Arte, Cinema, Cultura, Filmes, História, Música, Republicados

Gavilan

Antes de mais nada, uma nota de louvor ao Sindicato dos Bancários, que fica ali no centro do Centro, bem no meio da Rua da Ladeira, General Câmara, para os menos velhos. Lá tem uma ótima sala de cinema, bem confortável, com bastante espaço entre as filas de cadeiras, excelente sistema de som, enfim, tudo o que uma boa sala de cinema precisa, sem luxos dispensáveis. E o preço da entrada inteira é 5 reais. Sim, não me enganei, CINCO reais. Ou seja, quando objetivo não é financiar as férias dos donos do cinema nas ilhas gregas, é possível aliar qualidade e preço justo.

Dito isso, o filme. O filme é uma obra de arte. À altura da personalidade retratada: Violeta Parra. “Violeta foi para o céu” baseia-se no livro de Angél Parra, filho de Violeta, que deve ser muito bom, a julgar pela sua versão cinematográfica.

O diretor, Andrés Wood, evitou todos os clichês que se apresentam como tentações a quem pretende rodar  um filme biográfico. Seria tranquilo, por exemplo, explorar o fato de Violeta ter sido cantada por Joan Baez. Ou mesmo toda a influência que ela exerceu na arte latino-americana, particularmente no campo da chamada canção de protesto (daí a sua relação com Joan Baez, Mercedes  Sosa). Mas não, ele trilhou outro caminho, mais perigoso, no que diz respeito às pretensões de sucesso de bilheteria do filme.

A narrativa é fragmentada e intercala cenas da infância e da juventude de Violeta, com outras, quando ela, mais velha, expõe todas as atribulações do seu espírito indômito (traços do sangue indígena, talvez) e revolucionário, contrapostas à sua busca constante por amor, refletida na relação carinhosa, sem deixar de ser firme, que tem com os filhos e com o próprio namorado. Permeando todo esse jogo de emoções e sentimentos, há uma entrevista dela para uma televisão chilena, que funciona como uma espécie de fio condutor que costura os elementos da narração.

No desenrolar dos eventos do filme, o que se apresenta é um ser humano extremamente forte e muitíssimo frágil ao mesmo tempo. A mesma mulher que desafia figurões da política e das artes e os chama a todos de “mierda”, depois que é orientada a jantar na cozinha de um evento, é capaz de protagonizar crises de ciúmes quase adolescentes. Essa abordagem acaba, de certa maneira, por desmistificar a imagem que tendemos a construir dos grandes artistas como ídolos perfeitos. Eles são, no mais das vezes, tão humanos quanto nós e mostrar isso é uma das virtudes da fita.

Violeta era uma artista na acepção plena da palavra e tinha a exata noção da qualidade e valor da sua arte, que, como ela mesmo definia, emanava da relação que tinha com o seu povo. A cena em que o namorado suíço pergunta porque havia tantos quadros no quarto em que eles se hospedavam em Paris e ela responde dizendo para ele não se preocupar porque eles iriam vender todos, é antológica, principalmente pelo seu desfecho. O cara diz que o Louvre não admite que sejam feitas vendas fora do museu e ela, com a naturalidade de um gênio da arte, diz simplesmente: “bom, então vamos ter que vender lá dentro”.

A interpretação da atriz Francisca Gavilan, que inclusive interpreta as músicas, é de arrepiar. Os outros atores também são excelentes, então não há nada a dizer do filme que não seja elogio.

Não vou ficar falando mais, porque não sou crítico de cinema tudo o que posso fazer é dar a minha opinião e esta diz que o filme é imperdível.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 31/7/2012.

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O diabo é pai do rock*

Na última quinta-feira, enquanto no Rio de Janeiro o Inter reescrevia a crônica de uma morte anunciada, eu, que já li esse livro outras vezes, fui com a Patrícia ao cinema ver o filme do Raul.

A minha relação com o Maluco Beleza começa lá no final dos anos 70, começo dos 80, quando a minha mãe me falou de duas músicas dele que ela adorava: “Eu nasci há dez mil anos atrás” e “O dia em que a terra parou”. Aí eu pedi pra ela comprar um disco dele pra mim e enlouqueci. Comecei a colecionar tudo o que se referia ao Raul, principalmente notícias e matérias de jornais e revistas. Só que eu conhecia bem poucas músicas, só aquelas do disco que eu tinha, porque naquela época não tinha outro jeito de escutar músicas que não fosse comprando os discos ou ficar esperando o dia inteiro pra que a rádio tocasse alguma. Isso era o que eu pensava, mas tinha outro jeito, sim. Descobri que indo na Pop Som ou na Discoteca, ali na Galeria Chaves, a gente podia ouvir os discos com os fones que eles botavam nos toca-discos. Claro que os caras não gostavam muito quando a gente ia lá ouvir e não comprava nada, mas como eu pego amizade fácil, virei camaradinha (eu era um piá!) dos caras e eles me deixavam ouvir. Mas não muito tempo. Quando eu comecei a trabalhar, a coisa ficou melhor, porque eu pude começar a comprar os discos. Comprava um a cada mês mais ou menos. E como era a época das fitas K7 (as melhores eram TDK de chromo, caras pra caramba), eu descobri uma espécie de negócio. Ficava ouvindo os programas das madrugadas da Ipanema, que na época ainda não era Ipanema, que tocavam umas coisas meio raras pra época, como um show do Jethro Tull ou um pirata dos Beatles, muito mal gravado, por sinal. Então eu gravava isso nas fitas, no nosso (meu e do meu irmão – mais dele do que meu) Conjunto Junto Polyvox, que tinha controle do nível de gravação nos dois canais e possibilitava fazer fade outs quando a fita estava acabando antes da música terminar, e trocava por discos com os caras das lojas, na Free Som ou na Flora Discos, ali debaixo do Viaduto da Borges. Assim eu consegui montar uma razoável discoteca, que incluía, é claro, os discos do Raul, até umas raridades, como o Raulzito e os Panteras, ou o 20 anos de rock.

Falei isso tudo pra dizer que não esperava encontrar nenhuma coisa que eu já não soubesse no filme. E de fato não encontrei, mas mesmo assim o filme é ducaralho*. Não vou fazer muitos comentários, porque acho que todo mundo deve ir ver pra entender o que é um verdadeiro artista, ou melhor, pra usar uma figura mais adequada, o que é um verdadeiro rocker. Principalmente diante de tanto pastelão que a gente vê por aí hoje em dia. Apenas acho que o Caetano Veloso aparece demais. (A propósito, aparecer é o que ele mais gosta…) A relação dele com o Raul foi muito conturbada. Assim como foi com o Gilberto Gil, com o Belchior e com outros ícones da MPB. “Acredite que eu não tenho nada a ver com a linha evolutiva da música popular brasileira…”

Vão ver o filme. É obrigatório!

*O Caetano fala no filme de um dia em que ele foi no camarim depois de show do Raul com o Marcelo Nova. Ele chegou lá, abraçou os dois e disse o clássico “foi lindo”. Sobre isso, uma vez o Marcelo Nova disse que assim que o Caê (!) saiu, o Raul falou pra ele: “se esse merda entendesse o espírito da coisa, ia entrar aqui e dizer que o show foi ducaralho, mas pra ele foi lindo.” Esse era o Raulzito!

Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 14/5/2012.

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