Cultura, Política, Republicados

Viadutos, homens e homenagens*

VIADUTO PINHEIRO BORDA placa
Viaduto Abdias Nascimento (?)

 

 

O evento trágico que nos privou do convívio do grande Fernandão no último final de semana trouxe algumas discussões à baila. Muitas ideias têm surgido no sentido de como homenagear à altura um homem da grandeza e da importância do eterno Capitão Colorado. Uma delas, a que primeiro foi aventada, talvez, foi rebatizar o viaduto recém inaugurado com o nome dele.

José Pinheiro Borda era o nome que circulava como sendo o do viaduto, inclusive essa informação constava da placa das obras. Confesso que estranhava um pouco batizar com o nome do grande benemérito Colorado uma elevada que passa sobre a rua que já leva o seu nome e que fica ao lado do estádio cujo nome oficial também homenageia este prócer do Clube do Povo.

PINHEIRO BORDA
José Pinheiro Borda

 

ABDIAS NASCIMENTO
Abdias Nascimento

Para meu maior espanto, soube que o nome do viaduto é Abdias Nascimento. Este é o nome de um homem que merece todas as homenagens possíveis, por ter sido um dos maiores defensores da causas ligadas aos negros no país que tanto deve a eles. E é aí é que reside a minha maior estranheza: por que foi tão puco divulgado esse fato? Confirmei isso pela surpresa com que quase todos recebiam a informação do verdadeiro nome do viaduto. Batizar qualquer logradouro ou espaço público com o nome de Abdias Nascimento é evento que merece grande destaque, dada a magnitude do homenageado.

OLIVEIRA SILVEIRA
Oliveira Silveira

Entretanto, conversando ontem com um amigo, negro, surgiu outra questão: não teríamos entre os da terra um nome tão forte para receber essa homenagem? Sem qualquer prejuízo à honraria concedida ao grande líder negro, pensei que poderia, por exemplo, se dar ao viaduto o nome de Oliveira Silveira, gaúcho, poeta, militante da causa negra, enfim, um homem cuja trajetória e história em nada fica devendo ao grande negro paulista.

Não se trata aqui do velho e conhecido bairrismo de que a maioria dos gaúchos é acometido. O interesse é saber as motivações da  homenagem, merecida, a uma pessoa de outro estado, tendo entre as personalidades aqui nascidas nomes que poderiam também figurar, lembrando que este não é um procedimento corriqueiro, basta ver os nomes das ruas da cidade, cujos nomes são de conterrâneos em número bem mais expressivo do que de “estrangeiros”.

Voltando à conversa como meu amigo, surgem algumas pistas. Oliveira Silveira, o Poeta da Consciência Negra, teve uma atuação política extremamente destacada, principalmente na militância junto aos movimentos negros. Todavia, não exerceu nenhuma atividade parlamentar ou qualquer cargo eletivo. Já o nosso grande Abdias foi um dos fundadores de um partido político, elegendo-se deputado e posteriormente senador. Qual partido? Não por acaso o mesmo do atual prefeito de Porto Alegre e do vereador que propôs o projeto para nomear o viaduto…

Insisto que não há aqui nenhuma crítica à homenagem e muito menos ao homenageado, que, repito, é merecedor da eternização de seu nome. Apenas um questionamento sobre a opção por um grande homem nascido fora do Rio Grande do Sul em detrimento de tantos nomes – e eu referi somente um – que aqui têm a sua origem. E, mais do que isso, por que um fato tão significativo para a cultura nacional, teve tão pouca divulgação e repercussão, a ponto de poucas pessoas terem dele conhecimento?

Coisas da política(gem)…

P.S.: caso queiram saber um pouco mais desses grandes brasileiros:

http://www.abdias.com.br/

http://www.oliveirasilveira.blogspot.com.br/

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 11/6/2014.

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Cultura, Republicados

Até mais ver, Mestre!*

Imagem

Ando numa correria danada nos últimos tempos e muitas coisas andam me passando ao largo. Mas essa notícia sobre o Giba Giba me pegou mal. O cara era o cara. Um baita músico, excepcional pesquisador, muito mais do que defensor da cultura negra no Rio Grande do Sul, um defensor da cultura (e ponto final).

Não bastasse tudo isso, um dia encontrei com ele no Mercado Público, por ocasião de uma exposição alusiva ao centenário do Inter, em 2009. Me aproximei dele, meio com vergonha, porque imaginava estar diante de um gigante. Quando cheguei perto, vi que estava enganado, porque ele era muito mais do que um gigante. Colorado, perguntou se eu estava com pressa (claro que eu não estava, mesmo se estivesse) e ficou conversando comigo, em pé, por quase uma hora ou talvez até um pouco mais. Ali tive uma aula sobre o Inter, sobre a cultura negra, as religiões de matriz africanas, sobre a vida.

Depois disso, cruzei por ele algumas vezes e sempre que podia chegava pra conversar e ele sempre me cumprimentava e me chamava de Colorado. Isso me deixava emocionado e numa das vezes perguntei como ele se lembrava de mim, e ele disse que nunca ia deixar de me reconhecer porque lá no Mercado, naquele primeiro encontro, ele teve a atenção despertada pela minha tatuagem com o primeiro símbolo do Inter, no braço esquerdo. Disse que estava acostumado a ver a gurizada com o símbolo tatuado, mas geralmente o novo ou algo estilizado. O primeiro distintivo, assim quase rústico, ele nunca tinha visto. Estou lembrando disso agora com os olhos cheios de lágrimas. Como pode um cara daqueles que é praticamente um monumento se lembrar de um simples mortal como eu?

Queria ter conversado com ele muito mais, porque eu tenho certeza que isso teria me feito mais inteligente e humano do que eu sou hoje, mas infelizmente nossos encontros nessa passagem pelo planeta foram rápidos, porém foram suficientes para eu poder dizer que a humanidade perdeu um dos grandes ou, como diria o Richard Serraria, o Gigante Negão!

Vai em paz, Mestre!

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 4/2/2014.

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Cultura, Música

Tristeza*

https://youtu.be/C8py3MaTT4Q

Mandela Day

It was 25 years they take that man away
Now the freedom moves in closer every day
Wipe the tears down from your saddened eyes
They say Mandela’s free so step outside
Oh oh oh oh Mandela day
Oh oh oh oh Mandela’s free
It was 25 years ago this very day
Held behind four walls all through night and day
Still the children know the story of that man
And I know what’s going on right through your land
25 years ago
Na na na na Mandela day
Oh oh oh Mandela’s free
If the tears are flowing wipe them from your face
I can feel his heartbeat moving deep inside
It was 25 years they took that man away
And now the world come down say Nelson Mandela’s free
Oh oh oh oh Mandela’s free
The rising suns sets Mandela on his way
Its been 25 years around this very day
From the one outside to the ones inside we say
Oh oh oh oh Mandela’s free
Oh oh oh set Mandela free
Na na na na Mandela day
Na na na na Mandela’s free
25 years ago
What’s going on
And we know what’s going on
Cos we know what’s going on

Dia de Mandela

Há 25 anos eles prenderam aquele homem
Agora a liberdade se aproxima a cada dia
Enxugue as lágrimas dos seus olhos entristecidos
Eles dizem que Mandela está livre, então pise lá fora
Oh oh oh oh Dia de Mandela
Oh oh oh oh Mandela está livre
Há 25 anos nesse mesmo dia
Preso entre 4 paredes durante noite e dia
As crianças ainda sabem a história daquele homem
E eu sei o que está acontecendo bem na sua terra
25 anos atrás
Na na na na o Dia de Mandela
Oh oh oh o Mandela está livre
Se as lágrimas estão fluindo, enxugue-as de seu rosto
Eu posso sentir a batida do coração dele movendo bem fundo
Há 25 anos eles levaram embora aquele homem
E agora o mundo desce e diz “Nelson Mandela está livre”
Oh oh oh oh o Mandela está livre
O sol nascente guia Mandela em seu caminho
Faz 25 anos nesse mesmo dia
Desde o dia livre até os dias presos, nós dizemos
Oh oh oh oh o Mandela é livre
Oh oh oh o Mandela é livre
Na na na na o Dia de Mandela
Na na na na o Mandela é livre
25 anos atrás
O que está acontecendo?
E nós sabemos o que está acontecendo
Porque nós sabemos o que está acontecendo

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 6/12/2013.

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Capitalismo, Republicados

Dinheiro? Pra que dinheiro?*

Um famoso samba do Martinho da Vila começa assim: “Dinheiro, pra que dinheiro, se ela não me dá bola…” Pois eu vou contar uma historinha que um grande amigo meu, irmão mesmo, me falou. Pra justificar aquele velho ditado que diz que quem conta um conto sempre aumenta um ponto, algumas coisas foram inventadas por mim, mas ele não vai ficar brabo.

O meu amigo um dia resolveu fazer um agrado pra esposa. Ele não é muito ligado nessa coisa de marca de roupas e acessórios femininos, mas já ouvira falar algo a respeito das grifes bacanas e entrou numa loja Victor Hugo (ou Louis Vitton, agora não lembro, mas tanto faz. Peraí! Como assim, tanto faz??? Que heresia!). Escolheu lá uma bolsa e a moça da loja disse que um cinto pra complementar ia ficar lindo. Desce o cinto. A moça veio de novo: “Aquela carteira vai ficar perfeita com esse conjunto.” Manda ver a carteira. Bueno, imaginem vocês o que deu a conta. Claro que ele ficou apavorado, mas aí já era muito tarde pra voltar atrás.

Na saída do shopping (essas coisas não se compram em loja de calçada…), uma moça praticamente deu um pescoção e perguntou se ele tinha o cartão de crédito que ela representava, que era um dos mais cobiçados do mundo, sem limite de crédito, a que só os muito vip tinham acesso e toda aquela história. De cara ele percebeu que esse interesse da guria estava ligado às sacolas que tinha na mão. O faro fino da moça percebeu que um cara que sai do shopping com duas ou três sacolas VH ou LV tem que ser cliente do cartão dela.

Ele explicou que na verdade não tinha toda a grana que ele imaginava, que de alguma maneira acabou caindo numa espécie de “cilada”, que tinha deixado todo o dinheiro na loja e tudo mais. A menina, por sua vez, atacava com argumentos praticamente irresistíveis, jogando todo o seu charme pra cima dele. Eu disse PRATICAMENTE irresistíveis porque ele resistiu brava e heroicamente e saiu da agência sem fazer o tal cartão. Parabéns!!

Corta pra algumas semanas depois. O cenário agora é uma igreja, que o meu amigo, assim como a sua esposa, frequentam. E o momento é uma conversa entre ele e o padre, que é amigo dos dois. Ele conta a história, falando da sua preocupação com a futilidade do mundo, o apego ao dinheiro, enfim, tudo o que a gente tá cansado de ver todo dia e toda hora. O padre, então, falou da virtualidade do dinheiro e de como ele deve estar sempre circulando, a fim de cumprir o seu papel, que não é o de possibilitar que pessoas comprem bolsas de 4 dígitos antes dos centavos, mas de estimular o crescimento da sociedade, fazendo com que todos possam trabalhar e ter uma vida digna. Segundo o padre, com o que eu concordo plenamente, dinheiro aplicado em banco só enriquece uma pessoa: o banqueiro, e dinheiro investido em produtos de preço exorbitante só atendem a uma finalidade: ostentação. E contou uma historinha:

Um cara chega numa cidade do interior, vai ao único hotel, que não era mais do que uma aconchegante pousadinha típica, e diz que quer passar uma semana descansando, porque brigou com a namorada e quer refletir sobre a vida. Pergunta o valor da diária e diz que vai pagar adiantado, deixando mil reais com o gerente. E sai pra passear pela cidade. O gerente pega os mil e vai até a fruteira, falar com o seu Manoel:

– Seu Manoel, entrou um hóspede que pagou adiantado e eu vim aqui pagar aquela dívida pelo fornecimento das verduras e frutas que o senhor pendurou pra mim.

O seu Manoel chamou a dona Jandira, pediu pra ela atender na fruteira e foi até o sítio do seu Jeremias pra pagar uma dívida de fornecimento de ovos que ele havia segurado.

O seu Jeremias foi lá no escritório do Doutor Abreu, o advogado da cidade, e pagou uma dívida por um processo em que o doutor o tinha representado.

O Doutor Abreu saiu do escritório, deixando a porta aberta (como já deu pra ver, na cidade todos confiavam uns nos outros) e foi no consultório da Doutora Cristina, médica de todas as famílias da cidade, pra honrar um compromisso assumido quando ele precisou de atendimento pra uma sobrinha e não tinha dinheiro na hora pra pagar.

A Doutora Cristina foi no hotel e falou pro seu Cavaquinho (o gerente era português e o sobrenome era cavaco):

– Seu Cavaquinho, o senhor lembra daquele encontro de médicos que eu organizei aqui e que veio mais gente que eu pensava?

– Claro que lembro, doutora. Tava bem lindo aquela gentarada toda na cidade, né?

– Tava, tava, sim, seu Cavaquinho. Pois o senhor lembra que eu fiquei lhe devendo mil reais, porque não tinha como cobrir as despesas todas naquele dia?

– Lembro sim, doutora.

– Pois é, tive uma sorte danada hoje e recebi justamente os mil reais que precisava pra vir aqui lhe pagar.

– Muito obrigado, doutora, e disponha sempre que precisar.

Nisso, volta o hóspede: 

– Meu amigo, o senhor há de me entender. Eu lhe disse que vim descansar aqui na sua cidade por causa de um desentendimento com a minha namorada. E não é que agora a danada me ligou que quer conversar, que tá com saudade e aquela coisa toda? Então não vou poder ficar.

– Mas que notícia boa pro senhor, seu… como é mesmo a sua graça?

– Jubileu.

– Mas que notícia boa, seu Jubileu, então o senhor que volte pra sua namorada e sejam muito felizes. E venham passar a lua-de-mel aqui, que eu lhe faço um precinho especial.

– Ah, muito obrigado, amigo, mas sobre preço eu quero lhe perguntar quanto lhe devo. Faço-lhe uma proposta: como o senhor deixou a vaga reservada pra mim, pago metade do valor total e o senhor me devolve o resto.

– Que é isso, seu Jurandir…

– Jubileu!

– Perdão, seu Jubileu, sabe como é a idade, né? Mas o senhor não me deve nada. O senhor nem ficou uma noite. Tome aqui os seus mil reais de volta.”

Pois não é que o dinheiro andou por tudo quanto é lugar, pagou todas as dívidas da cidade e voltou pro mesmo bolso? Então agora me digam, o que vale mais: a habilidade da vendedora da loja, que empurrou um monte de coisas caras pro meu amigo, mesmo tendo percebido que ele não estava sabendo muito bem de quanto custavam essas coisas todas; o olho clínico da guria do cartão de crédito, que viu as sacolas caras e pulou em cima da presa como um carcará; ou a confiança demonstrada por todos os habitantes da tal cidadezinha, que fizeram o dinheiro circular, pagaram todas as contas e rafirmaram a confiança uns nos outros?

Pois é, agora um relato meu. Quem se lembra daquele jogo Banco Imobiliário? Joguei muito na infância a às vezes até depois de velho. Há algum tempo fui surpreendido quando cheguei na casa do meu irmão e o meu sobrinho estava jogando um banco imobiliário. Só que neste novo, não se compra uma casa na Av. Atlântica, nem as ações da companhia de táxi aéreo. O que se negociam são ações da Ipiranga, da Vivo, a sorte é ganhar um crédito extra no Mastercard e por aí vai. Nem as crianças escapam.

Nem as crianças escapam mesmo! Aliás, são elas, as crianças, o alvo preferido da mídia perversa e capitalista. Mais ou menos na mesma época, assisiti a uma matéria na TV Brasil sobre o consumismo inafantil. Lá pelas tantas a repórter estava entrevistando uma menina de uns 10 ou 12 anos. Ela mostrou várias embalagens de produtos industrializados (batata frita, bolacha etc.), tapando a marca de todas elas. A guria sabia o nome de todas. Quando apresentada a um prosaico mamão, ela não soube dizer o que era, para espanto da entrevistadora.

Isso é uma loucura e na época natalina vira um inferno. Eu não sou o joãozinho-do-passo-certo e nem quero ser moralista. Sempre gostei de dar presentes em datas comemorativas e as minhas filhas vão ganhar coisas no Natal. Só que há um limite pra tudo. Se continuarmos nesse processo de consumismo desenfreado, nessa supervalorização de grifes e marcas, nessa veneração pelo dinheiro, sei lá onde vamos parar.

Quem sabe a gente tenta, mas tenta de verdade, refletir um pouco sobre essas coisas todas, principalmente nós que temos filhos crianças e adolescentes, para tentar justamente mostrar alguma coisa para essas crianças e jovens, mostrar que roupa de marca, tênis caro, óculos de última geração, ipad, ipods etc. não são os grandes responsáveis pela felicidade. Nada contra comprar essas coisas, se tiver como fazer isso sem comprometer coisas mais importantes, mas que se faça isso sabendo colocar as coisas no seu devido lugar. Sei que um baita clichê, mas às vezes os clichês dizem coisas verdadeiras. O nosso amigo sol protagoniza espetáculos todos os dias e não cobra um centavo por isso. Talvez assim que entendermos de verdade o sentido desse chavão as coisas comecem a melhorar. Eu ainda acredito…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 4/12/2013.

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Religiões, Republicados

And no religion too…*

… diria um Lennon esperançoso de que um mundo novo pudesse ser construído a partir da imaginação das pessoas e da crença na viabilidade desse novo mundo. No contexto em que está colocada, essa exortação ao abandono da religiosidade pode ensejar a discussão antiga, e para alguns datada, como tudo no marxismo, sobre a religião sendo o ópio do povo. Mas não quero propor esse debate, não pelo menos agora. Nem quero entrar na questão da prática religiosa propriamente dita. Apenas quero pegar uma carona num acontecimento recente pra apresentar algum questionamento sobre a relação entre religião e sociedade, esta última compreendida em sentido amplo, sem deixar de fora mesmo as instituições oficias.

O Brasil é um país laico, embora o preâmbulo da nossa Lei Maior exclua todos aqueles que não acreditam em Deus, eis que esses não estarão protegidos por ele (ou Ele). Não obstante, discussão das mais quentes no Rio Grande do Sul é sobre a retirada dos crucifixos das salas de audiências dos Foros e de outros ambientes públicos. E bota quente nisso, porque a “ala Opus Dei” da magistratura pegou em armas para defender o direito de Cristo de defender a todos que frequentam aqueles ambientes, talvez até mesmo aqueles que acham que ele (ou Ele) nem existiu. Por outro lado, questiona-se a existência de feriados religiosos – leia-se católicos -, como Natal, Páscoa etc. Basta isso para se atestar que o assunto é complexo. E mesmo diante dessa complexidade, na minha opinião, discutido com pouquíssima seriedade. Em qualquer debate são levantados argumentos que não passam de defesas intransigentes de um ponto de vista religioso contra defesas intransigentes de um ponto de vista não religioso. E assim não se chega a lugar nenhum.

Todavia, a influência da religião na sociedade deveria ser discutida com profundidade e, acima de tudo, com seriedade. No âmbito do Congresso Nacional estamos vendo como as questões de natureza religiosa são decisivas nas tomadas de decisões, e temos como exemplo o proselitismo feito pelo Pastor Marcos Feliciano, que se tornou uma das figuras mais importantes e influentes do nosso legislativo. (Usei este exemplo apenas para ilustrar a questão, e por ser ele bastante noticiado, estando, portanto, ao alcance de todos.)

Eis o acontecimento recente de que falei: tem algum tempo, fui preencher uma ficha de cadastro, que no espaço da identificação pedia que eu apontasse a minha religião e dava como opções: católica, evangélica, espírita e outra. A opção “outra”, ao contrário do que se possa imaginar, não era neutra nem genérica, pois em seguida perguntava qual. Deixei em branco. O atendente, ao receber a folha, me alertou para o esquecimento e quando eu disse que fora voluntário ele disse que eu deveria marcar a opção “outra”. De nada adiantou eu explicar que a minha resposta não era “outra”, ele praticamente me obrigou a escolher uma opção. Peguei de volta a folha, marquei a opção “outra” e apontei “ecumênica”. O moço, já de má vontade comigo (depois percebi que ele ostentava por dentro da camisa um vistoso crucifixo de madeira) consultou alguém lá dentro e voltou dizendo que era necessário eu identificar alguma religião.  – Antes que alguém pergunte, o cadastro não tinha nada a ver com qualquer instituição religiosa, mas apenas serviria para que eu recebesse informativos periódicos de um determinado centro cultural em Porto Alegre. – Nesse momento, também eu já estava disposto a complicar as coisas. Peguei a folha de novo, botei um asterisco junto à palavra ecumênica e anotei no verso o seguinte:

“Fui criado em família católica apostólica romana praticante, e coroinha na Igreja das Dores. Só que quando a Igreja de Paulo parou de me dar as respostas que eu queria (teriam as perguntas se tornado mais complexas?), fui me tornando cada vez mais ecumênico.” Exatamente como está escrito na minha identificação neste blog. Mas resolvi não parar por aí, já que o objetivo tinha se transformado por completo numa questão pessoal e o que eu queria a partir dali era encher o saco dos caras tanto quanto eles estavam me enchendo. Escrevi mais isto:

Caso os senhores não saibam, e visando a poupar-lhes o trabalho de consultar o dicionário, ecumênico refere-se a algo que é universal, ou seja, não se restringe, no caso da religião, a um tipo de doutrina especificamente. Assim, tenho grande simpatia com as religiões de matriz africana, por seus rituais e pela musicalidade, principalmente; admiro muito os ensinamentos das filosofias orientais, particularmente do Budismo; acho interessantíssima a tradição judaica, bem como a compenetração islamita; admiro a verve dos pastores protestantes e também alguns aspectos da teologia católica; gosto de ler coisas sobre o Kardecismo, sobre o Xintoísmo, sobre o Santo Daime e já pensei em me converter à Igreja de Maradona; aprecio por demais as consturções melódicas das ragas indianas concebidas em louvor a Vishnu; por vezes canto ou recito mantras Hare Krishna; enfim, sou E.C.U.M.Ê.N.I.C.O. Almejo que tenham me entendido, por supuesto, porque entre as minhas melhores habilidades não está a de deitar ao papel bons desenhos, por isso, se forem eles necessários para vossa compreensão, terei de voltar outro dia com um amigo cartunista que então poderá me ajudar a elucidar a questão.”

Estou reproduzindo exatamente o que escrevi, porque tive o cuidado de copiar num papel, pois sabia que um dia isso me seria útil de outra forma.

Não é preciso dizer que nunca recebi um informativo sequer do tal centro cultural e, pensando bem, não estão tais noticiosos me fazendo falta.

Mas, voltando ao tema, como se explica a preocupação extrema de uma instituição sem caráter religioso com uma questão tão prosaica, a tal ponto de os caras praticamente me coagirem a declinar a minha profissão de fé? Evidentemente a partir de um certo momento estabeleceu-se uma espécie de guerra entre mim e o atendente, um querendo incomodar mais o outro. Entretanto, o fato de ser necessário o apontamento de uma religião, não se admitindo simplesmente a forma genérica “outra”, denota uma importância mais do que normal atribuída a algo que deveria ser tratado dentro da sua esfera, como uma questão de natureza pessoal. No instante em que a informação sobre a prática religiosa passa a ser algo essencial na identificação de uma pessoa, algo está errado. E isso está na base de todo tipo de intolerância que vemos diariamente na nossa sociedade. Ainda não conseguimos avançar o suficiente, na condição de sociedade organizada, para que as questões religiosas recolham a sua importância e influência aos limites estabelecidos pelas áreas de suas práticas e cultos. Não é sequer razoável que em pleno século 21 uma pessoa seja avaliada em qualquer aspecto da sua personalidade ou conduta em função da religião que pratica. E não estou falando apenas de escolhas pessoais no âmbito das amizades, mas de preconceito, segregação, retaliações, favorecimentos e coisas dessa gravidade.

Lembro da polêmica (uma das tantas) arrumada pelo Bisol, quando era Secretário de Segurança no governo Olívio Dutra, ao dizer que a maioria dos magistrados atuantes no Rio Grande do Sul era vinculada à maçonaria. Ele, que é um cara de rara inteligência e desembargador aposentado, explicou em detalhes o que quis dizer, mas mesmo assim os caras queriam a sua cabeça em bandeja de prata (olha a sombra da bíblia aí…).

Vamos refletir um pouco sobre isso, desviando brevemente para outra área polêmica: um cara entra com uma ação judicial contra um clube de futebol e na distribuição o processo vai para um juiz que é torcedor fanático e conselheiro deste clube. Terá o magistrado isenção para julgar a ação? Talvez sim, talvez não. E foi isso que o Bisol quis mostrar. Um juiz maçom, julgando uma ação em que figura como parte um seu confrade, conseguirá deixar de lado os compromissos assumidos na Loja? Possivelmente sim, mas possivelmente não. Como fica, então? Retomando os trilhos da discussão acerca da religião, imaginem como deve se sentir um sujeito que é reu em algum processo e, sendo conhecido ministro de determinada religião afro, no dia da audiência entra na sala e vê um grande crucifixo na parede, outro no peito do juiz, e, não bastasse essa configuração católica apostólica romana estatal, reconhece o advogado do autor da ação como um célebre frequentador de programas de debate na tv, sempre chamado a defender a ideologia da Igreja. Se por um lado ele deve acreditar na metáfora da justiça como uma deusa cega, por outro dificilmente não imaginará que tem pouca chance de ter sucesso na sua defesa. E por aí vai o trem da história, entre erros e acertos, rezas e velas.

Como eu disse no início, o tema é complexo e pode ser discutido amplamente sob diversos pontos de vista. De minha parte, entendo que a religiosidade, ou a negação dela, deve fazer parte das questões subjetivas, encaradas como estritamente particulares de cada indivíduo, manifestando-se de forma coletiva apenas nos espaços reservados para tal. Fora de tais espaços, que o fato do cara ser cristão, ateu, agnóstico, judeu ou o que quer que seja, não exerça nenhuma interferência na sua vida e na maneira como ele se relaciona com a sociedade.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 6/11/2013.

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Cinema, Republicados

Don’t cry for me…*

Em meados dos 90’s o mundo teve oportunidade de conhecer um pouco melhor uma das passagens históricas mais importantes da Argentina e por consequência da América Latina. A (má)dona Louise Ciccone encarnou no cinema o papel de Eva Duarte, que passou à história como Eva Perón.

Seria muito bom – e também mais verdadeira a afirmação inicial -, não fosse o fato da história ser contada de acordo com a visão manipulada e manipuladora dos USA. Naquele filme, a mulher do Perón era retratada basicamente como uma oportunista, que viu na aproximação do grande político uma chance de subir na vida. O resultado foi uma baita polêmica na Argentina e… sucesso absoluto de bilheteria, obviamente.

Criou-se, então, a sensação de que se tinha aprendido algo sobre a história do nosso país vizinho. Opiniões se forjaram e durante um tempo se falou bastante no assunto. Depois, esfriou e tudo volta a ser como dantes no quartel de abrantes.

Vinte e tantos anos depois, uma produção argentina (por que o cinema brasileiro não consegue ser assim?…) vem botar ordem no galinheiro.

Assistimos ontem “Juan e Eva” (meia dúzia de gatos pigados – casais idosos – no GNC do Moinhos. Por que será, hein?) e saímos do cinema com a sensação de estar fazendo uma espécie de resgate e preenchendo uma lacuna na nossa cultura. De minha parte, confesso que queria saber muito mais sobre a história da Argentina, principalmente sobre o peronismo, que não entendo muito bem (peronismo de esquerda, peronismo de direita, populismo etc.) – se bem que as notícias dão conta que nem os hermanos entendem. Por isso, também, o filme é excelente. Mas o filme não é excelente só por isso. O filme é excelente também porque… é excelente! Os atores são espetaculares, o roteiro é maravilhoso e conta a história a partir de um viés romântico, mas em momento nenhum descamba para um pieguismo fácil, como seria de se esperar, por exemplo, de uma produção do bacana do momento, Monjardim. A mescla de ficção (a própria diretora reconhece que a verdade da relação entre Juan e Eva é desconhecida) com fatos históricos, incluindo cenas reais, é feita na medida certa para dar uma dimensão ao mesmo tempo histórica e poética – hay que endurecerse… – sem perder de vista a ideia de que é um filme, uma obra de arte, e não um discurso panfletário, para o que poderia facilmente escorregar a produção.

A Patrícia, com uma percepção mais refinada, não achou muito legal a ideia de mudar para preto e branco a partir da entrada das cenas reais. Eu confesso que não cheguei a perceber isso ao ponto de formar uma opinião. Estava tão envolvido com a história que esse detalhe me passou em branco (ah, essa compulsão por trocadilhos…). Mas deixo bem claro, e ela pode confirmar isso nos comentários, se achar que deve, que essa opção estética não tira nem um pouquinho da qualidade do filme.

Já disse outras vezes que não sou, por falta de habilidade e conhecimento, crítico de cinema. Mas quando vejo um filme desses, não consigo opor resistência à vontade de falar sobre ele e dizer pra todo mundo ir assistir. Quem gosta de história, não pode perder; quem gosta de cinema, idem. E quem só quer uma opção pra passar um tempo, vai também. Vale (muitíssimo) a pena! Mas anda logo, porque esse tipo de filme fica bem menos tempo em cartaz no circuito comercial do que certos best(A)-sellers cinematográficos, tipo…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 28/10/2013.

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Cinema, Literatura, Republicados

Quando nem o vento ajuda o tempo a passar*

Bueno, cumprindo um dever cívico, afinal somos soldados da Pátria Gaúcha, fomos assistir já na estreia o “Tempo e o Vento”, na sua segunda versão global. Começo dizendo que o filme é muito ruim, o que, no final das contas, acaba sendo muito bom, porque eu esperava um filme horrível. Mas se bamo adelante.

O Thiago Lacerda deu boa vida ao Capitão e a própria filha da Glória, cuja atuação era a que mais me metia medo, está razoavelmente bem, considerando o portfólio da moça, claro. O Zé Adão Barbosa emprestou um pouco do seu talento teatral e acabou construindo um Padre Lara convincente. E acabam por aí as coisas boas da película.

O roteiro é de uma pobreza franciscana, embora tenha sido feito pelo Tabajara Ruas. Talvez ele tenha dado muita liberdade à Letícia “Casa das 7 Mulheres “ Wierzchowski, não sei… A narrativa é lenta e truncada, em função da infeliz ideia de inventar uma Bibiana narrando suas memórias e aparecendo muito mais do que deveria – nem o talento da Fernanda Montenegro salvou. Nas primeiras cenas, quando tu pensa que a coisa vai engrenar, eis que há um corte para a anciã abraçada no seu capitão, que voltou do mesmo jeito que partiu a fim de buscá-la para a vida eterna. Prato cheio para as lágrimas dos adoradores de clichês cinematográficos. Chega a dar sono em alguns momentos. Meio ponto positivo na nota final é o fato de não terem tentando empurrar um sotaque estereotipado goela abaixo, o que faz com que a sonoridade do filme não provoque arrepios, mas, de qualquer maneira, mostrar uma mulher que mora num descampado em meio ao nada, na fronteira com o lugar nenhum, em pleno século 18, dizendo pra filha que não precisa contar logo ao pai que está “grávida” é de fazer chorar bacalhau em porta de venda. Fosse o homem, poderia dizer que ela estava prenha, e a mãe, na melhor das hipóteses, diria que ela estava “esperando”. Agora, gravidez na pampa gaúcha dos 1.700’s é dose pra leão!

As cenas finais mostram que o diretor, se leu o livro, não entendeu patavinas. E aqui novamente eu estranho que o Tabajara não tenha alertado para isto, mas quem sabe a liberdade que a rede bobo deu pra ele? Talvez o filme tenha que ter uma segunda parte e aí tenha ficado o gancho, sei lá. Acontece que botaram o Rodrigo (bisneto), num diálogo sem pé nem cabeça com a dona Bibiana, como uma espécie de reencarnação do Capitão. Tanto que só ele é capaz de enxergar o casal quando este se despede rumo ao infinito, ela já devidamente transfigurada na Bibiana guria, que apaixonou o soldado desde a primeira vez (aliás, atuação bem fraquinha da Marjorie Estiano). Se houvesse um pouco de atenção e respeito ao que pensou o Erico, saberiam que o futuro Doutor Rodrigo Cambará herdou de fato algumas características importantes do bisavô, mas o amor desmedido e até irracional pela guerra, destacado na participação do piá, ficou quase todo com o seu irmão Toríbio. Este sim não pagava imposto pra uma peleia e tinha a impetuosidade e o espírito selvagem do Capitão. O Rodrigo do retrato, como eu disse, tinha sim algo do Rodrigo do continente, mas era alguém muito mais cerebral, coisa que aparece de alguma forma muito mais nas mulheres da família e que fica bem clara, no livro, por exemplo, na maneira como o sobrado volta às mãos dos Terra-Cambará e nas relações que se podem estabelecer entre essa manobra e as articulações políticas do novo chefe da família, já no Estado Novo. Só que se a ideia for fazer uma parte 2, teria que ter muito talento, inteligência, ousadia e coragem pra fazer um filme sobre o filho mais velho do Licurgo. E essas qualidades, convenhamos, não são o forte do filho da Maysa, né?!

Depois do filme, a Patrícia observou que é uma característica do diretor compor belas fotografias, lindos cenários etc. Isso, pra mim, só contribui pra tornar o filme um melodramão* (sono)lento, chato, cheio de clichês românticos e bucólicos, que nada acrescenta a quem leu o livro e que pode ser muito prejudicial para quem não leu.

Enfim, como dizer para que não vão ver o filme? Sei lá, se conseguirem resistir talvez seja melhor. Mas se quiserem ir, nem que seja por curiosidade, escolham um dia de promoção de ingresso…

* Se procurarem aqui no blog por um texto sobre o asnaldo jabolor (http://wp.me/p3vLD3-B), verão que essa ideia de melodramão agrada muito à turma do plim-plim.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 21/9/2013.

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