Arte, Republicados

As pessoas, o universo*

Este episódio, que poderia certamente virar uma peça do folclore, aconteceu de fato:

há alguns anos, teve uma Bienal do Mercosul em que os caras criaram algo que ficou conhecido como a cidade dos contêineres ou coisa parecida. Era na beira do RIO Guaíba, naquele espaço que tem perto da rótula das cuias (ou das tetas),  e se tratava da instalação de vários contêineres, desses de navio cargueiro, cada qual com uma exposição artística (ou nem tanto) diferente. Tinha umas bem interessantes e outras que nem o mais sábio dos monitores conseguiria me fazer entender. Mas ele tentou. Tinha um contêiner quase vazio, bem branquinho e um número razoável de pessoas em volta, ouvindo a explicação do monitor. Ele estava quase vazio porque dentro havia um balde, uma vassoura e um rodo. E o abnegado guia (esses caras são, em geral, alunos dos cursos de arte ou história, que fazem monitoria voluntária, o que é muito legal) estava ali a descrever a obra, tentando passar para os interessados um pouco da alma do artista, o que ele quis dizer com aquilo etc. E o artista tinha querido mais ou menos dizer alguma coisa sobre o contraste entre a pureza original da alma, ali representada pela alvura do contêiner, com a necessidade de uma limpeza a ser feita pelo ser humano, a ser executada, metaforicamente, pelo material de limpeza. Talvez, ainda, algum estudioso das coisas d’além matéria corpórea, poderia ter feito alguma associação com as ideias do pecado original, do cristianismo, frente ao ensinamento budista que diz que todos têm uma essência eminentemente pura. Enfim, muitas coisas poderiam ser ditas ou pensadas a respeito daquela instalação (acho que é esse o nome que se dá a esse tipo de obra de arte, mas se não for, perdoem-me a minha falta de conhecimento).

Bueno, o fato é que enquanto o cara falava, as pessoas de fato refletiam sobre aquilo tudo, algumas pelo menos. Eis que de repente, do nada surge um personagem que não deveria fazer parte do contexto. Um carinha uniformizado, que, pedindo licença educadamente, abriu caminho entre os apreciadores da arte, pegou o seu material de trabalho, nada menos do que o balde, a vassoura e o rodo, e foi “purificar” outro lugar que necessitava da sua intervenção. Não preciso falar da cara que ficaram aqueles todos entendidos e estudiosos da arte…

Costumo contar essa história sempre que tenho oportunidade de falar alguma coisa do que penso sobre a arte e os seus críticos. A partir de agora, porém, quando quiser ilustrar o meu pensamento, tirarei do bolso esta cronica do … (tem necessidade de qualificar?) Luís Fernando Veríssimo (Caderno Donna, de ZH, de 7 de abril de 2013), com a qual brindo os meus amigos e leitores:

     “Poemas

     ‘Prezado M: Recebi o e-mail com seu mais novo poema e entendo seu entusiasmo. Realmente, é um raro exemplo de exteriorização poética da angústia moderna, a começar pela reiteração inicial: 
     ‘Eu mato, eu mato…’
     A brutal assertiva evoca à perfeição a têmpera destes dias, o nosso ‘zeitgeist’. Perderam-se as ilusões com a justiça, com as esperanças de regeneração e com todas as instâncias jurídicas. Vivemos num deserto de valores morais. O poeta não diz ‘eu reprimendo’, ‘eu castigo’, ‘eu mando prender’, ‘eu condeno’. Diz e repete ‘eu mato’. Que retribuição se pode esperar onde a justiça não faz justiça e a cadeia não segura o ladrão? O poeta ameaça fazer a sua própria justiça porque não existe outra. Revertemos ao animal primevo com as presas à mostra, num ricto de vingança selvagem. 
Uma hiena ganindo entre as ruínas de uma civilização falida. 
     Segue o poema:
     ‘… quem roubou minha cueca…’
     Há aqui algo que equivoca Eliot, com seu constante recurso ao aparentemente banal – no caso, a cueca – em contraponto a alusões clássicas e míticas, e que acabou sendo um viés da poesia moderna (Auden, Drummond). Não seria, talvez, demais ler a cueca como metáfora. A cueca representa o que temos de mais íntimo, recôndito, profundo. O que temos de mais nosso. O que o ‘zeitgeist’ nos roubou. Ou seja: a nossa alma. Onde está ‘cueca’ leia-se ‘alma’. Sem a cueca ficamos nus. Sem a alma também estamos reduzidos a apenas nosso corpo.
     Mas quem roubou a nossa cueca/alma? Quem trouxe nosso corpo desprotegidos para este deserto?
     Quem merece a raiva do poeta?
     Que a raiva é merecida fica evidente na última linha do verso:
     ‘… pra fazer pano de prato!’
     A suprema degradação. Nossa alma secando pratos. O fim de uma geração que conseguiu chegar à Lua, mas se perdeu no caminho da privada. Quem é o culpado? Também queremos ganir de indignação como o poeta mas não sabemos em que direção. 
Para o alto? Para o lado? Para que lado? Quem, afinal, roubou nossa cueca pra fazer pano de prato?
     Mas, enfim, poesia é isso mesmo, não é não? Perguntas sem respostas. Se houvesse resposta não seria poesia. Só me resta invejar o seu poder de síntese e a síntese do seu poder, que reduz toda a condição humana a um verso singelo, e o Universo a um gemido terminal. 
Parabéns!
     E um grande abraço do L.’

~  
 
     ‘Prezado L:
     Gostei muito do que você escreveu sobre o verso que mandei, mas preciso fazer uma confissão: mandei o verso errado. Queria que você comentasse o poema caudal em 170 estrofes que me custou quase um ano de trabalho mas me atrapalhei (sou um pré-eletrônico,você sabe) e acabei mandando a letra de uma antiga marchinha de Carnaval que, sei lá por que, meu neto de doze anos armazenou no meu laptop. Mas obrigado assim mesmo. 
Grande abraço, M.” 
*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 10/6/2013.
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