Cinema, Literatura, Republicados

Quando nem o vento ajuda o tempo a passar*

Bueno, cumprindo um dever cívico, afinal somos soldados da Pátria Gaúcha, fomos assistir já na estreia o “Tempo e o Vento”, na sua segunda versão global. Começo dizendo que o filme é muito ruim, o que, no final das contas, acaba sendo muito bom, porque eu esperava um filme horrível. Mas se bamo adelante.

O Thiago Lacerda deu boa vida ao Capitão e a própria filha da Glória, cuja atuação era a que mais me metia medo, está razoavelmente bem, considerando o portfólio da moça, claro. O Zé Adão Barbosa emprestou um pouco do seu talento teatral e acabou construindo um Padre Lara convincente. E acabam por aí as coisas boas da película.

O roteiro é de uma pobreza franciscana, embora tenha sido feito pelo Tabajara Ruas. Talvez ele tenha dado muita liberdade à Letícia “Casa das 7 Mulheres “ Wierzchowski, não sei… A narrativa é lenta e truncada, em função da infeliz ideia de inventar uma Bibiana narrando suas memórias e aparecendo muito mais do que deveria – nem o talento da Fernanda Montenegro salvou. Nas primeiras cenas, quando tu pensa que a coisa vai engrenar, eis que há um corte para a anciã abraçada no seu capitão, que voltou do mesmo jeito que partiu a fim de buscá-la para a vida eterna. Prato cheio para as lágrimas dos adoradores de clichês cinematográficos. Chega a dar sono em alguns momentos. Meio ponto positivo na nota final é o fato de não terem tentando empurrar um sotaque estereotipado goela abaixo, o que faz com que a sonoridade do filme não provoque arrepios, mas, de qualquer maneira, mostrar uma mulher que mora num descampado em meio ao nada, na fronteira com o lugar nenhum, em pleno século 18, dizendo pra filha que não precisa contar logo ao pai que está “grávida” é de fazer chorar bacalhau em porta de venda. Fosse o homem, poderia dizer que ela estava prenha, e a mãe, na melhor das hipóteses, diria que ela estava “esperando”. Agora, gravidez na pampa gaúcha dos 1.700’s é dose pra leão!

As cenas finais mostram que o diretor, se leu o livro, não entendeu patavinas. E aqui novamente eu estranho que o Tabajara não tenha alertado para isto, mas quem sabe a liberdade que a rede bobo deu pra ele? Talvez o filme tenha que ter uma segunda parte e aí tenha ficado o gancho, sei lá. Acontece que botaram o Rodrigo (bisneto), num diálogo sem pé nem cabeça com a dona Bibiana, como uma espécie de reencarnação do Capitão. Tanto que só ele é capaz de enxergar o casal quando este se despede rumo ao infinito, ela já devidamente transfigurada na Bibiana guria, que apaixonou o soldado desde a primeira vez (aliás, atuação bem fraquinha da Marjorie Estiano). Se houvesse um pouco de atenção e respeito ao que pensou o Erico, saberiam que o futuro Doutor Rodrigo Cambará herdou de fato algumas características importantes do bisavô, mas o amor desmedido e até irracional pela guerra, destacado na participação do piá, ficou quase todo com o seu irmão Toríbio. Este sim não pagava imposto pra uma peleia e tinha a impetuosidade e o espírito selvagem do Capitão. O Rodrigo do retrato, como eu disse, tinha sim algo do Rodrigo do continente, mas era alguém muito mais cerebral, coisa que aparece de alguma forma muito mais nas mulheres da família e que fica bem clara, no livro, por exemplo, na maneira como o sobrado volta às mãos dos Terra-Cambará e nas relações que se podem estabelecer entre essa manobra e as articulações políticas do novo chefe da família, já no Estado Novo. Só que se a ideia for fazer uma parte 2, teria que ter muito talento, inteligência, ousadia e coragem pra fazer um filme sobre o filho mais velho do Licurgo. E essas qualidades, convenhamos, não são o forte do filho da Maysa, né?!

Depois do filme, a Patrícia observou que é uma característica do diretor compor belas fotografias, lindos cenários etc. Isso, pra mim, só contribui pra tornar o filme um melodramão* (sono)lento, chato, cheio de clichês românticos e bucólicos, que nada acrescenta a quem leu o livro e que pode ser muito prejudicial para quem não leu.

Enfim, como dizer para que não vão ver o filme? Sei lá, se conseguirem resistir talvez seja melhor. Mas se quiserem ir, nem que seja por curiosidade, escolham um dia de promoção de ingresso…

* Se procurarem aqui no blog por um texto sobre o asnaldo jabolor (http://wp.me/p3vLD3-B), verão que essa ideia de melodramão agrada muito à turma do plim-plim.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 21/9/2013.

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