Ideologia, Imprensa, Mídia, Republicados

O chefe mandou*

Estivesse almejando obter grau de doutor, minha tese não poderia ser sobre a imbecilidade do criador da Mulher do Centroavante, posto que já falharia no quesito da originalidade. Também não é a primeira vez que eu falo deste sujeito por aqui. Parei de falar quando parei de ler. Hoje, porém, ao ler de passagem uma manchete do tabloide para o qual o jornalista e “escritor” David Coimbra trabalha, despertou-se a minha atenção, fazendo com que lesse a crônica do distinto “intelectual”.

O título é interessante e já deixa antever o teor do escrito: “A tal da elite branca”. E já começa entrando por cima da bola, pra usar uma expressão no clima da Copa. Diz assim: “Agora inventaram essa história de elite branca. Por favor. Uma das poucas vantagens que o Brasil realmente tem em relação a TODOS os outros países do mundo é a miscigenação. No Brasil, as etnias de fato se misturam, e o fazem com naturalidade.”

Ao dizer que “essa história de elite branca” é criação moderna, o cara que se propôs a escrever a história do mundo desconsiderou completamente a história do próprio país. Ou será que ele pensa que desde os 1500 a elite que dominou o Brasil era negra ou indígena? Ou, ainda pior, imagina o nosso insigne escriba que não há uma elite que domina o país? Pela amostra do pano, já se percebe que o cara escreve exatamente o que o patrão gosta que se escreva.

De acordo com o que diz o David, podemos depreender que aquela velha conversa do paraíso da democracia racial é verdadeira: “No Brasil, todos, japoneses, negros, alemães, anões, cafuzos, mamelucos, índios, brancos, azuis, todos são brasileiros.” O estranho é que um certo candidato ao Senado, talvez não por acaso colega de empresa, disse há poucos dias que há muitos índios que conseguiram evoluir e hoje são trabalhadores respeitados. O seu David contradisse o seu candidato, porque para este o índio precisa deixar de ser índio para ascender socialmente, então não é bem assim essa coisa de que todos são brasileiros.

Logo em seguida, toda a genialidade do cronista aflora, quando ele diz que o verdadeiro problema do Brasil é a discriminação social. Entende-se essa declaração se vinda de alguém que não deveria ter, por obrigação profissional, o dever de saber que a esmagadora maioria de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza no nosso país definitivamente não é da etnia que se pode chamar de branca. E diz ele que o que falta, na verdade, é oportunidade igual para todos. Ora, seu David, o senhor mesmo já se manifestou contrariamente à adoção da política de reserva de cotas com recorte étnico-racial. Decida-se, por favor! Se não há oportunidades iguais para todos, como o senhor mesmo reconhece, algo há que ser feito, certo? E nesse caso as cotas não servem? Parece, seu David, que o senhor quer que as coisas continuem a ser como eram, antes do processo de equalização social que se verifica no Brasil nos últimos anos, que é lento mas eficaz.

Tal qual uma metralhadora giratória, o cronista leva a questão para o futebol, quando também aí vai ser escancarado todo o seu ranço elitista (e não custa lembrar que ele é branco). “O ingresso do futebol é muito caro para o pobre. Oh! O ingresso para ver o Chico Buarque não é barato, nem o do show da Madonna, nem a entrada do cinema. Pelé não ganhava um milhão por mês. Fred ganha. Assim, ver Fred é mais caro do que era ver Pelé.”

Este é o argumento preferido dos que defendem o processo de elitização do futebol, pelo qual os torcedores oriundos das classes sociais menos favorecidas são alijados do direito de ver seu time no estádio: times bons são caros e, portanto, o ingresso deve ser caro. Não quero entrar nessa discussão específica, há muito material que desconstrói impiedosamente essa ideia nas publicações do Povo do Clube. Apenas quero dizer ao seu David Coimbra que o Chico Buarque não costuma fazer shows em estádios para milhares de pessoas, mas em teatros, numa lógica completamente diferente. Ainda assim, já soube de muitas apresentações do Chico a preços módicos e outras tantas com entrada franca. Já a Madonna, que lota grandes estádios mundo afora, proporciona um espetáculo bem diferente e menos frequente do que um jogo de futebol, inclusive com custos de produção muitíssimo mais elevados. Comparação infeliz esta, hein, seu David?

“A elite branca xingou a presidente. Quem garante que pobres e pretos não o fariam? Essa elite branca é ‘branca’ de fato? Existem ‘brancos’ de fato no Brasil? Será que existe mesmo essa divisão, pobres e pretos a favor do governo, elite branca contra? Esse é um governo só para pretos e pobres? Como é que se faz para conseguir um governo para todos?” Bah, seu David, não queria ter de precisar lhe explicar que a expressão “elite branca” é uma figura de linguagem. O senhor sabe disso, por certo, mas o chefe não lhe permite expressar ideia diferente, né? Talvez a dona do Magazine Luiza, que não é preta e nem pobre possa lhe dizer como é que se consegue um governo para todos.

E o seu David considera uma babaquice chamar a presidentA de presidentA e ainda diz que quem não acha isso estranho é um taipa. Caso encontrasse com ele, perguntaria se ele, que escreveu a História do Mundo em tomos, sabe quando a mulher brasileira adquiriu o direito ao voto; e qual a proporção de homens e mulheres em cargos de chefias nas empresas brasileiras; e se para exercer cargos iguais na iniciativa privada as mulheres recebem o mesmo salário que os homens; y otras cositas mas. Fica absolutamente claro que o seu David não entende nada – ou não quer entender – dos processos históricos que formaram a sociedade brasileira, eminentemente patriarcal e branca.

O penúltimo parágrafo escrito na coluna do seu David é um primor de manipulação, que faz um raio-x da maneira como a mídia podre, da qual ele é um expoente, costuma agir. A campanha do TSE, muito legítima, a propósito, visa a estimular a maior participação feminina na política institucional. E ponto! Ver além disso é querer passar uma imagem distorcida para a sociedade.

Sei que o David Coimbra tem sérios problemas de saúde, inclusive está nos EE.UU. Tratando da sua saúde. Não desejo (muito) mal a ninguém, por pior que seja, mas gostaria muito que a doença fizesse este cara refletir se vale mesmo a pena passar a vida, que pode ser bem curta, fazendo as vontades do chefe.

 

 

http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4531321.xml&template=3916.dwt&edition=24583&section=70

 

http://www.opovodoclube.com/

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 20/6/2014.

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Amor, Liberdade, Republicados

Ah, o amor…*

No último domingo, eu tive a honra e o prazer de assistir, junto com a minha família, um casamento em Brasília. Não foi um casamento que ainda se possa chamar de comum, eis que de duas MULHERES. Grafo em maiúsculas porque ainda (até quando?) é comum que se usem outros termos nesse caso, como lésbica, machorra, sapatão e por aí vai. Só que mulheres são mulheres e homens são homens, não importa a sua orientação sexual. No caso específico, trata-se de duas mulheres jovens, bonitas, inteligentes, bem sucedidas profissionalmente, de boa família e sólida formação moral. Sobretudo, trata-se de duas mulheres corajosas.

A partir desse evento, que incluiu uma festa nota 100, me permiti algumas reflexões, incentivado, inclusive, por algumas rápidas (re)leituras de “O homem e seus símbolos”, que havia na casa onde ficamos (muito bem) hospedados, pelo que já agradeço às pessoas que nos acolheram de forma tão carinhosa. Pensei sobre o que leva uma pessoa a compartilhar a sua vida com outra, oficializando, por assim dizer, isso através do casamento. Poderia falar em outras formas análogas ao casamento, mas uso uso este instituto porque foi o que ocorreu lá em Brasília, um casamento. Vários fatores motivam um casamento, e, infelizmente, nem sempre entre eles está o amor. As pessoas se casam por conveniências, por interesses financeiros, para manter aparências, por causa de alguma gravidez inesperada, para satisfazer as famílias etc. etc. etc. E, obviamente, muitas vezes por amor. Mas o que leva duas pessoas do mesmo sexo biológico ao altar (e uso altar como uma imagem simbólica, ao gosto do Jung)? No casamento a que estou me referindo, as companheiras (uso este termo porque não sei qual seria  mais adequado) não precisariam ter feito esse procedimento, porque já moram juntas há algum tempo, gozavam já de todos os direitos – embora haja ainda controvérsias – e, principalmente, não escondiam de ninguém a sua condição de casal. Como eu disse, elas são profissionais muito bem sucedidas, portanto uma não depende da outra no aspecto econômico. Então por que elas se casaram? Creio que posso responder sem medo de errar: por amor!

Uma pessoa rica que se casa com outra pobre, em geral sofre preconceito. Da mesma foram com uma pessoa branca que se casa com uma negra. Falo da relação homem e mulher. Acho, porém, que nenhum preconceito dessa natureza é capaz de superar aquele que se estabelece quando duas mulheres ou dois homens se casam. Retomo a pergunta, acrescentando este elemento: se não é por interesse diverso e se é sabido que o preconceito vai ser pesado, por que, então, duas mulheres se casam? Vamos de novo: por amor!

Não quero, neste momento, entrar em discussões maiores, coisas como a possibilidade de adoção por FAMÍLIAS (olha as maiúsculas de novo…) formadas por pessoas do mesmo sexo. Acho importante que se discuta isso, e se alguém quiser propor os temas nos comentários, agradeço. Mas o meu texto tem pretensão próxima bem menor, que é apenas prestar uma singela homenagem a essas duas MULHERES, que tiveram a coragem de praticar esse ato e nos deram a honra, a mim, particularmente, de tomar parte nesse que eu considero um momento de escrever a história. Minha psicóloga comentou sobre o que dirão os nosso netos (meus e da Patrícia), um dia, comentando sobre o fato dos avós terem estado presentes a um dos primeiros casamentos gays (peço permissão pra usar essa expressão) realizados no Brasil. Acho que isso vai ser umas das coisas de que eles poderão se orgulhar em nós.

Obrigado, gurias, por terem nos permitido compartilhar esse momento com vocês. E obrigado pelo enorme carinho que têm pelas nossas filhas, e saibam que com certeza o exemplo de vocês será muito importante pra elas.

 

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 26/6/2013.

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Psicologia, Republicados, Saúde

Treze por cento

Dividi a minha vida em ciclos em relação à bebida. Comecei a beber aos 13 anos. Bebi durante 25. Parei aos 38, portanto há 2, e vou me manter abstêmio pelos próximos 23, para totalizar sem beber os mesmos 25 de aventuras etílicas. Depois disso, estando com 63, vou beber por mais 13, para fechar com a conta inicial e morro aos 76 tranquilo. E bêbado!

Obviamente isso não passa de uma brincadeira. Depois que eu descobri que sóbrio posso fazer as mesmas coisas boas e/ou inofensivas que eu fazia quando embriagado e, sobretudo, que eu consigo evitar as bobagens que o álcool me incentivava a fazer, decidi não beber mais, mesmo que vá adiante dos 76.

Por outro lado, não sou exatamente o que se pode chamar de um cidadão polticamente correto. E, honestamente, ainda bem que não sou. Tem coisas que ficaram muito chatas depois que se decidiu que não se pode atirar o pau no gato. Na musiquinha, claro, porque na real não se deve mesmo. Só que tem algumas coisas que vão além desse negócio de ser socialmente certinho. E é disso que eu quero falar.

Quem me conhece ou já leu algo que eu escrevi por aqui sabe que não sou muito fã da companhia jornalística do seu Maurício. Pelo contrário, tenho ene críticas ao tipo de jornalismo que se pratica na esquina da Ipiranga com a Cascatinha, opa, Érico Véríssimo. Só que também não sou maniqueísta o suficiente pra achar que tudo o que os caras fazem é ruim. Algumas coisas boas ou mais ou menos: o caderno de gastronomia, o caderno de cultura, a coluna do Veríssimo, a coluna do Flávio Tavares, a coluna do Marcos Rolim, a coluna do Percival Puggina (esta serve pra manter o nível de raiva na altura certa), a excelente frase  repetida muitas vezes pelo Túlio Milman: não há o que não haja, enfim, algumas coisas que podem ser bem úteis para quem tem o mínimo de capacidade de identificar a linha editorial de um jornal e fazer uma análise crítica disso, separar as pedras do feijão.

Bueno, nessa história toda, às vezes eu leio a coluna da Mariana Kalil. Fazia algumas semanas que não lia, porque em geral, pra não dizer sempre, ela escreve coisas que não me interessam nenhum um pouco, como a combinação possível entre saia e tênis. Mas no domingo retrasado (02/12) resolvi ler. O título era sugestivo: “Delícia de relax”, com relax grifado. E um quadrinho da Mafalda tomando banho de sol. As três primeiras frases me fizeram arrepiar os cabelos. Ei-las:

“Sigo um ritual diário, quando chego em casa à noite. Neste ritual, sempre está incluída uma taça de vinho tinto. Só consigo relaxar depois desse momento.” 

Esta última frase, então, me obrigou a reler quatro vezes esse início. Os meus conhecimentos não exatamente técnicos do assunto me dizem que uma pessoa que só relaxa depois de um copo de bebida é alcoólatra. Separei a folha para conversar com a minha psicóloga na segunda-feira, inclusive porque queria informações técnicas. Mais adiante relato algumas ideias que trocamos, mas tudo o que eu vou dizer aqui está de acordo com o que ela pensa.

Mais à frente, na coluna, a guria diz o seguinte:

“Não gosto de vinho branco e gosto pouco de vinho rosé. Gostaria mais de vinhos branco e rosé se eu conseguisse raciocinar no outro dia e não clamasse desesperadamente pela chegada da morte súbita.”

Em 25 anos adquiri uma razoável experiência com bebidas, mesmo com vinho (sempre preferi os de garrafão), e posso dizer sem medo de errar que é praticamente impossível para uma pessoa acostumada a beber uma taça por dia ter essa ressaca toda apenas por ter trocado o tipo de uva. Ou seja, pra ter vontade de morrer, ela precisa beber mais do que uma taça de vinho branco ou rosé. Mas isso é de menos. Estamos prestes a entrar num campo altamente minado.

Ela cita uma notícia do New York Times;

“Cresce o número de vínicolas que estão adotando um novo caminho para divulgar o vinho para as mulheres, criando rótulos que podem ser consumidos gelados e promovendo a bebida como uma forma de relaxar dos deveres domésticos familiares e profissionais.”

Aí ela diz assim:

“EU SOU NORMAL!”

E cita uma vinícola, da qual eu não vou fazer comercial, que adotou a ideia para a América do Sul, com uma “grande sacada”:

“Qual é a grande sacada: o teor do álcool é moderado, em torno de 12% [N.A.: MODERADO??], o que possibilita tomá-lo gelado sem alterar o gosto ou o aroma.”

Daqui a pouco vou mostrar porque a vínicola em questão optou pelos “moderados” 12% de graduação alcoólica. Mas quero avançar na questão das citações da moçoila. Como diria o Jorge Ben, opa, Benjor (já disse que sou velho), deu no New York Times:

“Segundo pesquisa do NYT, a Chateau Ste. Michelle, fez um anúncio que explica o meu desespero e o desespero das mulheres em geral: ‘O momento de beber o vinho é o momento em que ela pode se tornar ela mesma – nem mãe, nem colega de trabalho, nem motorista, nem cozinheira.’”

Perguntei para a minha psicóloga o que ela acharia se eu reescrevesse a afirmação ali de cima assim: “Ser mãe, colega de trabalho, motorista, cozinheira é uma merda, então nada mais justo que oferecer uma coisinha para a mulher se livrar desse peso e se tornar por alguns momentos ela mesma, mesmo que esse estado psiquíco cahamado ‘ela mesma’ seja obtido apenas com o auxílio de uma bebida de álcool.” Talvez se o crack fosse liberado a mulher-alvo da propaganda pudesse ser ela mesma gastando bem menos…

Pouco antes de encerrar a coluna, a editora do caderno Donna botou a mesma fotinho de uma moça berrando que ela usou antes pra dizer:

“EU SÓ QUERO RELAXAR!!!”,

dizendo agora:

“EU SÓ QUERO ME TORNAR EU MESMA!!!”

Tá, a partir de agora vamos a algumas coisas que eu pesquisei e outras que eu fiquei sabendo com a ajuda da minha terapeuta, para quem eu perguntei de cara quais os critérios para diagnosticar a alcoolemia. Não vou adentrar por informações muito técnicas, mas o que eu queria saber é se a guria não estava se declarando alcoólatra já no início do texto, quando diz que só relaxa bebendo, embora uma taça apenas. A resposta confirmou o que suspeitava, que fica evidenciada, no mínimo, uma dependência psicológica. Para quem quiser ir mais a fundo, bota no google “Ronaldo Laranjeira”. O cara é o cara do assunto no Brasil e um dos caras do assunto no mundo. Vale a pena dar uma olhada, nem que seja pra confirmar que eu não estou querendo ser o joãozinho-do-passo-certo e nem dar uma moral de politicamente correto. A coisa é científica.

Eu disse que ia explicar o porquê dos 12% do vinho. Acontece que a propaganda de bebida aloólica é proibida no Brasil. Sim, não estou bêbado pra dizer isso, no Brasil não se pode fazer propaganda de bebida alcoólica. É o que diz a Lei nº 9.294, de 15/07/1996 e o Decreto nº 2.018, de 01/10/1996, ambos em plena vigência. Acontece que para os nossos iluminados legisladores, a bebida só é considerada alcoólica, para os efeitos da legislação referida, se o teor de álcool for superior a 13%. Ou seja, será que foi coincidência a fabricação do vinho com 12%?

Lá pelas tantas, na conversa com a minha psicológa, ela falou em xamanismo, uma fração de segundo antes que eu fizesse uma referência ao Castañeda e ao Don Juan, com a história de despertar outros níveis de consciência a partir do uso de certas substâncias, no caso deles, particularmente, o peiote. Pois é isso que parece, porque o jornal, a fábrica de vinho e a nossa colunista falam que a mulher só pode relaxar bebendo, quer dizer, sem o auxílio mágico do vinho, com seus módicos 12%, a vida dela vai continuar em permanente estresse. Ora, quem não quer relaxar? Quem não quer se tornar “eu mesmo”? Então “vamos beber” é a mensagem. Ou não?

Vocês podem até achar que eu estou exagerando ou que isso tudo é bobagem, mas, pensem bem, o caderno Donna é lido por muita gente, inclusive por gente que está em processo de formação da personalidade (minhas filhas, por exemplo). A coluna da Marian Kalil, particularmente, atrai a atenção de um público jovem, porque ela fala de moda, de lugares legais etc., numa linguagem moderna, descolada. Imaginem, então, uma guria de 12, 13 anos lendo que a Mariana Kalil só relaxa com uma taça de vinho e que faz propaganda de vinícolas especializadas na divulgação dessas ideias. Seria exagero imaginar que um dia antes da prova final essa guria chegasse em casa e tomasse um “traguinho” pra relaxar? Mas pai, a Mariana diz que não tem galho, que ela toma uma tacinha de vinho sempre pra ficar relax.”

Concordamos, a minha psicóloga e eu, que essa coluna foi um desserviço à comunidade e é extremamente perigosa, apesar de ser aparentemente ingênua. Aliás, de ingenuidade não há nada nos veículos da rbs. E se os Sirotsky chegaram na Mariana dizendo: “Olha só, tem uma vinícola afim de investir no jornal. Dá uma forcinha na tua coluna.” Alguém duvida?

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 11/12/2012.

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Gavilan

Antes de mais nada, uma nota de louvor ao Sindicato dos Bancários, que fica ali no centro do Centro, bem no meio da Rua da Ladeira, General Câmara, para os menos velhos. Lá tem uma ótima sala de cinema, bem confortável, com bastante espaço entre as filas de cadeiras, excelente sistema de som, enfim, tudo o que uma boa sala de cinema precisa, sem luxos dispensáveis. E o preço da entrada inteira é 5 reais. Sim, não me enganei, CINCO reais. Ou seja, quando objetivo não é financiar as férias dos donos do cinema nas ilhas gregas, é possível aliar qualidade e preço justo.

Dito isso, o filme. O filme é uma obra de arte. À altura da personalidade retratada: Violeta Parra. “Violeta foi para o céu” baseia-se no livro de Angél Parra, filho de Violeta, que deve ser muito bom, a julgar pela sua versão cinematográfica.

O diretor, Andrés Wood, evitou todos os clichês que se apresentam como tentações a quem pretende rodar  um filme biográfico. Seria tranquilo, por exemplo, explorar o fato de Violeta ter sido cantada por Joan Baez. Ou mesmo toda a influência que ela exerceu na arte latino-americana, particularmente no campo da chamada canção de protesto (daí a sua relação com Joan Baez, Mercedes  Sosa). Mas não, ele trilhou outro caminho, mais perigoso, no que diz respeito às pretensões de sucesso de bilheteria do filme.

A narrativa é fragmentada e intercala cenas da infância e da juventude de Violeta, com outras, quando ela, mais velha, expõe todas as atribulações do seu espírito indômito (traços do sangue indígena, talvez) e revolucionário, contrapostas à sua busca constante por amor, refletida na relação carinhosa, sem deixar de ser firme, que tem com os filhos e com o próprio namorado. Permeando todo esse jogo de emoções e sentimentos, há uma entrevista dela para uma televisão chilena, que funciona como uma espécie de fio condutor que costura os elementos da narração.

No desenrolar dos eventos do filme, o que se apresenta é um ser humano extremamente forte e muitíssimo frágil ao mesmo tempo. A mesma mulher que desafia figurões da política e das artes e os chama a todos de “mierda”, depois que é orientada a jantar na cozinha de um evento, é capaz de protagonizar crises de ciúmes quase adolescentes. Essa abordagem acaba, de certa maneira, por desmistificar a imagem que tendemos a construir dos grandes artistas como ídolos perfeitos. Eles são, no mais das vezes, tão humanos quanto nós e mostrar isso é uma das virtudes da fita.

Violeta era uma artista na acepção plena da palavra e tinha a exata noção da qualidade e valor da sua arte, que, como ela mesmo definia, emanava da relação que tinha com o seu povo. A cena em que o namorado suíço pergunta porque havia tantos quadros no quarto em que eles se hospedavam em Paris e ela responde dizendo para ele não se preocupar porque eles iriam vender todos, é antológica, principalmente pelo seu desfecho. O cara diz que o Louvre não admite que sejam feitas vendas fora do museu e ela, com a naturalidade de um gênio da arte, diz simplesmente: “bom, então vamos ter que vender lá dentro”.

A interpretação da atriz Francisca Gavilan, que inclusive interpreta as músicas, é de arrepiar. Os outros atores também são excelentes, então não há nada a dizer do filme que não seja elogio.

Não vou ficar falando mais, porque não sou crítico de cinema tudo o que posso fazer é dar a minha opinião e esta diz que o filme é imperdível.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 31/7/2012.

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Saudade do pau-de-arara*

Nos piores anos da ditadura eu era bem piá. Meus pais nunca tiveram nenhum tipo de atuação política que lhes pudesse causar problemas com a repressão. Pelo contrário, o político preferido da mãe era o Marchezan (o velho). O mais próximo que eu estive de alguma atitude rebelde na família foi quando a minha vó votou no Pedro Simon contra o Jair Soares. Entretanto, quando aprendi a ler, as coisas começaram a mudar, e então tenho certeza que se eu fosse um pouco mais velho e tivesse vivido aquele período já na juventude ou como adulto, hoje não estaria aqui escrevendo. E mesmo que tenha dito em uma postagem anterior que sinto saudade do tempo em que a gente brincava tranquilo na rua o dia inteiro, isso não quer dizer que eu achava que aquele período era melhor do que a democracia que vivemos hoje, com todos os seus problemas, que não são poucos.

Na postagem anterior eu falei que existem entre nós muitos saudosos dos anos de chumbo. Pois vejam o que foi publicado na última segunda-feira no Blog do Prévidi (previdi.blogspot.com.br) e tirem suas conclusões:

 
 
PENSANDO BEM

Na época da ditadura…
Podíamos namorar dentro do carro até a meia- noite sem perigo de sermos mortos por bandidos e traficantes.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ter o INPS como único plano de saúde sem morrer a míngua nos corredores dos hospitais.
Mas não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos comprar armas e munições à vontade, pois o governo sabia quem era cidadão de bem, quem era bandido e quem era terrorista,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos paquerar a funcionária, a menina das contas a pagar ou a recepcionista sem correr o risco de sermos processados por “assédio sexual”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Não usávamos eufemismos hipócritas para fazer referências a raças (ei! negão!), credos (esse crente aí!) ou preferências sexuais (fala! sua bicha!) e não éramos processados por “discriminação” por isso.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos tomar nossa redentora cerveja no fim do expediente do trabalho para relaxar e dirigir o carro para casa, sem o risco de sermos jogados à vala da delinqüência, sendo preso por estar “alcoolizado”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos cortar a goiabeira do quintal, empesteada de taturanas, sem que isso constituísse crime ambiental.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ir a qualquer bar ou boate, em qualquer bairro da cidade, de carro, de ônibus, de bicicleta ou a pé, sem nenhum medo de sermos assaltados, sequestrados ou assassinados,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Hoje a única coisa que podemos fazer…
…é falar mal do presidente!

P.S.: e hoje podemos falar mal da PRESIDENTA!

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 18/7/2012.

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