga a conta?

Tudo isso me leva a crer que a minha teoria está certa. Vivemos numa ditadura sem ditadores. Ou melhor, vivemos numa ditadura cujos ditadores se escondem atrás dos escândalos televisivos, dos próprios programas de televisão, dos grandes campeonatos esportivos, enfim, atrás de tudo o que possa servir para mascarar a manipulação a que está sendo submetido o povo, que está preocupado mais com a hora de ver o Pedro Bial do que com a hora de poder gozar os benefícios de toda uma vida de trabalho.

Creio que o povo deveria olhar só um pouquinho para a sua história recente e refletir sobre ela. Apesar da retomada de todas as liberdades individuais, da garantia de todos os direitos fundamentais do cidadão, de todo o status social da Constituição-cidadã, como é conhecida a Carta de 88, apesar de tudo isso ainda se morre de fome no Brasil. Ainda se vê crianças trabalhando nas olarias e minas de carvão; ainda se vê mulheres sendo espancadas pelos maridos; ainda se vê pais abandonando os filhos recém-nascidos em latas de lixo, ainda se vê… Ainda se vê gente assistindo ao Big Brother Brasil…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 7/1/2013.

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Preconceito linguístico: existe mesmo? Faça uma REVISTA nos seus (pre)conceitos e VEJA com seus próprios olhos

Em outro texto, falei sobre o livrinho (ão) “Língua e liberdade”, do professor Celso Pedro Luft. Hoje vou falar sobre outro livro, que pelo tamanho é um livrinho, mas pelo conteúdo é um LIVRÃO (ÃO, ÃO, ÃO…). Trata-se do “Preconceito linguístico: o que é, como se faz”, do pesquisador, cientista, linguista, escritor, poeta… ufa!, enfim, do PROFESSOR Margos Bagno. A minha edição é a 21ª, de 2003, da editora Loyola.

O livro do Professor Luft e este têm muita coisa em comum, a começar pela escolha muito feliz dos títulos. Em “Língua e liberdade”, é demonstrada de maneira muito simples e direta, em linguagem acessível a todos, inclusive, e talvez principalmente, a leigos – se é que existem brasileiros leigos em relação ao português – como a língua, tomada em sentido amplo, pode ser ao mesmo tempo um poderoso instrumento de opressão e um artefato libertador, pelo qual qualquer pessoa, desde uma criança de 3 ou 4 anos até um idoso que nunca aprendeu a ler ou escrever, manifesta-se, comunica-se e expõe os seus pensamentos, desejos, anseios, posições, ideologias etc. Neste “Preconceito linguístico”, o Professor Marcos Bagno apresenta, escancara, desmascara, desmitifica e propõe formas para erradicar este que é um dos mais odiosos preconceitos sociais, que é usado de forma muito consciente pela elites dominantes, mas que, infelizmente, é disseminado de forma ingênua por milhões de brasileiros, que são convencidos de forma nefasta que não sabem o português, sua língua materna, com a qual se comunicam perfeitamente desde a mais tenra infância. 

Decidi adotar o mesmo sistema do texto referido anteriormente, citando trechos do livro e fazendo alguns comentários quando achar necessário. Os grifos estão no original, exceto quando indicado. As minhas intervenções aparecem em negrito. A grafia foi mantida como no original.

Não sendo linguista, sem formação na área, mas tendo muita preocupação com os preconceitos generalizados que a nossa sociedade propaga, especificamente este, valho-me da técnica de reproduzir o pensamento de estudiosos para tentar apresentar os fatos e fazer com que as pessoas tomem consciência e, se acharem por bem (e devem achar), engajem-se na luta contra as discriminações, que representam entraves para a construção de uma sociedade mais justa e que se constituem no arsenal das elites para a manutenção do estado atual das coisas. Muitos já disseram que a grande revolução não está em somente seguir as palavras dos grande líderes, mas que começa dentro de cada um de nós. Disse certa vez o meu Mestre: “Antes de escrever o livro que o guru lhe deu você precisa escrever o seu.” Sendo assim, 

À REVOLUÇÃO!

Capítulo I – A mitologia do preconceito lingüístico

Mito nº 1 – “A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente”

Este mito é muito prejudicial à educação porque, ao não reconhecer a verdadeira diversidade do português falado no Brasil, a escola tenta impor a sua norma lingüística como se ela fosse, de fato, a língua comum a todos os 160 milhões de brasileiros, independentemente de sua idade, de sua origem geográfica, de sua situação socioeconômica, de seu grau de escolarização etc. (p. 15)

Mito nº 2 – “Brasileiro não sabe português/Só em Portugal se fala bem português”

O brasileiro sabe português, sim. O que acontece é que nosso português é diferente do português falado em Portugal. Quando dizemos que no Brasil se fala português, usamos esse nome simplesmente por comodidade e por uma razão histórica, justamente a de termos sido uma colônica de Portugal. Do ponto de vista lingüístico, porém, a língua falada no Brasil já tem uma gramática – isto é, tem regras de funcionamento – que cada vez mais se diferencia da gramática da língua falada em Portugal. Por isso os lingüistas (os cientistas da linguagem) preferem usar o termo português brasileiro, por ser mais claro e marcar bem essa diferença. (p. 24)

Mito nº 3 – “Português é muito difícil”

Está provado e comprovado que uma criança entre os 3 e 4 anos de idade já domina perfeitamente as regras gramaticais de sua língua! O que ela não conhece são sutilezas, sofisticações e irregularidades no uso dessas regras, coisas que só a leitura e o estudo podem lhe dar. Mas nenhuma criança brasileira dessa idade vai dizer, por exemplo: “Uma meninos chegou aqui amanhã”. (p.35)

Por quê? Porque toda e qualquer língua é “fácil” para quem nasceu e cresceu rodeado por ela! (p. 36)

Se tanta gente continua a repetir que “português é difícil” é porque o ensino tradicional da língua no Brasil não leva em conta o uso brasileiro do português. (p. 36)

O professor pode mandar o aluno copiar quinhentas mil vezes a frase: “Assisti ao filme”. Quando esse mesmo aluno puser o pé fora da sala de aula, ele vai dizer ao colega: “Ainda não assisti filme do Zorro!” (…)

(…) aquelas mesmas pessoas que, por causa da pressão policialesca da escola e da gramática tradicional, usam a preposição a depois do verbo assistir, também dizem que “o jogo foi assistido por vinte mil pessoas”. Ora, se o verbo assistir pede um preposição é porque ele não é transitivo direto, e só os verbos transitivos diretos podem, segundo as gramáticas assumir a voz passiva. Desse modo, quem diz “assisti ao jogo” não poderia, teoricamente, dizer “o jogo foi assistido”. (pp. 36 e 37)

No fundo, a idéia de que “português é muito difícil” serve como mais um dos instrumentos de manutenção do status quo das classes sociais privilegiadas.  (p. 39) (Grifos meus.)

Mito nº 4 – “As pessoas sem instrução falam tudo errado”

(…) do mesmo modo como existe o preconceito contra a fala de determinadas classes sociais, também existe o preconceito contra a fala característica de certas regiões. É um verdadeiro acinte aos direitos humanos, por exemplo, o modo como a fala nordestina é retratada nas novelas de televisão, principalmente da Rede Globo. Todo personagem de origem nordestina é, sem exceção, um tipo grotesco, rústico, atrasado, criado para provocar o riso, o escárnio e o deboche dos demais personagens e do espectador. No plano lingüístico, atores não-nordestinos expressam-se num arremedo de língua que não é falada em nenhum lugar do Brasil, muito menos no Nordeste. Costumo dizer que aquela deve ser a língua do Nordeste de Marte! Mas nós sabemos muito bem que essa atitude representa uma forma de marginalização e exclusão.(pp. 43 e 44) (Grifo meu.)

Abro um parêntese para acrescentar que esse artifício de exclusão utilizado de forma muito consciente pela Rede Globo vai muito além do preconceito linguístico. Até pouco tempo, aos atores negros eram sempre reservados os papéis de empregados, motoristas, ladrões etc. Esse panorama mudou. Hoje negros ocupam papéis de protagonismo. Contudo, examinemos um pouco melhor essa “mudança”. Na última novela das sete, um dos personagens principais era interpretado pela negra Thaís Araújo. Em outro folhetim, coube ao ator negro Lázaro Ramos o protagonismo. O que têm em comum esses dois atores, além do fato de serem negros e marido e mulher? Ambos são exemplos típicos da beleza padronizada pelo mundo ocidental, têm rostos e corpos bonitos, dentes perfeitos, cabelos perfeitamente ajustadosAtores negros, cuja beleza não possa ser facilmente reconhecida pelo senso comum, continuam a desempenhar papéis secundários ou que representem elementos negativos em relação ao caráter, conduta social etc. Caso alguém tenha algum exemplo em contrário, um único, por favor me aponte. Um negro “feio” que seja o mocinho da novela. Uma negra “gorda” a quem não seja destinado o papel da cozinheira. Não que ser cozinheira desmereça qualquer mulher, branca, negra, vermelha, mas a forma estereotipada com que é apresentado o papel faz com que o imaginário popular solidifique a ideia distorcida de que essas profissões são menos importantes e, portanto, possíveis a pessoas a quem faltem “maiores qualificações”, entre elas um “melhor trato com a língua”.  

Mito nº 5 – “O lugar onde melhor se fala o português no Brasil é no Maranhão”

Convém salientar que a determinação das normas culta e não-culta é uma questão de grau de freqüência das variantes (o que os normativistas consideram erros ou acertos). Por exemplo, coisas como “os menino tudo” ou “houveram fatos” podem aparecer na fala de brasileiros cultos.

É preciso abandonar essa ânsia de tentar atribuir a um único local ou a uma única comunidade de falantes o “melhor” ou o “pior” português e passar a respeitar igualmente todas as variedades da língua, que constituem um tesouro precioso de nossa cultura. Todas elas têm o seu valor, são veículos plenos e perfeitos de comunicação e de relação entre as pessoas que as falam. Se tivermos de incentivar o uso de uma norma culta, não podemos fazê-lo de modo absoluto, fonte do preconceito. Temos de levar em consideração a presença de regras variáveis em todas as variedades, a culta inclusive. (p. 51)

Mito nº 6 – “O certo é falar assim porque se escreve assim”

O que acontece é que em toda língua do mundo existe um fenômeno chamado variação, isto é, nenhuma língua é falada do mesmo jeito em todos os lugares, assim como nem todas as pessoas falam a própria língua de modo idêntico. (p. 52)

É claro que é preciso ensinar a escrever de acordo com a ortografia oficial, mas não se pode fazer isso tentando criar uma língua falada “artificial” e reprovando como “erradas” as pronúncias que são resultado natural das forças internas que governam o idioma. Seria mais justo e democrático dizer ao aluno que ele pode dizer BUnito ou BOnito, mas que só pode escrever BONITO, porque é necessária uma ortografia única para toda a língua, para que todos possam ler e compreender o que está escrito, mas é preciso lembrar que ela funciona como a partitura de uma música: cada instrumentista vai interpretá-la de um modo todo seu, particular! (pp. 52 e 53) (Grifo meu.)

Com esta afirmação e esta orientação, o professor Bagno destrói o argumento raso dos conservadores e reacionários “defensores” da “Ultima Flor do Lácio”, que sempre dizem que os linguistas estão propondo uma deturpação total da língua portuguesa, que busca incutir na cabeça das pessoas a ideia de que vale tudo na língua. Não! O que se propõe é que a língua seja analisada e estudada como um organismo vivo e, como tal, em constante modificação, sem que se criem visões anacrônicas e preconceituosas de que a única forma correta de utilizar a língua é aquela de que se valem os detentores do conhecimento da gramática normativa. Mesmo porque esse suposto domínio total das regras gramaticais é impossível, mesmo aos gramáticos prescritivos e dicionaristas.

A língua escrita, por seu lado, é totalmente artificial, exige treinamento, memorização, exercício, e obedece a regras fixas, de tendência conservadora, além de ser uma representação não exaustiva da língua falada.

Faça você mesmo o teste: pegue uma palavra bem simples – fogo, por exemplo – e pronuncie-a com todas as inflexões e tons de voz que conseguir: espanto, medo, alegria, tristeza, saudade, ira, remorso, horror, felicidade, histeria, pavor… Depois tente reproduzir por escrito essas mesmas inflexões e tons de voz. É impossível. O máximo que a língua escrita oferece são os sinais de exclamação e de interrogação! A mera forma escrita não é capaz de traduzir as inflexões e as intenções pretendidas pelo falante. Por isso, os autores de textos teatrais indicam, entre parênteses, a emoção, sensação ou sentimento que o ator deve expressar numa dada fala. (p. 55)

A espécie humana tem, pelo menos, um milhão de anos. Ora, as primeiras formas de escrita, conforme a classificação tradicional dos historiadores, surgiram há apenas nove mil anos. A humanidade, portanto, passou 990.000 anos apenas falando! (p. 56)

Mito nº 7 – “É preciso saber gramática para falar e escrever bem”

É muito comum, também, os pais de alunos cobrarem dos professores o ensino dos “pontos” de gramática tais como eles próprios os aprenderam em seu tempo de escola. E não faltam casos de pais que protestaram veementemente contra professores e escolas que, tentando adotar uma prática de ensino da língua menos conservadora,não seguem rigorosamente “o que está nas gramáticas”. Conheço gente que triou seus filhos de uma escola porque o livro didático ali adotado não ensinava coisas “indispensáveis” como “antônimos”, “coletivos” e “análise sintática”…” (p. 62)

Acrescento às palavras do autor a observação que, em geral, nem os pais aprenderam de fato os “pontos” de gramática na escola. No máximo eles decoraram algumas regras arbitrárias, que, no mais das vezes, servem para muito pouca coisa além de demonstrar uma suposta erudição e… excluir os que não “dominam” essas regras.  

O que aconteceu, ao longo do tempo, foi uma inversão da realidade histórica. As gramáticas foram escritas precisamente para descrever e fixar como “regras” e “padrões” as manifestações lingüísticas usadas espontaneamente pelos escritores considerados dignos de admiração, modelos a ser imitados. Ou seja, a gramática normativa é decorrência da língua, é subordinada a ela, dependente dela. Como a gramática, porém, passou a ser um instrumento de poder e de controle, surgiu essa concepção de que os falantes e escritores da língua é que precisam da gramática, como se ela fosse uma espécie de fonte mística invisível da qual emana a língua “bonita”, “correta” e “pura”. (p. 64) (Grifo no original e meu.)

As plantas só existem porque os livros de botânica as descrevem? É claro que não. Os continentes só passaram a existir depois que os primeiros cartógrafos desenharam seus mapas? Difícil acreditar. A Terra só passou a ser esférica depois que as primeiras fotografias tiradas do espaço mostraram-na assim? Não. Sem os livros de receita não haveria culinária? (p. 66)

Mito nº 8 – “O domínio da norma culta é um instrumento de ascensão social”

Ora, se o domínio da norma culta fosse realmente um instrumento de ascensão na sociedade, os professores de português ocupariam o topo da pirâmide social, econômica e política do país, não é mesmo? (p. 69)

(…) um grande fazendeiro que tenha apenas alguns poucos anos de estudo primário, mas que seja dono de milhares de cabeças de gado, de indústrias agrícolas e detentor de uma grande influência política em sua região vai poder falar à vontade sua língua de “caipira”, com todas as formas sintáticas consideradas “erradas” pela gramática tradicional, porque ninguém vai se atrever a corrigir seu modo de falar. 

O que estou tentando dizer é que o domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha todos os dentes, que não tenha casa decente para morar, água encanada, luz elétrica e rede de esgoto. O domínio da norma culta de nada vai servir a uma pessoa que não tenha acesso às tecnologias modernas, aos avanços  da medicina, aos empregos bem remunerados, à participação ativa e consciente nas decisões políticas que afetam sua vida e a de seus concidadãos. O domínio da norma culta de nada vai adiantar a uma pessoa que não tenha seus direitos de cidadão reconhecidos plenamente, a uma pessoa que viva numa zona rural onde um punhado de senhores feudais controlam extensões gigantescas de terra fértil, enquanto milhões de famílias de lavradores sem-terra não têm o que comer. (p. 70) (Grifos meus.)

Capítulo II – O círculo vicioso do preconceito lingüístico

1. Os três elementos que são quatro

(…) o sujeito que usa um termo em inglês no lugar do equivalente em português é, na minha opinião, um idiota. (p. 78) [Referência à afirmação de Pasquale Cipro Neto em uma entrevista concedida à revista Veja, edição de 10/09/1997.]

2. Sob o império de Napoleão

Os delinqüentes da língua portuguesa fazem do princípio histórico “quem faz a língua é o povo” verdadeiro moto para justificar o desprezo de seu estudo, de sua gramática, de seu vocabulário, esquecidos de que a falta de escola é que ocasiona a transformação, a deterioração, o apodrecimento de uma língua. Cozinheiras,babás,engraxates, trombadinhas, vagabundos, criminosos é que devem figurar, segundo esses derrotistas, como verdadeiros mestres da nossa sintaxe e legítimos defensores do nosso vocabulário. (p. 79) [Referência ao verbete “VERNÁCULO”, no “Dicionário de questões vernáculas”, de Napoleão Mendes de Almeida (2ª ed.: 1994. São Paulo, LCTE)]

Napoleão Mendes de Almeida, um dos expoentes da “língua pura” mais cultuados pelos que acreditam e defendem essa monstruosidade, considerado por eles um verdadeiro repositório do saber contido nas raízes latinas do idioma oficial do Brasil, oferece uma prova substancial de que o preconceito linguístico não anda sozinho. Vejam que ele associa cozinheiras, babás e engraxates a  trombadinhas, vagabundos e criminosos, todos responsáveis pelo “apodrecimento” da língua portuguesa. Um sujeito desses ainda hoje é (muito) citado como referencial de amor à língua e cultivo das formas mais elevadas de utilização do português. Ao perceber isso, tenho que me socorrer do calendário para me certificar que estamos em 2012 e não na Idade Média…

3. Um festival de asneiras

(…) tenta ensinar coisas perfeitamente inúteis, como a pronúncia “correta” do nome inglês do modelo de um carro que, por sinal, já deixou de ser fabricado (Monza Classic SE) e também das siglas FNM e DKW (igualmente extintas), a grafia “correta” do apelido da apresentadora de televisão Xuxa (que, segundo ele, deveria se escrever Chucha), ou a conjugação apropinquar-se, que ninguém em sã consciência usa no Brasil, a menos que queira provocar risos ou passar por pedante… (p. 83) [Referência ao livro “Não erre mais!”, de Luiz Antônio Sacconi (23ª ed.: 1998. São Paulo, Atual)

Julgo importante reproduzir na íntegra um texto da lavra de Dad Squarisi, famosa colunista que fornece dicas de português em conceituadas publicações do país. Segundo o autor, a coluna foi publicada no “Correio Braziliense”, de 22/06/1996, e no “Diário de Pernambuco”, em 15/11/1998. Vamos, então, a algumas dicas da professora Squarisi:

Português ou caipirês?
 
Dad Squarisi
 
 
     Fiat lux. E a luz se fez. Clareou este mundão cheinho de jecas-tatus. À direita, à esquerda, à frente, atrás, só se vê uma paisagem. Caipiras, caipiras e mais caipiras. Alguns deslumbrados, outros desconfiados. Um – só um – iluminado. Pobre peixinho fora d’água! Tão longe da Europa, mas tão perto de paulistas, cariocas, baianos e maranhenses.
 
     Antes tarde do que nunca. A definição do caráter tupiniquim lançou luz sobre um quebra-cabeça que atormenta este país capiau desde o século passado. Que língua falamos? A resposta veio das terras lusitanas.
 
     Falamos o caipirês. Sem nenhum compromisso com a gramática portuguesa. Vale tudo: eu era, tu era, nós era, eles era. Por isso não fazemos concordância em frases como “Não se ataca as causas” ou “Vende-se carros”.
 
     Na língua de Camões, o verbo está enquadrado na lei da concordância. Sujeito no plural? O verbo vai atrás. Sem choro nem vela. Os sujeitos causas e carros estão no plural. O verbo, vaquinha de presépio, deveria acompanhá-los. Mas se faz de morto. O matuto, ingênuo, passa batido. Sabe por quê?
 
     O sujeito pode ser ativo ou passivo. Ativo, pratica a ação expressa pelo verbo: Os caipiras (sujeito) desconhecem (ação) o outro lado. Passivo, sofre a ação: O outro lado (sujeito) é desconhecido (ação) pelos caipiras. Reparou? O sujeito – o outro lado – não pratica a ação.
 
      Há duas formas de construir a voz passiva:
 
     a. com o verbo ser (passiva analítica): A cultura caipira é estudada por ensaístas. Os carros são vendidos pela concessionária.
 
     b. com o pronome se (passiva sintética): estuda-se a cultura caipira. Vendem-se carros. No caso, não aparece o agente. Mas o sujeito está lá. Passivo,mas firme.
 
     Dica: use o truque dos tabaréus cuidadosos: troque a passiva sintética pela analítica. E faça a concordância com o sujeito. Vende-se casas ou vendem-se casas? Casas são vendidas (logo: Vendem-se casas). Não se ataca ou não se atacam as causas? As causas não são atacadas (não se atacam as causas). Fez-se ou fizeram-se a luz? A luz foi feita (fez-se a luz). Firmou-se ou firmaram-se acordos? Acordos foram firmados (firmaram-se acordos). 
 
     Na dúvida, não bobeie. Recorra ao truque. Só assim você chega lá e ganha o passaporte para o mundo. Adeus, Caipirolândia. (pp. 95 e 96)
Na sequência da reprodução do texto, além de discorrer sobre o preconceito explícito que escorre como veneno das palavras da colunista, o autor explica detalhadamente porque as dicas gramaticais não funcionam sob nenhum aspecto, mesmo à luz da gramática normativa. Como o meu objetivo é chamar a atenção para as formas preconceituosas com que se utiliza a língua, vou me abster de transcrever as lições do Professor Bagno, limitando-me a reproduzir um trecho do conto “O contador de pronomes”, de Monteiro Lobato,publicado em 1924. Neste conto, o professor Aldrovando Cantagalo, gramático normativista ortodoxo, depara-se com uma placa com os dizeres “Ferra-se cavalos” e tenta explicar ao ferreiro que o verbo deveria estar no plural, porque o sujeito da frase está no plural. Ao que o ferreiro respondeu:
 
– V. Sa. me perdoe, mas o sujeito que ferra os cavalos sou eu, e eu não sou plural. Aquele SE da tabuleta refere-se cá a este seu criado. (p. 104)  
     
Capítulo III – A desconstrução do preconceito lingüístico
 
1. Reconhecimento da crise
 
Uma coisa não podemos deixar de reconhecer: existe atualmente uma crise no ensino da língua portuguesa. (p. 105)
Não é difícil perceber que a norma culta – por diversas razões de ordem política, econômica, social, cultural – é algo reservado a poucas pessoas no Brasil. (p. 105)
 
A norma culta, como vimos, está tradicionalmente muito vinculada à norma literária, à língua escrita. Com tantos analfabetos, lamentar a “decadência” ou a “corrupção” da norma culta no Brasil é, no mínimo, uma atitude cínica. (p. 107)
2. Mudança de atitude
Enquanto essa gramática [gramática da norma culta brasileira] não chega, temos de combater o preconceito lingüístico com as armas de que dispomos. E a primeira campanha a ser feita, por todos na sociedade, é a favor da mudança de atitude. Cada um de nós, professor ou não, precisa elevar o grau da própria auto-estima lingüística: recusar com veemência os velhos argumentos que visem menosprezar o saber lingüístico individual de cada um de nós. Temos de nos impor como falantes competentes de nossa língua materna. Parar de acreditar que “brasileiro não sabe português”, que português é muito difícil”, que os habitantes da zona rural ou das classes sociais mais baixas “falam tudo errado”. Acionar nosso senso crítico toda vez que nos depararmos com um comando paragramatical [nome que o autor dá aos consultórios gramaticais, colunas de auxílio gramatical em jornais e revistas, programas de correção gramatical na televisão etc.] e saber filtrar as informações realmente úteis, deixando de lado (e denunciando, de preferência) as afirmações preconceituosas, autoritárias e intolerantes. (p. 115)
Se milhões de brasileiros de norte a sul, de leste a oeste, em todas as regiões e em todas as classes sociais falam e escrevem Aluga-se salas ou se há flutuação no uso de onde e aonde, o problema, evidentemente, não está nesses milhões de pessoas, mas na explicação insuficiente (errada, até, nesses casos) dada a esses fenômenos pela gramática tradicional. (p. 116)
3. O que é ensinar português?
Esforçar-se para que o aluno conheça de cor o nome de todas as classes de palavras, saiba identificar os termos da oração, classifique as orações segundo seus tipos, decore as definições tradicionais de sujeito, objeto, verbo, conjunção etc. – nada disso é garantia de que esse aluno se tornará um usuário competente da língua culta.
 
Quando alguém se matricula numa auto-escola, espera que o instrutor lhe ensine tudo o que for necessário para se tornar um bom motorista, não é? Imagine, porém, se o instrutor passar onze anos abrindo a tampa do motor e explicando o nome de cada peça, de cada parafuso (…) Esse aluno tem alguma chance de se tornar um bom motorista? Quando muito, estará se candidatando a um emprego de mecânico de automóveis… Mas quantas pessoas existem por aí, dirigindo tranqüilamente seus carros, tirando o máximo proveito deles, sem ter a menor idéia do que acontece dentro do motor? (…) 
 
(…) E então? O que pretendemos formar com nosso ensino: motoristas da língua ou mecânicos da gramática? (pp. 119 e 120)
Quando digo coisas assim em público, algumas pessoas levantam a objeção de que o ensino da nomenclatura tradicional, das definições, das classificações, da análise sintática é necessário porque são essas coisas que serão cobradas ao aluno no momento de fazer um concurso ou de prestar o vestibular. Se é assim, cabe a nós, professores, pressionar pelos meios de que dispomos – associações profissionais, sindicatos, cartas à imprensa – para que as provas de concursos sejam elaboradas de outra maneira, trocando as velhas concepções de língua por novas. Não temos de nos conformar passivamente com uma situação absurda e prosseguir na reprodução dos velhos vícios gramatiqueiros simplesmente porque haverá uma cobrança futura ao aluno. (p. 121)
Nunca consegui entender por que uma pessoa que quer estudar Direito precisa fazer prova de física, química, biologia e matemática, se o que ela prendeu dessas matérias já foi avaliado na conclusão do 2º grau.
 
Com o fim do vestibular, desaparecerá também – assim esperamos ardentemente – toda a indústria que se formou em torno dele: os nefandos “cursinhos” onde ninguém aprende nada, onde não há nenhuma produção de conhecimento mas apenas reprodução de informações desconexas, onde centenas de alunos se apinham numa sala, onde tudo o que se faz é entupir a cabeça do aluno com “truques” e “macetes” que em nada contribuem para a sua verdadeira formação intelectual e humanística. (pp. 122 e 123)
4. O que é erro?
 
(…) uma elevada porcentagem do que se rotula de “erro de português” é, na verdade,mero desvio da ortografia oficial. (p. 122)
(…) em cartazes e placas não aparecem “erros de português” e, sim, “erros” de ortografia. Escrever, digamos, LOGINHA DE ARTEZANATO onde a lei obriga a escrever LOJINHA DE ARTESANATO em nada vai prejudicar a intenção do autor da placa: informar que ali se vende objetos de artesanato. (p. 123)
No início do século XX o “certo” era escrever: EM NICHTEROY ELLE POUDE ESTUDAR SCIENCIAS NATURAES, CHIMICA E PHYSICA. Se hoje o “certo” é escrever: EM NITERÓI ELE PÔDE ESTUDAR CIÊNCIAS NATURAIS, QUÍMICA E FÍSICA, isso não altera a sintaxe nem a semântica do enunciado: o que mudou foi só a ortografia. (p. 123)
Todo falante nativo de uma língua é um falante plenamente competente dessa língua, capaz de discernir intuitivamente a gramaticalidade ou agramaticalidade de um enunciado, isto é, se um enunciado obedece ou não às regras de funcionamento da língua.
 
Ninguém comete erros ao falar sua própria língua materna, assim como ninguém comete erros ao andar ou ao respirar. (p. 124) (Grifo meu.)
 
(…) podemos até dizer que existem “erros de português”, só que nenhum falante nativo da língua os comete! Por exemplo, seriam “errados” os enunciados abaixo (o asterisco indica construção agramatical)
 
(1) *Aquela garoto me xingou
(2) *Eu nos vimos ontem na escola
(3) *Júlia chegou semana que vem
(4) *Não duvido que ele não queira não vir aqui
(5) *Que o livro que a moça que Luís que trabalha comigo me apresentou escreveu é bom não nego
 
Esses enunciados, precisamente por serem agramaticais, isto é, por não respeitarem as regras de funcionamento da nossa língua, não aparecem na fala espontânea e natural de falantes nativos do português do Brasil, mesmo que sejam crianças pequenas que ainda não freqüentam escola ou adultos totalmente iletrados. (p. 125)
 
5. Então vale tudo?
 
Algumas pessoas me dizem que a eliminação da noção de erro dará a entender que, em termos de língua, vale tudo. Não é bem assim. Na verdade, em termos de língua, tudo vale alguma coisa, mas esse valor vai depender de uma série de fatores. Falar gíria vale? Claro que vale: no lugar certo, no contexto adequado, com as pessoas certas. E usar palavrão? A mesma coisa.
 
Uma das principais tarefas do professor de língua é conscientizar seu aluno de que a língua é como um grande guarda-roupa, onde é possível encontrar todo tipo de vestimenta. Ninguém vai só de maiô fazer compras num shopping-center, nem vai entrar na praia, num dia de sol quente, usando terno de lã, chapéu de feltro e luvas… (p. 130)
 
6. A paranóia ortográfica
 
Essa Gramática [“Gramática da língua portuguesa”, de Pasquale Cipro Neto & Ulisses Infante] filia-se à tradição que atribui ao domínio da escrita um elemento de distinção social, que é na verdade um elemento de dominação por parte dos letrados sobre os iletrados. 
Existe um mito ingênuo de que a linguagem humana tem a finalidade de “comunicar”, de “transmitir idéias” – mito que as modernas correntes da lingüística vêm tratando de demolir, provando que a linguagem é muitas vezes um poderoso instrumento de ocultação da verdade, de manipulação do outro, de controle, de intimidação, de opressão, de emudecimento. (p. 133)  (Grifo meu.) 
 
O aprendizado da ortografia se faz pelo contato íntimo e freqüente com textos bem escritos, e não com regras mal elaboradas ou com exercícios pouco esclarecedores. (p. 138)
7. Subvertendo o preconceito lingüístico
 
(…) talvez tenhamos de continuar ensinando aquelas coisas que nos são cobradas pela sociedade, pela direção das escolas, pelos pais dos nossos alunos. Mas podemos ensinar essas coisas criticando-as ao mesmo tempo e deixando bem claro que aquilo ali não é tudo o que se pode saber a respeito da língua, que há um milhão de outras coisas muito mais interessantes e gostosas para descobrir no universo da linguagem. (p. 141)
Capítulo IV – O preconceito contra a lingüísitca e os lingüistas
 
1. Uma “religião” mais velha que o cristianismo
 
A Gramática Tradicional permanece viva e forte porque, ao longo da história, ela deixou de ser apenas uma tentativa de explicação filosófica para os fenômenos da linguagem humana e foi transformada em mais um dos muitos elementos de dominação de uma parcela da sociedade sobre as demais(p. 149) (Grifo meu.)
 
Querer cobrar, hoje em dia, a observância dos mesmos padrões lingüísticos do passado é querer preservar, ao mesmo tempo, idéias, mentalidades e estruturas sociais do passado. (p. 150)
Ora, o novo assusta, o novo subverte as certezas, compromete as estruturas de poder e dominação há muito vigentes. (150)
(…) grupos de pessoas que dizem promover ridículos “movimentos de defesa da língua portuguesa”, como se fosse necessário defender a língua de seus próprios falantes nativos, a quem ela pertence de fato e de direito. (p. 151)
(…) o simples fato de pertencer à Academia Brasileira de Letras é exemplo de sua filiação a um ideário conservador e elitista – ele já declarou, por exemplo, que a função da escola é levar os alunos a falar “melhor e com os melhores” (…) (p. 158) [Referindo-se a Evanildo Bechara.] 
No mesmo momento em que eu escrevo, ou transcrevo, leio a frase para a Patrícia, minha esposa, e ela me faz a  pergunta, um tanto quanto retórica, mas que inevitavelmente salta à mente de quem tenha uma mínima capacidade de reflexão: “Quem são os melhores?” Eu respondo simplesmente, numa respeitosa “homenagem” ao professor Evanildo: “Os que sabem falar…”
4. A quem interessa calar os lingüistas?
(…) se um deputado sem formação em medicina inventasse um projeto de lei que tivesse relação com a prática cirúrgica e se todos os médicos do país se manifestassem contra o projeto, será que ele conseguiria ser aprovado? Por que toda e qualquer pessoa se acha no direito de dar palpites infundados e preconceituosos sobre as questões que dizem respeito à língua? (p. 164) [Referindo-se ao projeto do então deputado federal Aldo Rebelo, atual Ministro dos Esportes, de 1999, sobre “a promoção , a proteção, a defesa e o uso da língua portuguesa”.]
 
O autor lembra que o então deputado se refere à Napoleão Mendes de Almeida (aquele mesmo que comparou babás e engraxates com trombadinhas e criminosos) como um dos nossos maiores linguistas, sendo que na visão deste mesmo Napoleão, os linguistas são responsáveis, ao lado das babás, engraxates e criminosos, pelo apodrecimento da língua portuguesa.
 
Que ameaça ao tipo de sociedade em que vivemos representa a democratização do saber lingüístico, a divulgação ampla das descobertas deste campo científico, a liberação da voz de tantos milhões de pessoas condenadas ao silêncio por “não saber português” ou por “falar tudo errado”? A quem interessa defender o “português ortodoxo” de uns pouquíssimos “melhores” contra a suposta “heresia gramatical” de muitos milhões de outros? (p. 165) 

Na parte final de “Preconceito linguístico”, o autor transcreve uma carta que enviou ao editor da Veja, em resposta a uma matéria publicada na edição de número 1.725 (novembro de 2001), intitulada “Falar e escrever bem, eis a questão”, na qual o jornalista João Gabriel de Lima destila o mesmo veneno preconceituoso examinado ao longo do livro. Da extensa missiva, destaco dois trechos que de certa forma sintetizam tudo o que eu pretendi dizer com este texto e as transcrições nele feitas:

Segundo a reportagem, as críticas que o Sr. Pasquale Cipro Neto recebe dessa “corrente relativista”deixam-no “irritado”. Ora, o que parece realmente irritar o Sr. Pasquale é o fato de que, apesar de obter tanto sucesso entre os leigos, nada do que ele diz ou escreve é levado a sério nos centros de pesquisa científica sobre a linguagem, sediados nas mais importantes universidades do Brasil – centros de pesquisa lingüística, diga-se de passagem, reconhecidos internacionalmente como entre alguns dos melhores do mundo. Muito pelo contrário, se o nome do Sr. Pasquale é mencionado nas nossas universidades, é sempre como exemplo de uma atitude anticientífica dogmática e até obscurantista no que diz respeito à língua e seu ensino (em vários de seus artigos em jornais e revistas ele já chamou os lingüistas de “idiotas”, “ociosos”, “defensores do vale-tudo” e “deslumbrados”). (p. 170)

Se existe, porém, uma grande resistência contra o redimensionamento do lugar do ensino da gramática na escola é porque todos sabemos que, ao longo do tempo, o conhecimento mecânico da doutrina gramatical se transformou num instrumento de discriminação e de exclusão social. “Saber português”, na verdade, sempre significou “saber gramática”, isto é, ser capaz de identificar – por meio de uma terminologia falha e incoerente – o “sujeito’ e o “predicado” de uma frase, pouco importante o que essa frase queria dizer, os efeitos de sentido que podia provocar etc. Transformada num saber esotérico, reservado a uns poucos “iluminados”, a “gramática” passou a ser reverenciada como algo misterioso e inacessível – daí surgiu a necessidade de “mestres” e “guias”, capazes de levar o “ignorante” a atravessar o abismo que separa os que sabem dos que não sabem português…” (p. 182)

Infelizmente o livro não informa se a carta foi ou não publicada, por isso deixo a pergunta: 

será que Veja publicou a carta do professor Marcos Bagno ou deixou que as distorções da matéria sobre a língua adquirissem ares de verdade (nazismo?? – sei lá…)? 

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 14/11/2012.

 

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