Ideologia, Jornalismo, Republicados

Vandalismo jornalístico*

Muito se fala em atos de vândalos, mas pouco se diz sobre a proporção deles frente ao número de MANIFESTANTES, MILITANTES E ATIVISTAS, que lutam por um país melhor. Tentar reduzir os atos de protestos LEGÍTIMOS que estão ocorrendo POR TODO O PAÍS à violência praticada por POUQUÍSSIMOS desequilibrados infiltrados é uma CANALHICE JORNALÍSTICA que está sendo praticada pela mídia podre e que vem sendo comprada por pessoas que têm preguiça de fazer qualquer tipo de reflexão um pouco mais aprofundada, ou, pior, por aqueles que têm algum tipo de interesse nisso.

Ontem eu estava na casa da minha sogra e acompanhei por alguns instantes a “cobertura” feita pela tvcom. Os caras são tão canalhas e descarados que começaram a dizer que a Polícia Federal fez um pedido à Brigada para que esta impedisse manifestações em frente ao prédio dela, PF. Levei algum tempo, meio segundo, pra ser mais preciso, pensando sobre a possibilidade de alguém protestar em frente à PF. Depois, numa fração milesimal de segundo, associei a informação passada pelo cláudio brito ao fato da sede da PF ficar pertinho do bunker do jornalismo podre na capital.

Muita gente está falando sobre isso e eu não quero dizer nenhuma novidade. Apenas quero deixar claro que a rede bosta sul é uma metástase do câncer que destrói o país há muito tempo. Por outro lado, quero lembrar que a cura do câncer já uma realidade…

P.S.: as notícias de hoje me causaram grande preocupação em função da cooptação dos movimentos de protesto pelas forças golpistas. Há que se redobrar a atenção

 

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 21/6/2013.

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Mídia, Republicados

Outros carnavais…*

Na última quarta-feira,Imagem participamos de um debate, promovido pelo Museu de Comunicação Social, sobre a relação do humor com a tragédia, tendo como ponto de partida o incêndio da boate Kiss. Na mesa, comandada pelo Augusto Bier, diretor do Museu, só havia gente grande: da esquerda para a direita: Eugênio Neves, Edgar Vasques, o próprio Bier, Máucio e Leandro Bierhals. Além da plateia, reduzida, mas interessada, houve a participação em muitos momentos do ex-jornalista (ex segundo ele próprio) e escritor Rafael Guimaraens, que já escreveu belos livros sobre coisas de Porto Alegre.

O debate teve momentos comoventes, como os relatos do Máucio, que é professor da UFSM e mora em Santa Maria, além das palavras do Bier, no vídeo anexo.

VÍDEO INDISPONÍVEL

Foram analisados vários aspectos dessa relação que os profissionais do humor têm com eventos trágicos, aos quais deve ser dado naturalmente um tratamento todo especial. Foram mostradas em telão algumas charges, a maioria muito bem feita e com grande sensibilidade. A do Marco Aurélio, que ficou famosa por, entre outras coisas, ter como consequência uma geladeira dele na zh*, foi bastante discutida, e, porque não dizer, demolida.

CHARGE KISS MARCO AURÉLIO

Outra charge bem interessante apresentada é uma feita pelo Chico Caruso, que liga a Dilma à tragédia, de forma negativa, obviamente, afinal não se poderia esperar outra coisa de um destacado “colaborador” das organizações globo e cia.

CHARGE KISS CHICO CARUSO

Por vezes o debate fugiu um pouco aos limites impostos pelo tema e passou a analisar a atuação da mídia de forma mais ampla. Num dos melhores momentos, o Eugênio Neves fez relatos interessantíssimos do tempo em que trabalhou na zh, de onde saiu por não concordar com os mandalhetes representantes do ideário da alta cúpula. E é esse o gancho que eu quero pegar pra abordar o assunto de agora.

A zh nasceu apadrinhada pela repressão, acho que isso não é segredo pra ninguém. E se manteve nos 21 anos do regime extremamente afinada com as ideias da milicada, que, por sua vez, estavam afinadíssimas com as ideias de outros grupos econômicos e sociais. Dizer que a globo e seu séquito sustentou a ditadura ou vice-versa é como desenhar uma cobra mordendo o próprio rabo, porque elas foram e são, no fundo, engrenagens de uma máquina montada para atender interesses de certas elites que, por incrível que pareça, ainda se mantêm no domínio, justamente por intermédio da mídia corporativa, encabeçada pela globo, veja, folha de são Paulo e afins.

Eu quero, neste texto, dar uma pequena mostra de como funciona a manipulação feita pela grande mídia, que forma uma “ideologia” canhestra na cabeça das pessoas que têm preguiça de pensar ou que, por qualquer motivo, não têm acesso a canais de informação mais qualificados.

Na capa da zh de domingo, aparece em destaque a seguinte manchete:

Quem dá mais

Médicos ganham até R$ 32 mil no interior

Pra garantir permanência de profissionais, municípios pagam até o dobro do salário dos prefeitos.

Muito bem, um dos assuntos da última semana foi a iniciativa do governo central de chamar médicos estrangeiros para trabalhar nos locais em que os brasileiros não querem ir. Estão incluídos médicos portugueses, espanhóis e… cubanos. Bueno, aí é que a porca torce o rabo. Como assim, médicos cubanos? O que essa louca da Dilma está querendo? Encher o país de comunistas e reacender as chamas da Revolução? Pois é, e daí decorre um discurso violento contra a medida, que inclui os Conselhos de Medicina, falando do absurdo disso, que os cubanos não têm competência, que é preciso qualificar o serviço com os profissionais brasileiros etc., etc. e tal. Ok, mas só os cubanos são incompetentes? Quem sabe a gente dá uma olhadinha no outro lado da coisa, pelas palavras de quem entende do assunto:

http://www.sul21.com.br/jornal/2013/05/a-questao-da-vinda-dos-medicos-cubanos-para-o-brasil/

Talvez alguém esteja se perguntando qual o problema com a manchete da zh. Simples. Um dos argumentos para a importação desses profissionais é que os médicos brasileiros não têm interesse em trabalhar em alguns locais, seja pelo difícil acesso, pela distância dos grandes centros ou pelos baixos salários oferecidos. Ocorre que o cara que sai pra trabalhar todo o dia, sempre na correria, e não tem tempo de ler o jornal, ou, melhor, de se informar em outras fontes, passa pela banca e lê a tal manchete. Daí ele sai pensando mais ou menos assim: “Os caras pagam bem pros médicos, então por que essa mulher – a Dilma – quer trazer os comunistas?” E debate essa ideia com os colegas de escritório ou de repartição. E aí, como todos sabem, é o famoso telefone sem fio das brincadeiras de criança, a coisa virou um monstrengo. E a verdade? Bom, quem se interessa pela verdade? Mais uma vez a mídia corporativa – zh – cumpriu com extrema maestria o seu papel de distorcer os fatos, manipular a informação e formar uma opinião absolutamente limitada e míope no seu público. Ponto para os sirotsky.

Só que a coisa não para por aí. Eu tenho a mania de ler todo o jornal. E antes que alguém me pergunte por que eu leio a zh, se tenho tanto horror dela, digo simplesmente que se não lesse não poderia estar escrevendo este texto. Além do mais, não sou maniqueísta, e reconheço que até a zh tem algumas coisas boas, desde que os leitores não tenham preguiça de procurar. Então, lendo o miolo do jornal, chego lá na página de opinião (p. 16), onde de 15 em 15 dias escrevem o Marcos Rolim e o Percival Puggina. (Sobre este, chega a dar nojo…) Ali tem também as frases da semana, das quais a grande maioria é totalmente descontextualizada e trabalhada de acordo com os interesses editoriais, que, já vimos, são, no mínimo, questionáveis. Lá está a seguinte frase, da Marilena Chauí: “Eu odeio a classe média”. Frase forte. E num primeiro momento revoltante, certo? O engraçado é quem em todas as outras frases há uma pequena explicação que dá a ideia do contexto em que elas foram proferidas. Esta, porém, está lá solta no mundo.

Para quem não sabe, a Marilena Chauí é uma das grandes pensadoras do Brasil e do mundo, fundadora do Partido dos Trabalhadores, e tem a sua formação centrada no marxismo. Ah, bom, mas aí começa a ficar claro o que a editoria de zh fez. Acontece que o ódio que a Marilena devota à classe média não se refere à classe de trabalhadores, que sustentam o país, da qual ela é integrante convicta. Esse conceito de classe média é um conceito capitalista, criado para manter as coisas nos seus devidos lugares, de acordo com os interesses das elites dominantes. Sabem como é, aquela história de cada um no seu quadrado. É essa definição de classe média que ela pretende atingir por trás das suas palavras fortes e agressivas. E, sim, por consequência, também as pessoas que fazem parte deliberadamente desse grupo, que são usadas pelos sistema e que, por terem condições de andar de carro zero e mandar seus filhos pra Disney, acham que o país não tem problemas e que todo mundo tem os mesmos direitos a educação, trabalho, lazer e todo aquele blá, blá, blá irritante e repetitivo da desinformada (e/ou manipulada)… classe média. Vamos ver a coisa dita dentro do seu contexto:

Num livro muito bom, chamado “A máquina capitalista: como funciona – porque paga baixos salários – papel do intelectual na luta pelas mudanças – em exemplo: rbs”, escrito lá em 1988 (editora Vozes), o Pedrinho Guareschi, que, imagino, dispensa apresentações, e o Roberto Ramos, que é jornalista e professor, traçam um mapa do pensamento capitalista e do funcionamento da estrutura, usando, na segunda parte do livro, já que a primeira, a cargo do Pedrinho, é mais teórica, exemplos vividos pelo próprio Roberto, quando foi repórter da zh. Olha, gente…

No livro, fica clara a distinção entre as teorias de classe. Uma, a capitalista, que define as coisas pelo poder econômico, e assim cria a classe alta, a média – e suas subdivisões – e a baixa. Outra, alinhada com a ideia das relações de produção, estabelece que há somente duas classes, a dos detentores dos meios de produção e a dos trabalhadores. Ou seja, numa visão histórico-crítica, a classe média não existe, ela é uma criação da ideologia capitalista, com a intenção de acomodar as pessoas, afinal, quem atingiu o nível da classe média não tem do que reclamar…

Assim, amigos, vejam o que o trabalho minucioso da imprensa mau-caráter faz com a cabeça das pessoas. Aqueles que não se contentam em nadar na superfície, e porque buscam a raiz das coisas são muitas vezes chamados de radicais (radical vem de raiz), descobrem coisas interessantíssimas sobre essa forma de agir da mídia podre. Seria muito bom ter mais gente assim.

Para encerrar, relato três passagens do livro citado, tiradas da segunda parte, isto é, não são material teórico, mas sim experiências reais, protagonizadas por um dos autores:

“Na primeira semana de março [1987], corria uma ordem expressa emanada do editor-chefe, ex-porta-voz do governo Médici. Não podia sair nada contra o governador Pedro Simon. No Rio Grande do Sul não havia problemas. Sobrava dinheiro nos cofres públicos e os professores e os funcionários públicos estavam, integralmente, satisfeitos com os seus contracheques achatados.” (p. 102)

“A comunicação é, hoje, o grande poder. Alguns a chamam de quarto poder. Essa afirmação só não é totalmente verdade (não que a comunicação não seja um) porque, em vez de representar o quarto, significa o primeiro!” (p. 113)

“Se é a comunicação que constrói a realidade, que país é esse, onde essa comunicação, isto é, os meios de produção da comunicação, estão nas mãos de uma minoria reduzidíssima?” (p. 113)

Tiro três conclusões disso tudo:

1- a mídia corporativa (podre) manda no país;

2- a imprensa podre, que manda no país, é dominada pelos marinho e seus asseclas, a saber os sirotsky no Rio Grande; e

3- a canalhice da zh vem de outros carnavais…

*Adotarei o costume de usar letras minúsculas sempre que me referir à mídia corporativa.

Agradecimentos: Eliane Fay, que me emprestou o livro, e direção do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 20/5/2013.

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Cultura, Republicados, Televisão

Iconoclastia, que bicho é esse? – Ou: A hipocrisia da alta cultura nacional*

Houve um tempo, logo no início, lá no canal do Sílvio Santos, que o programa do Jô Soares era transmitido ao vivo. Depois, quando ele foi pra rede bobo, os caras, que não são burros, devem ter percebido que se mantivessem assim logo logo a “intelectualidade superior” do Gordo seria desmascarada. Editando o programa antes de ir ao ar fica mais fácil. A título de curiosidade, o funcionamento do programa hoje é mais ou menos assim: 1- a produção escolhe o entrevistado e o tema e submete ao Jô; 2- ele prepara as perguntas de acordo com o que permita que ele venda o cachorro da sua “grande” inteligência e cultura; 3- a produção envia o roteiro para o entrevistado, que, se aceitar, se compromete, informalmente, por óbvio, com o roteiro; 4- a entrevista é gravada e passa primeiro pela edição da produção e depois pela revisão do Jô, pra que fique bem determinado o que vai ou não ao ar.

Bueno, eu gostava dos personagens e dos programas humorísticos do Jô, embora o Chico sempre tenha sido muito mais inteligente. Quando o Gordo virou entrevistador, nos primeiros momentos tinha coisas legais, mas logo em seguida a coisa degringolou e eu passei a ver cada vez menos, culminando com o abandono total de hoje. A gota d’água foi uma entrevista que ele fez, já no plim-plim, com um “produtor cultural” que trazia ao Brasil um espetáculo de pigmeus. Já me invoquei com a natureza do show, que apresentava os pigmeus como uma coisa exótica, tipo atração de circo. A coisa toda girava toda em torno das danças e das músicas típicas deles, tidas como primitivas (Mãe, perdoa-os…). Pois o cretino do Gordo disse tanta bobagem, vomitando uma erudição que nem de almanaque pode ser chamada, que eu peguei nojo dele e do programa.

Sempre gostei de algumas coisas “esquisitas” na música e os sons africanos e orientais sempre me encantaram. Não conhecia quase nada da cultura dos pigmeus, mas já tinha lido, e só lido, porque na época não tinha internet, alguma coisa sobre a música dos povos africanos, asiáticos etc. E tinha bastante vontade de conhecer mais. O pouco que eu já sabia, porém, me permitiu reconhecer o festival de asneiras que o Gordo estava dizendo e a sacanagem do tal produtor, que queria só ganhar uma grana em cima da curiosidade que aquele grupo de SERES HUMANOS certamente despertaria nas audiências imbecilizadas pela grande mídia cultural, que em todos os tempos sempre impediu o acesso amplo, geral e irrestrito ao conhecimento, reservando este às castas superiores, por sua vez determinadas por interesses nada transparentes.

A partir desse episódio, comecei a questionar muito a “intelectualidade” do Jô e isso sempre provoca arrepios na “classe”, porque mexer com certos ídolos, como já falei outras vezes é muito arriscado. No mínimo tu vai ser chamado de invejoso, inculto, ignorante etc., etc., etc.

Eu quero retomar um assunto que já abordei por aqui, que é a maldita deusificação de certas figurinhas carimbadas da cultura nacional, tipo… o Gordo. É moeda corrente que o Jô Soares é praticamente um gênio (morou na Suíça, fala várias línguas, escreve, dirige teatro, toca trompete – há controvérsias – entende de vinhos etc. etc. etc.). Claro que ele tem seus méritos, e eu não quero contestá-los. Mas esses méritos estão longe de ser os que a maioria identifica. O problema é que pouca gente quer assumir o risco de falar mal de um cara desses. Mas quando alguém tem essa coragem… Vejam isto (está emhttp://e-proinfo.mec.gov.br/eproinfo/blog/preconceito/a-ideia-absurda-de-linguas-primitivas-i.html ): O linguista Sírio Possenti relata, por exemplo, numa de suas crônicas, um episódio ocorrido no programa de entrevistas de Jô Soares na televisão: Um dia desses, os entrevistados eram Martinho da Vila e o presidente de uma associação de magistrados. […] A conversa com Martinho ia bem, até que Jô perguntou sobre seu conhecimento de línguas africanas, já que de alguns dos discos de Martinho participam músicos angolanos cantando músicas nativas. Martinho disse o óbvio: que, tendo estado na África várias vezes, mesmo em temporadas curtas, aprendeu um pouco. Não conhece as línguas, mas se vira (e acrescentou que o mesmo ocorre com relação ao francês, o que mostra que ele é normal). Mas Jô o interrompeu para comentar que se pode aprender as línguas africanas, mesmo em pequenas temporadas, porque elas têm poucas palavras. E botou para funcionar suas leituras de almanaque. Informou que em suaíli as palavras querem dizer muitas coisas. E deu como exemplo certa palavra que pode ser empregada em várias situações. Decidi dormir, perdi a entrevista com o magistrado. Achei que não suportaria uma lição de direito constitucional do mesmo nível. Disse que Jô acionou suas leituras de almanaque, mas a coisa é mais grave do que isso: trata-se de grosseiro preconceito linguístico e cultural. Se a gente abre um dicionário […], a coisa mais interessante que se pode descobrir é que todas as palavras têm muitos sentidos, que todas as línguas são como o suaíli, ou o suaíli é como todas as línguas.”

Mas tem mais coisa. No livro “Raul Seixas por ele mesmo” (Coleção “O autor por ele mesmo”, editora Martin Claret), na página 171 (sugestivo, não?!) o Marcelo Nova responde assim a uma pergunta dentro do contexto de rebeldia rock’n’roll, aceitação na mídia, politicamente correto etc.: “Eu e o Raulzito estávamos absolutamente desiludidos com este país. Por exemplo, nós fomos fazer uma entrevista no Jô Soares Onze e Meia fui censurado pelo sr. Jô Soares porque citei nomes de pessoas da Rede Globo que queriam acabar com o Camisa de Vênus. Hoje o Camisa de Vênus é uma banda extinta [a entrevista é do começo dos anos 90], mas naquela época, a gente estava dando um ponta-pé na canela de um esquema que não estava habituado a levar sequer um beliscão. E a gente quem era? Cinco baianos que foram de ônibus da Viação São Geraldo para São Paulo e comiam sanduíche no almoço! Eu falei na entrevista que o Camisa de Vênus era um nome proibido, que foi proposta a mudança do nome da banda, que o sr. Heleno de Oliveira e o sr. João Araújo decidiram tirar o nosso disco de catálogo e nos mandaram embora, e o sr. Jô Soares me censurou. Essa parte não foi para a edição final. Então, eu pergunto: como é que um cara que faz esse papel de liberal vem me censurar? Este é um país assim, em que a pessoas posam de liberais, mas censuram.”

Então, como diria o Raulzito, falta cultura pra cuspir na estrutura.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 2/5/2013.

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Cultura, Filosofia, História, Religiões, Republicados

A cruz de Adolf – ou De como um símbolo sagrado virou sinônimo do mal nas mãos do Führer*

Em tempos de recriação da Arena e de bbb, lembrei de uma outra edição do programa em que o Marcelo Dourado participou (e ganhou). A saber, o Marcelo é conhecido da Patrícia, foi namorado de uma amiga dela de juventude e esfregou o Sagrado Manto Colorado na cara da globo quando ganhou o bbb. Uma das polêmicas em que ele se envolveu durante o programa (parece que foram muitas) diz respeito a uma suástica que ele tem tatuada. Parece que ele tentou explicar as coisas, mas não foi entendido.

Tempos atrás descobri um livro muito legal, que está referido ao final da transcrição, que continha esta passagem, e que talvez explique o que o Dourado não conseguiu:

“A VERDADE SOBRE A SUÁSTICA  

 

Esta cruz – falou Tsarong – é um dos mais antigos símbolos sagrados do Oriente. Os budistas chamam-na ‘Wan’. Nos templos tibetanos é comum encontrarmos este símbolo, gravado nos portais ou nas pedras. – Na Índia, também podem ver a Suástica sobre a cabeça da serpente Ananta, no Templo de Ouro, em Amritsar – falou Vessantara. Os brâmanes chamam a Suástica de Cruz Jaina. – Aliás, existem duas Suásticas – retrucou Tsarong. Uma positiva e outra negativa. Ambas são sagradas,  sendo que a positiva é usada pela magia branca e a negativa pela magia negra. – E qual a diferença entre ambas? – perguntei, sumamente interessada.

 

 

 

Apontando para o desenho que o velho estava traçando no chão, Tsarong disse: – Repare, aquela á positiva. Tem os braços dobrados no sentido dos movimentos dos ponteiros de um relógio. A negativa é o contrário. A positiva representa o contínuo movimento das fôrças do Cosmos. Simboliza a rotação da Terra nos eixos do mundo, porque as linhas que se cruzam significam o espírito e a matéria perfeitamente equilibrados. Aplicada ao homem, representa o elo entre este e a divindade, emblema de que o Criador está na humanidade e está no Criador, como as gôtas de água no oceano. – então Hitler usou a Suástica positiva? – indagou Pierre Julien. – Sim, meu amigo – retrucou Vessantara -, Hitler era um grande mago negro e sabia o poder da Suástica oriental. Por isso escolheu como símbolo a Suástica positiva, apenas inclinou-a a 45 graus, tornando-a um símbolo maléfica. Basta que você examine as fotos da guerra e compare-as com a Suástica positiva. O movimento dos braços é idêntico. Hitler degradou este poderoso símbolo e pereceu vítima da sua própria maldade. – Mas como conseguiu tornar a Suástica positiva maléfica, apenas com a inclinação de 45 graus? – perguntei perplexa.

 

 

Vessantara esboçou um leve sorriso e respondeu: – Bem… para explicar isto teremos que entrar no campo da Astrologia. Segundo os entendidos, a cruz positiva, colocada no círculo do Zodíaco sobre a influência dos planetas, está iluminada pelo Sol, que é o doador da vida, positivo, masculino e gerador da fôrça. Se esta mesma cruz for inclinada 45 graus, tal como fez o déspota alemão, sai da casa do Sol e entra na casa da Lua, que é feminina, negativa e criadora das forças maléficas.* – Mas o senhor tem certeza de que Hitler usou mesmo a cruz positiva? – perguntei um pouco incrédula. – Absoluta – respondeu Vessantara serenamente. –Êste foi um dos símbolos que mais estudei na Índia, e muito me surpreendeu observar a Cruz Jaina positiva como símbolo dos nazistas. Sei que alguns estudiosos ocidentais pensam que Hitler usou a Suástica negativa, mas estão errados. Nas inúmeras fotos publicadas nas revistas da época podemos constatar isto perfeitamente. O velho pastor terminou de desenhar a cruz suástica no chão e fez sinal para um môço alto e robusto, que estava à sua direita. O rapaz aproximou-se. Vestia uma túnica de sêda carmesim sobre umas calças fofas, que terminavam escondidas sob as longas botas de couro vermelho. Na cabeça, tinha um barrete de pele de castor. Sentando-se sobre a cruz, ele cruzou as pernas, pousou as mãos sobre os joelhos, cerrou os olhos e começou a cantar. Sua voz era clara e varonil. Subia através do ar dividindo brandamente as palavras da canção. Soubemos que era uma oração mística, cuja origem era impossível saber. Quando terminou de cantar, houve gritos e vivas de todos os presentes. Então, a uma ordem do chefe, começou uma farta distribuição de ‘cheng’, cerveja nepalesa feita de milho e servida em altos cilindros de bambu, chamados ‘paips’. Havia, também, vinho indiano, montanhas de bolos de mel e inúmeros outros quitutes estritamente vegetarianos. Mas não havia ordem. O povo avançava em tudo com verdadeira alegria. Muitos até lambuzavam as vestes e riam contentes. Após o banquete começaram as danças. Um grupo de moças e rapazes dançou em volta da grande fogueira. Cascatas de fitas coloridas flutuavam em seus capacetes dourados. Cada um trazia na mão uma flauta, que simulavam tocar. A música era exótica e harmoniosa. As môças usavam máscaras de deusas tutelares. Aliás, em quase todas as danças asiáticas, os dançarinos atuam mascarados. Isto porque acreditam que a máscara ajuda-os a elevarem-se da sua consciência do EU, libertarem-se de si mesmo a lcançar o êxtase divino. Cêrca de duas horas da manhã terminou a festa. Apesar do cansaço, nenhum de nós percebeu que o tempo passara tão depressa. E assim, regressamos ao palácio do Rajá, levando nos olhos a beleza agreste daquela festa bizarra aos pés dos montes Himalaia. Soubemos mais tarde, através das declarações do célebre astrólogo húngaro, Louis De Wolh – que foi Chefe do Escritório de Investigações Parapsicológicas de Londres e, logo, Capitão do Exército Britânico, graças à proteção de Lorde Halifax – que ‘Hitler se interessava profundamente pelas ciências ocultas e, em especial, pela Astrologia’. Apesar da Astrologia profissional ser proibida pelo governo alemão, soube-se que Hitler, extra-oficialmente e para uso próprio, mantinha uma plêiade de grandes astrólogos trabalhando para ele. Os demais astrólogos que vivam na Alemanha foram perseguidos e a maioria executada, pois as suas previsões astrológicas poderiam vir a prejudicar a propaganda política de Hitler. Conta Louis De Wolh que antes da II Grande guerra morou vários anos em Berlim  e lá fez amizade com Maximiliam Bauer, que era o astrólogo favorito de Gustav Stresseman, Ministro do Exterior da Alemanha. Através de Bauer, Louis De Wolh soube de várias coisas interessantes sobre o Fueher. Entre outras coisas, que ‘a sagrada cruz suástica dos antigos orientais foi escolhida por Hitler para símbolo do Nazismo, sob a influência de uma lama tibetano do Mosteiro de Tulung Tserpung, conhecido como um dos maiores redutos de magos negros do Tibet’. Soube também que em 1923, quando Hitler ainda era desconhecido do povo alemão, certa noite ao sair da famosa Cervejaria de Munique, onde se reunia com amigos para falar sobre política, Hitler encontrou-se com Aub, um velho mago muito conhecido em Munique como vidente. Em companhia de Aub estava um lama tibetano vestindo o hábito vernelho típico da sua seita. Aub conversou com Hitler por algum tempo e logo este segui-o à sua residência. Desde então, consta que Hitler foi iniciado nas ciências ocultas por Aub e o misterioso lama tibetano. Na primavera de 1940, Louis De Wolh publicou em Londres um estudo sobre o horóscopo de Hitler, no qual diz o seguinte: ‘A morte de Hitler será de natureza saturniana, ou seja, uma morte por envenenamento, ou prostração nervosa, ou quiçá se trate de uma morte misteriosa que nunca será esclarecida’. Mais tarde, num dos seus livros, intitulado ‘Astros, guerra e paz’, Louis De Wolh declara: ‘Após o trágico desaparecimento de Hitler – previsto por mim em 1940 – foi constatada a presença inexplicável de alguns lamas tibetanos da seita do chapéu vermelho nas cercanias de Berghof, o palácio montanhês de Hitler, na costa de Obersalzberg. Estes lamas foram presos, mas apesar de toda a vigilância das autoridades policiais, desapareceram misteriosamente da prisão e jamais foram encontrados’. É possível que este fato venha ao encontro das afirmações do astrólogo alemão Maximiliam Bauer de que Hitler, realmente, foi iniciado nas ciências ocultas por um lama tibetano do Mosteiro de Tulung Tserpung, situado perto de Lhasa.” (SING, Chiang. “Mistérios e magias do Tibet – Revelações do ocultismo tibetano, tal como foram observadas pessoalmente pela autora, a primeira mulher brasileira que êsteveentre os místicos e os magos do Tibet”. Rio de Janeiro. Ed. Rodemar. 2ª edição. p. 10-13). (Grifos meus.) (Grafia original.)

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 9/1/2013.

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O Grande Irmão*

Anuncia-se para amanhã a começo de uma nova edição do programa cujo nome foi inspirado pelo grande George Orwell, que, ao saber disso, dizem ter se revirado na tumba. É impressionante a capacidade da televisão brasileira (leia-se Globo, Record, SBT etc.) de tentar promover o emburrecimento do povo. Nesse aspecto, a companhia dos Marinho é imbatível. A pouquinho tempo o país parou, em comoção nacional, pra saber quem tinha matado o Max. Agora todo mundo anda às voltas com turcos que falam mais  chiado que os nascidos e criados nas areais de Copacabana. Amanhã, depois de mais uma etapa da estereotipização e caricaturização de um país muito mais antigo que o nosso, pelo qual deveríamos no mínimo ter respeito, o queridíssimo e filosofal Pedro Bial dará as boas-vindas aos guerreiros, que é como ele chama as pessoas que se submetem ao verdadeiro circo de horrores que é esse BBB. E assim estará oficialmente definida a pauta das conversas para os próximos meses.

Pois bem, lá pelos idos de 2003, estudando Letras na UFRGS, fiz um texto para a Cadeira de Panorama Cultural da Literatura Brasileira, que era brilhantemente mininstrada pelo professor Ricardo Postal. Não me importaria nem um pouco que alguém lesse o meu texto hoje e o qualificasse como datado e anacrônico. Mas infelizmente ele mantém uma certa dose de atualidade em muitos aspectos, como se verá. É certo que em uma década a qualidade da tv brasileira mudou. Seria injusto e desonesto omitir isso. Hoje está muito pior…

A ditadura do BBB

Neste trabalho, pretendo abordar um tema contemporâneo, que ainda está muito presente na memória de todos os brasileiros e cujos efeitos parecem ainda não ter atingido os seus limites.  Falo da agitação social, política e mesmo cultural verificada no Brasil a partir da chamada “Abertura Política”, ocorrida no final dos anos 70, que marcou o início do processo de retomada da democracia, após um longo período de regime de exceção.

Por certo serão necessários alguns resgates históricos a fim de que a questão possa ser contextualizada. Não há como falar na redemocratização do país sem passar, mesmo de forma rápida, pelo período anterior, que deu origem a esse processo. O objetivo final, contudo, é provocar uma reflexão sobre esses acontecimentos da história recente do país e projetar a maneira como essas lembranças podem servir para a formação de uma consciência crítica sobre o momento atual da sociedade brasileira e o seu futuro.

A primeira idéia que lanço e que submeto às críticas daqueles que porventura venham a ler este texto e que tenham pensamentos diferentes, é a de que não deixamos de estar vivendo uma ditadura nos dias modernos. Essa afirmação pode parecer estranha e mesmo absurda se analisada à luz do conceito formal que temos de ditadura. Refiro-me a outro tipo de ditadura, porém. A ditadura por excelência, aquela em que as casas legislativas são fechadas, as liberdades individuais são tolhidas, entre outros absurdos, essa sim ficou para trás e talvez não volte nunca mais. No entanto, acredito que hoje vivemos sob o regime de uma ditadura velada, que utiliza outros meios muito mais sutis para manipular a sociedade. Isso representa uma evolução do pensamento autoritário do homem, que já não encontra meios de subjugar o seu semelhante pela força e acaba descobrindo maneiras de fazê-lo sem que isso seja percebido. Basta que vejamos a verdadeira lavagem cerebral provocada na cabeça das pessoas pelo famigerado BBB.  Ninguém vai dizer que desconhece o significado desta sigla, certo? Sobre siglas, aliás, cabe uma pergunta: qual seria a média de acerto se perguntássemos a cem pessoas, escolhidas aleatoriamente entre o povo, o significado da sigla PEC, da qual tanto se ouve falar atualmente? Baixíssima, com certeza. E essas mesmas pessoas saberiam o que quer dizer BBB? Provavelmente, sim. Uma outra pergunta: o que altera mais profundamente a vida dessas mesmas pessoas: um Projeto de Emenda Constitucional que praticamente arrasa o sistema previdenciário público do país e faz com que o cidadão morra e ainda fique devendo tempo para a aposentadoria, ou o vencedor do prêmio do Big Brother Brasil? Esses são apenas alguns reflexos da ditadura velada a que me referi anteriormente.

Vamos fazer uma rápida viagem no tempo, para chegar ao fim dos anos 70 e começo dos anos 80, quando termina o governo Geisel e começa o governo Figueiredo (aquele mesmo que disse que preferia o cheiro dos seus cavalos ao cheiro do povo, lembram?). Esse período marca o início do processo de abertura política. Exilados, agora anistiados, voltando para casa; eleições diretas para os governos estaduais (aqui foi vencedor o atual candidato a prefeito Jair Soares, que disputou a eleição com o atual senador Pedro Simon); manifestações de trabalhadores no ABC paulista; bombas na OAB e Riocentro; surgimento de um novo partido, comandado por trabalhadores; etc. Muitas figuras se destacam: algumas velhas raposas da política, como o onipresente Leonel de Moura Brizola; o senador Ulysses Guimarães, que seria conhecido mais tarde como o símbolo da Constituinte de 1988; outro senador, Teotônio Vilela, o menestrel da nova república; aquele que seria o legítimo “salvador da pátria”, mas que morreu (???) antes de comer o bolo da festa, Tancredo Neves; alguns outros, que eram debutantes na política, dentre eles o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, que ganharia o mundo sob a alcunha de Lula. Essas são apenas algumas das peças que compunham o intrincado jogo político-social que representava o quadro da sociedade política brasileira na época.

De toda essa história, sobre a qual não vou descer a minúcias, tendo em vista que este não é um texto historiográfico, o que é importante destacar é a gigantesca capacidade de mobilização do povo brasileiro, que saiu às ruas para protestar e exigir uma mudança radical nos rumos da política brasileira, após os longos “anos de chumbo”. No início de 1984, cerca de 500 mil pessoas foram a um comício na Candelária, no centro do Rio. Em São Paulo, cerca de 1,7 milhão foram ao vale do Anhangabaú, na maior manifestação política da história brasileira até então. Os comícios contavam com as presenças de artistas e lideranças políticas, como Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas, Lula, Teotônio Vilela, Barbosa Lima Sobrinho, Brizola, Fafá de Belém, Chico Buarque, entre outros. Em Porto Alegre, o palco principal das manifestações era o Largo Glênio Peres. Em 13 de abril de 1984, cerca de 150 mil pessoas (dados oficiais da Brigada Militar, o que significa que havia muito mais gente) ganharam as ruas entoando muitas palavras de ordem, cujas principais eram: “DIRETAS JÁ!”

A não aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que pedia eleições diretas para presidente já em 1984, foi um banho de água fria nas pretensões populares. Principalmente pelo fato de que ela não foi aprovada por falta de quorum. Como se pudesse existir maior quorum do que a esmagadora maioria de uma população de mais de 150 mil pessoas…

Na eleição, que teve como palco o Congresso Nacional, a disputa entre Tancredo Neves e Paulo Maluf foi acirrada, e a vitória do candidato oposicionista reanimou a nação. Apesar de indireta, a eleição de Tancredo foi recebida com grande entusiasmo pela maioria dos brasileiros. No entanto, Tancredo não chegou a assumir a Presidência. Na véspera da posse foi internado no Hospital de Base, em Brasília, com “fortes dores abdominais”. José Sarney, que nessa época ainda era um simples mortal, assumiu seu lugar interinamente. Depois de sete cirurgias, Tancredo veio a falecer em 21 de Abril (que data interessante para um mineiro morrer, não é mesmo?!?), aos 75 anos de idade, vítima de infecção generalizada (?!?). Ocorreu uma verdadeira comoção nacional, tantas as esperanças que haviam sido depositadas em Tancredo. Em 22 de abril de 1985, Sarney foi investido oficialmente no cargo. Há quem sustente a idéia de que Sarney não poderia ter tomado posse como presidente porque não havia sido empossado no cargo de vice, em função da morte de Tancredo. O fato é que ele foi diplomado e governou até 1990, um ano a mais do que o previsto na carta-compromisso da Aliança Democrática, pela qual chegou ao poder. Um fato importante, que não pode ser esquecido: o responsável pela divulgação, em rede nacional, da morte de Tancredo, foi, ninguém mais ninguém menos do que o nosso velho conhecido Antônio Britto, que era o porta-voz da Presidência. Hoje, para quem não sabe, após tantas idas e vindas, o Sr. Britto é membro do Conselho Administrativo da empresa Azaléia (ou Azalea?!?), e não tenho certeza se ele não é o próprio presidente do grupo. Achar que há alguma relação com vantagens fiscais e de outras naturezas obtidas pela empresa quando da sua gestão no governo gaúcho é muita viagem, certo? Será?

Voltando à história do país, o que vem a seguir, todos já sabem. Quero retomar a proposta inicial e provar a minha tese de que vivemos uma ditadura velada. Primeiramente, cabe lembrar a maneira através da qual legisla um governo que fecha as casas legislativas, que são as que têm a função institucional de criar leis. Isso se dá por intermédio da edição de Decretos, ou mesmo de Atos Institucionais. O que é a atual Medida Provisória se não o ressurgimento do Decreto-Lei? A Medida Provisória foi criada pela Constituição de 1988 com o intuito de possibilitar ao Executivo a normatização de algum tema de urgência e relevância, tendo caráter provisório, devendo ser convalidada no prazo de trinta dias pelo Legislativo. Vejamos, porém, como é utilizado o sistema. O governo edita MP’s sobre qualquer assunto, em qualquer período e, se não passar no Congresso, reedita sob outro número. Um governo que legisla pelo Executivo é, na minha opinião, ditatorial, sim senhor!

Vamos adiante. Quando há risco de que alguma proposta governamental seja rejeitada pelo Congresso, o presidente literalmente compra os deputados e senadores, como fez muitas vezes Fernando Henrique. Não caracteriza uma ditadura?

Recentemente, no curso do processo de aprovação da PEC da Previdência, um grupo de servidores públicos federais foi impedido de entrar no Congresso para acompanhar a votação. Barrar a entrada de cidadãos na “casa do povo” é prática comum de um regime democrático?

As emissoras de rádio e televisão funcionam por intermédio de concessões do governo. Façam o exercício de observar quantas concessões são autorizadas em anos eleitorais pelo Brasil a fora, particularmente nos estados do nordeste. Ainda acham que vivemos numa democracia plena?

Quando tempo a Rede Globo levou para lançar a nova versão do BBB? Dado o sucesso do programa, não é curioso que tenha ficado tanto tempo fora do ar, sendo lançado justamente num momento em que o país passa por drásticas transformações, principalmente na área previdenciária? E o que dizer desses constantes “escândalos” televisivos que surgem de tempos em tempos (Casseta e Planeta afrontando o povo gaúcho, Gugu armando farsa contra outros jornalistas, etc.).

Talvez eu seja um tanto quanto paranóico, mas tudo isso me parece um grande quebra-cabeças, cujas peças são lançadas gradativamente a fim de entreter o povo. Enquanto isso, em Brasília, ocorre uma convocação extraordinária do Congresso. E quem paga a conta?

Tudo isso me leva a crer que a minha teoria está certa. Vivemos numa ditadura sem ditadores. Ou melhor, vivemos numa ditadura cujos ditadores se escondem atrás dos escândalos televisivos, dos próprios programas de televisão, dos grandes campeonatos esportivos, enfim, atrás de tudo o que possa servir para mascarar a manipulação a que está sendo submetido o povo, que está preocupado mais com a hora de ver o Pedro Bial do que com a hora de poder gozar os benefícios de toda uma vida de trabalho.

Creio que o povo deveria olhar só um pouquinho para a sua história recente e refletir sobre ela. Apesar da retomada de todas as liberdades individuais, da garantia de todos os direitos fundamentais do cidadão, de todo o status social da Constituição-cidadã, como é conhecida a Carta de 88, apesar de tudo isso ainda se morre de fome no Brasil. Ainda se vê crianças trabalhando nas olarias e minas de carvão; ainda se vê mulheres sendo espancadas pelos maridos; ainda se vê pais abandonando os filhos recém-nascidos em latas de lixo, ainda se vê… Ainda se vê gente assistindo ao Big Brother Brasil…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 7/1/2013.

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Psicologia, Republicados, Saúde

Treze por cento

Dividi a minha vida em ciclos em relação à bebida. Comecei a beber aos 13 anos. Bebi durante 25. Parei aos 38, portanto há 2, e vou me manter abstêmio pelos próximos 23, para totalizar sem beber os mesmos 25 de aventuras etílicas. Depois disso, estando com 63, vou beber por mais 13, para fechar com a conta inicial e morro aos 76 tranquilo. E bêbado!

Obviamente isso não passa de uma brincadeira. Depois que eu descobri que sóbrio posso fazer as mesmas coisas boas e/ou inofensivas que eu fazia quando embriagado e, sobretudo, que eu consigo evitar as bobagens que o álcool me incentivava a fazer, decidi não beber mais, mesmo que vá adiante dos 76.

Por outro lado, não sou exatamente o que se pode chamar de um cidadão polticamente correto. E, honestamente, ainda bem que não sou. Tem coisas que ficaram muito chatas depois que se decidiu que não se pode atirar o pau no gato. Na musiquinha, claro, porque na real não se deve mesmo. Só que tem algumas coisas que vão além desse negócio de ser socialmente certinho. E é disso que eu quero falar.

Quem me conhece ou já leu algo que eu escrevi por aqui sabe que não sou muito fã da companhia jornalística do seu Maurício. Pelo contrário, tenho ene críticas ao tipo de jornalismo que se pratica na esquina da Ipiranga com a Cascatinha, opa, Érico Véríssimo. Só que também não sou maniqueísta o suficiente pra achar que tudo o que os caras fazem é ruim. Algumas coisas boas ou mais ou menos: o caderno de gastronomia, o caderno de cultura, a coluna do Veríssimo, a coluna do Flávio Tavares, a coluna do Marcos Rolim, a coluna do Percival Puggina (esta serve pra manter o nível de raiva na altura certa), a excelente frase  repetida muitas vezes pelo Túlio Milman: não há o que não haja, enfim, algumas coisas que podem ser bem úteis para quem tem o mínimo de capacidade de identificar a linha editorial de um jornal e fazer uma análise crítica disso, separar as pedras do feijão.

Bueno, nessa história toda, às vezes eu leio a coluna da Mariana Kalil. Fazia algumas semanas que não lia, porque em geral, pra não dizer sempre, ela escreve coisas que não me interessam nenhum um pouco, como a combinação possível entre saia e tênis. Mas no domingo retrasado (02/12) resolvi ler. O título era sugestivo: “Delícia de relax”, com relax grifado. E um quadrinho da Mafalda tomando banho de sol. As três primeiras frases me fizeram arrepiar os cabelos. Ei-las:

“Sigo um ritual diário, quando chego em casa à noite. Neste ritual, sempre está incluída uma taça de vinho tinto. Só consigo relaxar depois desse momento.” 

Esta última frase, então, me obrigou a reler quatro vezes esse início. Os meus conhecimentos não exatamente técnicos do assunto me dizem que uma pessoa que só relaxa depois de um copo de bebida é alcoólatra. Separei a folha para conversar com a minha psicóloga na segunda-feira, inclusive porque queria informações técnicas. Mais adiante relato algumas ideias que trocamos, mas tudo o que eu vou dizer aqui está de acordo com o que ela pensa.

Mais à frente, na coluna, a guria diz o seguinte:

“Não gosto de vinho branco e gosto pouco de vinho rosé. Gostaria mais de vinhos branco e rosé se eu conseguisse raciocinar no outro dia e não clamasse desesperadamente pela chegada da morte súbita.”

Em 25 anos adquiri uma razoável experiência com bebidas, mesmo com vinho (sempre preferi os de garrafão), e posso dizer sem medo de errar que é praticamente impossível para uma pessoa acostumada a beber uma taça por dia ter essa ressaca toda apenas por ter trocado o tipo de uva. Ou seja, pra ter vontade de morrer, ela precisa beber mais do que uma taça de vinho branco ou rosé. Mas isso é de menos. Estamos prestes a entrar num campo altamente minado.

Ela cita uma notícia do New York Times;

“Cresce o número de vínicolas que estão adotando um novo caminho para divulgar o vinho para as mulheres, criando rótulos que podem ser consumidos gelados e promovendo a bebida como uma forma de relaxar dos deveres domésticos familiares e profissionais.”

Aí ela diz assim:

“EU SOU NORMAL!”

E cita uma vinícola, da qual eu não vou fazer comercial, que adotou a ideia para a América do Sul, com uma “grande sacada”:

“Qual é a grande sacada: o teor do álcool é moderado, em torno de 12% [N.A.: MODERADO??], o que possibilita tomá-lo gelado sem alterar o gosto ou o aroma.”

Daqui a pouco vou mostrar porque a vínicola em questão optou pelos “moderados” 12% de graduação alcoólica. Mas quero avançar na questão das citações da moçoila. Como diria o Jorge Ben, opa, Benjor (já disse que sou velho), deu no New York Times:

“Segundo pesquisa do NYT, a Chateau Ste. Michelle, fez um anúncio que explica o meu desespero e o desespero das mulheres em geral: ‘O momento de beber o vinho é o momento em que ela pode se tornar ela mesma – nem mãe, nem colega de trabalho, nem motorista, nem cozinheira.’”

Perguntei para a minha psicóloga o que ela acharia se eu reescrevesse a afirmação ali de cima assim: “Ser mãe, colega de trabalho, motorista, cozinheira é uma merda, então nada mais justo que oferecer uma coisinha para a mulher se livrar desse peso e se tornar por alguns momentos ela mesma, mesmo que esse estado psiquíco cahamado ‘ela mesma’ seja obtido apenas com o auxílio de uma bebida de álcool.” Talvez se o crack fosse liberado a mulher-alvo da propaganda pudesse ser ela mesma gastando bem menos…

Pouco antes de encerrar a coluna, a editora do caderno Donna botou a mesma fotinho de uma moça berrando que ela usou antes pra dizer:

“EU SÓ QUERO RELAXAR!!!”,

dizendo agora:

“EU SÓ QUERO ME TORNAR EU MESMA!!!”

Tá, a partir de agora vamos a algumas coisas que eu pesquisei e outras que eu fiquei sabendo com a ajuda da minha terapeuta, para quem eu perguntei de cara quais os critérios para diagnosticar a alcoolemia. Não vou adentrar por informações muito técnicas, mas o que eu queria saber é se a guria não estava se declarando alcoólatra já no início do texto, quando diz que só relaxa bebendo, embora uma taça apenas. A resposta confirmou o que suspeitava, que fica evidenciada, no mínimo, uma dependência psicológica. Para quem quiser ir mais a fundo, bota no google “Ronaldo Laranjeira”. O cara é o cara do assunto no Brasil e um dos caras do assunto no mundo. Vale a pena dar uma olhada, nem que seja pra confirmar que eu não estou querendo ser o joãozinho-do-passo-certo e nem dar uma moral de politicamente correto. A coisa é científica.

Eu disse que ia explicar o porquê dos 12% do vinho. Acontece que a propaganda de bebida aloólica é proibida no Brasil. Sim, não estou bêbado pra dizer isso, no Brasil não se pode fazer propaganda de bebida alcoólica. É o que diz a Lei nº 9.294, de 15/07/1996 e o Decreto nº 2.018, de 01/10/1996, ambos em plena vigência. Acontece que para os nossos iluminados legisladores, a bebida só é considerada alcoólica, para os efeitos da legislação referida, se o teor de álcool for superior a 13%. Ou seja, será que foi coincidência a fabricação do vinho com 12%?

Lá pelas tantas, na conversa com a minha psicológa, ela falou em xamanismo, uma fração de segundo antes que eu fizesse uma referência ao Castañeda e ao Don Juan, com a história de despertar outros níveis de consciência a partir do uso de certas substâncias, no caso deles, particularmente, o peiote. Pois é isso que parece, porque o jornal, a fábrica de vinho e a nossa colunista falam que a mulher só pode relaxar bebendo, quer dizer, sem o auxílio mágico do vinho, com seus módicos 12%, a vida dela vai continuar em permanente estresse. Ora, quem não quer relaxar? Quem não quer se tornar “eu mesmo”? Então “vamos beber” é a mensagem. Ou não?

Vocês podem até achar que eu estou exagerando ou que isso tudo é bobagem, mas, pensem bem, o caderno Donna é lido por muita gente, inclusive por gente que está em processo de formação da personalidade (minhas filhas, por exemplo). A coluna da Marian Kalil, particularmente, atrai a atenção de um público jovem, porque ela fala de moda, de lugares legais etc., numa linguagem moderna, descolada. Imaginem, então, uma guria de 12, 13 anos lendo que a Mariana Kalil só relaxa com uma taça de vinho e que faz propaganda de vinícolas especializadas na divulgação dessas ideias. Seria exagero imaginar que um dia antes da prova final essa guria chegasse em casa e tomasse um “traguinho” pra relaxar? Mas pai, a Mariana diz que não tem galho, que ela toma uma tacinha de vinho sempre pra ficar relax.”

Concordamos, a minha psicóloga e eu, que essa coluna foi um desserviço à comunidade e é extremamente perigosa, apesar de ser aparentemente ingênua. Aliás, de ingenuidade não há nada nos veículos da rbs. E se os Sirotsky chegaram na Mariana dizendo: “Olha só, tem uma vinícola afim de investir no jornal. Dá uma forcinha na tua coluna.” Alguém duvida?

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 11/12/2012.

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Política, Republicados

A Arena que não é pro futebol*

Nos últimos tempos, sempre que se fala em Arena neste Continente de São Pedro, a primeira ideia que vem à cabeça é a praça de esportes que está sendo erguida no Humaitá, que, paixões clubísticas à parte, parece ser uma obra muito bem construída. Entretanto, a minha preocupação atual é com outra ARENA, que se costuma grafar com letras maiúsculas.

Acho que todos devem saber, ou pelo menos deveriam, que a Aliança Renovadora Nacional – ARENA, congregou as forças “revolucionárias”, que a partir de 1964 implantaram no Brasil um sistema de trevas, conhecido como ditadura militar, anos de chumbo, regime de exceção etc. Pois esta ARENA era o partido o oficial do regime, que sufocou todas as outras manifestações ideológicas em qualquer nível. A saída para os contrários ao sistema linha dura era trabalhar na clandestinidade ou militar no partido de oposição autorizado pelo comando central da caserna, o MDB – Movimento Democrático Brasileiro. A partir do fim do regime autoritário, a ARENA dissolveu-se e gerou vários partidos, PDS, PFL, PP, DEM etc. O pluripartidarismo vigente no país permite (e até incentiva, em nome de certos interesses) o surgimento de partidos de programa e ideologia confusos, que geram alianças e apoios no mínimo esquisitos (Ana Amélia – PP, apoiando Manuela – PC do B). Essa confusão ideológica faz com que a divisão entre esquerda e direita soe um tanto quanto anacrônica aos meus ouvidos, embora ainda seja necessária, principalmente quando se pretende contextualizar as coisas.

De qualquer forma, no aspecto histórico, temos um partido, ARENA, que sustentou o regime repressivo, e que deu origem a diversas agremiações, dentro daquilo que o Brizola costumava chamar de “filhotes da ditadura”. Pois é esse partido que a jovem Cibele Bumbel Baginski, estudante de Direito da Universidade de Caxias quer reconstruir.

Quando ouvi as primeiras notícias sobre isso, não dei bola. Achei que era coisa de grupos neo-nazistas, neo-fascistas ou outros neos que andam por aí, que são perigosos, evidentemente, e precisam ser combatidos, mas que acabam não tendo o potencial necessário para um ato dessa monta. Todavia, a edição de 13 de novembro de 2102 do Diário Oficial da União, traz nas páginas 202 e 203 da Seção 3, a publicação do Estatuto da ARENA, que é um ato prévio ao recolhimento de assinaturas para a fundação de um partido. É isso mesmo, a guria publicou o estatuto do partido. Está lá, disponível para quem quiser conferir:

http://www.in.gov.br/visualiza/index.jsp?data=13/11/2012&jornal=3&pagina=202&totalArquivos=240

Trabalhei durante um tempo na Biblioteca da Procuradoria Regional do Trabalho (cabe uma referência à excelente Bibliotecária, Sachi, para quem pedi auxílio para encontrar a publicação oficial) e sei que a publicação de uma matéria na imprensa oficial não é algo que se possa considerar muito barato. Há notícias que a Cibele levantou o dinheiro através de campanhas nas redes sociais. Isso mostra a força do projeto e aponta de forma inequívoca para o sucesso da empreitada.

Examinei o estatuto e destaquei alguns pontos sobre os quais acho interessante fazer algumas observações.

O artigo 1º define o partido e é, de certa forma, uma síntese de toda a proposta. O parágrafo 2º diz: “A ARENA possui como ideologia o conservadorismo, nacionalismo e tecno-progressivismo, tendo para todos os efeitos a posição de direita no espectro político, devendo as correntes e tendências ideológicas ser aprovadas pelo Conselho Ideológico (CI), visando a coerência com as diretrizes partidárias.”

A minha amiga Karen Pereira, jovem estudante, que eu conheço apenas pelo mundo virtual, me mandou um mail com um link para um texto de um professor de Relações Internacionais, Leonardo Dutra, publicado no clicrbs (http://wp.clicrbs.com.br/doleitor/2012/11/22/artigo-arena/?topo=13,1,1,,,13), que, entre outras coisas, diz o seguinte: “Apesar de despertar a repulsa de diversas camadas da atual sociedade brasileira acostumada à preponderância de ideias de centro-esquerda, a necessidade de representação do pensamento conservador é tão importante quanto a defesa da mudança na sociedade. É tão danoso para um país um governo de direita onde a esquerda é reprimida quanto um governo de esquerda, onde a direita não existe.”  E ainda: Como explicitado nos últimos pleitos, especialmente nas últimas eleições presidenciais, a inexistência de uma direita com representação política no país deixa sem voz uma parcela significativa da população, partidária da defesa da liberdade entre os cidadãos brasileiros, e pouco simpática ao atual esforço político no poder, que elegeu a igualdade como bandeira principal de seus programas políticos.”

Olha, embora não saiba em que instituição o professor leciona, creio que ele seja uma pessoa esclarecida e com condições de exercer o magistério. Entretanto, parece faltar-lhe uma visão mais acurada do panorama político brasileiro. Como ele pode dizer que o conservadorismo não está representado no país? Ali em cima eu falei apenas de alguns partidos de tendência reacionária. Examinando a composição das casas legislativas pelo Brasil afora, veremos que esses partidos representam uma parte muito significativa delas. O Rio Grande do Sul é representado no Senado por um parlamentar identificado com a esquerda (Paulo Paim), um com histórico de lutas sociais, mas que pertence a um partido que, não sendo o único, é hoje um verdadeiro balaio de gatos (Pedro Simon) e uma senadora direitista até a medula (Ana Amélia Lemos), defensora dos interesses da classe ruralista, que se elegeu graças ao poder do grupo jornalístico em que trabalhou a vida inteira, que não é outro senão a sucursal gaúcha daquele grande conglomerado que ajudou a sustentar o regime “revolucionário” de 1º de abril. Ou seja, um terço da bancada gaúcha do senado é de direita, o outro terço é indefinível e apenas um terço é claramente identificado com políticas marxistas. Fora isso, um dos parlamentares que mais tem espaço na mídia gaúcha é o senhor Onyz Lorenzoni, um dos caciques do DEM. E falo apenas do Rio Grande porque é a realidade que mais domino, mas no Brasil não é diferente, haja vista as pressões da turma do campo acerca do Código Florestal. Falta representatividade à direita? Por favor, professor… As palavras finais do trecho citado metem uma dúvida na cabeça: afinal, o professor acha mesmo bom a existência de um partido que represente os grupos pouco simpáticos “ao atual esforço político no poder, que elegeu a igualdade como bandeira principal de seus programas políticos.” Ora, a igualdade não é a aspiração máxima da sociedade? A quem, interessa, então, barrar um projeto que tem como finalidade aquilo que todos os brasileiros desejam e que é, inclusive, um dos primados da Constituição Federal?

Seguindo adiante no estatuto, vemos que o parágrafo 3º do artigo 1º prevê que “A ARENA, em respeito a convicções ideológicas de Direita,não coligará com partidos que declaram em seu programa e estatuto a defesa do comunismo, bem como as vertentes marxistas (…).” Até aí nenhum problema, a definição é plenamente coerente com os ideais do partido. O problema é o artigo 2º, que no item IV diz que a ARENA tem por objetivos “incentivar o desenvolvimento da cidadania, opinião crítica e social, a formação da personalidade dos jovens (…)” Tudo bem que não coligue com comunista, mas para estimular a opinião crítica e social é necessário que se apresentem de forma clara e isenta as correntes contrárias ao pensamento do partido, e qualquer um que ler com atenção o citado § 3º vai entender que ali está, nas entrelinhas, que o comunismo, o marxismo, a esquerda, enfim, não presta. Coerência: 0!

O item VI do mesmo artigo diz: “Resguardar a soberania nacional, o regime democrático e o pluralismo político de toda a forma de unanimidade de pensamento ou hegemonia política.” Desconfio que a moça e seus seguidores desconhecem o que aconteceu no Brasil entre 64 e 85. Como pode alguém pregar o pluralismo de ideias justamente tentando recriar um partido que elegeu o pensamento único como um de seus mais eficientes mecanismos de manutenção no poder? Tem algo errado aí…

Já na parte do Programa Nacional de Atuação, no item referente aos Direitos Humanos (?), o estatuto diz que o partido vai buscar a “Abolição de quaisquer cotas raciais, de gênero, ou condições ‘especiais’” Bueno, primeiro, falta esclarecer o que são condições “especiais” (está entre aspas no original). Há quem defenda (eu!) e há quem seja contra as cotas. Sem problema. Fica engraçado é quando uma pessoa é contra os programas sociais, propõe a (re)criação de um partido que tem entre seus objetos extingui-los, mas está na universidade por intermédio do PROUNI. Sim, meus amigos, a guria é beneficiária do PROUNI e acha que não tem nenhuma contradição nisso. Eu é que não entendo nada de nada mesmo…

Logo em seguida, o partido defende a maioridade penal aos 16 anos, outro tema polêmico, que não vou abordar agora, e abre um campo para falar de Educação e Cultura. Aí eles querem o “Retorno ao currículo escolar das disciplinas de Educação Moral e Cívica e Latim.” Eu e muitos dos que vão ler este meu escrito, frequentamos o colégio na época da ditadura. Na faculdade, ainda como resquício do governo dos milicos, estudei Realidade Brasileira, que era o nome novo de Estudos de Problemas Brasileiros. Sobre o que eu vi na faculdade, desnecessário falar, porque na época eu já tinha melhores condições de discernimento. Mas na Moral e Cívica eu “aprendi” que o amor à pátria é um “sentimento” imposto e obrigatório, não uma manifestação espontânea; “aprendi”, também, que a família é a célula nuclear da sociedade. Será que a nova Moral e Cívica vai aceitar as uniões homoafetivas como famíliase, portanto, células nucleares da sociedade?

Sobre o Latim, vejam o que disse um dos comentadores do texto do professor, citado ali em cima: “Exceto pela aula de latim (base para entender não só o português corretamente mas também o italiano, francês, espanhol e quiçá o inglês), de resto é puro nonsense.” Gostaria que essa pessoa explicasse um pouquinho melhor o que é entender corretamente o português e no que o latim pode ajudar nessa tarefa. Salvo se o cara pretende ler o Camões ou as coisas escritas antes dele, o latim vai ajudar muito pouco a entender a(s) língua(s) portuguesa(s) falada hoje no Brasil. Ressalvados, é claro, os interesses científicos, como os dos linguistas, mas isso é outra conversa. Talvez para entender este “quicá”, que só ele ainda deve usar, talvez para isso o latim também deva servir. De resto, para estudar inglês, olha, o latim está para o inglês moderno (acho que é esse que interessa, né?!) assim como o bacalhau está para o vatapá. Aliás, essa me lembrou uma que o Doutor Cláudio Moreno me disse em resposta a uma crítica que fiz a uma das suas colunas, há alguns anos: “Essa foi de fazer chorar bacalhau em porta de venda!”)

Por fim, na parte destinada à Soberania Nacional, a “nova” ARENA entende que é necessário “reaparelhar as Forças Armadas, tirando-a do seu sucateamento e pouco efetivo.” A moçoila acha que a caserna está mal equipada e com pouca gente? Fico com medo do que ela dirá se um dia entrar num posto de saúde do SUS…

Bueno, já falei demais. Vou deixar que vocês reflitam sobre essa coisa toda. Antes de encerrar, porém, quero dizer que tive a oportunidade de ler, há alguns dias, o relatório da CPI que apurou a morte do sargento do Exército Manoel Raymundo Soares, que, em 1966, apareceu boiando perto da ponte do Guaíba, com as mãos amarradas pra trás, o que fez com que o episódio ficasse conhecido como “O caso das mãos amarradas”. É considerado o primeiro crime cometido pela ditadura oficialmente reconhecido (não pelos homens da farda, claro, porque eles nunca cometeram nenhum crime). O documento é impressionante, e eu posso falar mais em outra ocasião, mas quero destacar apenas um pequeno trecho, que diz muito sobre o partido que dona Cibele quer trazer de volta. Na época da CPI, que aconteceu antes da instituição do AI-5, logicamente, uma comissão do Instituto dos Advogados do Brasil foi examinar algumas instalações do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e a Ilha do Presídio, onde o sargento Manoel passou mais ou menos cinco meses, e de onde o seu corpo foi arremessado nas águas do Jacuí. O relatório do IAB, enviado à Procuradoria Geral do Estado, atesta, entre outras coisas, que “Nos campos de concentração da Alemanha nazista matava-se com mais humanidade os judeus que eram remetidos às Câmaras de Gás de que o infeliz sargento que foi jogado às águas encapeladas e frias do Rio Guaíba, do sombrio agôsto [grafia original]. A êste [idem] foi primeiro ministrado o ‘tratamento prévio’ que durou de março, data da prisão, a agôsto, data de sua morte.” (Série “Memórias do Parlamento”, agosto de 2011.)

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 27/11/2012.

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