Política, Republicados

“Olha o velhinho” por LFV*

Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres. O pacto nacional MARX LUTA DE CLASSESpopular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar. Economistas liberais recomeçaram a pregar abertura comercial absoluta e a dizer que os empresários brasileiros são incompetentes e superprotegidos, quando a verdade é que têm uma desvantagem competitiva enorme. O país precisa de um novo pacto, reunindo empresários, trabalhadores e setores da baixa classe média contra os rentistas, o setor financeiro e interesses estrangeiros. Surgiu um fenômeno nunca antes visto no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos a um partido e a um presidente. Não é preocupação ou medo.

É ódio. Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou. Continuou defendendo os pobres contra os ricos. O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. Não deu à classe rica, aos rentistas. Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita. Dilma chamou o Joaquim Levy por uma questão de sobrevivência. Ela tinha perdido o apoio na sociedade, formada por quem tem o poder. A divisão que ocorreu nos últimos dois anos foi violenta. Quando os liberais e os ricos perderam a eleição, não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho. E, de repente, voltamos ao udenismo e ao golpismo.

Nada do que está escrito no parágrafo aí em cima foi dito por um petista renitente ou por um radical de esquerda. São trechos de uma entrevista dada à Folha de S. Paulo pelo economista Luiz Carlos Bresser Pereira, que, a não ser que tenha levado uma vida secreta todos esses anos, não é exatamente um carbonário. Para quem não se lembra, Bresser Pereira foi ministro do Sarney e do Fernando Henrique. A entrevista à Folha foi dada por ocasião do lançamento do seu novo livro A Construção Política do Brasil, e suas opiniões, mesmo partindo de um tucano, não chegam a surpreender: ele foi sempre um desenvolvimentista neokeynesiano. Mas confesso que até eu, que, como o Antônio Prata, sou meio intelectual, meio de esquerda, me senti, lendo o que ele disse sobre a luta de classes mal-abafada que se trava no Brasil e o ódio ao PT que impele o golpismo, um pouco como se visse meu avô dançando seminu no meio do salão (“Olha o velhinho!”) e de terna admiração. Às vezes, as melhores definições de onde nós estamos e do que está acontecendo vêm de onde menos se espera.

Outro trecho da entrevista: “Os brasileiros se revelam incapazes de formular uma visão de desenvolvimento crítica do imperialismo, crítica do processo de entrega de boa parte do nosso excedente a estrangeiros. tudo vai para o consumo. é o paraíso da não nação”.

Texto escrito por Luís Fernando Veríssimo, publicado na página 3 da edição de abril de 2015 do Jornal Extra Classe.

LFV EXTRA CLASSE 04.2015

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 7/5/2015.

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Cultura, Literatura, Republicados

Ariano e João Ubaldo no céu (por Marcelino Freire)*

“Welcome”, disse um americano branco para Ariano à porta do céu. Meu Deus, Meu Jesus! Até aqui se fala inglês. E fez logo o sinal da cruz, pediu proteção, passagem. Desculpe-me, sabe, mas eu estou apressado. Quero encontrar João Ubaldo. E repetiu, pausado: João Ubaldo Ribeiro.

Como viu que não seria entendido, o americano começou a dar uns passos: andava para trás, com os pés colados. Voltava para frente, no mesmo ritmo. De dança, ora essa, Ariano entende. Não, meu amigo, isso não é dança de gente. Olhou, de repente, e soltou um sorriso, discreto. Não é que era o Michael Jackson?

Meu filho, andei falando de você, muito. Nas minhas aulas-espetáculo. Nada contra a sua figura. Nada contra o país dos Estados Unidos. Lá tem quem preste. Por exemplo, Melville, Hemingway, Faulkner. Romance policial que eu adoro, filme de faroeste. E foi abrindo caminho, de fininho, em seu cavalo do sonho. Sempre dizia, quixotesco, que todo escritor deveria montar nesse cavalo: usar a sela da imaginação.

Meu senhor, por acaso o senhor viu um homem chamado João Ubaldo? Ele chegou pouco antes de mim, coisa de uma semana. Eu preciso falar com ele, é meio urgente. Nunca pensei que tivesse tanta gente no céu. Olhou adiante: pastores, palhaços loucos, bêbados, cangaceiros. Isto aqui está uma festa. E foi se animando. Gritou para Michael, lá distante. Olha aqui, tem ciranda, vem dançar ciranda. Besteira. Como ele vai compreender a minha língua brasileira?

O Senhor falava espanhol. Ah, de espanhol eu sei. Minha grande paixão, Ariano falou: Miguel de Cervantes. E os olhos faiscaram. As pestanas foram ao alto. Quando ouviu, sem acreditar. “Soy Cervantes”. Ali, à sua frente, o criador de Dom Quixote veio agradecer, emocionado. Por tudo o que Ariano, esse verdadeiro cavaleiro andante, fez pelo seu trabalho. Marcaram um passeio com Rocinante, para mais tarde. Iremos até a Pedra do Reino. Lá esperam por você Euclides da Cunha, José Lins do Rego, Antônio Conselheiro.

E João Ubaldo? É que eu preciso falar com João Ubaldo Ribeiro. Para lá, para aquele lado. Apontou Cervantes. E Ariano seguiu. Parecia João Grilo atrás da Compadecida. O coração vivo, pulsando. A cada curva no céu, um novo encontro. Amigos antigos. E até alguns bichos de Taperoá. Cabras, pássaros, cachorros de Deus. Viu se aproximar caranguejos. E chorou, pela primeira vez, chorou.

Chico, menino. Saudades, menino. Desculpa aqui, de novo, mais uma vez esse seu velho teimoso. Já mudou de nome? Chico Ciência, pensa, meu rapaz, é mais bonito. Queridão, querido amigo. E ficaram de mãos dadas por um tempo. E Chico Science, quem diria, foi quem levou Ariano até a presença de João Ubaldo. Foram abraçados até o baiano. Obrigado, chico, obrigado.

“Viva o povo brasileiro”, exclamou Ariano à chegada. Ubaldo estava sentado, olhando em frente um horizonte igual ao da Ilha de Itaparica. João, João. Preciso falar com você. Falar mesmo o quê? Os dois, em silêncio. Dentro do silêncio, irmanados. Não houve melhor abraço. Um do lado do outro. Permaneceram tranquilos. Feito dois palhaços. Chegados a um novo circo. É isto. o céu é um circo. Um grande circo, meu caro.

Ariano sorriu. Estou vendo que caí outra vez na conversa de João Grilo. Olha só onde eu estava com a cabeça, Ubaldo. Ele me veio com aquela história de ressurreição. Disse que há chances de a gente voltar. Morremos há pouco. O espírito ainda não deu tempo de se acostumar. É só a gente querer. Falou para a gente procurar, juntos, por Nossa Senhora, a Compadecida. Ela há de entender. O Brasil precisa muito, e ainda, de nós dois. João Grilo foi dramático. O Brasil está para morrer. Por um triz, falido. Sem esperança, combalido. Corre, corre, vai atrás de João Ubaldo e avisa. Voltem, voltem logo. Ariano sorria. Punha as mãos na cabeça e sorria. Mentiroso de uma figa. Como fui acreditar nisto? Riram e riram.

Na dúvida, toca a gaita, João Grilo.

Melhor tocar a gaita, João Grilo.

*Publicado no Caderno Proa (Zero Hora), de 27/7/2014, p. 5.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 30/7/2014.

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Ideologia, Imprensa, Mídia, Republicados

O chefe mandou*

Estivesse almejando obter grau de doutor, minha tese não poderia ser sobre a imbecilidade do criador da Mulher do Centroavante, posto que já falharia no quesito da originalidade. Também não é a primeira vez que eu falo deste sujeito por aqui. Parei de falar quando parei de ler. Hoje, porém, ao ler de passagem uma manchete do tabloide para o qual o jornalista e “escritor” David Coimbra trabalha, despertou-se a minha atenção, fazendo com que lesse a crônica do distinto “intelectual”.

O título é interessante e já deixa antever o teor do escrito: “A tal da elite branca”. E já começa entrando por cima da bola, pra usar uma expressão no clima da Copa. Diz assim: “Agora inventaram essa história de elite branca. Por favor. Uma das poucas vantagens que o Brasil realmente tem em relação a TODOS os outros países do mundo é a miscigenação. No Brasil, as etnias de fato se misturam, e o fazem com naturalidade.”

Ao dizer que “essa história de elite branca” é criação moderna, o cara que se propôs a escrever a história do mundo desconsiderou completamente a história do próprio país. Ou será que ele pensa que desde os 1500 a elite que dominou o Brasil era negra ou indígena? Ou, ainda pior, imagina o nosso insigne escriba que não há uma elite que domina o país? Pela amostra do pano, já se percebe que o cara escreve exatamente o que o patrão gosta que se escreva.

De acordo com o que diz o David, podemos depreender que aquela velha conversa do paraíso da democracia racial é verdadeira: “No Brasil, todos, japoneses, negros, alemães, anões, cafuzos, mamelucos, índios, brancos, azuis, todos são brasileiros.” O estranho é que um certo candidato ao Senado, talvez não por acaso colega de empresa, disse há poucos dias que há muitos índios que conseguiram evoluir e hoje são trabalhadores respeitados. O seu David contradisse o seu candidato, porque para este o índio precisa deixar de ser índio para ascender socialmente, então não é bem assim essa coisa de que todos são brasileiros.

Logo em seguida, toda a genialidade do cronista aflora, quando ele diz que o verdadeiro problema do Brasil é a discriminação social. Entende-se essa declaração se vinda de alguém que não deveria ter, por obrigação profissional, o dever de saber que a esmagadora maioria de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza no nosso país definitivamente não é da etnia que se pode chamar de branca. E diz ele que o que falta, na verdade, é oportunidade igual para todos. Ora, seu David, o senhor mesmo já se manifestou contrariamente à adoção da política de reserva de cotas com recorte étnico-racial. Decida-se, por favor! Se não há oportunidades iguais para todos, como o senhor mesmo reconhece, algo há que ser feito, certo? E nesse caso as cotas não servem? Parece, seu David, que o senhor quer que as coisas continuem a ser como eram, antes do processo de equalização social que se verifica no Brasil nos últimos anos, que é lento mas eficaz.

Tal qual uma metralhadora giratória, o cronista leva a questão para o futebol, quando também aí vai ser escancarado todo o seu ranço elitista (e não custa lembrar que ele é branco). “O ingresso do futebol é muito caro para o pobre. Oh! O ingresso para ver o Chico Buarque não é barato, nem o do show da Madonna, nem a entrada do cinema. Pelé não ganhava um milhão por mês. Fred ganha. Assim, ver Fred é mais caro do que era ver Pelé.”

Este é o argumento preferido dos que defendem o processo de elitização do futebol, pelo qual os torcedores oriundos das classes sociais menos favorecidas são alijados do direito de ver seu time no estádio: times bons são caros e, portanto, o ingresso deve ser caro. Não quero entrar nessa discussão específica, há muito material que desconstrói impiedosamente essa ideia nas publicações do Povo do Clube. Apenas quero dizer ao seu David Coimbra que o Chico Buarque não costuma fazer shows em estádios para milhares de pessoas, mas em teatros, numa lógica completamente diferente. Ainda assim, já soube de muitas apresentações do Chico a preços módicos e outras tantas com entrada franca. Já a Madonna, que lota grandes estádios mundo afora, proporciona um espetáculo bem diferente e menos frequente do que um jogo de futebol, inclusive com custos de produção muitíssimo mais elevados. Comparação infeliz esta, hein, seu David?

“A elite branca xingou a presidente. Quem garante que pobres e pretos não o fariam? Essa elite branca é ‘branca’ de fato? Existem ‘brancos’ de fato no Brasil? Será que existe mesmo essa divisão, pobres e pretos a favor do governo, elite branca contra? Esse é um governo só para pretos e pobres? Como é que se faz para conseguir um governo para todos?” Bah, seu David, não queria ter de precisar lhe explicar que a expressão “elite branca” é uma figura de linguagem. O senhor sabe disso, por certo, mas o chefe não lhe permite expressar ideia diferente, né? Talvez a dona do Magazine Luiza, que não é preta e nem pobre possa lhe dizer como é que se consegue um governo para todos.

E o seu David considera uma babaquice chamar a presidentA de presidentA e ainda diz que quem não acha isso estranho é um taipa. Caso encontrasse com ele, perguntaria se ele, que escreveu a História do Mundo em tomos, sabe quando a mulher brasileira adquiriu o direito ao voto; e qual a proporção de homens e mulheres em cargos de chefias nas empresas brasileiras; e se para exercer cargos iguais na iniciativa privada as mulheres recebem o mesmo salário que os homens; y otras cositas mas. Fica absolutamente claro que o seu David não entende nada – ou não quer entender – dos processos históricos que formaram a sociedade brasileira, eminentemente patriarcal e branca.

O penúltimo parágrafo escrito na coluna do seu David é um primor de manipulação, que faz um raio-x da maneira como a mídia podre, da qual ele é um expoente, costuma agir. A campanha do TSE, muito legítima, a propósito, visa a estimular a maior participação feminina na política institucional. E ponto! Ver além disso é querer passar uma imagem distorcida para a sociedade.

Sei que o David Coimbra tem sérios problemas de saúde, inclusive está nos EE.UU. Tratando da sua saúde. Não desejo (muito) mal a ninguém, por pior que seja, mas gostaria muito que a doença fizesse este cara refletir se vale mesmo a pena passar a vida, que pode ser bem curta, fazendo as vontades do chefe.

 

 

http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4531321.xml&template=3916.dwt&edition=24583&section=70

 

http://www.opovodoclube.com/

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 20/6/2014.

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Cultura, Política, Republicados

Viadutos, homens e homenagens*

VIADUTO PINHEIRO BORDA placa
Viaduto Abdias Nascimento (?)

 

 

O evento trágico que nos privou do convívio do grande Fernandão no último final de semana trouxe algumas discussões à baila. Muitas ideias têm surgido no sentido de como homenagear à altura um homem da grandeza e da importância do eterno Capitão Colorado. Uma delas, a que primeiro foi aventada, talvez, foi rebatizar o viaduto recém inaugurado com o nome dele.

José Pinheiro Borda era o nome que circulava como sendo o do viaduto, inclusive essa informação constava da placa das obras. Confesso que estranhava um pouco batizar com o nome do grande benemérito Colorado uma elevada que passa sobre a rua que já leva o seu nome e que fica ao lado do estádio cujo nome oficial também homenageia este prócer do Clube do Povo.

PINHEIRO BORDA
José Pinheiro Borda

 

ABDIAS NASCIMENTO
Abdias Nascimento

Para meu maior espanto, soube que o nome do viaduto é Abdias Nascimento. Este é o nome de um homem que merece todas as homenagens possíveis, por ter sido um dos maiores defensores da causas ligadas aos negros no país que tanto deve a eles. E é aí é que reside a minha maior estranheza: por que foi tão puco divulgado esse fato? Confirmei isso pela surpresa com que quase todos recebiam a informação do verdadeiro nome do viaduto. Batizar qualquer logradouro ou espaço público com o nome de Abdias Nascimento é evento que merece grande destaque, dada a magnitude do homenageado.

OLIVEIRA SILVEIRA
Oliveira Silveira

Entretanto, conversando ontem com um amigo, negro, surgiu outra questão: não teríamos entre os da terra um nome tão forte para receber essa homenagem? Sem qualquer prejuízo à honraria concedida ao grande líder negro, pensei que poderia, por exemplo, se dar ao viaduto o nome de Oliveira Silveira, gaúcho, poeta, militante da causa negra, enfim, um homem cuja trajetória e história em nada fica devendo ao grande negro paulista.

Não se trata aqui do velho e conhecido bairrismo de que a maioria dos gaúchos é acometido. O interesse é saber as motivações da  homenagem, merecida, a uma pessoa de outro estado, tendo entre as personalidades aqui nascidas nomes que poderiam também figurar, lembrando que este não é um procedimento corriqueiro, basta ver os nomes das ruas da cidade, cujos nomes são de conterrâneos em número bem mais expressivo do que de “estrangeiros”.

Voltando à conversa como meu amigo, surgem algumas pistas. Oliveira Silveira, o Poeta da Consciência Negra, teve uma atuação política extremamente destacada, principalmente na militância junto aos movimentos negros. Todavia, não exerceu nenhuma atividade parlamentar ou qualquer cargo eletivo. Já o nosso grande Abdias foi um dos fundadores de um partido político, elegendo-se deputado e posteriormente senador. Qual partido? Não por acaso o mesmo do atual prefeito de Porto Alegre e do vereador que propôs o projeto para nomear o viaduto…

Insisto que não há aqui nenhuma crítica à homenagem e muito menos ao homenageado, que, repito, é merecedor da eternização de seu nome. Apenas um questionamento sobre a opção por um grande homem nascido fora do Rio Grande do Sul em detrimento de tantos nomes – e eu referi somente um – que aqui têm a sua origem. E, mais do que isso, por que um fato tão significativo para a cultura nacional, teve tão pouca divulgação e repercussão, a ponto de poucas pessoas terem dele conhecimento?

Coisas da política(gem)…

P.S.: caso queiram saber um pouco mais desses grandes brasileiros:

http://www.abdias.com.br/

http://www.oliveirasilveira.blogspot.com.br/

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 11/6/2014.

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Cultura, Republicados

Até mais ver, Mestre!*

Imagem

Ando numa correria danada nos últimos tempos e muitas coisas andam me passando ao largo. Mas essa notícia sobre o Giba Giba me pegou mal. O cara era o cara. Um baita músico, excepcional pesquisador, muito mais do que defensor da cultura negra no Rio Grande do Sul, um defensor da cultura (e ponto final).

Não bastasse tudo isso, um dia encontrei com ele no Mercado Público, por ocasião de uma exposição alusiva ao centenário do Inter, em 2009. Me aproximei dele, meio com vergonha, porque imaginava estar diante de um gigante. Quando cheguei perto, vi que estava enganado, porque ele era muito mais do que um gigante. Colorado, perguntou se eu estava com pressa (claro que eu não estava, mesmo se estivesse) e ficou conversando comigo, em pé, por quase uma hora ou talvez até um pouco mais. Ali tive uma aula sobre o Inter, sobre a cultura negra, as religiões de matriz africanas, sobre a vida.

Depois disso, cruzei por ele algumas vezes e sempre que podia chegava pra conversar e ele sempre me cumprimentava e me chamava de Colorado. Isso me deixava emocionado e numa das vezes perguntei como ele se lembrava de mim, e ele disse que nunca ia deixar de me reconhecer porque lá no Mercado, naquele primeiro encontro, ele teve a atenção despertada pela minha tatuagem com o primeiro símbolo do Inter, no braço esquerdo. Disse que estava acostumado a ver a gurizada com o símbolo tatuado, mas geralmente o novo ou algo estilizado. O primeiro distintivo, assim quase rústico, ele nunca tinha visto. Estou lembrando disso agora com os olhos cheios de lágrimas. Como pode um cara daqueles que é praticamente um monumento se lembrar de um simples mortal como eu?

Queria ter conversado com ele muito mais, porque eu tenho certeza que isso teria me feito mais inteligente e humano do que eu sou hoje, mas infelizmente nossos encontros nessa passagem pelo planeta foram rápidos, porém foram suficientes para eu poder dizer que a humanidade perdeu um dos grandes ou, como diria o Richard Serraria, o Gigante Negão!

Vai em paz, Mestre!

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 4/2/2014.

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Cultura, Música

Tristeza*

https://youtu.be/C8py3MaTT4Q

Mandela Day

It was 25 years they take that man away
Now the freedom moves in closer every day
Wipe the tears down from your saddened eyes
They say Mandela’s free so step outside
Oh oh oh oh Mandela day
Oh oh oh oh Mandela’s free
It was 25 years ago this very day
Held behind four walls all through night and day
Still the children know the story of that man
And I know what’s going on right through your land
25 years ago
Na na na na Mandela day
Oh oh oh Mandela’s free
If the tears are flowing wipe them from your face
I can feel his heartbeat moving deep inside
It was 25 years they took that man away
And now the world come down say Nelson Mandela’s free
Oh oh oh oh Mandela’s free
The rising suns sets Mandela on his way
Its been 25 years around this very day
From the one outside to the ones inside we say
Oh oh oh oh Mandela’s free
Oh oh oh set Mandela free
Na na na na Mandela day
Na na na na Mandela’s free
25 years ago
What’s going on
And we know what’s going on
Cos we know what’s going on

Dia de Mandela

Há 25 anos eles prenderam aquele homem
Agora a liberdade se aproxima a cada dia
Enxugue as lágrimas dos seus olhos entristecidos
Eles dizem que Mandela está livre, então pise lá fora
Oh oh oh oh Dia de Mandela
Oh oh oh oh Mandela está livre
Há 25 anos nesse mesmo dia
Preso entre 4 paredes durante noite e dia
As crianças ainda sabem a história daquele homem
E eu sei o que está acontecendo bem na sua terra
25 anos atrás
Na na na na o Dia de Mandela
Oh oh oh o Mandela está livre
Se as lágrimas estão fluindo, enxugue-as de seu rosto
Eu posso sentir a batida do coração dele movendo bem fundo
Há 25 anos eles levaram embora aquele homem
E agora o mundo desce e diz “Nelson Mandela está livre”
Oh oh oh oh o Mandela está livre
O sol nascente guia Mandela em seu caminho
Faz 25 anos nesse mesmo dia
Desde o dia livre até os dias presos, nós dizemos
Oh oh oh oh o Mandela é livre
Oh oh oh o Mandela é livre
Na na na na o Dia de Mandela
Na na na na o Mandela é livre
25 anos atrás
O que está acontecendo?
E nós sabemos o que está acontecendo
Porque nós sabemos o que está acontecendo

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 6/12/2013.

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Capitalismo, Republicados

Dinheiro? Pra que dinheiro?*

Um famoso samba do Martinho da Vila começa assim: “Dinheiro, pra que dinheiro, se ela não me dá bola…” Pois eu vou contar uma historinha que um grande amigo meu, irmão mesmo, me falou. Pra justificar aquele velho ditado que diz que quem conta um conto sempre aumenta um ponto, algumas coisas foram inventadas por mim, mas ele não vai ficar brabo.

O meu amigo um dia resolveu fazer um agrado pra esposa. Ele não é muito ligado nessa coisa de marca de roupas e acessórios femininos, mas já ouvira falar algo a respeito das grifes bacanas e entrou numa loja Victor Hugo (ou Louis Vitton, agora não lembro, mas tanto faz. Peraí! Como assim, tanto faz??? Que heresia!). Escolheu lá uma bolsa e a moça da loja disse que um cinto pra complementar ia ficar lindo. Desce o cinto. A moça veio de novo: “Aquela carteira vai ficar perfeita com esse conjunto.” Manda ver a carteira. Bueno, imaginem vocês o que deu a conta. Claro que ele ficou apavorado, mas aí já era muito tarde pra voltar atrás.

Na saída do shopping (essas coisas não se compram em loja de calçada…), uma moça praticamente deu um pescoção e perguntou se ele tinha o cartão de crédito que ela representava, que era um dos mais cobiçados do mundo, sem limite de crédito, a que só os muito vip tinham acesso e toda aquela história. De cara ele percebeu que esse interesse da guria estava ligado às sacolas que tinha na mão. O faro fino da moça percebeu que um cara que sai do shopping com duas ou três sacolas VH ou LV tem que ser cliente do cartão dela.

Ele explicou que na verdade não tinha toda a grana que ele imaginava, que de alguma maneira acabou caindo numa espécie de “cilada”, que tinha deixado todo o dinheiro na loja e tudo mais. A menina, por sua vez, atacava com argumentos praticamente irresistíveis, jogando todo o seu charme pra cima dele. Eu disse PRATICAMENTE irresistíveis porque ele resistiu brava e heroicamente e saiu da agência sem fazer o tal cartão. Parabéns!!

Corta pra algumas semanas depois. O cenário agora é uma igreja, que o meu amigo, assim como a sua esposa, frequentam. E o momento é uma conversa entre ele e o padre, que é amigo dos dois. Ele conta a história, falando da sua preocupação com a futilidade do mundo, o apego ao dinheiro, enfim, tudo o que a gente tá cansado de ver todo dia e toda hora. O padre, então, falou da virtualidade do dinheiro e de como ele deve estar sempre circulando, a fim de cumprir o seu papel, que não é o de possibilitar que pessoas comprem bolsas de 4 dígitos antes dos centavos, mas de estimular o crescimento da sociedade, fazendo com que todos possam trabalhar e ter uma vida digna. Segundo o padre, com o que eu concordo plenamente, dinheiro aplicado em banco só enriquece uma pessoa: o banqueiro, e dinheiro investido em produtos de preço exorbitante só atendem a uma finalidade: ostentação. E contou uma historinha:

Um cara chega numa cidade do interior, vai ao único hotel, que não era mais do que uma aconchegante pousadinha típica, e diz que quer passar uma semana descansando, porque brigou com a namorada e quer refletir sobre a vida. Pergunta o valor da diária e diz que vai pagar adiantado, deixando mil reais com o gerente. E sai pra passear pela cidade. O gerente pega os mil e vai até a fruteira, falar com o seu Manoel:

– Seu Manoel, entrou um hóspede que pagou adiantado e eu vim aqui pagar aquela dívida pelo fornecimento das verduras e frutas que o senhor pendurou pra mim.

O seu Manoel chamou a dona Jandira, pediu pra ela atender na fruteira e foi até o sítio do seu Jeremias pra pagar uma dívida de fornecimento de ovos que ele havia segurado.

O seu Jeremias foi lá no escritório do Doutor Abreu, o advogado da cidade, e pagou uma dívida por um processo em que o doutor o tinha representado.

O Doutor Abreu saiu do escritório, deixando a porta aberta (como já deu pra ver, na cidade todos confiavam uns nos outros) e foi no consultório da Doutora Cristina, médica de todas as famílias da cidade, pra honrar um compromisso assumido quando ele precisou de atendimento pra uma sobrinha e não tinha dinheiro na hora pra pagar.

A Doutora Cristina foi no hotel e falou pro seu Cavaquinho (o gerente era português e o sobrenome era cavaco):

– Seu Cavaquinho, o senhor lembra daquele encontro de médicos que eu organizei aqui e que veio mais gente que eu pensava?

– Claro que lembro, doutora. Tava bem lindo aquela gentarada toda na cidade, né?

– Tava, tava, sim, seu Cavaquinho. Pois o senhor lembra que eu fiquei lhe devendo mil reais, porque não tinha como cobrir as despesas todas naquele dia?

– Lembro sim, doutora.

– Pois é, tive uma sorte danada hoje e recebi justamente os mil reais que precisava pra vir aqui lhe pagar.

– Muito obrigado, doutora, e disponha sempre que precisar.

Nisso, volta o hóspede: 

– Meu amigo, o senhor há de me entender. Eu lhe disse que vim descansar aqui na sua cidade por causa de um desentendimento com a minha namorada. E não é que agora a danada me ligou que quer conversar, que tá com saudade e aquela coisa toda? Então não vou poder ficar.

– Mas que notícia boa pro senhor, seu… como é mesmo a sua graça?

– Jubileu.

– Mas que notícia boa, seu Jubileu, então o senhor que volte pra sua namorada e sejam muito felizes. E venham passar a lua-de-mel aqui, que eu lhe faço um precinho especial.

– Ah, muito obrigado, amigo, mas sobre preço eu quero lhe perguntar quanto lhe devo. Faço-lhe uma proposta: como o senhor deixou a vaga reservada pra mim, pago metade do valor total e o senhor me devolve o resto.

– Que é isso, seu Jurandir…

– Jubileu!

– Perdão, seu Jubileu, sabe como é a idade, né? Mas o senhor não me deve nada. O senhor nem ficou uma noite. Tome aqui os seus mil reais de volta.”

Pois não é que o dinheiro andou por tudo quanto é lugar, pagou todas as dívidas da cidade e voltou pro mesmo bolso? Então agora me digam, o que vale mais: a habilidade da vendedora da loja, que empurrou um monte de coisas caras pro meu amigo, mesmo tendo percebido que ele não estava sabendo muito bem de quanto custavam essas coisas todas; o olho clínico da guria do cartão de crédito, que viu as sacolas caras e pulou em cima da presa como um carcará; ou a confiança demonstrada por todos os habitantes da tal cidadezinha, que fizeram o dinheiro circular, pagaram todas as contas e rafirmaram a confiança uns nos outros?

Pois é, agora um relato meu. Quem se lembra daquele jogo Banco Imobiliário? Joguei muito na infância a às vezes até depois de velho. Há algum tempo fui surpreendido quando cheguei na casa do meu irmão e o meu sobrinho estava jogando um banco imobiliário. Só que neste novo, não se compra uma casa na Av. Atlântica, nem as ações da companhia de táxi aéreo. O que se negociam são ações da Ipiranga, da Vivo, a sorte é ganhar um crédito extra no Mastercard e por aí vai. Nem as crianças escapam.

Nem as crianças escapam mesmo! Aliás, são elas, as crianças, o alvo preferido da mídia perversa e capitalista. Mais ou menos na mesma época, assisiti a uma matéria na TV Brasil sobre o consumismo inafantil. Lá pelas tantas a repórter estava entrevistando uma menina de uns 10 ou 12 anos. Ela mostrou várias embalagens de produtos industrializados (batata frita, bolacha etc.), tapando a marca de todas elas. A guria sabia o nome de todas. Quando apresentada a um prosaico mamão, ela não soube dizer o que era, para espanto da entrevistadora.

Isso é uma loucura e na época natalina vira um inferno. Eu não sou o joãozinho-do-passo-certo e nem quero ser moralista. Sempre gostei de dar presentes em datas comemorativas e as minhas filhas vão ganhar coisas no Natal. Só que há um limite pra tudo. Se continuarmos nesse processo de consumismo desenfreado, nessa supervalorização de grifes e marcas, nessa veneração pelo dinheiro, sei lá onde vamos parar.

Quem sabe a gente tenta, mas tenta de verdade, refletir um pouco sobre essas coisas todas, principalmente nós que temos filhos crianças e adolescentes, para tentar justamente mostrar alguma coisa para essas crianças e jovens, mostrar que roupa de marca, tênis caro, óculos de última geração, ipad, ipods etc. não são os grandes responsáveis pela felicidade. Nada contra comprar essas coisas, se tiver como fazer isso sem comprometer coisas mais importantes, mas que se faça isso sabendo colocar as coisas no seu devido lugar. Sei que um baita clichê, mas às vezes os clichês dizem coisas verdadeiras. O nosso amigo sol protagoniza espetáculos todos os dias e não cobra um centavo por isso. Talvez assim que entendermos de verdade o sentido desse chavão as coisas comecem a melhorar. Eu ainda acredito…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 4/12/2013.

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