Política

Hora de derrubar mitos

Não foi ontem que as pessoas progressistas e amantes das liberdades e da democracia descobriram que as coisas no Brasil vão de mal a pior. Nem foi no golpe engendrado para tirar do governo uma presidenta legitimamente eleita. Presidenta, aliás, que soube que não levaria a cabo o segundo mandato no exato instante em que o TSE proclamou a sua reeleição, em 2014. Naquele momento, o candidato derrotado anunciou que as forças conservadoras tornariam o país ingovernável. E cumpriu o prometido. Só que também não foi naquela ocasião que passamos a entender o que estava acontecendo. A gênese de tudo está no aeroporto, quando a socialite começou a encontrar o porteiro do prédio em Paris, e na Universidade, quando o filho preto da empregada pobre começou a dividir a sala de aula com a filha do patrão. (Sobre isso, recomendo “Que horas ela volta?”, filme brasileiro de 2015, dirigido por Anna Muylaert e magnificamente estrelado por Regina Casé.) “A Casa-Grande pira quando a Senzala vira médica”, foi o que disse a estudante Bruna Sena, ao ser aprovada em primeiro lugar para Medicina na USP, vestibular mais concorrido do país. E num país de elite historicamente escravocrata, como é o  nosso, quando a Casa-Grande pira, as consequências podem ser trágicas.

A eleição de um projeto autoritário e com matizes notadamente fascistas, porém, não é fruto somente de uma insatisfação das elites. Acreditar nisso é seguir trilhando o caminho de um erro que já provocou um resultado devastador. É preciso ir além, é preciso olhar para o nosso interior e detectar precisamente o ponto em que começamos a nos equivocar. A avaliação mais precisa do contexto político que se estabeleceu nas eleições deste ano não foi feita por um cientista político e nem por um jornalista, mas pelo rapper Mano Brown. E aconteceu durante um evento do próprio Partido dos Trabalhadores. Ao dizer que o PT deveria voltar a dialogar com as bases, Mano Brown não fez mais do que a crítica que o próprio partido deveria ter feito internamente há muito tempo e que vinha sendo feita, a bem da verdade, por alguns quadros históricos, como Olívio Dutra. Mas da mesma maneira que a dura reprimenda feita corajosamente por Mano Brown às vésperas do pleito não significou que ele estivesse “passando para o outro lado”, ou “dando um tiro no pé”, como tentaram dizer algumas figuras petistas de expressão, também as reflexões de Olívio não o afastaram das lutas democráticas. Pelo contrário, Olívio, do alto de seus mais de 70 anos, esteve engajado de corpo e alma na campanha pró-Haddad e Manuela, e no último sábado esteve de casa em casa em alguns bairros populares de Porto Alegre, fazendo a luta pela “virada”. E as palavras de Mano Brown, que certamente foram extremamente incômodas a quem sempre fechou os olhos para os erros cometidos pelo PT, estimularam a militância a seguir firme na busca por votos possíveis de inversão. Como depoimento pessoal, posso dizer que conquistei alguns votos para a chapa Haddad/Manuela a partir do discurso dele, pois algo que sempre incomodou e irritou os antipetistas é a incapacidade do partido em assumir os seus próprios erros. Quando o partido reconhece que não foi perfeito, as barreiras e restrições começam a ser relativizadas.

Todavia, a coisa toda não se explica somente por essas constatações. Há que se analisar também o caso do antipetismo, que teria levado milhões de brasileiros e brasileiras a eleger Bolsonaro e sua plataforma antidemocrática pela via da exclusão e da rejeição. Essa é uma meia verdade. Fosse a intenção do eleitorado bolsonarista tão somente barrar o PT, havia outras possibilidades, à direita e ao centro, ainda no primeiro turno. Alckmin, Marina, Amoedo e o próprio Ciro eram candidaturas viáveis a combater a ascensão petista, mas foram preteridas em favor de um discurso extremado, que agradou, sim, ao povo ávido por vingança. Eu escrevi vingança. O que pode agradar mais a chamada classe média do que a promessa de poder se vingar de quem lhe ameaça a segurança? E nesse caso, pouco importa se quem promete nada fez pela segurança pública nas últimas trés décadas, mesmo ocupando um cargo político importante. O cidadão mediano, que vive com medo de ser assaltado na rua, é seduzido pelo canto da sereia que representa a possibilidade poder usar uma arma de fogo para se defender. E empolgado com essa ideia, certamente não vai buscar informações sobre o que realmente está por trás dessa conversa, sobre que interesses serão contemplados com isso. Sequer essa pessoa vai se informar sobre o que acontece em países cuja posse e porte de arma de fogo é facilitada, como os EUA. A ele basta sonhar que vai poder dar um tiro na cara do assaltante, afinal, bandido bom é bandido morto. As causas que levaram esse bandido ao mundo da criminalidade também pouco lhe interessam, pois é suficiente que ele esteja morto. Se morrer um inocente, paciência, o próprio Messias já aliviou essa culpa. Ou seja, se há um componente de antipetismo na eleição do capitão, há muito mais do lado Mr. Hyde que habita o interior de cada “cidadão de bem”, que clama por justiça, mas quer ter o mórbido prazer de executá-la com as próprias mãos. Esse é o pensamento de quem reduz a luta pelos direitos humanos a uma defesa da bandidagem e é o pensamento que elegeu um projeto que afirma abertamente legitimar o justiçamento.

Conforme muito bem observou um amigo, Marcelo Cougo, o eleitor e a eleitora de Bolsonaro são as únicas pessoas que acreditam que ele não vai fazer o que prometeu. Isso leva a uma situação surreal, em que o voto é dado pela certeza do não cumprimento das promessas de campanha. Pessoas minimamente politizadas e conscientes votam em candidatos/as na esperança de que cumpram com o que se comprometeram, caso sejam eleitos/as. Algumas até mesmo deixam de votar em qualquer candidatura por entenderem que nenhum/a agente político é capaz ou tem interesse em cumprir as suas promessas. Mas votar num candidato porque ele não vai cumprir o que prometeu parece ser um caso singular na história democrática do Brasil e talvez do mundo. Ao longo da campanha, circularam inúmeros vídeos que mostram Bolsonaro afirmando com convicção as suas ideias de defesa da tortura e de admiração por torturadores, por exemplo. E não foram falas descontextualizadas. Estão aí disponíveis no Youtube. Também é da própria boca do presidente eleito que se ouviu a exortação à expulsão dos adversários políticos do país, assim como a defesa da tese de que o voto não pode mudar nada, que é preciso um golpe e que se for necessário matar alguns inocentes, não tem problema. Não vou me dar ao trabalho de incluir aqui os links para essas declarações, porque é só jogar no Google. O bolsonarianismo, porém, insiste em dizer que não é bem assim, que ele não disse o que disse, embora esteja tudo gravado e registrado, ou que ele disse isso em contexto diferente, ou ainda pior, que ele estava só brincando. Se alguém se dispõe a brincar de elogiar o maior facínora e mais sádico torturador da história do Brasil no momento mais crítico da história política recente do país (o voto no processo de impeachment da Presidenta Dilma), a coisa é ainda muito mais grave.

Com isso quero dizer que o processo que levou Bolsonaro ao cargo político máximo da República não se explica pela ideia simplista do antipetismo, e também afirmo que o próprio antipetismo não se explica pelas próprias mazelas do Partido dos Trabalhadores. Todos esses elementos estão presentes, por óbvio, na eleição de Bolsonaro, mas o que está na origem de tudo é o desejo de vingança, o ódio que o “cidadão de bem” passou a nutrir por tudo aquilo que ele não pode explicar racionalmente, seja por incapacidade mesmo ou por preguiça intelectual. Ao fugir da análise dos fatos geradores das desigualdades sociais e optar por trilhar o caminho fácil da eliminação da “bandidagem”, o eleitorado bolsonarista escancarou a sua face fascista, gostem ou não os meus amigos e as minhas amigas que votaram no B17. A prova de que a luta não é anticorrupção é o elemento que se tornou simbólico dessa cruzada moralista: a camisa da CBF, uma entidade mergulhada na roubalheira e na corrupção. E a prova de que a questão central nunca foi a segurança é a falta (ou omissão) de conhecimento de que o presidente eleito não apresentou sequer um projeto na área da segurança pública em quase 30 anos de atividade parlamentar.

De um lado, então, cabe à esquerda e as forças do campo democrático uma reflexão séria sobre os próprios equívocos, e a união em torno de um projeto de resistência e reconquista do terreno perdido nas áreas sociais, a fim de que o projeto fascista representado pela eleição de Bolsonaro não consiga se consolidar. E ao eleitorado bolosonarista não assumidamente fascista (porque fascismo não se discute, se combate) cumpre fazer uma reanálise acerca do discurso de ódio que motivou a votação em massa na plataforma autoritária de um candidato que, agora eleito, tem sim as condições de cumprir tudo aquilo que prometeu durante a campanha e ao longo da sua trajetória na vida pública. É preciso, em resumo, derrubar alguns mitos para que possamos recolocar o país no rumo de crescimento em que estava há pouco tempo. A minha esperança é que isso não seja um problema muito difícil de resolver, porque, como ouvi muito durante esses últimos tempos, se ficar ruim a gente tira…

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Ideologia, Imprensa, Mídia, Republicados

O chefe mandou*

Estivesse almejando obter grau de doutor, minha tese não poderia ser sobre a imbecilidade do criador da Mulher do Centroavante, posto que já falharia no quesito da originalidade. Também não é a primeira vez que eu falo deste sujeito por aqui. Parei de falar quando parei de ler. Hoje, porém, ao ler de passagem uma manchete do tabloide para o qual o jornalista e “escritor” David Coimbra trabalha, despertou-se a minha atenção, fazendo com que lesse a crônica do distinto “intelectual”.

O título é interessante e já deixa antever o teor do escrito: “A tal da elite branca”. E já começa entrando por cima da bola, pra usar uma expressão no clima da Copa. Diz assim: “Agora inventaram essa história de elite branca. Por favor. Uma das poucas vantagens que o Brasil realmente tem em relação a TODOS os outros países do mundo é a miscigenação. No Brasil, as etnias de fato se misturam, e o fazem com naturalidade.”

Ao dizer que “essa história de elite branca” é criação moderna, o cara que se propôs a escrever a história do mundo desconsiderou completamente a história do próprio país. Ou será que ele pensa que desde os 1500 a elite que dominou o Brasil era negra ou indígena? Ou, ainda pior, imagina o nosso insigne escriba que não há uma elite que domina o país? Pela amostra do pano, já se percebe que o cara escreve exatamente o que o patrão gosta que se escreva.

De acordo com o que diz o David, podemos depreender que aquela velha conversa do paraíso da democracia racial é verdadeira: “No Brasil, todos, japoneses, negros, alemães, anões, cafuzos, mamelucos, índios, brancos, azuis, todos são brasileiros.” O estranho é que um certo candidato ao Senado, talvez não por acaso colega de empresa, disse há poucos dias que há muitos índios que conseguiram evoluir e hoje são trabalhadores respeitados. O seu David contradisse o seu candidato, porque para este o índio precisa deixar de ser índio para ascender socialmente, então não é bem assim essa coisa de que todos são brasileiros.

Logo em seguida, toda a genialidade do cronista aflora, quando ele diz que o verdadeiro problema do Brasil é a discriminação social. Entende-se essa declaração se vinda de alguém que não deveria ter, por obrigação profissional, o dever de saber que a esmagadora maioria de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza no nosso país definitivamente não é da etnia que se pode chamar de branca. E diz ele que o que falta, na verdade, é oportunidade igual para todos. Ora, seu David, o senhor mesmo já se manifestou contrariamente à adoção da política de reserva de cotas com recorte étnico-racial. Decida-se, por favor! Se não há oportunidades iguais para todos, como o senhor mesmo reconhece, algo há que ser feito, certo? E nesse caso as cotas não servem? Parece, seu David, que o senhor quer que as coisas continuem a ser como eram, antes do processo de equalização social que se verifica no Brasil nos últimos anos, que é lento mas eficaz.

Tal qual uma metralhadora giratória, o cronista leva a questão para o futebol, quando também aí vai ser escancarado todo o seu ranço elitista (e não custa lembrar que ele é branco). “O ingresso do futebol é muito caro para o pobre. Oh! O ingresso para ver o Chico Buarque não é barato, nem o do show da Madonna, nem a entrada do cinema. Pelé não ganhava um milhão por mês. Fred ganha. Assim, ver Fred é mais caro do que era ver Pelé.”

Este é o argumento preferido dos que defendem o processo de elitização do futebol, pelo qual os torcedores oriundos das classes sociais menos favorecidas são alijados do direito de ver seu time no estádio: times bons são caros e, portanto, o ingresso deve ser caro. Não quero entrar nessa discussão específica, há muito material que desconstrói impiedosamente essa ideia nas publicações do Povo do Clube. Apenas quero dizer ao seu David Coimbra que o Chico Buarque não costuma fazer shows em estádios para milhares de pessoas, mas em teatros, numa lógica completamente diferente. Ainda assim, já soube de muitas apresentações do Chico a preços módicos e outras tantas com entrada franca. Já a Madonna, que lota grandes estádios mundo afora, proporciona um espetáculo bem diferente e menos frequente do que um jogo de futebol, inclusive com custos de produção muitíssimo mais elevados. Comparação infeliz esta, hein, seu David?

“A elite branca xingou a presidente. Quem garante que pobres e pretos não o fariam? Essa elite branca é ‘branca’ de fato? Existem ‘brancos’ de fato no Brasil? Será que existe mesmo essa divisão, pobres e pretos a favor do governo, elite branca contra? Esse é um governo só para pretos e pobres? Como é que se faz para conseguir um governo para todos?” Bah, seu David, não queria ter de precisar lhe explicar que a expressão “elite branca” é uma figura de linguagem. O senhor sabe disso, por certo, mas o chefe não lhe permite expressar ideia diferente, né? Talvez a dona do Magazine Luiza, que não é preta e nem pobre possa lhe dizer como é que se consegue um governo para todos.

E o seu David considera uma babaquice chamar a presidentA de presidentA e ainda diz que quem não acha isso estranho é um taipa. Caso encontrasse com ele, perguntaria se ele, que escreveu a História do Mundo em tomos, sabe quando a mulher brasileira adquiriu o direito ao voto; e qual a proporção de homens e mulheres em cargos de chefias nas empresas brasileiras; e se para exercer cargos iguais na iniciativa privada as mulheres recebem o mesmo salário que os homens; y otras cositas mas. Fica absolutamente claro que o seu David não entende nada – ou não quer entender – dos processos históricos que formaram a sociedade brasileira, eminentemente patriarcal e branca.

O penúltimo parágrafo escrito na coluna do seu David é um primor de manipulação, que faz um raio-x da maneira como a mídia podre, da qual ele é um expoente, costuma agir. A campanha do TSE, muito legítima, a propósito, visa a estimular a maior participação feminina na política institucional. E ponto! Ver além disso é querer passar uma imagem distorcida para a sociedade.

Sei que o David Coimbra tem sérios problemas de saúde, inclusive está nos EE.UU. Tratando da sua saúde. Não desejo (muito) mal a ninguém, por pior que seja, mas gostaria muito que a doença fizesse este cara refletir se vale mesmo a pena passar a vida, que pode ser bem curta, fazendo as vontades do chefe.

 

 

http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4531321.xml&template=3916.dwt&edition=24583&section=70

 

http://www.opovodoclube.com/

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 20/6/2014.

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Religiões, Republicados

And no religion too…*

… diria um Lennon esperançoso de que um mundo novo pudesse ser construído a partir da imaginação das pessoas e da crença na viabilidade desse novo mundo. No contexto em que está colocada, essa exortação ao abandono da religiosidade pode ensejar a discussão antiga, e para alguns datada, como tudo no marxismo, sobre a religião sendo o ópio do povo. Mas não quero propor esse debate, não pelo menos agora. Nem quero entrar na questão da prática religiosa propriamente dita. Apenas quero pegar uma carona num acontecimento recente pra apresentar algum questionamento sobre a relação entre religião e sociedade, esta última compreendida em sentido amplo, sem deixar de fora mesmo as instituições oficias.

O Brasil é um país laico, embora o preâmbulo da nossa Lei Maior exclua todos aqueles que não acreditam em Deus, eis que esses não estarão protegidos por ele (ou Ele). Não obstante, discussão das mais quentes no Rio Grande do Sul é sobre a retirada dos crucifixos das salas de audiências dos Foros e de outros ambientes públicos. E bota quente nisso, porque a “ala Opus Dei” da magistratura pegou em armas para defender o direito de Cristo de defender a todos que frequentam aqueles ambientes, talvez até mesmo aqueles que acham que ele (ou Ele) nem existiu. Por outro lado, questiona-se a existência de feriados religiosos – leia-se católicos -, como Natal, Páscoa etc. Basta isso para se atestar que o assunto é complexo. E mesmo diante dessa complexidade, na minha opinião, discutido com pouquíssima seriedade. Em qualquer debate são levantados argumentos que não passam de defesas intransigentes de um ponto de vista religioso contra defesas intransigentes de um ponto de vista não religioso. E assim não se chega a lugar nenhum.

Todavia, a influência da religião na sociedade deveria ser discutida com profundidade e, acima de tudo, com seriedade. No âmbito do Congresso Nacional estamos vendo como as questões de natureza religiosa são decisivas nas tomadas de decisões, e temos como exemplo o proselitismo feito pelo Pastor Marcos Feliciano, que se tornou uma das figuras mais importantes e influentes do nosso legislativo. (Usei este exemplo apenas para ilustrar a questão, e por ser ele bastante noticiado, estando, portanto, ao alcance de todos.)

Eis o acontecimento recente de que falei: tem algum tempo, fui preencher uma ficha de cadastro, que no espaço da identificação pedia que eu apontasse a minha religião e dava como opções: católica, evangélica, espírita e outra. A opção “outra”, ao contrário do que se possa imaginar, não era neutra nem genérica, pois em seguida perguntava qual. Deixei em branco. O atendente, ao receber a folha, me alertou para o esquecimento e quando eu disse que fora voluntário ele disse que eu deveria marcar a opção “outra”. De nada adiantou eu explicar que a minha resposta não era “outra”, ele praticamente me obrigou a escolher uma opção. Peguei de volta a folha, marquei a opção “outra” e apontei “ecumênica”. O moço, já de má vontade comigo (depois percebi que ele ostentava por dentro da camisa um vistoso crucifixo de madeira) consultou alguém lá dentro e voltou dizendo que era necessário eu identificar alguma religião.  – Antes que alguém pergunte, o cadastro não tinha nada a ver com qualquer instituição religiosa, mas apenas serviria para que eu recebesse informativos periódicos de um determinado centro cultural em Porto Alegre. – Nesse momento, também eu já estava disposto a complicar as coisas. Peguei a folha de novo, botei um asterisco junto à palavra ecumênica e anotei no verso o seguinte:

“Fui criado em família católica apostólica romana praticante, e coroinha na Igreja das Dores. Só que quando a Igreja de Paulo parou de me dar as respostas que eu queria (teriam as perguntas se tornado mais complexas?), fui me tornando cada vez mais ecumênico.” Exatamente como está escrito na minha identificação neste blog. Mas resolvi não parar por aí, já que o objetivo tinha se transformado por completo numa questão pessoal e o que eu queria a partir dali era encher o saco dos caras tanto quanto eles estavam me enchendo. Escrevi mais isto:

Caso os senhores não saibam, e visando a poupar-lhes o trabalho de consultar o dicionário, ecumênico refere-se a algo que é universal, ou seja, não se restringe, no caso da religião, a um tipo de doutrina especificamente. Assim, tenho grande simpatia com as religiões de matriz africana, por seus rituais e pela musicalidade, principalmente; admiro muito os ensinamentos das filosofias orientais, particularmente do Budismo; acho interessantíssima a tradição judaica, bem como a compenetração islamita; admiro a verve dos pastores protestantes e também alguns aspectos da teologia católica; gosto de ler coisas sobre o Kardecismo, sobre o Xintoísmo, sobre o Santo Daime e já pensei em me converter à Igreja de Maradona; aprecio por demais as consturções melódicas das ragas indianas concebidas em louvor a Vishnu; por vezes canto ou recito mantras Hare Krishna; enfim, sou E.C.U.M.Ê.N.I.C.O. Almejo que tenham me entendido, por supuesto, porque entre as minhas melhores habilidades não está a de deitar ao papel bons desenhos, por isso, se forem eles necessários para vossa compreensão, terei de voltar outro dia com um amigo cartunista que então poderá me ajudar a elucidar a questão.”

Estou reproduzindo exatamente o que escrevi, porque tive o cuidado de copiar num papel, pois sabia que um dia isso me seria útil de outra forma.

Não é preciso dizer que nunca recebi um informativo sequer do tal centro cultural e, pensando bem, não estão tais noticiosos me fazendo falta.

Mas, voltando ao tema, como se explica a preocupação extrema de uma instituição sem caráter religioso com uma questão tão prosaica, a tal ponto de os caras praticamente me coagirem a declinar a minha profissão de fé? Evidentemente a partir de um certo momento estabeleceu-se uma espécie de guerra entre mim e o atendente, um querendo incomodar mais o outro. Entretanto, o fato de ser necessário o apontamento de uma religião, não se admitindo simplesmente a forma genérica “outra”, denota uma importância mais do que normal atribuída a algo que deveria ser tratado dentro da sua esfera, como uma questão de natureza pessoal. No instante em que a informação sobre a prática religiosa passa a ser algo essencial na identificação de uma pessoa, algo está errado. E isso está na base de todo tipo de intolerância que vemos diariamente na nossa sociedade. Ainda não conseguimos avançar o suficiente, na condição de sociedade organizada, para que as questões religiosas recolham a sua importância e influência aos limites estabelecidos pelas áreas de suas práticas e cultos. Não é sequer razoável que em pleno século 21 uma pessoa seja avaliada em qualquer aspecto da sua personalidade ou conduta em função da religião que pratica. E não estou falando apenas de escolhas pessoais no âmbito das amizades, mas de preconceito, segregação, retaliações, favorecimentos e coisas dessa gravidade.

Lembro da polêmica (uma das tantas) arrumada pelo Bisol, quando era Secretário de Segurança no governo Olívio Dutra, ao dizer que a maioria dos magistrados atuantes no Rio Grande do Sul era vinculada à maçonaria. Ele, que é um cara de rara inteligência e desembargador aposentado, explicou em detalhes o que quis dizer, mas mesmo assim os caras queriam a sua cabeça em bandeja de prata (olha a sombra da bíblia aí…).

Vamos refletir um pouco sobre isso, desviando brevemente para outra área polêmica: um cara entra com uma ação judicial contra um clube de futebol e na distribuição o processo vai para um juiz que é torcedor fanático e conselheiro deste clube. Terá o magistrado isenção para julgar a ação? Talvez sim, talvez não. E foi isso que o Bisol quis mostrar. Um juiz maçom, julgando uma ação em que figura como parte um seu confrade, conseguirá deixar de lado os compromissos assumidos na Loja? Possivelmente sim, mas possivelmente não. Como fica, então? Retomando os trilhos da discussão acerca da religião, imaginem como deve se sentir um sujeito que é reu em algum processo e, sendo conhecido ministro de determinada religião afro, no dia da audiência entra na sala e vê um grande crucifixo na parede, outro no peito do juiz, e, não bastasse essa configuração católica apostólica romana estatal, reconhece o advogado do autor da ação como um célebre frequentador de programas de debate na tv, sempre chamado a defender a ideologia da Igreja. Se por um lado ele deve acreditar na metáfora da justiça como uma deusa cega, por outro dificilmente não imaginará que tem pouca chance de ter sucesso na sua defesa. E por aí vai o trem da história, entre erros e acertos, rezas e velas.

Como eu disse no início, o tema é complexo e pode ser discutido amplamente sob diversos pontos de vista. De minha parte, entendo que a religiosidade, ou a negação dela, deve fazer parte das questões subjetivas, encaradas como estritamente particulares de cada indivíduo, manifestando-se de forma coletiva apenas nos espaços reservados para tal. Fora de tais espaços, que o fato do cara ser cristão, ateu, agnóstico, judeu ou o que quer que seja, não exerça nenhuma interferência na sua vida e na maneira como ele se relaciona com a sociedade.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 6/11/2013.

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Amor, Liberdade, Republicados

Ah, o amor…*

No último domingo, eu tive a honra e o prazer de assistir, junto com a minha família, um casamento em Brasília. Não foi um casamento que ainda se possa chamar de comum, eis que de duas MULHERES. Grafo em maiúsculas porque ainda (até quando?) é comum que se usem outros termos nesse caso, como lésbica, machorra, sapatão e por aí vai. Só que mulheres são mulheres e homens são homens, não importa a sua orientação sexual. No caso específico, trata-se de duas mulheres jovens, bonitas, inteligentes, bem sucedidas profissionalmente, de boa família e sólida formação moral. Sobretudo, trata-se de duas mulheres corajosas.

A partir desse evento, que incluiu uma festa nota 100, me permiti algumas reflexões, incentivado, inclusive, por algumas rápidas (re)leituras de “O homem e seus símbolos”, que havia na casa onde ficamos (muito bem) hospedados, pelo que já agradeço às pessoas que nos acolheram de forma tão carinhosa. Pensei sobre o que leva uma pessoa a compartilhar a sua vida com outra, oficializando, por assim dizer, isso através do casamento. Poderia falar em outras formas análogas ao casamento, mas uso uso este instituto porque foi o que ocorreu lá em Brasília, um casamento. Vários fatores motivam um casamento, e, infelizmente, nem sempre entre eles está o amor. As pessoas se casam por conveniências, por interesses financeiros, para manter aparências, por causa de alguma gravidez inesperada, para satisfazer as famílias etc. etc. etc. E, obviamente, muitas vezes por amor. Mas o que leva duas pessoas do mesmo sexo biológico ao altar (e uso altar como uma imagem simbólica, ao gosto do Jung)? No casamento a que estou me referindo, as companheiras (uso este termo porque não sei qual seria  mais adequado) não precisariam ter feito esse procedimento, porque já moram juntas há algum tempo, gozavam já de todos os direitos – embora haja ainda controvérsias – e, principalmente, não escondiam de ninguém a sua condição de casal. Como eu disse, elas são profissionais muito bem sucedidas, portanto uma não depende da outra no aspecto econômico. Então por que elas se casaram? Creio que posso responder sem medo de errar: por amor!

Uma pessoa rica que se casa com outra pobre, em geral sofre preconceito. Da mesma foram com uma pessoa branca que se casa com uma negra. Falo da relação homem e mulher. Acho, porém, que nenhum preconceito dessa natureza é capaz de superar aquele que se estabelece quando duas mulheres ou dois homens se casam. Retomo a pergunta, acrescentando este elemento: se não é por interesse diverso e se é sabido que o preconceito vai ser pesado, por que, então, duas mulheres se casam? Vamos de novo: por amor!

Não quero, neste momento, entrar em discussões maiores, coisas como a possibilidade de adoção por FAMÍLIAS (olha as maiúsculas de novo…) formadas por pessoas do mesmo sexo. Acho importante que se discuta isso, e se alguém quiser propor os temas nos comentários, agradeço. Mas o meu texto tem pretensão próxima bem menor, que é apenas prestar uma singela homenagem a essas duas MULHERES, que tiveram a coragem de praticar esse ato e nos deram a honra, a mim, particularmente, de tomar parte nesse que eu considero um momento de escrever a história. Minha psicóloga comentou sobre o que dirão os nosso netos (meus e da Patrícia), um dia, comentando sobre o fato dos avós terem estado presentes a um dos primeiros casamentos gays (peço permissão pra usar essa expressão) realizados no Brasil. Acho que isso vai ser umas das coisas de que eles poderão se orgulhar em nós.

Obrigado, gurias, por terem nos permitido compartilhar esse momento com vocês. E obrigado pelo enorme carinho que têm pelas nossas filhas, e saibam que com certeza o exemplo de vocês será muito importante pra elas.

 

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 26/6/2013.

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Língua Portuguesa, Linguística, Republicados

O cientista e o…*

Assuntos referentes à língua portuguesa constituem um dos temas recorrentes por aqui. Não tenho habilitação profissional pra falar disso de forma científica, mas quanta gente também não tem e fala mesmo assim? De qualquer sorte, sou um profundo conhecedor da língua falada no Brasil, ou melhor, de uma(s) das línguas faladas no Brasil. Alguns dirão que eu estou viajando, porque, afinal a língua falada no Brasil é uma só, o português (será mesmo?). Outros me acharão pretensioso e arrogante, além de contraditório, afinal eu disse ali em cima que não tenho habilitação pra falar e agora digo que conheço profundamente a língua. Corro, então, a clarear o que eu disse.

Assim como eu sou um profundo conhecedor da língua falada no Brasil (vou deixar assim pra não ficar chato, mas a observação já foi feita e continua valendo), a minha filha, Alexandra, de 4 anos, também é, e o carinha que “cuida” os carros na Getúlio com a Barbedo, igualmente, mesmo que ele já tenha me dito que não sabe ler nem escrever. Quem já leu algum outro texto sobre o assunto por aqui ou, ainda melhor, quem gosta do assunto e já leu alguma coisa escrita pelos grandes linguistas que temos no Brasil, não vai achar nada estranho isso que eu estou dizendo. Mas pra quem não está habituado com isso, dou mais uma clareadinha, dizendo que a diferença entre mim, a Alexandra e o negãozinho da casinha (é assim que ele gosta de ser chamado, porque sempre fica perto de uma casinha de chaveiro) é que eu certamente tenho um léxico um pouco mais amplo e estou mais acostumado a identificar que tipo de linguagem usar em cada ocasião da vida (mais informal entre amigos, mais técnica quando necessário, mais formal em determinadas circunstâncias).

O que eu quero (re)afirmar com este escrito é que a língua é um dos mais importantes e eficientes mecanismos de propagação do preconceito social, seja por conta da classe social, do lugar onde mora e outros fatores determinantes para a exclusão. E isso fica bem claro nos dois textos que eu transcrevo na íntegra a seguir, ambos publicados na (excelente) Revista Língua Portuguesa, da editora Segmento (edição nº 89, março de 2013, páginas 51 E 44-45, respectivamente). O segundo é de autoria de Sírio Possenti, que tem assim definida a sua qualificação no final do texto: Professor Titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Humor, Língua e Discurso (Contexto). O outro é do Jornalista e autor de Língua sem Vergonha (Civilização Brasileira, 2011), Josué Machado. Ao final da leitura dos dois textos, gostaria que fosse feita uma reflexão sobre quem tem habilitação e, portanto, fala com mais propriedade sobre a CIÊNCIA LINGUÍSTICA, não esquecendo que a revista, embora possa ser lida com prazer por qualquer pessoa, pode ser considerada uma publicação técnica, que trata da língua como um objeto científico, da mesma maneira que há revistas específicas sobre a Ciência do Direito, a Ciência da Medicina, a Ciência da Física etc.

Antes, porém, de passar aos textos, quero referir outra matéria surpreendente da revista, que mostra que uma pesquisa feita nos EE.UU. revela que o primeiro fator de atração a ser considerado por um homem quando tem interesse numa mulher é o estado geral dos dentes, e o segundo, pasmem, é o uso “correto” da língua. Dessa reportagem, destaco a fala de um tal Flávio Vianna, citado no texto, paulistano de 41 anos, que assim se manifestou: “Há pouco tempo, conheci uma garota bonita, com um corpo bonito, mas quando abriu a boca foi um desastre. (…) Realmente me incomoda, a ponto de eu sentir vergonha. Vai que um amigo escuta? Ter um relacionamento com alguém que não sabe falar direito é um retrocesso.” De minha parte, acho que o verdadeiro retrocesso é ainda acreditar que uma mulher brasileira, em idade apta a ter um relacionamento amoroso (pelo menos eu espero que tenha idade pra isso) e que, portanto, já precisou se comunicar usando a linguagem milhões de vezes na vida, não sabe falar direito. E retrocesso ainda maior é considerar esse “não falar direito” motivo de vergonha perante os amigos (todos súditos do Napoleão Mendes de Almeida e do Pasquale Cipro, decerto…).

Sem mais delongas, vamos aos textos.

“Aumentos sofrem (seção Dito & escrito). 

Por motivos misteriosos, o verbo ‘sofrer’ aparece em notícias sobre aumentos de preços e outros valores

Por Josué Machado

Em noticiário de rádio, a repórter revela que a milionária avenida Faria Lima ‘é aquela em que o metro quadrado dos edifícios comerciais mais sofreu aumento em São Paulo’. Na TV, a âncora do noticiário lembra que o auxílio-moradia concedido pela prefeitura às vítimas de enchentes ‘não sofre reajuste’ desde 2009. Pelo jornal, sabemos que o então presidente do Supremo, ministro Ayres Britto, enviou ao Congresso proposta de reajuste salarial para o Judiciário; desse modo, quando o reajuste for confirmado, ‘os salários de todos os servidores que recebem o teto salarial vão sofrer aumento‘.

Anunciava-se  mais ou menos na mesma época que o salário mínimo sofreria aumento, mas não se sabia ainda que aumento sofreriam os proventos dos aposentados. Na análise do índice de inflação, tomamos ciência de que o preço do tomate é o que sofreu o maior aumento por causa do excesso de chuvas. (Às vezes é pela falta de chuvas.) Somos lembrados também, por um mestre, de que ‘a língua sofre mudanças com o correr do tempo’.

Por que tanto sofrimento? Que razões levam um redator a estabelecer relação entre aumentos de preços ou salários e sofrimento? Talvez porque aumentos em geral resultem em sofrimento. Ou pagar mais sempre dói ou os aumentos de salários são insuficientes, o que resulta em dor pela impotência de não poder pagar o que é preciso.

Sofrimentos

Em todos os casos, ‘sofrer’ ganha o curioso significado aproximado de ‘ganhar’, ‘receber’. Ou, nas transformações da língua, transformar-se ou mudar passa a ser ‘sofrer’. Por que não usam simplesmente os verbos ‘aumentar’ e ‘reajustar’, ainda que no particípio? Assim: ‘A avenida Faria Lima é aquela em que mais aumentou o preço do metro quadrado dos edifícios comerciais em São Paulo.’

‘O auxílio-moradia concedido pela prefeitura às vítimas de enchentes não é reajustado desde 2009.’

Ou: ‘A prefeitura não reajusta o auxílio-moradia às vítimas de enchentes desde 2009.’

‘Os salários de todos os servidores que recebem o teto salarial serão aumentados.’

‘A língua muda com o correr do tempo’.

Enfim, por que tanto fazem sofrer o coitado do verbo ‘sofrer’?

*Grifos no original.

Bueno, em primeiro lugar, o cara é jornalista e se acha no direito de deitar regras sobre o uso da língua para os milhões de falantes dela. É bem provável (ou não) que ele fale um português castiço, que se usava (ou não também) lá no tempo de Camões. A propósito, essa patrulha gramatical adora citar o português de Camões, mas ou eles não leram sequer “Os Lusíadas” ou são muito cretinos mesmo (eu, particularmente, acho as duas coisas), porque lá no poema tão reverenciado por eles, aparecem como traíra de açude muitas palavras que eles condenam. O pior, nesse caso, é que o cara se contradiz no próprio texto. Ele mesmo sugere (com absoluta razão) que a língua é um organismo vivo, em constante transformação (“Ou, nas transformações da língua, transformar-se ou mudar passa a ser ‘sofrer.’”). Se ele refletisse por um segundo sobre essa própria observação, nem escreveria o texto. E dá como exemplo uma afirmação: “A língua muda com o correr do tempo”. (Grifo no original.)

Ora se a língua muda, o que é reconhecido pelo próprio autor, por que não aceitar a mudança que se verifica com o uso do verbo sofrer em outros sentidos além do original (ou mais comum)?

Então tá, vejamos o que diz o CIENTISTA DA LÍNGUA, Sírio Possenti mais ou menos sobre o mesmo assunto.

“A língua não é dos falantes

Analisar as novas formas linguísticas deveria fazer parte do dia a dia de alunos e professores

Por Sírio Possenti

Três questões devem reger o ensino de gramática. Ao lado delas, outras poderiam ser destacadas, como leitura e escrita. O conjunto formaria a ‘área’ de português, digamos:

a) A variação e a mudança da língua;

b) O desenvolvimentos da capacidade de análise;

c) O domínio da norma.

Começo pela última. Não faria sentido tratar da língua portuguesa na escola, em sociedades como a nossa, se um dos objetivos não fosse que os alunos tivessem, ao fim de anos de trabalho, razoável domínio da norma culta (até variavelmente, conforme seus usos reais). Ou seja: que soubessem escrever textos publicáveis, resumos adequados, cartas a autoridades ou a jornais, relatos / relatórios de viagem, etc.

A melhor maneira de aprender a fazer isso é fazendo, e não estudar gramática ou corrigir listas de erros. É claro que a escrita e a rescrita de textos implica consultar dicionários, gramáticas normativas e manuais de redação, para verificar quais as expectativas ‘sociais’, especialmente em caso de dúvida. Aliás, boas aulas ensinam a ter dúvidas na hora certa.

Variação

Em seguida, a questão da variação e da mudança da língua. Não faz sentido, numa era de domínio da ciência (quando se tenta explicar tudo), que os alunos não possam ter ideia razoável de por que as línguas variam conforme a região, a idade, a escolaridade, eventualmente, o sexo, etc. dos falantes.

Talvez a única verdade indiscutível em relação às línguas é que não são faladas uniformemente por todos. A heterogeneidade social implica, ao menos coocorre, na heterogeneidade linguística – em todas as sociedades! Seria simplificador supor (e impor) uma única variedade, tratando o restante das formas da língua simplesmente como erros. Mas o resultado mais interessante da consideração da variedade da língua é que ela pode ser tratada juntamente com sua mudança. 

Suponha um professor de história que parasse na queda do Muro de Berlim e considerasse que o que veio depois não é história (é erro!). Ou defendesse o correio a cavalo, pois assim D. Pedro I soube das pressões de Lisboa para sua volta a Portugal. Por que a invasão ao Iraque não seria história? E por que excluir o envio de dados pela internet? 

A história do português continuou após Machado ou Graciliano. Ou Camões (que, aliás, escreveu ‘que outro valor mais alto se alevanta’!) e Eça. Se o latim pigritia deu ‘preguiça’, por metátese, e isso não é um erro, nem por isso se deve aceitar que ‘estrupo’ é a forma correta, mas por que não se pode aceitar o processo de formação da palavra, em vez de (por falta de saber do que se trata!) rir dela? Principalmente, por que não se pode aceitar que regências mudaram (como as de ‘assistir’ e ‘preferir’)? Por que insistir nos pronomes ‘o’, ‘a’, ‘os’, ‘as’ como objetos diretos pronominais exclusivos (condenando ‘lhe’ (s) nessa função, se, para citar só um estudo, a tese de que ‘lhe’ substitui ‘o’, ‘a’, etc. foi proposta por Mattoso já em 1957? Mais fundamental: não é uma tese nascida da cabeça de Mattoso, mas dos dados do português do Brasil!

Aliás, o estudo é exemplar: não só atesta o desaparecimento do antigo pronome reto, mas o uso de ‘ele’, ‘ela’, etc. como objeto direto, sem propor que isso seja parte da norma, reconhecendo que é estigmatizado. A recusa em reconhecer os fatos, as novas formas da norma (visto que a forma aparece mesmo em textos de escritores profissionais) é equivalente a não reconhecer a internet, o rock, o DNA, as células, pois estes objetos não estão na história do século 19. 

Menos valorizadas

Ser capaz de analisar as formas novas (usadas por pessoas cultas ou não) deveria fazer parte da capacidade do aluno (ao menos, do professor). Aulas de história falam de globalização; as de física, de átomos. Por que as de português não podem falar de formas dialetais menos valorizadas, nem dar-se conta de que formas do século 16 deixaram de existir e as novas estão nos textos dos literatos, que as gramáticas dizem que são suas fontes? Como se pode dizer que ‘Tinha uma pedra’ (no meio do caminho) é erro de português, assim como ‘Joga-se os grãos’ (na água do alguidar), se tais formas estão em Drummond e Cabral – embora não sejam suas criações, mas amplamente usadas pelos que tomamos por cultos?

Em terceiro lugar, é importante aprender a analisar, a observar dados com alguma sofisticação. Aceitar – só porque alguém lhe disse – que ‘o’ e ‘orelhudo’ são adjuntos adnominais de ‘cão’ em ‘O cão orelhudo’, em vez de dizer que ‘orelhudo’ é um adjunto adnominal de ‘cão’ e ‘o’ é adjunto adnominal de ‘cão orelhudo’, é renunciar às capacidade de observação. (sic) 

Análise

Aceitar sem discutir que ‘Livro para mim ler’ é erro porque ‘mim’ não pode ser sujeito, sem dar-se conta que nunca se diz ‘mim vou/vai’ nem ‘lhe vai/vem’, etc., é só engolir ou decorar uma norma.

Deve haver explicação para o fato raro. Provavelmente, decorre de que o falante ‘analisa’ ‘Livro para mim’ e ‘Livro para mim ler’ como casos em que ‘eu’ está no escopo de ‘para’, preposição que rege objeto indireto. Por que, ao se tentar eliminar tal ‘vício’ (!), nunca se leva em conta construções parecidas, como ‘Tenha dó de mim’ e ‘Hoje é dia de eu pagar’? A forma ajudaria a compreender porque a norma espera ‘para eu sair’.

Aprender a analisar (tanto estruturas de acordo com a norma quanto as descriminadas) ajuda a entender porque umas não devem ser usadas em certos tipos de texto: não é que estão erradas (a história da língua mostra qual o seu lugar); é que não são bem avaliadas. E por isso, dependendo do tipo de texto, devem ser incluídas, como o fizeram e fazem os melhores escritores.”

(Grifos no original.)

Este último eu não vou comentar, porque fala por si próprio.

O que acham?   

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 26/3/2013.

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Cultura, Educação, Republicados

Dr. Vestibular, Médico Obstetra*

Dia desses, conversava com duas gurias, mães de dois coleguinhas de escolinha da Alexandra, minha filha mais nova, e elas perguntavam sobre o colégio das minhas filhas mais velhas, Vitória e Paula. A Vitória, inclusive, participava da conversa. Lá pelas tantas, a pergunta que não quer calar: como é o colégio na preparação para o vestibular? Notei uma certa dificuldade da Vitória para elaborar uma resposta que satisfizesse à questão. Recorte no tempo, anos 70 e 80, minha época de colégio: o importante era  estudar muito para poder… passar no vestibular.

Ali pelos anos 70, creio eu, não tenho informações precisas, começaram a surgir os cursinhos preparatórios para o vestibular. Por motivos, dentre os quais o principal não era passar no vestibular, em 1992 eu fiz um ano no Unificado. Pra rir um pouco serviu. Os professores eram engraçados, em geral. Até o grande Luiz Roberto Lopes fazia palhaçada na aula. Na prática, salas com mais de 100 alunos, fórmulas mágicas pra aprender a marcar o x no lugar certo, ditados enfadonhos do professor Cláudio Moreno (não sei se naquela época ele já era doutor), e no mais, festa e festa. Produção ou estímulo ao conhecimento, que é o que se espera de um ambiente estudantil: ZERO!

Na época em que as pessoas viviam até os 60 e poucos anos, 70 com sorte e pouca saúde, cunhou-se a máxima que a vida começa aos 40. Pois a conversa que eu referi no início me levou a repensar essa ideia. A vida, na verdade, começa no vestibular. Tudo o que se faz antes dele não é mais do que uma grande gestação à espera do grande momento, o nascimento para o mundo. O vestibular é o grande obstetra, aquele de cuja perícia e habilidade depende o ingresso da pessoa, geralmente pouco mais do que uma criança, no mundo real. Toda as experiências de vida anteriores serviram única e exclusivamente para o preparo necessário ao seu enfrentamento. O Colégio Militar ainda hoje é visto como um dos que tem o melhor ensino, afinal, seus alunos invariavelmente vão muito bem… no vestibular.

No mesmo ambiente da conversa que eu falei no início, outra guria dizia estar muito descontente com a escolinha, porque a filha de 4 anos não sabia contar até trinta. Mas qual é a importância para uma criaturinha linda e fofa de 4 anos, cuja preocupação central da vida deve ser brincar, de saber contar até trinta? Ah, claro, isso vai facilitar as coisas… no vestibular.

Olha, antes de seguir em frente, quero dizer que essas mães que eu falo aí são excelentes, como mães e como pessoas, e digo isso sem conhecê-las com mais intimidade, mas não é muito difícil reconhecer as pessoas “do bem”. O problema, portanto, não é com elas, é com quase todas as pessoas que têm filhos e que pensam, com certa razão, na formação superior como uma garantia de vida melhor para eles. O problema, indo mais a fundo, é com o sistema de ensino, e, ainda mais na raiz, com o sistema – não queria cair nessa discussão, mas é inevitável – capitalista.

A produção e a disseminação do conhecimento tem, no modelo instituído da sociedade ocidental, uma importância secundária, desde que o sujeito seja capaz de ter sucesso na vida. E o que é ter sucesso na vida? Ter um carrão importado, muitas vezes antes mesmo de uma casa, frequentar os lugares da moda, usar roupas descoladas e por aí vai. Na busca frenética desse objetivo, a faculdade, e hoje todas as pós que vêm depois da graduação, tem um papel decisivo. E qual é a porta de entrada para esse “mundo de Malboro”? Ninguém menos do que o doutor vestibular, o nosso obstetra de plantão.

No sistema moderno de educação básica, quando um jovem atinge os 16 ou 17 anos, ele passou no mínimo 12 desses preciosos anos nos bancos escolares. Isso sem contar o tempo de escolinha infantil. Depois desse tempo todo, transcorrido nas fases mais importantes do desenvolvimento psíquico e social de uma criatura, se ela for capaz de marcar os xises no lugar certo, será considerada uma vencedora. Se não der, bom, tenta ano que vem, quem sabe faz um cursinho… Ou seja, se a pessoinha chegar nessa fase da vida sem saber escrever duas linhas com coerência (os TCCs que se vê – se veem, diriam os gramáticos de plantão – por aí…), mas entendendo que a fórmula de báscara e a conjugação do verbo vir em todos os tempos e modos vai lhe abrir as maravilhosas portas da felicidade (com a devida licença ao senhor Senor Abravanel), está tudo ok. O nosso jovem estudante, candidato a uma vaga na faculdade, não precisa saber que o Darwin não disse exatamente que o homem descende do macaco, desde que ele saiba calcular com precisão a velocidade e o tempo que levarão para se chocar os vetores que vêm em sentido contrário, num movimento retilíneo uniforme. Não estou desmerecendo os conhecimentos de Física, nem de Matemática. Queria eu saber essas coisas. Só que eu acho que o mais importante é que um jovem que está apenas na sua segunda década de vida entenda o porquê de saber essas coisas todas e se elas são realmente necessárias. Ninguém vai conseguir me convencer que um carinha que quer fazer Direito tenha a obrigação de saber fazer cálculos de geometria espacial. Ah, mas e o vestibular? Pois é…

Uma das maiores crueldades que se pode fazer com uma pessoa é obrigá-la, aos 17 ou 18 anos, a fazer uma opção que pode comprometer-lhe a vida. Há casos de guris e gurias que terminam o segundo grau, opa, o Ensino Médio, sabendo exatamente que querem ser médicos, dentistas, advogados, engenheiros etc. (Por que tão poucos pensam em ser professores?…) A maioria, porém, como é de se esperar, não tem muita certeza do que quer ser na vida, profissionalmente falando. Conheci uma senhora, cuja filha estava se formando em medicina aos 25 ou 26 anos. Antes disso, ele cursou até o último semestre de odonto. Acontece o seguinte: ela terminou o colégio com 15 ou 16 anos e queria medicina, mas não passou no… vestibular, e no mesmo ano, por pressão do pai (ah, esses pais…) fez pra odonto e passou. Lá em Passo Fundo. No último semestre, ela largou e foi fazer medicina, sendo que nesse segundo (ou terceiro) vestibular ela já tinha na bagagem a maturidade de ter passado alguns anos na universidade, o que certamente ajudou na prova. Perguntei, ingenuamente, porque ela não tinha terminado a odonto, assim poderia ter duas faculdades. A resposta era óbvia: ela não queria odonto, mas caso se formasse, a pressão seria muito forte para ela montar consultório e levar a carreira em frente, com a frustração de não ter perseguido o seu sonho.  Não deve se desconsiderar o fato de que ela é de família com boas condições, então não teve maiores dificuldades em protelar por algum tempo a entrada no mercado de trabalho. Mas o que interessa no caso é que ela teve coragem de romper com um estrutura pré-estabelecida, que fez com que entrasse num curso que não queria, no auge da juventude, apenas para agradar o pai. Quantas histórias dessas há por aí? E quantas têm um prosseguimento diferente, porque nem todas as famílias (aliás, poucas) têm condições de manter um filho na faculdade esse tempo todo. E o pensamento que vige é mais ou menos este: “se chegou até aqui, segue esse caminho.” Geralmente quando o cara erra na escolha, coisa mais fácil do mundo aos 17 anos, mas vai em frente, está fadado a se revelar no futuro uma pessoa frustrada, amarga, que não gosta e, portanto, não executa bem a sua atividade profissional, ou, mesmo que execute, não tem nenhum prazer nisso, mas que, por inúmeras circunstâncias, se vê incapaz de virar o jogo.

Submeter uma pessoa que recém está saindo dos cueros (oigalê!) à tortura de ter que competir com outros milhares de jovens por uma vaga na faculdade, que hoje pouca garantia pode dar de um futuro melhor, é desumano. Quanto mais se pensarmos que o aluno em questão pode saber muito de todos os conhecimentos que lhe serão exigidos, mas pode ter problemas de tensão (o famoso branco) ou pode estar num dia menos inspirado, ou, enfim, pode sofrer qualquer coisa que lhe impossibilite, às vezes por um único xisinho marcado no lugar errado, de realizar naquele momento o sonho, que geralmente é mais dos pais do que dele próprio. Vai daí mais um ano de preparação para… o vestibular. Isso se o carinha não jogar tudo pro alto ou resolver optar por um curso mais fácil de entrar. Nem falei ainda do fato de que os inefáveis cursinhos ensinam, também, algumas técnicas infalíveis para chutar certo, o que é o reconhecimento da ineficácia e da falência desse sistema nefasto, pelo qual alguém que simplesmente tenha mais sorte pode, num sublime ato de quase fraude, ser bafejado pela fortuna.

Meus amigos, eu defendo uma mudança radical nos conceitos (alguns preconceitos) que temos acerca do ensino. Precisamos entender que uma pessoa está aprendendo a pensar desde que sai da barriga da mãe, pelas mãos do obstetra (o de verdade, não o vestiba) ou da parteira. Assim, se ela for estimulada e pensar de verdade, não tenho nenhuma dúvida de que vai tirar o vestibular de letra. (Se bem que espero que daqui há alguns anos esse troço de vestibular desapareça.) Do contrário, se ela tiver o seu desenvolvimento voltado fundamentalmente para disputar uma prova, as coisas podem se complicar.

Urge que estimulemos as nossas crianças e jovens a ver o mundo para além de uma grade de respostas. Ao procurarmos um colégio para os nosso filhos, fora as condições materiais implicadas, que muitas vezes restrigem a escolha, afinal, por aqui ensino de qualidade é quase sempre sinônimo de mensalidades exorbitantes, é preciso que nos desapeguemos (como é difícil a prática do desapego…) da ideia fixa de que os professores devem prepará-los para o sucesso no vestibular. Vamos pensar que o nosso bebê (é quase isso que eles são quando entram no colégio) vai passar vários anos da sua vida atrás de uma classe e nesse tempo todo é muito importante que ele aprenda algo a mais do que o vestibular vai lhe exigir. É preciso que ele aprenda a se expressar, se comunicar, é preciso que ele aprenda a respeitar as diferenças entre as pessoas, é preciso que ele aprenda que um gari exerce uma profissão digna (né, seu Casoy?) e que o fato dele, o gari, não ter cursado uma faculdade (embora possa tê-lo feito, por que não?) não o transforma numa pessoa inferior, é preciso, falando de uma questão mais prática, que ele, o (ex) bebê, chegue no final dos doze anos de estudo conseguindo escrever um texto capaz de transmitir com clareza o que ele pensa (alguns “erros” de português nesse caso são perdoáveis…) e, de preferência, que o que ele pensa reflita o desejo de construir uma sociedade melhor para todos, mesmo para aqueles que não conseguiram passar… no vestibular.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 2/12/2012.

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Jornalismo, Linguística, Política, Republicados

Manual do preconceito*

David Coimbra é um respeitado jornalista da capital dos gaúchos e, numa sociedade cada vez mais globalizada, porque não dizer, do mundo. Além disso, ele é um consagrado escritor, autor de obras seminais da cultura brasileira, como a “A mulher do centroavante” e outras histórias. Por falar em história, o nosso erudito personagem mostra-se também um grande historiador. O primeiro tomo da sua “História do mundo” é um dos títulos mais vendidos da 58ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre. De acordo com os veículos de informação da… RBS, o livro do David (interessante trocadilho para um livro que se propõe contar a história do mundo) divide o topo das listas das obras mais procuradas, ao lado dos manuais de culinária, seleções de crônicas, manuais de auto-ajuda e outros essenciais volumes produzidos por escribas de escol, em geral funcionários ou colaboradores da… RBS.

Bueno, na última sexta-feira, o multifacetado Coimbra resolveu mostrar ao público alguns outros atributos que o distinguem no panorama da crônica sul-americana. Na página 2 da edição de 9 de novembro do jornal da… RBS, o espetacular David mostra que entende de sociologia, antropologia, ciência política, linguística… me perdoem se deixei escapar algo, mas é que tamanha erudição me confunde.

O fabuloso David entendeu por bem analisar a recente eleição norte-americana (tá bem, estadunidense, como quer a patrulha do politicamente correto, afinal o Canadá também fica na América do Norte – e o México?…). Com uma capacidade de síntese só possível aos gênios da raça, o extraordinário David comparou os “fenômenos” Lula e Obama. Já pelo título pode-se verificar que o elogio ao ex-presidente brasileiro é a tônica do escrito: “Lula é maior do que Obama”. Façamos uma análise dos elementos que sustentam, na visão do inatingível Coimbra, essa supremacia da pobreza tupiniquim.

“Olhe para esse Barack Obama. Observe como ele se movimenta, como pisa num palco com segurança e mira a plateia com serenidade, até com alguma superioridade. Ouça-o discursar, escandindo bem as sílabas e virando a cabeça para um lado e para outro, demonstrando domínio absoluto do ambiente. Esse homem elegante, reeleito presidente dos Estados Unidos, ele não está nesse cargo por condescendência. Ele não foi eleito e reeleito por ser negro. Não. ele foi eleito reeleito porque era o melhor candidato.”

Já aqui se observa que o maravilhoso David conhece a fundo a política dos ianques, a ponto de definir de forma peremptória que Obama era o melhor candidato. Domina também a mente do eleitorado norte-americano, pois sabe as razões pelas quais não só Obama foi reeleito, como também porque assumiu o primeiro mandato. Quisera que os nossos cientistas políticos tivessem esse poder de análise…

Adiante:

“Com sua políticas de ações afirmativas, com suas leis de equilíbrio social, os Estados Unidos deram condições a negros como Obama de estudar nas melhores escolas (…)”

Ôpa! Ações afirmativas são boas? Mas em “Do contra”, o progressista David diz: “Sou contra as cotas raciais nas universidades.” (http://wp.clicrbs.com.br/davidcoimbra/?s=cotas&topo=13%2C1%2C1%2C%2C%2C13) Na mesma crônica: “A cota racial é bemintencionada, mas gera ainda mais preconceito e discriminação.” Não entendi, DOUTOR Coimbra, cota racial é bom e permite que negros estudem nas melhores escolas, ou não é? Para não me deixar na mão, o ilustrado David explica tudo mais adiante:

“O Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, é um país miscigenado e de elástica tolerância racial.”

O inteligentíssimo David consegue contraditar as ideias de gente como o psicanalista Contardo Callligaris:

“Em meus primeiros contatos com a cultura brasileira, acreditei inevitavelmente ter encontrado o paraíso de uma democracia racial. (…) Mas essa sensação inicial não demorou muito tempo, pois logo tive a oportunidade, ao me estabelecer no Brasil, de analisar alguns pacientes negros. Bastou para descobrir imediatamente que minha impressão de uma paradisíaca democracia racial devia ser perfeitamente unilateral. (…) O mito da democracia racial é fundado em uma sensação unilateral e branca de conforto nas relações inter-raciais. Esse conforto não é uma invenção. Ele existe de fato: é o efeito de uma posição dominante incontestada. (…) Sonhar com a continuação da pretensa ‘democracia racial brasileira’ é aqui a expressão da nostalgia do que foi descrito antes, ou seja, de uma estrutura social que assegura a tal ponto o conforto de uma posição branca dominante, que o branco – e só ele – pode se dar ao luxo de afirmar que a raça não importa.” (CALLIGARIS, Contardo. “Notas sobre o desafio para o Brasil.” In: Anais do Seminário Internacional “Multiculturalismo e racismo: o papel da Ação Afirmativa nos estados democráticos contemporâneos.” Brasília: Ministério da Justiça/Secretaria Nacional de Direitos Humanos, 1997. p. 243-245.)
E gente como o ex-presidente de Moçambique, Joaquim Alberto Chissano:

“(…) E quero destacar um ponto que até pode ser polêmico mas eu sempre gostei de dizer coisas chocantes, inclusive para os meus colegas brasileiros presidentes da República e ministros das Relações Exteriores. Dessa forma, tenho ouvido que o Brasil é um país multirracial, um país onde não há racismo, um país de igualdade, onde cada habitante se sente com sangue brasileiro. Porém, muitas vezes me senti incomodado com essas expressões pois me pareciam não corresponder à realidade. A primeira vez que aqui estive, fui a Bahia e lá vi muito negro na rua, vi muito negro no mercado e Salvador me pareceu uma parte da África. Depois, tive encontros, reuniões de ‘business’ e senti-me, de novo, na Europa. Lá não vi nenhum negro, não senti a igualdade, o sangue brasileiro estava camuflado.” (“Cooperação África e Brasil no âmbito da nova parceria para o desenvolvimento da África (NEPAD): aula magna UFRGS 2004/ Joaquim Alberto Chissano”. – Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.)

Mesmo a Procuradoria-Geral do Estado do RS não deve ter nenhum findamento na sua análise:
“Mesmo dentro das margens de maiores desigualdades em que também pessoas brancas são abarcadas, as pessoas negras são as mais inferiorizadas, as mais discriminadas e as que estão submetidas às maiores desigualdades.” (Carlos César D’Elia, Procurador do Estado, Coordenador da Comissão de Direitos Humanos da Procuradoria-Geral do Estado do Rio Grande do Sul. Parecer nº 15.703/PGE, 16/03/2012. www.pge.rs.gov.br/upload/estudosdireito1[1]cotasraciais.pdf.)
 
Mas, afinal, quem são esses reles mortais diante do luminar David?… A eles a resposta simples e direta, como convém aos gênios: “O Brasil (…) é um país miscigenado e de elástica tolerância racial.”
 
Ok, voltemos à vaca fria. Notem a consistência da análise sociológica proposta pelo incorrigível Coimbra:
“Há racismo no brasil, claro que há, em toda parte do mundo há racismo, mas o grande drama do brasileiro é a discriminação social.”  Espanta-me a profundidade…
Creio que para dizer isso com tanta segurança o impoluto David fez exaustivos estudos que mostraram que uma coisa não tem nada a ver com a outra, que um negro rico é tratado da mesma forma que um branco rico em qualquer situação e que um negro pobre tem as mesmas chances de ascensão social que um branco pobre. Ele também certamente visitou os bairros de classe média e alta e os de classe baixa de Porto Alegre e de inúmeras outras cidades brasileiras, atestando que na favela a quantidade de brancos é igual ou semelhante a de negros, o mesmo acontecendo nas zonas elitizadas e em relação à população carcerária. Realmente, me perdoem a redundância, mas este fenomenal David é mesmo um fenômeno, pois com todas as suas atribuições de jornalista, escritor, historiador, etc., etc., etc., ele ainda consegue fazer pesquisa de campo…
Agora vejam o primor de análise social que abençoado David faz nesse raio-x do ex-presidente:
“Por isso Lula é um herói. Porque Lula venceu, e continua vencendo, a discriminação. Lula foi torneiro mecânico, perdeu um dedo na prensa, fala errado, bebe cachaça. Lula é um pobre, sempre será um pobre, mesmo que esteja rico.”
 
Antes de qualquer reflexão sobre o que foi escrito, proponho-me a reescrever as afirmativas e desafio alguém a apontar alguma diferença semântica entre as duas:
Lula venceu a discriminação. Apesar disso, continuará sempre a ter uma alma de pobre, porque foi torneiro mecânico, não sabe falar e é um bêbado. Assim, por mais dinheiro que possa vir a ter, Lula não abandonará o estigma da pobreza.
E aí, são diferentes as duas afirmações?
Agora façamos o mesmo exercício a partir de uma generalização:
Todo pobre tem alma de pobre, não sabe falar e bebe cachaça, por isso, salvo se for um herói, não conseguirá ir além do trono mecânico.
Não me parece nenhum absurdo esta última interpretação, nem a primeira.
Agora vamos esmiuçar a declaração original:
“Lula venceu , e continua vencendo, a discriminação.”  A que discriminação, eminente David, te referes? Àquela que tu afirmas não existir, já que o Brasil possui “elástica tolerância racial”? Ou àquela que parece emanar das tuas palavras, ainda que de forma velada, quando sugeres, me parece de forma inequívoca, que pobre fala errado, bebe cachaça, não pode ser mais do que torneiro mecânico, salvo, é claro, se tiver poderes típicos de herói, como o ex-presidente?
Te pergunto, ilustre Coimbra, se Lula fosse um bebedor de tintos de boa data, como gostam de dizer os apreciadores da nobre bebida, dirias “Lula bebe vinho”? Se Lula não fosse eternamente UM pobre, e é importantíssima a conotação definitiva que este “um” confere à afirmação, verias algum problema no fato dele ser apreciador da bebida típica do Brasil, tanto quanto o champanha é da França? Se Lula operasse um torno mecânico por diletantismo, com a intenção, por exemplo, de criar peças para coleções de escultura, isso faria dele um herói?
Ilibado, David, achas mesmo que alguém que fala “errado”, portanto desconhece até mesmo os rudimentos de sua língua materna, conseguiria alcançar o posto de primeiro mandatário por duas vezes, igualzinho ao negro Obama, que referes no teu texto, quem, inclusive, chamou o eterno pobre, bêbado e iletrado Lula, de “o cara”?
A propósito, cientista David, poderias declinar, à luz da Linguística, que elementos te levam a afirmar que Lula fala “errado”? Acaso o povo brasileiro e as seletas audiências para quem o ex-presidente palestra mundo afora têm alguma dificuldade de entender o que ele diz? Considerando que a fala “errada” de Lula é igual ou muito semelhante a de milhões de brasileiros, que por ela se comunicam desde o nascimento e continuarão se comunicando até a morte, salvo algum acidente, não seria equivocado, creio eu, concluir que tu achas que esses milhões de CIDADÃOS, ricos ou pobres, que têm na língua portuguesa o seu maior patrimônio imaterial, falam “errado” e, portanto, não dominam a sua LÍNGUA MATERNA, certo, prócer Coimbra?
Senhor David Coimbra, todas as qualidades elencadas ao longo deste texto, a sua condição de patronável da Feira do Livro, o fato de ser o senhor um dos autores mais vendidos, ao lado, repito, de colegas seus de… RBS, não lhe outorgam o direito de fazer sugestões notadamente preconceituosas nas páginas de um jornal que, para meu desgosto, é um dos mais lidos do Rio Grande de São Pedro.
Senhor David Coimbra, sugiro que o senhor faça uma revisão acerca dos seus conceitos de preconceito, democracia racial, heroísmo, entre outros. Ou, caso não queira, que assuma definitivamente aquilo que salta aos olhos como uma manifestação típica de preconceito e sectarismo, que lhe permite achar, por dedução minha a partir do que o senhor escreveu, que todos os brasileiros pobres são e continuarão sempre a ser bêbados e iletrados, salvo se agraciados com algum poder heroico.Veja que eu não estou lhe acusando de preconceituoso e sectário, mas apenas dizendo que o senhor escreveu algo que me parece ter alto conteúdo de preconceito e sectarismo.

Saia do armário, senhor David. Tantos já o fizeram e continuam fazendo. É mais bonito (ou menos feio). Preconceito velado não lhe fica bem, a não ser que, além de tudo, o senhor considere todos os seus leitores um bando de imbecis, incapazes de interpretar as suas palavras…

 

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 10/11/2012.

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