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A panela, o prato e a hipocrisia programada – parte 2

Com a marcha fascista em pleno curso, é preciso se ater a certos detalhes pra compreender a lógica do esquema. As panelas baratas que soavam sem ritmo nenhum pra derrubar umA PresidentA não lograram êxito pra derrubar UM presidentE. Entretanto, um prato, usado com ritmo perfeito e altamente refinado, escancara a hipocrisia e a falta de cultura da gente batedora de panelas.

Caetano Veloso fez a sua live, junto com os filhos. Quem já teve oportunidade de ver ao vivo Caetano e os Filhos sabe que essa é uma experiência inesquecível. Pois um sujeito lá, que eu não sei quem é, achou que o prato e faca que Moreno usou de forma magistral, na melhor tradição dos sambas dos bambas, era algo inusitado e cômico e tratou o caso como uma improvisação pela falta de instrumentos. O texto da infeliz e ignorante observação é:

“um dos momentos mais inusitados e cômicos aconteceu em ‘Pardo’, quando Moreno Veloso, na falta de instrumentos, usou um prato e um talher para fazer o som. Quem sabe faz ao vivo, não é?”.

O sujeito que escreveu isso ainda se valeu de uma referência ao “glorioso” Fausto Silva, que quando quer puxar o saco de algum/a artista que se apresenta no programa solta esta bobagem: “quem sabe faz ao vivo”.

Caetano desvelou a imbecilidade do comentário, que tratou como ignorância inacreditável: https://www.blogdoarcanjo.com/2020/08/12/ignorancia-inacreditavel-diz-caetano-de-artigo-da-rolling-stone-sobre-sua-live/. Foi elegante, porque ignorância é desconhecimento e o que está por trás disso vai além de desconhecimento, embora também o seja.

A Rolling Stone, que é uma das mais conceituadas revistas de música do mundo, se retratou: https://rollingstone.uol.com.br/noticia/6-melhores-momentos-da-live-de-caetano-veloso-bronca-nos-filhos-tributo-moraes-moreira-e-mais/

Mas o que está nas entrelinhas do comentário qualificado pelo Caetano como de inaceitável ignorância e qual a relação disso com as panelas?

O próprio Caetano tratou de contextualizar as coisas e trazer um pouco de conhecimento ao comentador engraçadinho e espirituoso, mostrando que prato e faca é um instrumento ligado às raízes da música brasileira. Neste documentário https://www.youtube.com/watch?v=ZXJEMg5vT40 é possível ver, entre outras maravilhas, o grande João da Baiana, tocando prato e faca, acompanhado por um violonista, um certo Baden Powell. Se alguém ver comédia nisso, o caso não tem mais solução…

A música brasileira tem raízes fincadas no lado de lá do Atlântico, em terras africanas, e tendo isso em mente começa a se tornar um pouco mais clara a relação entre o comentário da Rolling Stone e a história racista que acompanha a formação e a evolução do nosso país, particularmente no que diz respeito à involução dos últimos anos. Vamos esmiuçar um pouco mais essa coisa, esse racismo brasileiro, que por ser estrutural é absorvido e normalizado, fazendo com que se torne velado.

O Chico César, grande compositor, cantor, ativista, de forma genial criou um samba, cheio de sutilezas:

nasceu pra lavar prato e está tocando prato na tv
edite o prato

o prato não pode aparecer
nunca no sentido estrito
menos ainda no sentido lato
isso é coisa do brasil mulato
que a gente quer esconder
edite o prato
o prato não pode aparecer
o prato batucando vazio
é a metáfora do brasil
da incessante fome e o cio
que bota tudo a perder
edite o prato
o prato não pode aparecer

Reparem na diferença: o Chico César faz um trocadilho com a Dona Edith do Prato, conterrânea de Caetano, que gravou com ele no experimental (e fenomenal) Araçá Azul, de 1973, já dividiu o palco do Teatro Castro Alves com o próprio Caetano, Chico Buarque, MPB4, e era uma monumental tocadora de prato e faca. (Aqui a maravilhosa Mariene de Castro fala nela e explica a técnica que ela usava pra preparar o INSTRUMENTO prato e faca: https://www.youtube.com/watch?v=d1F2RPoAC3c.) E o cara da Rolling Stone citou… o Faustão. É, Raulzito, falta cultura pra cuspir na estrutura…

Mas por que o prato tem que ser “editado”? Simples, porque ele representa o Brasil Mulato. E o que é esse Brasil Mulato? Será que o Chico César não sabe que o termo mulato é pejorativo, que tenta associar um determinado ser humano a um animal híbrido, resultado do cruzamento “artificial” do asno com a égua? Garanto que sabe. E justamente por saber é que ele falou em Brasil Mulato e não em Brasil Negro. Por que o Brasil Negro é um país que se quer apagar (ou branquear), que não pega bem lá fora, então fica melhor dizer mulato, que tem a ver com a democracia racial, com a convivência pacífica, harmoniosa e amorosa das raças que formaram este Brasil brasileiro, mulato inzoneiro. O que o Chico usou de forma irônica e como uma sutil figura de linguagem escancara um recurso ideológico que sustenta desde os primórdios do século 20 o racismo que estrutura a nossa sociedade. Ora, se a gente diz que o Brasil é um país mulato e a gente sabe que a mula é a cruza de dois bichos diferentes, de raça pura, mas capazes de se misturar a ponto de gerar um outro ser, isso mostra que o povo brasileiro também é a cruza de “bichos” diferentes, mas que se amam, se cruzam e geram um outro “bicho”, que não é puro, mas que simboliza a união das raças, que, no fim das contas, não tem raça nenhuma (raça humana, lembram?). Não é isso que nós queremos? Mostrar que no Brasil não há discriminação de cor nem de raça? Que somos formados por essa mistura linda de gentes diferentes? Então este é um país mulato. E o Chico César, negro que é, conhece essa retórica, claro que conhece. E sabe que ela é mentirosa. E com a sua genialidade transformou isso num “sambinha despretensioso”, tocado provavelmente no quintal de casa, sem camisa, entre pessoas amigas: https://www.facebook.com/marcelodalcom/videos/10223435963995742

Está posto, então, o paradoxo brasileiro. Ou melhor, um deles. O mesmo país que usa panelas pra derrubar uma Presidenta, mulher, e que é incapaz de fazer o mesmo com um Presidente, homem, afirma publicamente que um cara toca prato e garfo em rede mundial pra criar um efeito cômico na live (ou porque a produção não providenciou instrumentos adequados). E antes que alguém diga que um infeliz comentário de uma única pessoa não pode representar o pensamento de uma nação, lembro que a hipocrisia se programa e é programada.

*Imagem de destaque copiada do site http://pitayacultural.com.br/musica/o-prato-a-faca-e-os-ingredientes-desconhecidos/, consultado em 3/9/2020.

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Política

A panela, o prato e a hipocrisia programada – parte 1

O Brasil (BraZil?) é um país estranho. Recentemente a panela virou instrumento político. Ou dito de outra maneira, ideológico. Uma bateção de panelas sem nenhum ritmo foi a forma de manifestação encontrada pela classe média brasileira, essa entidade tão esquisita quanto o próprio país, para derrubar uma Presidenta da República. A Presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita para o seu segundo mandato, o quarto do Partido dos Trabalhadores, era a representante de um processo de implementação de políticas sociais no governo federal. Isso é fato inconteste que as elites – as genuínas e as que sonham em ser – teimam em contestar. Para maiores informações, sugiro a leitura do livro “Dez anos que abalaram o Brasil. E o futuro?: Os resultados, as dificuldades e os desafios dos governos de Lula e Dilma”, do Economista e Professor João Sicsú, lançado em 2013.

Percebam que eu não estou qualificando os governos petistas como Socialistas ou Comunistas, mas sim governos que implementaram políticas sociais importantes, o que é bem diferente. Tais políticas sociais deslocaram uma expressiva parcela da população do contexto da iminência da morte por fome para uma condição um pouco mais digna. Nova condição que estava ainda longe da ideal, por óbvio, mas ao menos um pouco mais distante da miséria absoluta e da total falta de perspectiva. Por conta disso, na época dos panelaços criou-se uma figura interessante: as pessoas pobres não poderiam bater as panelas, porque pela primeira vez nas suas vidas elas estavam cheias.

Pois bem, a orquestra de panelas, que, repito, não tinha nenhum ritmo, foi viabilizada por um movimento que aconteceu algum tempo antes, que surgiu de forma legítima, mas que pela falta de uma consciência política mais refinada, foi absorvido por quem andava há alguns anos sem rumo. A juventude que foi às ruas no outono/inverno de 2013, pautando políticas importantes, como a redução das tarifas de transporte público, rechaçou o apoio de partidos políticos e qualquer entidade similar. Infelizmente o que poderia ter sido um grande movimento, talvez de características Anarquistas (sem deuses nem mestres), acabou por se transformar no mecanismo de apropriação dos discursos reivindicatórios por parte daquela elite que já estava há algum tempo vagando solitária, à procura de um caminho. Ao levantar a bandeira do antipartidarismo, aquela gente jovem que mostrava coragem suficiente para sair às ruas e fazer o enfrentamento com as forças que seriam naquele entendimento de opressão e repressão, não percebeu que eram justamente as verdadeiras forças opressivas e repressivas que acabariam por encampar os seus protestos. Porém essa apropriação do discurso não tinha o objetivo de colaborar e reforçar a luta, mas de assumir o protagonismo, com vistas a incluir na ordem do dia a retórica burguesa da luta contra a corrupção e da busca por melhores equipamentos de segurança pública, principalmente. À narrativa urdida nos gabinetes políticos e salas empresariais, que já vinha, num recorte curto, desde o processo do “mensalão do PT” – e aqui cabe lembrar que o mensalão tucano nunca saiu do papel -, juntou-se a insatisfação de boa parte da juventude, com suas pautas legítimas. Estava anexado o componente fundamental, sem o que não se faz qualquer movimento de mudança: o apoio popular.

É importante estabelecer essa relação com a ação da população jovem, porque, sendo da natureza da juventude a rebeldia e a contestação, ela andava já há alguns anos sem causa. Ao longo a história do Brasil, como no mundo todo, a juventude sempre andou do “lado de lá”, na oposição aos regimes. Acontece que naquele momento, o regime havia deixado de ser autoritário e conservador, como sempre fora, e o governo tinha tendências socializantes. Jovens agora não tinham mais as bandeiras da Esquerda, que sempre foram as causas que moviam as ações e movimentos para contrapor o poder, pois, em tese – e friso a observação: em tese – ali o poder era da Esquerda.

Retornando para o “caso das panelas”. A cada pronunciamento da Presidenta Dilma, a elite ia às janelas para bater panela. Por certo eram panelas compradas especificamente para isso em lojas populares, porque não se valeriam dos seus jogos “Le Creuset, para esse fim. E, mais, a compra dessas panelas de alumínio baratas evidentemente ficou a cargo das domésticas, porque as patroas, mulheres belas, recatadas e do lar, não se dignariam a ir ao comércio inferior adquirir a preços módicos os equipamentos adequados para que pudessem externar a sua revolta. E era preciso que assim fosse, porque para recolocar as coisas em ordem (e progresso) era necessário que essas pessoas, as empregadas, compreendessem o seu lugar no espaço social, que não era o dos aeroportos e dos hotéis turísticos em Paris. (Lembram da revolta de uma certa socialite ao dizer que não achava mais graça de viajar à França, pois sempre corria o risco de encontrar o porteiro do prédio no aeroporto? Aqui: https://www.brasil247.com/cultura/danuza-lamenta-que-todos-possam-ir-a-paris-ou-ny , consultado em 2/9/2020.)

O que aconteceu e vem acontecendo nesse tempo que vai dos protestos de 2013 aos dias de hoje é sabido por todes. A resistência ainda tentou se apropriar do já icônico instrumento das elites, a panela, que voltou a algumas janelas quando dos pronunciamentos do atual presidente. Mas essa capacidade de incorporar elementos e armas de outros exércitos não é o nosso forte e o “panelaço da Esquerda” não vingou. Talvez porque a população mais pobre naquele momento já nem tivesse mais panelas, furadas que deveriam estar de tanto serem raspadas para tentar buscar restos e enganar a fome.

Sobreveio, porém, a pandemia, que mudou tudo. Tudo mesmo. Ou quase. A necessidade de isolamento tirou as pessoas da rua e sem o povo na rua a gente já sabe que as coisas não mudam. Os protestos e manifestações passaram a ser virtuais. Só que quem têm acesso às plataformas digitais não são as pessoas das panelas vazias e furadas, então o movimento fica muito restrito e quase sem efeito. A cada notícia de crime ou patrolada do presidente e seu séquito em cima do povo, chovem manifestos, notas de repúdios, cartas abertas etc., que não têm nenhum efeito que não seja talvez uma demarcação de terreno das entidades, algo do tipo: “Estamos atentos!”. Mas esse estado de alerta permanente por si só não muda nada, o povo não está nas ruas e a marcha fascista segue livre, leve e solta. (Continua)

*Imagem de destaque copiada do site https://www.dw.com/pt-br/antipartidarismo-%C3%A9-perigoso-para-a-democracia-alertam-especialistas/a-16910048, consultado em 2/9/2020.

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