História, Política

Crônica de uma nau à deriva – Parte 1: o roedor

O ex-presidente da República de Curitiba chutou o balde. Há quem diga que foi o pior golpe externo sofrido pelo Messias no seu pontificado. Isso pode ser verdade, considerando que o ocupante do cargo máximo do Executivo nacional é pródigo em se autoflagelar e expor a própria imagem ao ridículo (refinadíssima manobra de diversionismo?). Algumas coisas, porém, exigem um pouco mais de atenção nos pronunciamentos que abalaram ainda mais a já frágil situação do (des)governo.

O ex-ministro-popstar, que, não esqueçamos, foi o grande artífice da tomada do poder pelo projeto bolsonarista, deixou escapar, propositadamente ou não, algumas coisas que sempre foram óbvias para quem quer que analisasse as conjunturas com um pouco menos de ódio. Ao dizer que nos governos Lula e Dilma não houve nenhuma interferência do poder nas investigações e processos, embora a corrupção tivesse grassado naqueles tempos (palavras suas), não fez mais do que confirmar os fatos, já que quadros políticos do mais alto escalão petista foram pegos nas operações da Polícia Federal e do MPF, e alguns julgados – e invariavelmente condenados, por vezes até sob meras suspeitas – pelo titular da 13ª Vara Criminal da Justiça Federal de Curitiba, inclusive. Ora, que governo que tivesse o ânimo de pautar as ações dos órgãos investigativos não o faria para proteger os seus, inclusive o presidente e depois a presidenta? Essa forma de corrupção não houve nos governos petistas, e isso foi dito pelo ex-ministro.

Por outro lado, o ministro demissionário, escancaradamente e sem nenhuma vergonha (nem cautela), jogou para a torcida na introdução da sua fala. Para afastar o que sempre se disse sobre a troca de favores, no caso a nomeação para o STF, falou que fez apenas uma exigência para aceitar o convite de integrar o (des)governo: que sua família não ficasse desamparada caso algo lhe acontecesse no heroico trabalho de combater a alta criminalidade. Se ficasse apenas nessa menção genérica, a questão poderia passar in albis, porém ele foi objetivo, dizendo que pediu uma pensão à família na sua eventual ausência, já que contribuiu por pouco mais de 20 anos à Previdência etc. Se isso é fato de menor gravidade, quase um crime de bagatela diante do que viria pela frente, é outro debate, porém que se constitui em ilicitude que em nada combina com a imagem de incorruptível paladino da ética cuidadosamente construída pelo ex-juiz, ninguém há de questionar.

Diz-se que a corrupção no Brasil foi trazida na frota de Cabral, tendo em Pero Vaz de Caminha relator da viagem, o primeiro corrupto. O pedido, ou melhor, a condição, conforme o próprio ex-ministro, não tem nenhuma sustentação legal, pelo contrário, trata-se justamente da troca de favores que tentava desconstituir. Moro nitidamente quis fazer média com o povo, consolidando a imagem do homem que se sacrifica pelo país, se importando pouco com a própria vida, mas que mantém a preocupação com a família, instituição tão cara no discurso que levou o projeto fascista ao poder. Porém, ao tentar construir essa narrativa, acabou por tropeçar nas palavras e se tornar confesso de ato de corrupção. Algo muito semelhante ao que fez o escriba d’El Rey nos idos de 1500.¹

A partir daí, o que se ouviu e viu foi algo que algumas pessoas muito bem chamaram de delação (ainda não) premiada. Cabe aqui, porém, mais um questionamento. Desde que assumiu as ações da Lava Jato, se transformando quase em parte de algumas delas, Moro se consubstanciou no cabo eleitoral perfeito de Bolsonaro, já que era responsável direto por botar atrás das grades o inimigo público nº 1 de boa parte dos brasileiros, lavando assim a alma de uma parcela da população sedenta por vingança contra algo que ainda não se sabe direito, mas que se especula. (Uma representante desta classe disse que não havia mais graça ir a Paris, pois era grande o risco de cruzar com o porteiro do prédio no aeroporto.² Lembram?) Mais do que cabo eleitoral, Moro, ainda como juiz, foi o fiador da eleição. Tê-lo no governo era questão estratégica para levar me frente o projeto. E um reconhecimento por serviços prestados, pois tirou de campo o único que poderia fazer frente a Bolsonaro na campanha. Fazendo uma analogia com o futebol é como se o árbitro que apita uma final de campeonato entre dois grandes rivais, e neste jogo prejudica um dos times a ponto do outro conquistar uma vitória relativamente fácil, fosse convidado para ser diretor do clube vitorioso logo ao fim do campeonato. É mais do que evidente que um juiz em franca ascensão não botaria no lixo uma carreira promissora na magistratura para se lançar num voo (cego) político ao lado de um sujeito tresloucado como Bolsonaro. Diante de tamanha aventura, talvez o cargo vitalício na Corte Suprema tenha sido apenas uma parte do acordo. A parte que ele decidiu abrir mão para agir como os roedores que abandonam o barco quando a água começa a entrar na casa das máquinas.

Mas, vamos pensar bem, será razoável que o ex-ministro privou da intimidade do chefe por pelo menos um ano e meio, contado só o tempo que durou o seu mandato, e somente agora conheceu o verdadeiro Bolsonaro? Ele não sabia que o corrupto presidente era no mínimo capaz dos crimes que denunciou, apesar de ter dito que não era novidade a tentativa de interferência do patriarca dos números (filho 01, 02, 03…) nas investigações da PF? Se não sabia mostra-se um homem de ingenuidade incompatível com os cargos que ocupou. Se sabia, era seu dever ético e legal, uma vez que ocupante do cargo de ministro, que denunciasse as práticas do seu superior. Em não o fazendo, Moro cometeu crimes típicos de servidor público, na melhor das hipóteses.

As pessoas que tinham em Moro um ídolo coadjuvante, escudeiro do … Mito, e que agora o elegem como o esteio moral da nação, por cair atirando para todos os lados, deveriam ampliar um pouco o campo de visão e tentar enxergar os pés dos seus santos, que talvez sejam de barro. Ou patas com garras afiadíssimas…

¹https://www.recantodasletras.com.br/textosjuridicos/6367625

²https://www.geledes.org.br/o-perigo-de-dar-de-cara-com-o-porteiro-do-proprio-predio-danuza-leao-pede-desculpas-a-porteiros-e-leitores/

*Foto copiada do site https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-diz-nao-ter-compromisso-com-moro-no-stf-e-querer-evangelico-na-ancine/, consultado em 26/4/2020.

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Esportes, Imprensa, Jornalismo, Republicados

Ouro de Tolo (Será?)*

Esperei o fim da olimpíada para escrever um pouquinho sobre o assunto.

Começo dizendo que a virada das gurias do vôlei em cima da Rússia foi uma das coisas mais emocionantes que eu já vi no esporte, com exceção dos jogos históricos do Inter, é claro, mas isso é conversa pra outro blog (interdetodos.blogspot.com). Assim como também me emocionei ao ver um pódio formado por três jamaicanos. Um tapa na cara de quem acha que a Jamaica é só a terra da Grace Jones! E sempre me emociono quando vejo atletas de países pobres, principalmente os africanos, no pódio, e mesmo só pela sua participação, e aqui chamo o Brasil e faço o gancho para o que eu quero falar.

Lá pelas tantas, no meio das competições, antes de um jogo da seleção masculina de futebol, ouvi um comentário do Edegar Shimidt dizendo que o Mano Menezes andava preocupado com a pressão sofrida pelos jogadores por uma medalha de ouro, diante do “fracasso” dos outros esportes.

Em 07 de agosto saiu no Blog do Prévidi uma postagem com o seguinte título: “FIASCO”. Ele começa dizendo: 

Os governos brasileiros jamais deram bola para os esportes – exceção para o futebol.” 

Depois o cara se contradiz:  

O Governo coloca milhões e mais milhões nesses atletas e os resultados são pífios.”

E encerra com esta pérola:

“GOSTARIA DE SABER QUANTO O GOVERNO BRASILEIRO INVESTE NESSES “ATLETAS”??
NA MAIORIA, UNS INÚTEIS!!

Assim mesmo, em letras garrafais e negrito.

Eu botei um comentário lá dizendo que inútil era o comentário dele. Em 10 de agosto ele disse: 

Tem alguns leitores que não gostaram do meu Bom Dia de terça passada, “Fiasco”, sobre as participações dos brasileiros em Olimpíadas.
Fiz uma pergunta fundamental: Apenas nesse século, o que o Governo federal gastou com os atletas? O que Eletrobras, Petrobras, Caixa, Banco do Brasil e muitas outras estatais gastam por ano – não apenas com os atletas, mas os patrocínios nas TVs, que “incentivam os esportes olímpicos”?Ora, por favor, os resultados são pífios.Para terem uma ideia, até hoje de manhã, os Estados Unidos conquistaram 90 medalhas. Apenas nesta Olimpíada.De 1920 até hoje o Brasil conseguiu um pouco mais de 100 medalhas!!Não é um fiasco?Fiz uma pergunta fundamental: Apenas nesse século, o que o Governo federal gastou com os atletas? O que Eletrobras, Petrobras, Caixa, Banco do Brasil e muitas outras estatais gastam por ano – não apenas com os atletas, mas os patrocínios nas TVs, que “incentivam os esportes olímpicos”?Ora, por favor, os resultados são pífios.Para terem uma ideia, até hoje de manhã, os Estados Unidos conquistaram 90 medalhas. Apenas nesta Olimpíada.De 1920 até hoje o Brasil conseguiu um pouco mais de 100 medalhas!!Não é um fiasco?”

Está tudo lá em previdi.blogspot.com.br, para quem quiser conferir.

Vamos examinar essa questão com um pouco mais de cuidado.

A declaração atribuída ao Mano, cuja autenticidade não posso atestar, pois ouvi de terceiro, é simplesmente ridícula. O futebol masculino é o único esporte que deve obrigatoriamente trazer a medalha de ouro para o Brasil. E há diversas razões pra isso. O Brasil é uma verdadeira fábrica de jogadores (isso talvez até atrapalhe um pouco, mas não deveria). Enquanto as outras seleções são, em regra, formadas por jogadores ainda não suficientemente experimentados, em função do limite de idade, o Brasil leva praticamente o que tem de melhor. Neymar, Oscar, Damião, Sandro, etc., são jogadores da seleção principal. A CBF oferece uma estrutura que duvido alguma outra confederação ofereça. Os salários são milionários. Ou seja, eles só tem que se preocupar em jogar futebol. E embora eu tenha dito que o ouro é obrigação, a derrota até poderia acontecer, é do jogo, mas nunca nas condições em que ela invariavelmente acontece, com uma tremenda badalação em cima dos jogadores e tudo mais. Isso que desta vez a plim-plim nem tinha tanto acesso. É preciso dizer ao seu Mano Menezes que essa estratégia de se vacinar dizendo que há muita pressão em cima dos jogadores é muito batida. Eles são muito bem pagos e muito bem tratados para suportar essa pressão. Além do mais, falar em fracasso dos outros esportes, se é que ele realmente falou isso, é, no mínimo, um pouco de falta de ética. Também não sei se ética é o forte do técnico canarinho, porque depois que sucumbiu aos encantos do Corinthians e da máfia da CBF ele mudou radicalmente a sua postura, mas isso também fica pra outra hora.

Vamos ao seu Prévidi. Ele diz que os governos jamais deram bola pro esporte e depois afirma que o governo coloca milhões e mais milhões nesses atletas, que ele chama de inúteis. Alguém entendeu o que ele quis dizer? Ou o governo investe milhões e mais milhões ou não dá bola. As duas coisas são excludentes.

Adiante ele diz que a Caixa Federal, O Banco do Brasil e outras estatais investem fortunas no esporte olímpico. Só que ele não diz pelo menos por cima o quanto seria essa fortuna. Perguntei isso em um comentário, já que ele é tão bem informado, e não obtive resposta. Seria bem mais fácil fazer uma análise do desempenho dos atletas, se foi ou não satisfatório, sabendo quanta grana eles recebem. Se é que recebem, porque todo mundo sabe que os caminhos percorridos pelos recursos destinados a algum setor no Brasil são por estradas muito escuras, o que faz com que muito se perca pelo caminho. Basta perguntar o que se fez da dinheirama arrecada pela finada CPMF, que deveria financiar a saúde.

Quanto aos atletas, entendo eu que com exceção do citado futebol masculino e de alguns esportes de elite, praticados por gente de classes sociais privilegiadas (iatismo, hipismo, tênis), os que chegam a uma olimpíada são vencedores só por isso. Quando eles sobem ao pódio, independentemente do metal, são verdadeiros heróis nacionais. Disseram que o Cielo fracassou, conquistando “só” o bronze. Como “só” o bronze? Esse bronze quer dizer que ele é o terceiro melhor do mundo naquela modalidade! Isso é pouco? Então, tá, e qual foi a diferença entre ele e o primeiro colocado? Tão pequena que a gente não consegue nem contar a fração de segundo que o separou do ouro.

Os atletas dos esportes menos privilegiados fazem esforços astronômicos para chegar a uma olimpíada. Economizam anos a fio, treinam em condições bem adversas, se privam de muita coisa pra chegar lá. Quanto desse dinheiro fabuloso referido pelo seu Prévidi chega realmente nos centros de treinamento? Eu tenho certeza que é muito pouco.

Durante um curto período que antecede os jogos e enquanto eles estão acontecendo, a mídia pinta uma fantasia muito bonita. Quando um atleta de quem não se esperava nada (considerando que chegar à olimpíada pra essa gente é nada) ganha uma medalha de ouro, se fala em incentivo para os atletas jovens, patrocínios, etc., etc. etc. Passada uma semana da festa de encerramento, lá estão os caras treinando nos seus clubes e em geral pagando pra isso. E o investimento milionário? Deve andar em algum bolso ou bolsa por aí. Quem sabe alguma cueca?…

Vamos ver que espaço o seu Prévidi vai dedicar nos seu prestigiado blog aos esportes olímpicos nos próximos quatro anos.

Enquanto isso, na Jamaica…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 16/8/2012.

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Mídia, Política, Propaganda, Republicados

Conselho de Comunicação*

Hoje em dia se faz cada vez mais necessária a participação da população em todas as esferas da administração pública, principalmente nas casas legislativas e nos órgãos do Executivo. E está cada vez mais fácil essa participação, porque há muitos canais de comunicação, e nesse sentido a internet, com todas as suas ferramentas, inclusive e principalmente as redes sociais, é uma grande aliada.

Em tempos de eleição, é sobremaneira importante que tenhamos muito presente na nossa mente a certeza de  que a nossa vida depende das pessoas que escolhemos para nos representar. Mesmo aqueles que são totalmente descrentes da “política”, que acham que tudo o que podem conseguir será através de seus próprios esforços, têm as suas vidas determinadas pelo que acontece no mundo da “política”, que eles tanto abominam. Um vendedor de carros, por exemplo, que entende que só do seu trabalho vai tirar o sustento da sua família, pode não perceber, mas se o governo desonerar a fabricação de veículos, isso vai ter repercussão direta na sua atividade profissional. E a tarifa do pedágio, estabelecida pelo governo ou por suas concessionárias, vai influenciar o custo do transporte do tomate e o seu preço final na feira ou no supermercado. Ademais, as atividades mais prosaicas envolvem um jogo político. Quando o cara diz pro filho pequeno que se ele escovar os dentes direitinho vai poder ficar até um pouco mais tarde olhando tv, está estabelecida uma negociação política. Queiramos ou não, tudo é política. E a omissão por certo não é a melhor das políticas.

Então, nesse contexto em que a participação da sociedade no poder público adquire tamanha importância, a comunicação é um ponto nevrálgico dessa relação. As formas de comunicação hoje em dia são as mais diversas. Desde as tradicionais, como TV, rádio, publicidade estática nas ruas, até a própria internet, que exerce cada vez mais influência na vida das pessoas. O cara tá lá olhando um vídeo no youtube e a tela aparece cheia de banners publicitários. Entra num blog qualquer e lá vem propaganda disso e daquilo. E isso é só a publicidade privada. Ainda mais importante é a propaganda oficial. É fundamental saber, por exemplo, como estão sendo aplicados os vultosos recursos destinados à comunicação social dos órgãos públicos. E aqui chego ao ponto que me interessa no momento.

O governo do estado está criando o Conselho Estadual de Comunicação Social. Fiz aquela introdução para evitar a provável pergunta que muitos fariam diante dessa informação: “O que eu tenho a ver com isso?” Todos nós temos muito a ver com isso. Como se viu, a comunicação nos nossos dias é extremamente dinâmica e difusa. Eu mesmo, que manejo muito mal as ferramentas da internet, criei este blog de maneira muito simples, sem nenhum custo direto, e escrevo o que quiser para quem quiser ler, no mundo todo. Muitos podem não ter a noção exata do que representa esse poder, mas nas mãos de quem tem objetivos definidos, esse tipo de instrumento é uma arma, para o bem ou para o mal. E isso tudo é comunicação.

Acontece que até o dia 10 de setembro, o governo está disponibilizando uma consulta popular sobre a criação desse Conselho, do qual muito se fala nos canais de mídia. Muita gente diz que ele é uma forma de controlar a imprensa e se fala até em instrumento de repressão e censura. Não é verdade. Pelo menos de acordo com o texto do projeto de lei, que está disponível no site gabinetedigital.rs.gov.br. Nesse site é possível saber todas as informações acerca do Conselho e de seu processo de criação, inclusive fazer sugestões ao texto do projeto, dar sugestões sobre a sua composição, enfim, se inteirar do que está acontecendo.

Dado o fato de que a comunicação é parte vital das nossas vidas, sugiro que entrem no site nem que seja para dar uma olhada e não ficar totalmente alienado desse importante passo para a democratização da comunicação no nosso estado. Repetindo o site:

gabinetedigital.rs.gov.br

Por fim, reflitam:

O Analfabeto Político
(Bertold Brecht)
 
O pior analfabeto é o analfabeto político.
 
 Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. 
 
Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
 
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. 
 
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 14/8/2012.

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Legislação, Republicados

Interesse: vale o público ou o privado?*

Está escrito no artigo 37 da Constituição Federal que “a administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”. Daí decorre a ideia da transparência, tão em voga de uns tempos pra cá. E, baseados no conceito de transparência, os gestores públicos vêm efetivando a disponibilização pela internet dos vencimentos dos servidores. Acontece que o artigo 5º da Carta, no seu inciso X, diz que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas”. E agora, José? A remuneração, ainda que oriunda do erário e, por consequência, do bolso do contribuinte, não constitui elemento ligado à vida privada do cidadão? Ou será que ao assumir um cargo público a pessoa perde a sua cidadania?

Não quero ser o gênio da nação, até porque a ideia que vou expor é a mesma que o Desembargador Irineu Mariani referiu hoje pela manhã na rádio Guaíba, e, portanto, certamente é partilhada por muitas pessoas que não têm preguiça de pensar. É simples: todo o funcionário público, em qualquer esfera administrativa, tem, ou deve ter, um número de matrícula registrado por ocasião da sua investidura. Publique-se, então, a remuneração do servidor, ao lado do número de sua matrícula, não declinando o seu nome. Entenda-se por remuneração, neste momento, o valor bruto dos vencimentos e os descontos legais (previdenciários e fiscais). Nada de descontos de empréstimos, pensão alímentícia, etc. E se alguém achar que um determinado funcionário ganha muito e quiser saber o motivo, denunciar, etc.? A Constituição, sempre ela, ainda no artigo 5º, mas agora no inciso XXXIII, assegura que “todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado”. O interessado entra em contato com o órgão ao qual o servidor está vinculado e faz a petição, que naturalmente deve ser instruída com os motivos por que se deseja a informação.

Com isso serão evitados muitos problemas, desde uma simples crise de ciúme de algum colega de setor, até a possibilidade do sequestro de um familiar de algum servidor que tenha o salário elevado.

Não parece muito difícil.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 9/7/2012.

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