Língua Portuguesa, Linguística, Republicados

O cientista e o…*

Assuntos referentes à língua portuguesa constituem um dos temas recorrentes por aqui. Não tenho habilitação profissional pra falar disso de forma científica, mas quanta gente também não tem e fala mesmo assim? De qualquer sorte, sou um profundo conhecedor da língua falada no Brasil, ou melhor, de uma(s) das línguas faladas no Brasil. Alguns dirão que eu estou viajando, porque, afinal a língua falada no Brasil é uma só, o português (será mesmo?). Outros me acharão pretensioso e arrogante, além de contraditório, afinal eu disse ali em cima que não tenho habilitação pra falar e agora digo que conheço profundamente a língua. Corro, então, a clarear o que eu disse.

Assim como eu sou um profundo conhecedor da língua falada no Brasil (vou deixar assim pra não ficar chato, mas a observação já foi feita e continua valendo), a minha filha, Alexandra, de 4 anos, também é, e o carinha que “cuida” os carros na Getúlio com a Barbedo, igualmente, mesmo que ele já tenha me dito que não sabe ler nem escrever. Quem já leu algum outro texto sobre o assunto por aqui ou, ainda melhor, quem gosta do assunto e já leu alguma coisa escrita pelos grandes linguistas que temos no Brasil, não vai achar nada estranho isso que eu estou dizendo. Mas pra quem não está habituado com isso, dou mais uma clareadinha, dizendo que a diferença entre mim, a Alexandra e o negãozinho da casinha (é assim que ele gosta de ser chamado, porque sempre fica perto de uma casinha de chaveiro) é que eu certamente tenho um léxico um pouco mais amplo e estou mais acostumado a identificar que tipo de linguagem usar em cada ocasião da vida (mais informal entre amigos, mais técnica quando necessário, mais formal em determinadas circunstâncias).

O que eu quero (re)afirmar com este escrito é que a língua é um dos mais importantes e eficientes mecanismos de propagação do preconceito social, seja por conta da classe social, do lugar onde mora e outros fatores determinantes para a exclusão. E isso fica bem claro nos dois textos que eu transcrevo na íntegra a seguir, ambos publicados na (excelente) Revista Língua Portuguesa, da editora Segmento (edição nº 89, março de 2013, páginas 51 E 44-45, respectivamente). O segundo é de autoria de Sírio Possenti, que tem assim definida a sua qualificação no final do texto: Professor Titular do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Humor, Língua e Discurso (Contexto). O outro é do Jornalista e autor de Língua sem Vergonha (Civilização Brasileira, 2011), Josué Machado. Ao final da leitura dos dois textos, gostaria que fosse feita uma reflexão sobre quem tem habilitação e, portanto, fala com mais propriedade sobre a CIÊNCIA LINGUÍSTICA, não esquecendo que a revista, embora possa ser lida com prazer por qualquer pessoa, pode ser considerada uma publicação técnica, que trata da língua como um objeto científico, da mesma maneira que há revistas específicas sobre a Ciência do Direito, a Ciência da Medicina, a Ciência da Física etc.

Antes, porém, de passar aos textos, quero referir outra matéria surpreendente da revista, que mostra que uma pesquisa feita nos EE.UU. revela que o primeiro fator de atração a ser considerado por um homem quando tem interesse numa mulher é o estado geral dos dentes, e o segundo, pasmem, é o uso “correto” da língua. Dessa reportagem, destaco a fala de um tal Flávio Vianna, citado no texto, paulistano de 41 anos, que assim se manifestou: “Há pouco tempo, conheci uma garota bonita, com um corpo bonito, mas quando abriu a boca foi um desastre. (…) Realmente me incomoda, a ponto de eu sentir vergonha. Vai que um amigo escuta? Ter um relacionamento com alguém que não sabe falar direito é um retrocesso.” De minha parte, acho que o verdadeiro retrocesso é ainda acreditar que uma mulher brasileira, em idade apta a ter um relacionamento amoroso (pelo menos eu espero que tenha idade pra isso) e que, portanto, já precisou se comunicar usando a linguagem milhões de vezes na vida, não sabe falar direito. E retrocesso ainda maior é considerar esse “não falar direito” motivo de vergonha perante os amigos (todos súditos do Napoleão Mendes de Almeida e do Pasquale Cipro, decerto…).

Sem mais delongas, vamos aos textos.

“Aumentos sofrem (seção Dito & escrito). 

Por motivos misteriosos, o verbo ‘sofrer’ aparece em notícias sobre aumentos de preços e outros valores

Por Josué Machado

Em noticiário de rádio, a repórter revela que a milionária avenida Faria Lima ‘é aquela em que o metro quadrado dos edifícios comerciais mais sofreu aumento em São Paulo’. Na TV, a âncora do noticiário lembra que o auxílio-moradia concedido pela prefeitura às vítimas de enchentes ‘não sofre reajuste’ desde 2009. Pelo jornal, sabemos que o então presidente do Supremo, ministro Ayres Britto, enviou ao Congresso proposta de reajuste salarial para o Judiciário; desse modo, quando o reajuste for confirmado, ‘os salários de todos os servidores que recebem o teto salarial vão sofrer aumento‘.

Anunciava-se  mais ou menos na mesma época que o salário mínimo sofreria aumento, mas não se sabia ainda que aumento sofreriam os proventos dos aposentados. Na análise do índice de inflação, tomamos ciência de que o preço do tomate é o que sofreu o maior aumento por causa do excesso de chuvas. (Às vezes é pela falta de chuvas.) Somos lembrados também, por um mestre, de que ‘a língua sofre mudanças com o correr do tempo’.

Por que tanto sofrimento? Que razões levam um redator a estabelecer relação entre aumentos de preços ou salários e sofrimento? Talvez porque aumentos em geral resultem em sofrimento. Ou pagar mais sempre dói ou os aumentos de salários são insuficientes, o que resulta em dor pela impotência de não poder pagar o que é preciso.

Sofrimentos

Em todos os casos, ‘sofrer’ ganha o curioso significado aproximado de ‘ganhar’, ‘receber’. Ou, nas transformações da língua, transformar-se ou mudar passa a ser ‘sofrer’. Por que não usam simplesmente os verbos ‘aumentar’ e ‘reajustar’, ainda que no particípio? Assim: ‘A avenida Faria Lima é aquela em que mais aumentou o preço do metro quadrado dos edifícios comerciais em São Paulo.’

‘O auxílio-moradia concedido pela prefeitura às vítimas de enchentes não é reajustado desde 2009.’

Ou: ‘A prefeitura não reajusta o auxílio-moradia às vítimas de enchentes desde 2009.’

‘Os salários de todos os servidores que recebem o teto salarial serão aumentados.’

‘A língua muda com o correr do tempo’.

Enfim, por que tanto fazem sofrer o coitado do verbo ‘sofrer’?

*Grifos no original.

Bueno, em primeiro lugar, o cara é jornalista e se acha no direito de deitar regras sobre o uso da língua para os milhões de falantes dela. É bem provável (ou não) que ele fale um português castiço, que se usava (ou não também) lá no tempo de Camões. A propósito, essa patrulha gramatical adora citar o português de Camões, mas ou eles não leram sequer “Os Lusíadas” ou são muito cretinos mesmo (eu, particularmente, acho as duas coisas), porque lá no poema tão reverenciado por eles, aparecem como traíra de açude muitas palavras que eles condenam. O pior, nesse caso, é que o cara se contradiz no próprio texto. Ele mesmo sugere (com absoluta razão) que a língua é um organismo vivo, em constante transformação (“Ou, nas transformações da língua, transformar-se ou mudar passa a ser ‘sofrer.’”). Se ele refletisse por um segundo sobre essa própria observação, nem escreveria o texto. E dá como exemplo uma afirmação: “A língua muda com o correr do tempo”. (Grifo no original.)

Ora se a língua muda, o que é reconhecido pelo próprio autor, por que não aceitar a mudança que se verifica com o uso do verbo sofrer em outros sentidos além do original (ou mais comum)?

Então tá, vejamos o que diz o CIENTISTA DA LÍNGUA, Sírio Possenti mais ou menos sobre o mesmo assunto.

“A língua não é dos falantes

Analisar as novas formas linguísticas deveria fazer parte do dia a dia de alunos e professores

Por Sírio Possenti

Três questões devem reger o ensino de gramática. Ao lado delas, outras poderiam ser destacadas, como leitura e escrita. O conjunto formaria a ‘área’ de português, digamos:

a) A variação e a mudança da língua;

b) O desenvolvimentos da capacidade de análise;

c) O domínio da norma.

Começo pela última. Não faria sentido tratar da língua portuguesa na escola, em sociedades como a nossa, se um dos objetivos não fosse que os alunos tivessem, ao fim de anos de trabalho, razoável domínio da norma culta (até variavelmente, conforme seus usos reais). Ou seja: que soubessem escrever textos publicáveis, resumos adequados, cartas a autoridades ou a jornais, relatos / relatórios de viagem, etc.

A melhor maneira de aprender a fazer isso é fazendo, e não estudar gramática ou corrigir listas de erros. É claro que a escrita e a rescrita de textos implica consultar dicionários, gramáticas normativas e manuais de redação, para verificar quais as expectativas ‘sociais’, especialmente em caso de dúvida. Aliás, boas aulas ensinam a ter dúvidas na hora certa.

Variação

Em seguida, a questão da variação e da mudança da língua. Não faz sentido, numa era de domínio da ciência (quando se tenta explicar tudo), que os alunos não possam ter ideia razoável de por que as línguas variam conforme a região, a idade, a escolaridade, eventualmente, o sexo, etc. dos falantes.

Talvez a única verdade indiscutível em relação às línguas é que não são faladas uniformemente por todos. A heterogeneidade social implica, ao menos coocorre, na heterogeneidade linguística – em todas as sociedades! Seria simplificador supor (e impor) uma única variedade, tratando o restante das formas da língua simplesmente como erros. Mas o resultado mais interessante da consideração da variedade da língua é que ela pode ser tratada juntamente com sua mudança. 

Suponha um professor de história que parasse na queda do Muro de Berlim e considerasse que o que veio depois não é história (é erro!). Ou defendesse o correio a cavalo, pois assim D. Pedro I soube das pressões de Lisboa para sua volta a Portugal. Por que a invasão ao Iraque não seria história? E por que excluir o envio de dados pela internet? 

A história do português continuou após Machado ou Graciliano. Ou Camões (que, aliás, escreveu ‘que outro valor mais alto se alevanta’!) e Eça. Se o latim pigritia deu ‘preguiça’, por metátese, e isso não é um erro, nem por isso se deve aceitar que ‘estrupo’ é a forma correta, mas por que não se pode aceitar o processo de formação da palavra, em vez de (por falta de saber do que se trata!) rir dela? Principalmente, por que não se pode aceitar que regências mudaram (como as de ‘assistir’ e ‘preferir’)? Por que insistir nos pronomes ‘o’, ‘a’, ‘os’, ‘as’ como objetos diretos pronominais exclusivos (condenando ‘lhe’ (s) nessa função, se, para citar só um estudo, a tese de que ‘lhe’ substitui ‘o’, ‘a’, etc. foi proposta por Mattoso já em 1957? Mais fundamental: não é uma tese nascida da cabeça de Mattoso, mas dos dados do português do Brasil!

Aliás, o estudo é exemplar: não só atesta o desaparecimento do antigo pronome reto, mas o uso de ‘ele’, ‘ela’, etc. como objeto direto, sem propor que isso seja parte da norma, reconhecendo que é estigmatizado. A recusa em reconhecer os fatos, as novas formas da norma (visto que a forma aparece mesmo em textos de escritores profissionais) é equivalente a não reconhecer a internet, o rock, o DNA, as células, pois estes objetos não estão na história do século 19. 

Menos valorizadas

Ser capaz de analisar as formas novas (usadas por pessoas cultas ou não) deveria fazer parte da capacidade do aluno (ao menos, do professor). Aulas de história falam de globalização; as de física, de átomos. Por que as de português não podem falar de formas dialetais menos valorizadas, nem dar-se conta de que formas do século 16 deixaram de existir e as novas estão nos textos dos literatos, que as gramáticas dizem que são suas fontes? Como se pode dizer que ‘Tinha uma pedra’ (no meio do caminho) é erro de português, assim como ‘Joga-se os grãos’ (na água do alguidar), se tais formas estão em Drummond e Cabral – embora não sejam suas criações, mas amplamente usadas pelos que tomamos por cultos?

Em terceiro lugar, é importante aprender a analisar, a observar dados com alguma sofisticação. Aceitar – só porque alguém lhe disse – que ‘o’ e ‘orelhudo’ são adjuntos adnominais de ‘cão’ em ‘O cão orelhudo’, em vez de dizer que ‘orelhudo’ é um adjunto adnominal de ‘cão’ e ‘o’ é adjunto adnominal de ‘cão orelhudo’, é renunciar às capacidade de observação. (sic) 

Análise

Aceitar sem discutir que ‘Livro para mim ler’ é erro porque ‘mim’ não pode ser sujeito, sem dar-se conta que nunca se diz ‘mim vou/vai’ nem ‘lhe vai/vem’, etc., é só engolir ou decorar uma norma.

Deve haver explicação para o fato raro. Provavelmente, decorre de que o falante ‘analisa’ ‘Livro para mim’ e ‘Livro para mim ler’ como casos em que ‘eu’ está no escopo de ‘para’, preposição que rege objeto indireto. Por que, ao se tentar eliminar tal ‘vício’ (!), nunca se leva em conta construções parecidas, como ‘Tenha dó de mim’ e ‘Hoje é dia de eu pagar’? A forma ajudaria a compreender porque a norma espera ‘para eu sair’.

Aprender a analisar (tanto estruturas de acordo com a norma quanto as descriminadas) ajuda a entender porque umas não devem ser usadas em certos tipos de texto: não é que estão erradas (a história da língua mostra qual o seu lugar); é que não são bem avaliadas. E por isso, dependendo do tipo de texto, devem ser incluídas, como o fizeram e fazem os melhores escritores.”

(Grifos no original.)

Este último eu não vou comentar, porque fala por si próprio.

O que acham?   

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 26/3/2013.

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