Capitalismo, Republicados

Dinheiro? Pra que dinheiro?*

Um famoso samba do Martinho da Vila começa assim: “Dinheiro, pra que dinheiro, se ela não me dá bola…” Pois eu vou contar uma historinha que um grande amigo meu, irmão mesmo, me falou. Pra justificar aquele velho ditado que diz que quem conta um conto sempre aumenta um ponto, algumas coisas foram inventadas por mim, mas ele não vai ficar brabo.

O meu amigo um dia resolveu fazer um agrado pra esposa. Ele não é muito ligado nessa coisa de marca de roupas e acessórios femininos, mas já ouvira falar algo a respeito das grifes bacanas e entrou numa loja Victor Hugo (ou Louis Vitton, agora não lembro, mas tanto faz. Peraí! Como assim, tanto faz??? Que heresia!). Escolheu lá uma bolsa e a moça da loja disse que um cinto pra complementar ia ficar lindo. Desce o cinto. A moça veio de novo: “Aquela carteira vai ficar perfeita com esse conjunto.” Manda ver a carteira. Bueno, imaginem vocês o que deu a conta. Claro que ele ficou apavorado, mas aí já era muito tarde pra voltar atrás.

Na saída do shopping (essas coisas não se compram em loja de calçada…), uma moça praticamente deu um pescoção e perguntou se ele tinha o cartão de crédito que ela representava, que era um dos mais cobiçados do mundo, sem limite de crédito, a que só os muito vip tinham acesso e toda aquela história. De cara ele percebeu que esse interesse da guria estava ligado às sacolas que tinha na mão. O faro fino da moça percebeu que um cara que sai do shopping com duas ou três sacolas VH ou LV tem que ser cliente do cartão dela.

Ele explicou que na verdade não tinha toda a grana que ele imaginava, que de alguma maneira acabou caindo numa espécie de “cilada”, que tinha deixado todo o dinheiro na loja e tudo mais. A menina, por sua vez, atacava com argumentos praticamente irresistíveis, jogando todo o seu charme pra cima dele. Eu disse PRATICAMENTE irresistíveis porque ele resistiu brava e heroicamente e saiu da agência sem fazer o tal cartão. Parabéns!!

Corta pra algumas semanas depois. O cenário agora é uma igreja, que o meu amigo, assim como a sua esposa, frequentam. E o momento é uma conversa entre ele e o padre, que é amigo dos dois. Ele conta a história, falando da sua preocupação com a futilidade do mundo, o apego ao dinheiro, enfim, tudo o que a gente tá cansado de ver todo dia e toda hora. O padre, então, falou da virtualidade do dinheiro e de como ele deve estar sempre circulando, a fim de cumprir o seu papel, que não é o de possibilitar que pessoas comprem bolsas de 4 dígitos antes dos centavos, mas de estimular o crescimento da sociedade, fazendo com que todos possam trabalhar e ter uma vida digna. Segundo o padre, com o que eu concordo plenamente, dinheiro aplicado em banco só enriquece uma pessoa: o banqueiro, e dinheiro investido em produtos de preço exorbitante só atendem a uma finalidade: ostentação. E contou uma historinha:

Um cara chega numa cidade do interior, vai ao único hotel, que não era mais do que uma aconchegante pousadinha típica, e diz que quer passar uma semana descansando, porque brigou com a namorada e quer refletir sobre a vida. Pergunta o valor da diária e diz que vai pagar adiantado, deixando mil reais com o gerente. E sai pra passear pela cidade. O gerente pega os mil e vai até a fruteira, falar com o seu Manoel:

– Seu Manoel, entrou um hóspede que pagou adiantado e eu vim aqui pagar aquela dívida pelo fornecimento das verduras e frutas que o senhor pendurou pra mim.

O seu Manoel chamou a dona Jandira, pediu pra ela atender na fruteira e foi até o sítio do seu Jeremias pra pagar uma dívida de fornecimento de ovos que ele havia segurado.

O seu Jeremias foi lá no escritório do Doutor Abreu, o advogado da cidade, e pagou uma dívida por um processo em que o doutor o tinha representado.

O Doutor Abreu saiu do escritório, deixando a porta aberta (como já deu pra ver, na cidade todos confiavam uns nos outros) e foi no consultório da Doutora Cristina, médica de todas as famílias da cidade, pra honrar um compromisso assumido quando ele precisou de atendimento pra uma sobrinha e não tinha dinheiro na hora pra pagar.

A Doutora Cristina foi no hotel e falou pro seu Cavaquinho (o gerente era português e o sobrenome era cavaco):

– Seu Cavaquinho, o senhor lembra daquele encontro de médicos que eu organizei aqui e que veio mais gente que eu pensava?

– Claro que lembro, doutora. Tava bem lindo aquela gentarada toda na cidade, né?

– Tava, tava, sim, seu Cavaquinho. Pois o senhor lembra que eu fiquei lhe devendo mil reais, porque não tinha como cobrir as despesas todas naquele dia?

– Lembro sim, doutora.

– Pois é, tive uma sorte danada hoje e recebi justamente os mil reais que precisava pra vir aqui lhe pagar.

– Muito obrigado, doutora, e disponha sempre que precisar.

Nisso, volta o hóspede: 

– Meu amigo, o senhor há de me entender. Eu lhe disse que vim descansar aqui na sua cidade por causa de um desentendimento com a minha namorada. E não é que agora a danada me ligou que quer conversar, que tá com saudade e aquela coisa toda? Então não vou poder ficar.

– Mas que notícia boa pro senhor, seu… como é mesmo a sua graça?

– Jubileu.

– Mas que notícia boa, seu Jubileu, então o senhor que volte pra sua namorada e sejam muito felizes. E venham passar a lua-de-mel aqui, que eu lhe faço um precinho especial.

– Ah, muito obrigado, amigo, mas sobre preço eu quero lhe perguntar quanto lhe devo. Faço-lhe uma proposta: como o senhor deixou a vaga reservada pra mim, pago metade do valor total e o senhor me devolve o resto.

– Que é isso, seu Jurandir…

– Jubileu!

– Perdão, seu Jubileu, sabe como é a idade, né? Mas o senhor não me deve nada. O senhor nem ficou uma noite. Tome aqui os seus mil reais de volta.”

Pois não é que o dinheiro andou por tudo quanto é lugar, pagou todas as dívidas da cidade e voltou pro mesmo bolso? Então agora me digam, o que vale mais: a habilidade da vendedora da loja, que empurrou um monte de coisas caras pro meu amigo, mesmo tendo percebido que ele não estava sabendo muito bem de quanto custavam essas coisas todas; o olho clínico da guria do cartão de crédito, que viu as sacolas caras e pulou em cima da presa como um carcará; ou a confiança demonstrada por todos os habitantes da tal cidadezinha, que fizeram o dinheiro circular, pagaram todas as contas e rafirmaram a confiança uns nos outros?

Pois é, agora um relato meu. Quem se lembra daquele jogo Banco Imobiliário? Joguei muito na infância a às vezes até depois de velho. Há algum tempo fui surpreendido quando cheguei na casa do meu irmão e o meu sobrinho estava jogando um banco imobiliário. Só que neste novo, não se compra uma casa na Av. Atlântica, nem as ações da companhia de táxi aéreo. O que se negociam são ações da Ipiranga, da Vivo, a sorte é ganhar um crédito extra no Mastercard e por aí vai. Nem as crianças escapam.

Nem as crianças escapam mesmo! Aliás, são elas, as crianças, o alvo preferido da mídia perversa e capitalista. Mais ou menos na mesma época, assisiti a uma matéria na TV Brasil sobre o consumismo inafantil. Lá pelas tantas a repórter estava entrevistando uma menina de uns 10 ou 12 anos. Ela mostrou várias embalagens de produtos industrializados (batata frita, bolacha etc.), tapando a marca de todas elas. A guria sabia o nome de todas. Quando apresentada a um prosaico mamão, ela não soube dizer o que era, para espanto da entrevistadora.

Isso é uma loucura e na época natalina vira um inferno. Eu não sou o joãozinho-do-passo-certo e nem quero ser moralista. Sempre gostei de dar presentes em datas comemorativas e as minhas filhas vão ganhar coisas no Natal. Só que há um limite pra tudo. Se continuarmos nesse processo de consumismo desenfreado, nessa supervalorização de grifes e marcas, nessa veneração pelo dinheiro, sei lá onde vamos parar.

Quem sabe a gente tenta, mas tenta de verdade, refletir um pouco sobre essas coisas todas, principalmente nós que temos filhos crianças e adolescentes, para tentar justamente mostrar alguma coisa para essas crianças e jovens, mostrar que roupa de marca, tênis caro, óculos de última geração, ipad, ipods etc. não são os grandes responsáveis pela felicidade. Nada contra comprar essas coisas, se tiver como fazer isso sem comprometer coisas mais importantes, mas que se faça isso sabendo colocar as coisas no seu devido lugar. Sei que um baita clichê, mas às vezes os clichês dizem coisas verdadeiras. O nosso amigo sol protagoniza espetáculos todos os dias e não cobra um centavo por isso. Talvez assim que entendermos de verdade o sentido desse chavão as coisas comecem a melhorar. Eu ainda acredito…

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 4/12/2013.

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