Redes Sociais, Republicados

Incontinência virtual – ou o BBB do mundo real*

Dia desses, compartilhei lá no facebook (sempre falei feiçebuque, mas tenho visto que o bacana é dizer fêisbãq) uma mensagem atribuída ao Miguel Falabella que fala rapidamente da maneira como as pessoas estão usando o FB e sugerindo que elas deixem as coisas pessoais para um contato face a face (o trocadilho é dele). Achei legal. E o meu amigo Álvaro também. Então conversamos um pouco a respeito e ele me sugeriu dizer algo, afinal temos pontos de vista afinados nesse (e em tantos outros) tema.

Eu sou do século passado, ou melhor, do milênio passado. Entreguei muitos trabalhos de faculdade datilografados numa velha máquina alemã que meu pai me deixou de herança, com tipos de letra emendada. Lembro de que quando trabalhava na Hering, o CPD, Centro de Processamento de Dados, era um recinto quase sagrado, cujo acesso era privativo de pouquíssimos, dois pra ser mais exato, além dos diretores, e de mim, porque o boy é o cara mais importante de uma empresa (eu era, pelo menos). A sala estava sempre com temperatura perto de zero, pra não esquentar os computadores, que eram uns trambolhões enormes, tipo aqueles da caverna do Batman dos 60’s. Alguém se lembra que a UFRGS tem, ou tinha, um tal de supercomputador? Até hoje não sei bem o que é (era) isso, mas imagino que hoje nem exista mais. Também sou do tempo do telex, acoplado com disco de telefone. Fui ter o meu primeiro contato efetivo com um computador no ano 2000, então cheguei no facebook.

O cara abre o facebook e tem dezenas, centenas, dependendo do caso, de mensagens, compartilhamentos, curtidas etc., etc. e tal. Vem receita de bolo, mensagem que ensina a ser feliz, corneta de futebol, textos relevantes, vídeos bacanas, e por aí vai. Não sou do tipo que se incomoda (muito) em receber um monte de coisas por mail ou pelo FB. Desenvolvi uma razoável capacidade seletiva e o que não me interessa deleto direto ou passo batido. Isso é meio ruim, porque às vezes se perde muita coisa boa, mas, como diriam meus antepassados d’além mar, são cavacos do ofício. Eu uso o facebook pra divulgar as minhas ideias que eu acho que podem interessar pra alguém. E acho que isso tem um bom resultado. Além disso, ele já me serviu pra reencontrar gente há muito perdida e encontrar gente muito boa. E fica por aí. Mas tem gente que faz diferente e é aí que a porca torce o rabo.

Não dá pra deixar na reta no facebook. Notícia recolhida na internet:  “Pessoas sem facebook são alvo de suspeitas de RH e psicólogos”. E essa desconfiança tem vários motivos, desde a possibilidade do cara ter sido excluído da rede, o que indica uma conduta no mínimo questionável, até um possível desajustamento social. Complicado, né?! Então, já fica claro que os recrutadores pesquisam o candidato no facebook e, conforme for o uso que ele faz da ferramenta, serve ou não para o cargo. Imagina um administrador de empresas que manda um currículo para uma grande corporação. O cargo é bom, a grana é boa, a possibilidade de crescimento também, enfim, o emprego ideal. O currículo do cara é bom, especializações, MBAs, inglês fluente e coisa e tal. A entrevista foi joia, sabe falar, tem desenvoltura, espírito de equipe e blá, blá, blá. Aí o psicólogo vai lá no perfil e vê um monte de fotos de bandalheiras, bebedeiras, piadas, cornetas, bobagens e tudo aquilo que as pessoas acham bacana postar, curtir, comentar e compartilhar. Deu pra bola, reprovado, não serve pra empresa. Uma grande chance desperdiçada. Talvez para os dois lados, porque o cara poderia ser um excelente profissional. Tudo por causa do que eu chamaria de  incontinência virtual.

Outro dia eu vi um negócio que me fez cair os butiá do bolso. Tem um “serviço” no FB de namoro fake. O cara aluga um namorado ou uma namorada pra fazer de conta que estão se relacionando. São pessoas de verdade que se oferecem pra isso. Os preços oscilam de acordo com algumas variáveis, como o tempo do “namoro”, o número de mensagens babosas (estava assim mesmo na matéria) que a figura posta no perfil entre outras. Bueno, em primeiro lugar, quem precisa contratar uma namorada (vou usar só no feminino, mas vale pra todos) está dando uma prova mais do que concreta de incompetência afetiva, social e tudo mais. Será que os amigos não virtuais não vão querer conhecer a distinta? Conversei muito rapidamente com a minha psicóloga sobre o assunto, mas não tenho muita dúvida que esse tipo de comportamento deve ter um numerozinho correspondente lá no CID-10 ou no DSM-IV…

Num dos sites que eu olhei diz que há um novo mercado se abrindo para profissionais especializados em pesquisas nas redes sociais. Os caras são capazes de detectar até perfis falsos. Imagina, então, o administrador aquele, que agora tem um perfil bem legal no FB, mas que não perdeu o vício, e usa outro perfil, fake, pras palhaçadas. Daqui a pouco ele vai ser descoberto e daí… Sabe o que vai acontecer? Não serve pra empresa!

E não é só na iniciativa privada que a coisa tá feia. Pega lá um concurso pra delegado de polícia, por exemplo. Uma das etapas é subjetiva, que inclui a entrevista e, naturalmente, um exame da vida pregressa e atual do candidato. O que ele faz, que lugares frequenta, com quem anda, fuma, bebe, cheira, essas coisas. Hoje é tudo mais fácil, afinal os bonecos resolvem compartilhar tudo na rede. De repente o cara é tri bom no Direito, tem todo o perfil de delegado, mas não tem uma vida regrada, seja lá o que isso quer dizer. Ou pior, tem uma vida regrada, mas parece não ter, pelo que posta na rede. Como a avaliação é subjetiva mesmo, eles não precisam justificar (salvo se o cara entrar na justiça, mas daí eles arrumam um jeito), passa o próximo da lista.

Até aqui eu só falei de coisas ligadas ao mundo profissional, mas há outras, que podem ser até mais prejudiciais para a vida do vivente (isso foi uma redundância?). Tem gente que bota TUDO, absolutamente TUDO no FB. Parece que tem até uns aplicativos ou coisa parecida no celular que automaticamente dizem o que o cara está fazendo. Pensa bem, eu sou um ladrão, fico pesquisando possíveis vítimas na rede. Vejo lá que o seu Jubileu frequenta lugares legais, tem carro bom, compra coisas caras, mora em tal lugar, vai correr três vezes por dia, sai todas as terças, quintas e fins de semana, e assim por diante. Não fica uma barbada assaltar o seu Jubileu? E o seu Jubileu também bota um monte de fotos de tudo quanto é jeito no FB. Eu sou um hacker, profissional ou amador, pego umas fotinhos dele, faço uma montagem no photoshop ou outro ainda mais moderno e digo o que eu quiser, que o cara é gay, ou que anda se galinhando com a mulherada (se eu tô afim da mulher dele), que anda bebendo todas as noites (se eu tô concorrendo com ele numa promoção no trabalho), que é gremista, ou, quase tão ruim quanto, corintiano (se ele é conselheiro do Inter), ou qualquer coisa assim. E aí, como é que fica?

Vamos pegar um pouquinho dos aspectos, digamos, emocionais. Eu tô com problemas em casa. Boto lá no FB: “Hoje acordei meio mal. Preciso que vocês me deem uma força.” Beleza! Chovem comentários de força, pensamento positivo, carinhas (emoticons, se não me engano), gatinhos fofos, cachorrinhos, oncinhas pintadas, zebrinhas listradas, coelhinhos peludos e tal e coisa. Só que de noite eu já botei: “Uuhh, dez minutos pra sair do trampo e ir pra balada!” “Pô, hoje de manhã tu tava tri mal e agora vai pra night? Te larguei!” Bipolaridade grau máximo. Ou só vontade de aparecer?

Enfim, gente, sugiro que façamos (todos) uma revisão nos nossos conceitos e na maneira como usamos as redes sociais. Pensemos que isso é uma grande diversão, mas que também é coisa muito séria. Não tô pregando a caretice no mundo virtual. Longe disso. Só que vamos com calma. Tem hora pra tudo. Não vamos fazer da nossas vidas um grande BBB virtual, até porque esse se tal de BBB já é uma bosta na TV, imagina na vida real…

Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 8/2/2013.

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Cultura, Educação, Republicados

Dr. Vestibular, Médico Obstetra*

Dia desses, conversava com duas gurias, mães de dois coleguinhas de escolinha da Alexandra, minha filha mais nova, e elas perguntavam sobre o colégio das minhas filhas mais velhas, Vitória e Paula. A Vitória, inclusive, participava da conversa. Lá pelas tantas, a pergunta que não quer calar: como é o colégio na preparação para o vestibular? Notei uma certa dificuldade da Vitória para elaborar uma resposta que satisfizesse à questão. Recorte no tempo, anos 70 e 80, minha época de colégio: o importante era  estudar muito para poder… passar no vestibular.

Ali pelos anos 70, creio eu, não tenho informações precisas, começaram a surgir os cursinhos preparatórios para o vestibular. Por motivos, dentre os quais o principal não era passar no vestibular, em 1992 eu fiz um ano no Unificado. Pra rir um pouco serviu. Os professores eram engraçados, em geral. Até o grande Luiz Roberto Lopes fazia palhaçada na aula. Na prática, salas com mais de 100 alunos, fórmulas mágicas pra aprender a marcar o x no lugar certo, ditados enfadonhos do professor Cláudio Moreno (não sei se naquela época ele já era doutor), e no mais, festa e festa. Produção ou estímulo ao conhecimento, que é o que se espera de um ambiente estudantil: ZERO!

Na época em que as pessoas viviam até os 60 e poucos anos, 70 com sorte e pouca saúde, cunhou-se a máxima que a vida começa aos 40. Pois a conversa que eu referi no início me levou a repensar essa ideia. A vida, na verdade, começa no vestibular. Tudo o que se faz antes dele não é mais do que uma grande gestação à espera do grande momento, o nascimento para o mundo. O vestibular é o grande obstetra, aquele de cuja perícia e habilidade depende o ingresso da pessoa, geralmente pouco mais do que uma criança, no mundo real. Toda as experiências de vida anteriores serviram única e exclusivamente para o preparo necessário ao seu enfrentamento. O Colégio Militar ainda hoje é visto como um dos que tem o melhor ensino, afinal, seus alunos invariavelmente vão muito bem… no vestibular.

No mesmo ambiente da conversa que eu falei no início, outra guria dizia estar muito descontente com a escolinha, porque a filha de 4 anos não sabia contar até trinta. Mas qual é a importância para uma criaturinha linda e fofa de 4 anos, cuja preocupação central da vida deve ser brincar, de saber contar até trinta? Ah, claro, isso vai facilitar as coisas… no vestibular.

Olha, antes de seguir em frente, quero dizer que essas mães que eu falo aí são excelentes, como mães e como pessoas, e digo isso sem conhecê-las com mais intimidade, mas não é muito difícil reconhecer as pessoas “do bem”. O problema, portanto, não é com elas, é com quase todas as pessoas que têm filhos e que pensam, com certa razão, na formação superior como uma garantia de vida melhor para eles. O problema, indo mais a fundo, é com o sistema de ensino, e, ainda mais na raiz, com o sistema – não queria cair nessa discussão, mas é inevitável – capitalista.

A produção e a disseminação do conhecimento tem, no modelo instituído da sociedade ocidental, uma importância secundária, desde que o sujeito seja capaz de ter sucesso na vida. E o que é ter sucesso na vida? Ter um carrão importado, muitas vezes antes mesmo de uma casa, frequentar os lugares da moda, usar roupas descoladas e por aí vai. Na busca frenética desse objetivo, a faculdade, e hoje todas as pós que vêm depois da graduação, tem um papel decisivo. E qual é a porta de entrada para esse “mundo de Malboro”? Ninguém menos do que o doutor vestibular, o nosso obstetra de plantão.

No sistema moderno de educação básica, quando um jovem atinge os 16 ou 17 anos, ele passou no mínimo 12 desses preciosos anos nos bancos escolares. Isso sem contar o tempo de escolinha infantil. Depois desse tempo todo, transcorrido nas fases mais importantes do desenvolvimento psíquico e social de uma criatura, se ela for capaz de marcar os xises no lugar certo, será considerada uma vencedora. Se não der, bom, tenta ano que vem, quem sabe faz um cursinho… Ou seja, se a pessoinha chegar nessa fase da vida sem saber escrever duas linhas com coerência (os TCCs que se vê – se veem, diriam os gramáticos de plantão – por aí…), mas entendendo que a fórmula de báscara e a conjugação do verbo vir em todos os tempos e modos vai lhe abrir as maravilhosas portas da felicidade (com a devida licença ao senhor Senor Abravanel), está tudo ok. O nosso jovem estudante, candidato a uma vaga na faculdade, não precisa saber que o Darwin não disse exatamente que o homem descende do macaco, desde que ele saiba calcular com precisão a velocidade e o tempo que levarão para se chocar os vetores que vêm em sentido contrário, num movimento retilíneo uniforme. Não estou desmerecendo os conhecimentos de Física, nem de Matemática. Queria eu saber essas coisas. Só que eu acho que o mais importante é que um jovem que está apenas na sua segunda década de vida entenda o porquê de saber essas coisas todas e se elas são realmente necessárias. Ninguém vai conseguir me convencer que um carinha que quer fazer Direito tenha a obrigação de saber fazer cálculos de geometria espacial. Ah, mas e o vestibular? Pois é…

Uma das maiores crueldades que se pode fazer com uma pessoa é obrigá-la, aos 17 ou 18 anos, a fazer uma opção que pode comprometer-lhe a vida. Há casos de guris e gurias que terminam o segundo grau, opa, o Ensino Médio, sabendo exatamente que querem ser médicos, dentistas, advogados, engenheiros etc. (Por que tão poucos pensam em ser professores?…) A maioria, porém, como é de se esperar, não tem muita certeza do que quer ser na vida, profissionalmente falando. Conheci uma senhora, cuja filha estava se formando em medicina aos 25 ou 26 anos. Antes disso, ele cursou até o último semestre de odonto. Acontece o seguinte: ela terminou o colégio com 15 ou 16 anos e queria medicina, mas não passou no… vestibular, e no mesmo ano, por pressão do pai (ah, esses pais…) fez pra odonto e passou. Lá em Passo Fundo. No último semestre, ela largou e foi fazer medicina, sendo que nesse segundo (ou terceiro) vestibular ela já tinha na bagagem a maturidade de ter passado alguns anos na universidade, o que certamente ajudou na prova. Perguntei, ingenuamente, porque ela não tinha terminado a odonto, assim poderia ter duas faculdades. A resposta era óbvia: ela não queria odonto, mas caso se formasse, a pressão seria muito forte para ela montar consultório e levar a carreira em frente, com a frustração de não ter perseguido o seu sonho.  Não deve se desconsiderar o fato de que ela é de família com boas condições, então não teve maiores dificuldades em protelar por algum tempo a entrada no mercado de trabalho. Mas o que interessa no caso é que ela teve coragem de romper com um estrutura pré-estabelecida, que fez com que entrasse num curso que não queria, no auge da juventude, apenas para agradar o pai. Quantas histórias dessas há por aí? E quantas têm um prosseguimento diferente, porque nem todas as famílias (aliás, poucas) têm condições de manter um filho na faculdade esse tempo todo. E o pensamento que vige é mais ou menos este: “se chegou até aqui, segue esse caminho.” Geralmente quando o cara erra na escolha, coisa mais fácil do mundo aos 17 anos, mas vai em frente, está fadado a se revelar no futuro uma pessoa frustrada, amarga, que não gosta e, portanto, não executa bem a sua atividade profissional, ou, mesmo que execute, não tem nenhum prazer nisso, mas que, por inúmeras circunstâncias, se vê incapaz de virar o jogo.

Submeter uma pessoa que recém está saindo dos cueros (oigalê!) à tortura de ter que competir com outros milhares de jovens por uma vaga na faculdade, que hoje pouca garantia pode dar de um futuro melhor, é desumano. Quanto mais se pensarmos que o aluno em questão pode saber muito de todos os conhecimentos que lhe serão exigidos, mas pode ter problemas de tensão (o famoso branco) ou pode estar num dia menos inspirado, ou, enfim, pode sofrer qualquer coisa que lhe impossibilite, às vezes por um único xisinho marcado no lugar errado, de realizar naquele momento o sonho, que geralmente é mais dos pais do que dele próprio. Vai daí mais um ano de preparação para… o vestibular. Isso se o carinha não jogar tudo pro alto ou resolver optar por um curso mais fácil de entrar. Nem falei ainda do fato de que os inefáveis cursinhos ensinam, também, algumas técnicas infalíveis para chutar certo, o que é o reconhecimento da ineficácia e da falência desse sistema nefasto, pelo qual alguém que simplesmente tenha mais sorte pode, num sublime ato de quase fraude, ser bafejado pela fortuna.

Meus amigos, eu defendo uma mudança radical nos conceitos (alguns preconceitos) que temos acerca do ensino. Precisamos entender que uma pessoa está aprendendo a pensar desde que sai da barriga da mãe, pelas mãos do obstetra (o de verdade, não o vestiba) ou da parteira. Assim, se ela for estimulada e pensar de verdade, não tenho nenhuma dúvida de que vai tirar o vestibular de letra. (Se bem que espero que daqui há alguns anos esse troço de vestibular desapareça.) Do contrário, se ela tiver o seu desenvolvimento voltado fundamentalmente para disputar uma prova, as coisas podem se complicar.

Urge que estimulemos as nossas crianças e jovens a ver o mundo para além de uma grade de respostas. Ao procurarmos um colégio para os nosso filhos, fora as condições materiais implicadas, que muitas vezes restrigem a escolha, afinal, por aqui ensino de qualidade é quase sempre sinônimo de mensalidades exorbitantes, é preciso que nos desapeguemos (como é difícil a prática do desapego…) da ideia fixa de que os professores devem prepará-los para o sucesso no vestibular. Vamos pensar que o nosso bebê (é quase isso que eles são quando entram no colégio) vai passar vários anos da sua vida atrás de uma classe e nesse tempo todo é muito importante que ele aprenda algo a mais do que o vestibular vai lhe exigir. É preciso que ele aprenda a se expressar, se comunicar, é preciso que ele aprenda a respeitar as diferenças entre as pessoas, é preciso que ele aprenda que um gari exerce uma profissão digna (né, seu Casoy?) e que o fato dele, o gari, não ter cursado uma faculdade (embora possa tê-lo feito, por que não?) não o transforma numa pessoa inferior, é preciso, falando de uma questão mais prática, que ele, o (ex) bebê, chegue no final dos doze anos de estudo conseguindo escrever um texto capaz de transmitir com clareza o que ele pensa (alguns “erros” de português nesse caso são perdoáveis…) e, de preferência, que o que ele pensa reflita o desejo de construir uma sociedade melhor para todos, mesmo para aqueles que não conseguiram passar… no vestibular.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 2/12/2012.

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Feminismo, Língua Portuguesa, Mulheres, Política, Republicados

Parabéns Cirurgiãs-Dentistas, Psicólogas, Médicas, Arquitetas, Engenheiras, Presidentas etc.*

Agora a minha esposa já pode imprimir no cartão de visitas “Patrícia D’Ávila – Cirurgiã-Dentista”. É que foi publicada no Diário Oficial da União, no último dia 4 de abril, a Lei nº 12.605, de 03.04.2012, que diz o seguinte: 

LEI Nº 12.605, DE 3 DE ABRIL DE 2012.

Determina o emprego obrigatório da flexão de gênero para nomear profissão ou grau em diplomas.

 

A PRESIDENTA DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1o  As instituições de ensino públicas e privadas expedirão diplomas e certificados com a flexão de gênero correspondente ao sexo da pessoa diplomada, ao designar a profissão e o grau obtido.

Art. 2o  As pessoas já diplomadas poderão requerer das instituições referidas no art. 1o a reemissão gratuita dos diplomas, com a devida correção, segundo regulamento do respectivo sistema de ensino.

Art. 3o  Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília,  3  de  abril  de 2012; 191o da Independência e 124o da República.

DILMA ROUSSEFF
Aloizio Mercadante
Eleonora Menicucci de Oliveira

Claro que isso parece uma questão menor, já que os falantes da língua haviam resolvido o problema há muito tempo, afinal não se vê nos consultórios de médicas uma plaquinha “Dra… Médico Psiquiatra”. E a despeito do que pensam os gramáticos normativistas de plantão, são eles, os falantes, que determinam as regras e o uso da língua. É assim com todas elas. Entretanto, a assunção desse direito tácito ao patamar legislativo representa mais uma pequena vitória na luta das mulheres pelo reconhecimento definitivo da sua emancipação.

 Com isso, a nossa primeira mandatária está autorizada a convidar os jornalistas pra o seu “Café com a Presidenta”, embora isso certamente continuará a provocar erupções cutâneas nos vetustos defensores da “última flor do Lácio”. A bem da verdade, nesse aspecto em particular, a lei que determina oficialmente o uso da forma “presidenta” não é esta citada, mas uma bem mais antiga, da época do Juscelino: Lei nº 2.749, de 1956, mas a abrangência desta nova lei é bem maior, embora uma leitura restritiva – e obtusa – diga que só se refere aos diplomas.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 19/6/2012.

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