Ideologia, Imprensa, Mídia, Republicados

O chefe mandou*

Estivesse almejando obter grau de doutor, minha tese não poderia ser sobre a imbecilidade do criador da Mulher do Centroavante, posto que já falharia no quesito da originalidade. Também não é a primeira vez que eu falo deste sujeito por aqui. Parei de falar quando parei de ler. Hoje, porém, ao ler de passagem uma manchete do tabloide para o qual o jornalista e “escritor” David Coimbra trabalha, despertou-se a minha atenção, fazendo com que lesse a crônica do distinto “intelectual”.

O título é interessante e já deixa antever o teor do escrito: “A tal da elite branca”. E já começa entrando por cima da bola, pra usar uma expressão no clima da Copa. Diz assim: “Agora inventaram essa história de elite branca. Por favor. Uma das poucas vantagens que o Brasil realmente tem em relação a TODOS os outros países do mundo é a miscigenação. No Brasil, as etnias de fato se misturam, e o fazem com naturalidade.”

Ao dizer que “essa história de elite branca” é criação moderna, o cara que se propôs a escrever a história do mundo desconsiderou completamente a história do próprio país. Ou será que ele pensa que desde os 1500 a elite que dominou o Brasil era negra ou indígena? Ou, ainda pior, imagina o nosso insigne escriba que não há uma elite que domina o país? Pela amostra do pano, já se percebe que o cara escreve exatamente o que o patrão gosta que se escreva.

De acordo com o que diz o David, podemos depreender que aquela velha conversa do paraíso da democracia racial é verdadeira: “No Brasil, todos, japoneses, negros, alemães, anões, cafuzos, mamelucos, índios, brancos, azuis, todos são brasileiros.” O estranho é que um certo candidato ao Senado, talvez não por acaso colega de empresa, disse há poucos dias que há muitos índios que conseguiram evoluir e hoje são trabalhadores respeitados. O seu David contradisse o seu candidato, porque para este o índio precisa deixar de ser índio para ascender socialmente, então não é bem assim essa coisa de que todos são brasileiros.

Logo em seguida, toda a genialidade do cronista aflora, quando ele diz que o verdadeiro problema do Brasil é a discriminação social. Entende-se essa declaração se vinda de alguém que não deveria ter, por obrigação profissional, o dever de saber que a esmagadora maioria de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza no nosso país definitivamente não é da etnia que se pode chamar de branca. E diz ele que o que falta, na verdade, é oportunidade igual para todos. Ora, seu David, o senhor mesmo já se manifestou contrariamente à adoção da política de reserva de cotas com recorte étnico-racial. Decida-se, por favor! Se não há oportunidades iguais para todos, como o senhor mesmo reconhece, algo há que ser feito, certo? E nesse caso as cotas não servem? Parece, seu David, que o senhor quer que as coisas continuem a ser como eram, antes do processo de equalização social que se verifica no Brasil nos últimos anos, que é lento mas eficaz.

Tal qual uma metralhadora giratória, o cronista leva a questão para o futebol, quando também aí vai ser escancarado todo o seu ranço elitista (e não custa lembrar que ele é branco). “O ingresso do futebol é muito caro para o pobre. Oh! O ingresso para ver o Chico Buarque não é barato, nem o do show da Madonna, nem a entrada do cinema. Pelé não ganhava um milhão por mês. Fred ganha. Assim, ver Fred é mais caro do que era ver Pelé.”

Este é o argumento preferido dos que defendem o processo de elitização do futebol, pelo qual os torcedores oriundos das classes sociais menos favorecidas são alijados do direito de ver seu time no estádio: times bons são caros e, portanto, o ingresso deve ser caro. Não quero entrar nessa discussão específica, há muito material que desconstrói impiedosamente essa ideia nas publicações do Povo do Clube. Apenas quero dizer ao seu David Coimbra que o Chico Buarque não costuma fazer shows em estádios para milhares de pessoas, mas em teatros, numa lógica completamente diferente. Ainda assim, já soube de muitas apresentações do Chico a preços módicos e outras tantas com entrada franca. Já a Madonna, que lota grandes estádios mundo afora, proporciona um espetáculo bem diferente e menos frequente do que um jogo de futebol, inclusive com custos de produção muitíssimo mais elevados. Comparação infeliz esta, hein, seu David?

“A elite branca xingou a presidente. Quem garante que pobres e pretos não o fariam? Essa elite branca é ‘branca’ de fato? Existem ‘brancos’ de fato no Brasil? Será que existe mesmo essa divisão, pobres e pretos a favor do governo, elite branca contra? Esse é um governo só para pretos e pobres? Como é que se faz para conseguir um governo para todos?” Bah, seu David, não queria ter de precisar lhe explicar que a expressão “elite branca” é uma figura de linguagem. O senhor sabe disso, por certo, mas o chefe não lhe permite expressar ideia diferente, né? Talvez a dona do Magazine Luiza, que não é preta e nem pobre possa lhe dizer como é que se consegue um governo para todos.

E o seu David considera uma babaquice chamar a presidentA de presidentA e ainda diz que quem não acha isso estranho é um taipa. Caso encontrasse com ele, perguntaria se ele, que escreveu a História do Mundo em tomos, sabe quando a mulher brasileira adquiriu o direito ao voto; e qual a proporção de homens e mulheres em cargos de chefias nas empresas brasileiras; e se para exercer cargos iguais na iniciativa privada as mulheres recebem o mesmo salário que os homens; y otras cositas mas. Fica absolutamente claro que o seu David não entende nada – ou não quer entender – dos processos históricos que formaram a sociedade brasileira, eminentemente patriarcal e branca.

O penúltimo parágrafo escrito na coluna do seu David é um primor de manipulação, que faz um raio-x da maneira como a mídia podre, da qual ele é um expoente, costuma agir. A campanha do TSE, muito legítima, a propósito, visa a estimular a maior participação feminina na política institucional. E ponto! Ver além disso é querer passar uma imagem distorcida para a sociedade.

Sei que o David Coimbra tem sérios problemas de saúde, inclusive está nos EE.UU. Tratando da sua saúde. Não desejo (muito) mal a ninguém, por pior que seja, mas gostaria muito que a doença fizesse este cara refletir se vale mesmo a pena passar a vida, que pode ser bem curta, fazendo as vontades do chefe.

 

 

http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a4531321.xml&template=3916.dwt&edition=24583&section=70

 

http://www.opovodoclube.com/

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 20/6/2014.

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Cidadania não é censura*

Na página 12 da zero hora de 15/07 está o editorial, intitulado por uma pergunta: “Democratização da mídia?” Atenção especial merece o aspecto semântico e o conteúdo subliminar deste aparentemente inofensivo ponto de interrogação, adicionado a algo que de certa forma anda funcionando como palavra de ordem de grupos bem articulados e verdadeiramente preocupados em mudar para melhor o país.  A partir do momento em que se transforma algo afirmativo em uma interrogação, naturalmente se está relativizando a importância e o conteúdo das palavras. Se fosse acrescentado um “será?” ao final, o sentido não se alteraria, pelo contrário, ficaria mais explícito (Democratização da mídia? Será?). Acontece que clarear as coisas, principalmente as intenções, não é o forte desse tipo de mídia.

A democracia é sempre uma obra inacabada. Até por isso tem que ser protegida da ação de pessoas comprometidas com ideologias autoritárias, que se fingem de vanguardistas para sufocar a liberdade de expressão.”

Pergunta 1: quem são as pessoas comprometidas com ideologias autoritárias, que se fingem de vanguardistas e ameaçam a democracia?

A resposta vem logo:

“Embora não seja uma demanda do país, mas sim de grupos minoritários movidos por ideologias fundamentadas no radicalismo, a chamada “democratização da mídia” tem aparecido secundariamente na pauta das manifestações que mobilizaram os brasileiros nas últimas semanas. Por conta de palavras de ordem plantadas por pseudolideranças avessas ao pluralismo de ideias e opiniões, alguns profissionais e veículos de comunicação, mais especialmente aqueles que têm liderança de mercado, têm sido inclusive hostilizados por manifestantes mais exaltados. Já se registraram em diferentes regiões do país casos de jornalistas agredidos, veículos incendiados e instalações vandalizadas _ atos que certamente não recomendam o modelo de “democratização” desejado pelos defensores da campanha.”

Aí vem todo aquele papo cansativo sobre liberdade de expressão – que certamente era a tônica no regime político que pariu a globo e suas sucursais – jornalismo responsável (hein?), e tudo mais, ou seja, aquele discurso pseudo-libertário, que comove os corações e trabalha as mentes dos leitores desavisados e, por que não dizer, daqueles que têm preguiça de procurar informação fora da mídia corporativa. Apresenta também números, querendo mostrar com eles que a distribuição dos espaços midiáticos e jornalísticos no Brasil é equilibrada e que não são poucos os grupos – ou famílias – que detêm o monopólio da imprensa. De tão ridículos, esses argumentos chegam a ser pueris e sequer é necessário muito aprofundamento para combatê-los, o que seria perda de tempo neste momento.

A questão aqui é outra: é preciso saber o que está por trás desse discurso, que mistura, como sempre, manipulação da informação, distorção dos fatos, acrescentada aqui de um visível temor por conta do que vem se tornando uma discussão séria no país, isto é, o controle social da mídia. É possível encontrar bons caminhos para uma resposta no artigo de Ranaud Lambert, publicado na edição de número 65 (12/2012) do Le Monde Diplomatique Brasil, sugestivamente intitulado “Abalos em uma passagem dominada por grupos privados – Na América Latina, governos enfrentam os barões da mídia”. O autor lembra que “Alguns meses antes de deixar o Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou um projeto de lei destinado a regular os meios de comunicação no Brasil. O texto propunha medidas de regulamentação de conteúdo, como a proibição da apologia ao racismo e à discriminação sexual, mas também de redução da concentração da propriedade no âmbito da comunicação, em um país onde catorze famílias possuem 90% desse mercado.” (Grifo meu.) A julgar pelo que reza o editorial do tabloide ora discutido, o jornalista que assina este artigo está mentindo, ou então há que se considerar essas quatorze famílias como representantes legítimas de todo o pluralismo jornalístico brasileiro. Não creio que um jornalista fosse escrever mentiras num órgão conceituado, como é o Le Monde, e muito menos que este órgão aceitaria publicar conteúdo inverídico. Também não acho que num país de 200 milhões de habitantes o número 14, por mais numerosas e ramificadas que possam ser essas famílias, seja muito expressivo.

Claro que Os meios privados protestaram contra um dispositivo considerado “autoritário” e suscetível a colocar a informação “sob controle político”.” E iam deixar barato? A consequência é que “Em janeiro de 2011, o projeto já estava enterrado. Mas Lula não deixou de ressaltar a questão que há anos ronda os governos da região: a liberdade de expressão pode existir sem um marco regulatório e decisões políticas que a afiancem?” 

E aí surge a pergunta 2: quem tem medo desse marco regulatório?

Quem responde, não por psicografia, é o finado Dr. Roberto Civita e a Dra. Judith Brito: “Há uma relação de interdependência indissolúvel entre democracia, meios de comunicação e livre mercado”, pondera Roberto Civita, diretor da revista Veja, a mais lida da América Latina (27 jun. 2012). Em resumo, defender a liberdade de expressão seria proteger a liberdade das empresas, a começar pela liberdade das empresas de comunicação. Mas o que aconteceria se o programa de governo que conduz um dirigente político ao cargo almejado ameaça os interesses do setor privado ou dos proprietários de meios de comunicação? Desde a chegada ao poder de dirigentes decididos a (tentar) virar a página do neoliberalismo e com o enfraquecimento dos partidos que tradicionalmente defendem as elites, os meios de comunicação latino-americanos parecem ter adotado uma missão que Judith Brito, diretora do jornal conservador Folha de S.Paulo, define nestes termos: “Já que a oposição está profundamente fragilizada, são os meios que, de fato, estão desempenhando esse papel” (O Globo, 18 mar. 2010). Com, às vezes, pouca criatividade.”

Pergunta 3: como se pode falar em imprensa livre quando a diretora de um dos maiores jornais do país diz abertamente que à imprensa cabe o papel de fazer uma oposição ao governo, porque, segundo ela, essa está muito enfraquecida?

A relação entre política e imprensa (leia-se mídia corporativa) fica escancarada pela informação trazida pelo autor, assim como desmontada resta a ideia da não existência de um monopólio nos meios de comunicação, defendida pela rbs: “No Brasil, onde os barões da mídia ocupam uma cadeira em cada dez na Câmara dos Deputados e uma em cada três no Senado, o grupo Globo detinha, em 2006, “61,5% dos canais de televisão” e “40,7% da difusão total dos jornais”. Com mais de 120 canais no mundo, a rede de televisão do magnata Roberto Marinho (cujo falecimento fez Lula decretar três dias de luto nacional em 2003) chega a mais de 120 milhões de pessoas por dia.”

O artigo traz ainda uma síntese da situação na América Latina, que pode ser melhor entendida a partir da compreensão da peleia do governo argentino com o grupo clarín, a globo dos hermanos. (Sobre isso, a propósito, cabe mais uma vez o alerta para que não nos deixemos cair na teia armada pela mídia podre. Procuremos os canais realmente interessados em informar, que estão invariavelmente na mídia alternativa.) Mais importante, contudo, é o alerta dado aos grupos que pretendem lutar por essa regulamentação e, consequentemente, pela efetiva democratização dos meios de comunicação, uma utilização e exploração verdadeiramente equilibrada dos espaços, e não essa ficção que o grupo da família (sempre uma família – máfia?…) sirotsky quer empurrar a fórceps:

“Esses esforços, contudo, ainda não deram os resultados esperados. Primeiro, em termos de pluralismo, porque esses novos organismos de imprensa [mídia alternativa] às vezes não resistem à tentação de compensar os desvios dos meios privados reproduzindo alguns deles de forma especular. Ken Knabb, pesquisador norte-americano desse fenômeno, observa que os militantes de esquerda “pensam, geralmente, que é preciso muita simplificação, exageração e repetição para contrabalancear a propaganda que sustenta a ordem dominante. Analogicamente, isso quer dizer que um boxeador zonzo porque tomou um gancho de direita recuperaria o equilíbrio graças a outro soco, de esquerda. 

Em segundo lugar, em termos de audiência. Um estudo recente do Centre for Economic Policy Research (CEPR) mostra que, entre janeiro de 2000 e setembro de 2010, a audiência dos canais públicos venezuelanos passou de 2,04% para 5,4%. Audaciosa, a reforma da Lei Geral dos Bancos de 2010 – inspirada em uma disposição similar da Constituição equatoriana de 2008 que proíbe os acionários de entidades financeiras de possuir meios de comunicação – sem dúvida não será suficiente para corrigir uma situação como essa.

Por outro lado, “já que supostamente nossa sociedade avança em direção ao socialismo”, questiona-se Aharonian, a Venezuela não deveria acabar com a atribuição de frequências e licenças de exploração do espectro eletromagnético aos interesses privados? “Não deveríamos imaginar, em vez disso, um único e grande espaço público […] regulamentado de forma a garantir sua utilização democrática?”

O artigo completo pode ser acessado em http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1309.

Bueno, como sempre há argumento pra tudo, alguém poderá dizer que o artigo é velho, ainda que tenha pouco mais de seis meses. Vejamos, então, o que se disse no último dia 16 (ontem!), durante a “Conferência Nacional  2003-2013: uma nova política externa”. O ex-Ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos (2009-10) e ex-Secretário- Geral do Itamaraty (2003-09), Samuel Pinheiro Guimarães, foi direto ao olho do furacão: “Democratização da mídia é prioritária para a defesa dasoberania.”, para depois explicar: “O controle dos meios de comunicação é essencial para o domínio da classe hegemônica mundial. Como esses meios são formuladores ideológicos, servem para a elaboração de conceitos, para levar sua posição e visão de mundo. Daí a razão da democratização da mídia ser uma questão prioritária”

Indo além, mais uma vez as palavras do diplomata contradizem absolutamente o editorial de zh: “O embaixador também condenou o fato de que um mesmo grupo possa deter emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas – a chamada propriedade cruzada. Conforme Samuel, esta concentração acaba concedendo um poder completamente desmedido para alguns poucos divulgarem as suas opiniões como verdade absoluta. “Quando estados como a Argentina, o Equador e a Venezuela aprovam leis para democratizar a comunicação, a mídia responde com uma campanha extraordinária, como se isso fosse censura à imprensa”, lembrou.”

E aqui se toca num ponto nevrálgico: censura. Como disse o palestrante, a primeira argumentação de que lança mão a mídia corporativa quando se fala em controle social, é que se estará reativando a odiosa censura. Censura é uma palavra pesada. Quem viveu os anos de chumbo sabe bem do que se trata, e as novas gerações recebem, em geral, informações muito negativas, com razão, sobre a tal censura. E quando a palavra é associada à imprensa a coisa toma ares de tragédia. Lembram da grita geral quando da criação do Conselho Estadual de Comunicação Social no Rio Grande? Aqui mesmo já falei sobre o tema: https://oximarraoalucinogeno.wordpress.com/2012/08/14/conselho-de-comunicacao/  .

Pois um sistema que possibilite à sociedade – que se frise isto: à sociedade – exercer o controle sobre aquilo que circula nos meios de comunicação só pode ser considerado censura na visão dos grandes grupos, que certamente têm muito a perder com isso. Afinal, a quem se destina a comunicação social? Se a resposta é à sociedade, como o nome permite antever, não se sustenta o argumento da censura.

Nas palavras do palestrante, um conteúdo absolutamente em voga: Em função dos interesses da classe dominante, alertou o embaixador, a mídia hegemônica pode, sem qualquer conexão com a realidade, “demonstrar que um regime político da maioria é uma ditadura e realizar campanhas sistemáticas que permitam uma intervenção externa, com o argumento que determinado governo oprime os direitos humanos”. “Podem inclusive se aproveitar de manifestações pacíficas para infiltrar agentes provocadores que estimulem o confronto”, alertou.” Mas não é a descrição do quadro visto hoje no Brasil?

Acesso ao texto completo: http://www.cut.org.br/destaques/23490/samuel-pinheiro-guimaraes-democratizacao-da-midia-e-prioritaria-para-a-defesa-da-soberania.

Poderia trazer toneladas de escritos que mostram a importância fundamental de que se estabeleça uma política de controle da mídia no Brasil, mas não julgo necessário. Com o que se apresentou aqui já é possível, creio, estabelecer o contraponto entre os interesses e  as artimanhas da mídia corporativa, muito bem exemplificados no editorial de zh que abriu o texto, e o interesse social, que não pode mais esperar pela democratização da mídia. Não se trata de censura, apenas de cidadania.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 17/7/2013.

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Mercado padrão Mercado*

Não vou falar da minha relação com o Mercado, deixo isso pra outra hora. Quero falar, mais uma vez, da podridão que é essa rede bosta sul. No sábado, uma querida amiga me ligou pra dizer que o Mercado estava pegando fogo. A tv cão (nada contra os queridos cãezinhos) era a única a transmitir. Botamos lá. Bueno, é o fim do Mercado, foi o que pensamos. As imagens captadas pela aeronave dos capachos dos marinhos não deixavam dúvidas sobre a destruição total do prédio. Os apresentadores, capitaneados, a saber, por um narrador de futsal, diziam que 100% do prédio estava atingido e uma das repórteres, que estava lá perto, chegou a pedir pra que todos rezassem (só não disse pra quem…) pra que não fosse necessário derrubar o que restaria do Mercado.

A minha história com o Mercado, essa de que eu não vou falar agora, fez com que a emoção falasse mais alto e eu acabei entrando no clima de tragédia (não que não sido, mas…). A Patrícia entrou no facebook e comentou sobre posts que falavam em crime, especulação imobiliária etc. Achei exagerado na hora, mas quando no domingo vi que o dragão não tinha tantas cabeças assim, comecei a pensar nessas coisas.

Que interesse alguém poderia ter na destruição de um patrimônio histórico da cidade? O seu Thompson Flores pode baixar em alguma mesa espírita pra esclarecer isso… O fato é que o incêndio, trágico, obviamente, não foi nem de perto tão devastador como os caras daquela tevezinha quiseram mostrar. O que eles ganham com isso? Não sei, talvez algum amiguinho empreiteiro possa dar uma clareada. E eu não li, mas diz que a matéria do tabloide deles se preocupou com a roupa do prefeito e com o fato dele ter saído de casa sem janta pra acompanhar o trabalho dos bombeiros.

Os desdobramentos começaram já na noite de sábado: faltou água?; os bombeiros chegaram tarde?; de quem é a culpa pelo PPCI vencido?; e se houvesse pessoas lá dentro?; mas e o exemplo da kiss não serviu pra nada?; etc. etc. e tal.

Essa história vai longe, mas o que já se pode ver com ela é o péssimo serviço que essa rede miserável presta para o povo gaúcho. E a despeito do que pretende essa gente da rede bosta sul e os seus capachos, o Mercado está firme e forte e vai sobreviver mais alguns séculos “atrapalhando a evolução da cidade”, afinal, que belo xóping se construiria ali, hein?!…

P.S.: e não me venham com Mercado padrão fifa, porque eu quero o velho Mercado do aperto na Banca 26 e da erva buena da Palmeira que o Adão sempre me consegue na 33!

http://www.mercadopublico.com.br/

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 8/7/2013.

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Outros carnavais…*

Na última quarta-feira,Imagem participamos de um debate, promovido pelo Museu de Comunicação Social, sobre a relação do humor com a tragédia, tendo como ponto de partida o incêndio da boate Kiss. Na mesa, comandada pelo Augusto Bier, diretor do Museu, só havia gente grande: da esquerda para a direita: Eugênio Neves, Edgar Vasques, o próprio Bier, Máucio e Leandro Bierhals. Além da plateia, reduzida, mas interessada, houve a participação em muitos momentos do ex-jornalista (ex segundo ele próprio) e escritor Rafael Guimaraens, que já escreveu belos livros sobre coisas de Porto Alegre.

O debate teve momentos comoventes, como os relatos do Máucio, que é professor da UFSM e mora em Santa Maria, além das palavras do Bier, no vídeo anexo.

VÍDEO INDISPONÍVEL

Foram analisados vários aspectos dessa relação que os profissionais do humor têm com eventos trágicos, aos quais deve ser dado naturalmente um tratamento todo especial. Foram mostradas em telão algumas charges, a maioria muito bem feita e com grande sensibilidade. A do Marco Aurélio, que ficou famosa por, entre outras coisas, ter como consequência uma geladeira dele na zh*, foi bastante discutida, e, porque não dizer, demolida.

CHARGE KISS MARCO AURÉLIO

Outra charge bem interessante apresentada é uma feita pelo Chico Caruso, que liga a Dilma à tragédia, de forma negativa, obviamente, afinal não se poderia esperar outra coisa de um destacado “colaborador” das organizações globo e cia.

CHARGE KISS CHICO CARUSO

Por vezes o debate fugiu um pouco aos limites impostos pelo tema e passou a analisar a atuação da mídia de forma mais ampla. Num dos melhores momentos, o Eugênio Neves fez relatos interessantíssimos do tempo em que trabalhou na zh, de onde saiu por não concordar com os mandalhetes representantes do ideário da alta cúpula. E é esse o gancho que eu quero pegar pra abordar o assunto de agora.

A zh nasceu apadrinhada pela repressão, acho que isso não é segredo pra ninguém. E se manteve nos 21 anos do regime extremamente afinada com as ideias da milicada, que, por sua vez, estavam afinadíssimas com as ideias de outros grupos econômicos e sociais. Dizer que a globo e seu séquito sustentou a ditadura ou vice-versa é como desenhar uma cobra mordendo o próprio rabo, porque elas foram e são, no fundo, engrenagens de uma máquina montada para atender interesses de certas elites que, por incrível que pareça, ainda se mantêm no domínio, justamente por intermédio da mídia corporativa, encabeçada pela globo, veja, folha de são Paulo e afins.

Eu quero, neste texto, dar uma pequena mostra de como funciona a manipulação feita pela grande mídia, que forma uma “ideologia” canhestra na cabeça das pessoas que têm preguiça de pensar ou que, por qualquer motivo, não têm acesso a canais de informação mais qualificados.

Na capa da zh de domingo, aparece em destaque a seguinte manchete:

Quem dá mais

Médicos ganham até R$ 32 mil no interior

Pra garantir permanência de profissionais, municípios pagam até o dobro do salário dos prefeitos.

Muito bem, um dos assuntos da última semana foi a iniciativa do governo central de chamar médicos estrangeiros para trabalhar nos locais em que os brasileiros não querem ir. Estão incluídos médicos portugueses, espanhóis e… cubanos. Bueno, aí é que a porca torce o rabo. Como assim, médicos cubanos? O que essa louca da Dilma está querendo? Encher o país de comunistas e reacender as chamas da Revolução? Pois é, e daí decorre um discurso violento contra a medida, que inclui os Conselhos de Medicina, falando do absurdo disso, que os cubanos não têm competência, que é preciso qualificar o serviço com os profissionais brasileiros etc., etc. e tal. Ok, mas só os cubanos são incompetentes? Quem sabe a gente dá uma olhadinha no outro lado da coisa, pelas palavras de quem entende do assunto:

http://www.sul21.com.br/jornal/2013/05/a-questao-da-vinda-dos-medicos-cubanos-para-o-brasil/

Talvez alguém esteja se perguntando qual o problema com a manchete da zh. Simples. Um dos argumentos para a importação desses profissionais é que os médicos brasileiros não têm interesse em trabalhar em alguns locais, seja pelo difícil acesso, pela distância dos grandes centros ou pelos baixos salários oferecidos. Ocorre que o cara que sai pra trabalhar todo o dia, sempre na correria, e não tem tempo de ler o jornal, ou, melhor, de se informar em outras fontes, passa pela banca e lê a tal manchete. Daí ele sai pensando mais ou menos assim: “Os caras pagam bem pros médicos, então por que essa mulher – a Dilma – quer trazer os comunistas?” E debate essa ideia com os colegas de escritório ou de repartição. E aí, como todos sabem, é o famoso telefone sem fio das brincadeiras de criança, a coisa virou um monstrengo. E a verdade? Bom, quem se interessa pela verdade? Mais uma vez a mídia corporativa – zh – cumpriu com extrema maestria o seu papel de distorcer os fatos, manipular a informação e formar uma opinião absolutamente limitada e míope no seu público. Ponto para os sirotsky.

Só que a coisa não para por aí. Eu tenho a mania de ler todo o jornal. E antes que alguém me pergunte por que eu leio a zh, se tenho tanto horror dela, digo simplesmente que se não lesse não poderia estar escrevendo este texto. Além do mais, não sou maniqueísta, e reconheço que até a zh tem algumas coisas boas, desde que os leitores não tenham preguiça de procurar. Então, lendo o miolo do jornal, chego lá na página de opinião (p. 16), onde de 15 em 15 dias escrevem o Marcos Rolim e o Percival Puggina. (Sobre este, chega a dar nojo…) Ali tem também as frases da semana, das quais a grande maioria é totalmente descontextualizada e trabalhada de acordo com os interesses editoriais, que, já vimos, são, no mínimo, questionáveis. Lá está a seguinte frase, da Marilena Chauí: “Eu odeio a classe média”. Frase forte. E num primeiro momento revoltante, certo? O engraçado é quem em todas as outras frases há uma pequena explicação que dá a ideia do contexto em que elas foram proferidas. Esta, porém, está lá solta no mundo.

Para quem não sabe, a Marilena Chauí é uma das grandes pensadoras do Brasil e do mundo, fundadora do Partido dos Trabalhadores, e tem a sua formação centrada no marxismo. Ah, bom, mas aí começa a ficar claro o que a editoria de zh fez. Acontece que o ódio que a Marilena devota à classe média não se refere à classe de trabalhadores, que sustentam o país, da qual ela é integrante convicta. Esse conceito de classe média é um conceito capitalista, criado para manter as coisas nos seus devidos lugares, de acordo com os interesses das elites dominantes. Sabem como é, aquela história de cada um no seu quadrado. É essa definição de classe média que ela pretende atingir por trás das suas palavras fortes e agressivas. E, sim, por consequência, também as pessoas que fazem parte deliberadamente desse grupo, que são usadas pelos sistema e que, por terem condições de andar de carro zero e mandar seus filhos pra Disney, acham que o país não tem problemas e que todo mundo tem os mesmos direitos a educação, trabalho, lazer e todo aquele blá, blá, blá irritante e repetitivo da desinformada (e/ou manipulada)… classe média. Vamos ver a coisa dita dentro do seu contexto:

Num livro muito bom, chamado “A máquina capitalista: como funciona – porque paga baixos salários – papel do intelectual na luta pelas mudanças – em exemplo: rbs”, escrito lá em 1988 (editora Vozes), o Pedrinho Guareschi, que, imagino, dispensa apresentações, e o Roberto Ramos, que é jornalista e professor, traçam um mapa do pensamento capitalista e do funcionamento da estrutura, usando, na segunda parte do livro, já que a primeira, a cargo do Pedrinho, é mais teórica, exemplos vividos pelo próprio Roberto, quando foi repórter da zh. Olha, gente…

No livro, fica clara a distinção entre as teorias de classe. Uma, a capitalista, que define as coisas pelo poder econômico, e assim cria a classe alta, a média – e suas subdivisões – e a baixa. Outra, alinhada com a ideia das relações de produção, estabelece que há somente duas classes, a dos detentores dos meios de produção e a dos trabalhadores. Ou seja, numa visão histórico-crítica, a classe média não existe, ela é uma criação da ideologia capitalista, com a intenção de acomodar as pessoas, afinal, quem atingiu o nível da classe média não tem do que reclamar…

Assim, amigos, vejam o que o trabalho minucioso da imprensa mau-caráter faz com a cabeça das pessoas. Aqueles que não se contentam em nadar na superfície, e porque buscam a raiz das coisas são muitas vezes chamados de radicais (radical vem de raiz), descobrem coisas interessantíssimas sobre essa forma de agir da mídia podre. Seria muito bom ter mais gente assim.

Para encerrar, relato três passagens do livro citado, tiradas da segunda parte, isto é, não são material teórico, mas sim experiências reais, protagonizadas por um dos autores:

“Na primeira semana de março [1987], corria uma ordem expressa emanada do editor-chefe, ex-porta-voz do governo Médici. Não podia sair nada contra o governador Pedro Simon. No Rio Grande do Sul não havia problemas. Sobrava dinheiro nos cofres públicos e os professores e os funcionários públicos estavam, integralmente, satisfeitos com os seus contracheques achatados.” (p. 102)

“A comunicação é, hoje, o grande poder. Alguns a chamam de quarto poder. Essa afirmação só não é totalmente verdade (não que a comunicação não seja um) porque, em vez de representar o quarto, significa o primeiro!” (p. 113)

“Se é a comunicação que constrói a realidade, que país é esse, onde essa comunicação, isto é, os meios de produção da comunicação, estão nas mãos de uma minoria reduzidíssima?” (p. 113)

Tiro três conclusões disso tudo:

1- a mídia corporativa (podre) manda no país;

2- a imprensa podre, que manda no país, é dominada pelos marinho e seus asseclas, a saber os sirotsky no Rio Grande; e

3- a canalhice da zh vem de outros carnavais…

*Adotarei o costume de usar letras minúsculas sempre que me referir à mídia corporativa.

Agradecimentos: Eliane Fay, que me emprestou o livro, e direção do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 20/5/2013.

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Conselho de Comunicação*

Hoje em dia se faz cada vez mais necessária a participação da população em todas as esferas da administração pública, principalmente nas casas legislativas e nos órgãos do Executivo. E está cada vez mais fácil essa participação, porque há muitos canais de comunicação, e nesse sentido a internet, com todas as suas ferramentas, inclusive e principalmente as redes sociais, é uma grande aliada.

Em tempos de eleição, é sobremaneira importante que tenhamos muito presente na nossa mente a certeza de  que a nossa vida depende das pessoas que escolhemos para nos representar. Mesmo aqueles que são totalmente descrentes da “política”, que acham que tudo o que podem conseguir será através de seus próprios esforços, têm as suas vidas determinadas pelo que acontece no mundo da “política”, que eles tanto abominam. Um vendedor de carros, por exemplo, que entende que só do seu trabalho vai tirar o sustento da sua família, pode não perceber, mas se o governo desonerar a fabricação de veículos, isso vai ter repercussão direta na sua atividade profissional. E a tarifa do pedágio, estabelecida pelo governo ou por suas concessionárias, vai influenciar o custo do transporte do tomate e o seu preço final na feira ou no supermercado. Ademais, as atividades mais prosaicas envolvem um jogo político. Quando o cara diz pro filho pequeno que se ele escovar os dentes direitinho vai poder ficar até um pouco mais tarde olhando tv, está estabelecida uma negociação política. Queiramos ou não, tudo é política. E a omissão por certo não é a melhor das políticas.

Então, nesse contexto em que a participação da sociedade no poder público adquire tamanha importância, a comunicação é um ponto nevrálgico dessa relação. As formas de comunicação hoje em dia são as mais diversas. Desde as tradicionais, como TV, rádio, publicidade estática nas ruas, até a própria internet, que exerce cada vez mais influência na vida das pessoas. O cara tá lá olhando um vídeo no youtube e a tela aparece cheia de banners publicitários. Entra num blog qualquer e lá vem propaganda disso e daquilo. E isso é só a publicidade privada. Ainda mais importante é a propaganda oficial. É fundamental saber, por exemplo, como estão sendo aplicados os vultosos recursos destinados à comunicação social dos órgãos públicos. E aqui chego ao ponto que me interessa no momento.

O governo do estado está criando o Conselho Estadual de Comunicação Social. Fiz aquela introdução para evitar a provável pergunta que muitos fariam diante dessa informação: “O que eu tenho a ver com isso?” Todos nós temos muito a ver com isso. Como se viu, a comunicação nos nossos dias é extremamente dinâmica e difusa. Eu mesmo, que manejo muito mal as ferramentas da internet, criei este blog de maneira muito simples, sem nenhum custo direto, e escrevo o que quiser para quem quiser ler, no mundo todo. Muitos podem não ter a noção exata do que representa esse poder, mas nas mãos de quem tem objetivos definidos, esse tipo de instrumento é uma arma, para o bem ou para o mal. E isso tudo é comunicação.

Acontece que até o dia 10 de setembro, o governo está disponibilizando uma consulta popular sobre a criação desse Conselho, do qual muito se fala nos canais de mídia. Muita gente diz que ele é uma forma de controlar a imprensa e se fala até em instrumento de repressão e censura. Não é verdade. Pelo menos de acordo com o texto do projeto de lei, que está disponível no site gabinetedigital.rs.gov.br. Nesse site é possível saber todas as informações acerca do Conselho e de seu processo de criação, inclusive fazer sugestões ao texto do projeto, dar sugestões sobre a sua composição, enfim, se inteirar do que está acontecendo.

Dado o fato de que a comunicação é parte vital das nossas vidas, sugiro que entrem no site nem que seja para dar uma olhada e não ficar totalmente alienado desse importante passo para a democratização da comunicação no nosso estado. Repetindo o site:

gabinetedigital.rs.gov.br

Por fim, reflitam:

O Analfabeto Político
(Bertold Brecht)
 
O pior analfabeto é o analfabeto político.
 
 Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. 
 
Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
 
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. 
 
Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 14/8/2012.

Padrão
Cultura, Imprensa, Jornalismo, Mídia, Republicados

A cretinice avalizada*

Há coisas que se ditas e sustentadas perante os círculos restritos da intelectualidade nacional são como verdadeiras confissões de práticas rituais ocultas, que condenam o herege à fogueira sem direito a apelação.

Ouse dizer que o Caetano Veloso não é tudo isso ou que as letras do Cazuza são fraquinhas. O martelo das feiticeiras vai baixar na tua pobre e ignorante cabeça, incapaz de ver a poesia que se esconde por trás de um codinome beija-flor.

Falar mal da produção cinematográfica nacional, então, é pena máxima. A não ser que o detrator seja o Arnaldo Jabor. Eu era fã do Zé do Caixão muito antes dos ianques o chamarem de Coffin Joe e o alçarem à condição de herói cult do underground nacional, mas definitivamente não gosto muito das fitas brasileiras (embora reconheça que haja filmes excelentes) e menos ainda do citado funcionário da rede bobo. E esse é o gancho que introduz o meu assunto.

Fiquei impressionado com a cara de pau desse sujeito na entrevista que está na página 4 do Segundo Caderno da ZH de hoje. Lá pelas tantas, o Marcelo Perrone, que é casado com uma grande amiga da Patrícia e é um cara inteligentíssimo, muito legal e que entende uma barbaridade de cinema (Coloradíssimo, também), faz a necessária pergunta:

“E como você avalia o cinema brasileiro?”

Diz lá o AJ:

“Para mim, a novela ‘Avenida  Brasil’ é melhor do que muito filme que se faz no Brasil hoje. A dramaturgia das novelas e dos seriados tem essa capacidade de envolver o espectador. Eu já me sinto parte da família do Tufão (risos). É um melodramão [opa!] com um trabalho ótimo de direção, fotografia e de um elenco que faz personagens bem definidos e não apenas tipos. Essa novela também cumpre um papel fantástico de análise comportamental e política para compreender esse novo Brasil, a relação entre a elite e o subúrbio.”

O diabo (o do toque e não o do Exorcista) começou a me roncar nas tripas (obrigado, Jorge, pela expressão) e como ele incutiu desde piá na minha cabeça o hábito de tentar interpretar as coisas que leio, fui, antes de mais nada, saber alguma coisa sobre o termo “melodramão”. Botei no google e o corretor me alertou que o que eu queria dizer era “melodrama”. Tá, serve. Lá apareceu um monte de artigos e referências dizendo que se trata de um gênero teatral, surgido em blá, blá, blá. Bom, isso interessa pouco. A questão é que, como eu suspeitava, sempre há um ar depreciativo rondando o uso da palavra. E aqui falo de melodrama e não melodramão. De orelhada lembrei que a gente costuma chamar as porcarias que se vê por aí de melodrama. “Isso parece um melodrama mexicano”, “Fulano é muito melodramático”, e por aí vai. Ou seja, independentemente da origem da palavra, o uso comum fez dela um sinônimo de coisa ruim, fraca, de qualidade duvidosa. Mas aí não coisas não se encaixam na minha pobre e limitada cabeça. Como é que um melodramão, e o aumentativo serve para aumentar a conotação pejorativa, vai ser tão bom assim? Estranho isso, mas o próprio entrevistado se encarrega de derrubar qualquer estranheza na resposta seguinte.

Perguntou o Marcelo:

“Sua atividade como cronista oferece uma espécie de fortuna crítica sobre o Brasil das últimas décadas. Você pensa em voltar a filmar?

AJ: “Esses dias, fiz a conta: tenho 3,8 mil comentários gravados na Globo desde 1995.”

CORTA!! O cara presta serviços para a plim-plim desde os 90’s. Que valor pode ter um comentário seu sobre a novela das 9, que no meu tempo era das 8? Não bastava ter sido contraditório, enaltecendo a qualidade de algo que ele mesmo definiu como melodramão, tinha que ser tão comprometido com o patrão? Ele poderia ter pelo menos disfarçado!

Não quero ser mais inteligente que ninguém, mas um pouquinho de capacidade de compreensão eu tenho. Cadê a isenção nas palavras do seu Jabor? Ele deveria se abster de fazer esse tipo de coisa. Principalmente porque disse uma asneira de proporções gigantescas. As técnicas de massificação da tv dos Marinho são por demais sofisticadas para fazer a população brasileira se emocionar aos prantos com os dramas das mocinhas e dos vilões do horário nobre. Não acho que seja necessária a intervenção de um sujeito sobre quem paira a aura de intelectual para fazer o serviço de alavancar os índices de audiência. Não duvido que os filósofos de mesa de bar, que se orgulham de meter o pau na globo, mas não deixam de votar no paredão do Baita Bosta Brasileira, se sintam autorizados a reproduzir com autoridade a besteirada do A.J.

E tem gente que acha que no Brasil a gente não deve discutir política, sem perceber que é exatamente esse o jogo da mídia corporativa, que mantém tipos como esse Jabor e outros quetais.

E seguem todos felizes e contentes pela avenida brasil…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 10/8/2012.

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