Religiões, Republicados

Deus, deus e o papai noel

Eu tenho muito apreço pelas coisas ecumênicas. Acho interessante que, em geral, mesmo pessoas declaradamente descrentes em Deus, ao grafarem a palavra o fazem com D maiúsculo. E mesmo pessoas que professam outros tipos de fé, volta e meia são surpreendidas dizendo coisas do tipo: graças a Deus ou se Deus quiser. O que ou quem é, enfim, esse Deus (ou deus)?

A entrevista que segue, concedida ao Carlos André Moreira, foi publicada no Caderno Cultura da ZH, de 4 de maio, na página 2. A entrevistada é a ex-freira católica, Karen Armstrong. O que ela diz tem muito a ver com o que eu penso.

 ZH – A senhora pode antecipar qual deve ser o teor da sua conferência em Porto Alegre? [Ela vai estar no Fronteiras do Pensamento no dia 6.]

 

KA – Devo falar sobre a natureza do conhecimento religioso, lembrando que é um conhecimento derivado da prática – especialmente a prática da compaixão – e não da correção doutrinária. É como nadar ou dirigir, algo que só é possível aprender através da prática diligente e não pela leitura de livros e textos. Eu também devo falar de questões sociais, ressaltando, por exemplo, que a pobreza, a injustiça e outros temas políticos também são questões profundamente religiosas.

 

ZH – Seu trabalho aborda a extrema dificuldade que há em articular experiências transcendentes em palavras, em linguagem. Muitos religiosos hoje declaram ter acesso à interpretação real da “palavra de Deus”. Para a senhora, o objetivo primeiro de uma religião deveria ser transforma (sic) Deus em palavras?

 

KA- Estamos hoje falando de Deus e interpretando as escrituras com uma literalidade que não tem paralelo na história da religião. Tomás de Aquino e Maimônides ficariam horrorizados ao ouvir a maneira simplista como falamos de Deus hoje em dia. No passado, as pessoas entenderam que o que chamamos “Deus” está fora do alcance do discurso e dos conceitos, mas hoje temos a tendência a domesticar a transcendência, e nossa ideia de Deus é muitas vezes simplistas – até mesmo primitiva. Ouvimos pela primeira vez sobre Deus mais ou menos na mesma época em que ouvimos falar de Papai Noel, mas a nossa compreensão do Papai Noel muda e amadurece ao longo do tempo, enquanto que a nossa compreensão de Deus permanece em um nível infantil. Vou falar sobre isso em minha palestra.

 

ZH – A Igreja Católica precisou enfrentar recentemente um fato raríssimo: a renúncia de um papa. Com a eleição de um novo pontífice, o que a senhora especula que acontecerá com a política oficial do Vaticano a respeito de questões contemporâneas essenciais, como a sexualidade, por exemplo?

 

KA – Acho que este Papa está tentando viver de forma mais simples, o que é muito bem-vindo. Mas temo que haverá poucas mudanças no que diz respeito á sexualidade, ao controle da natalidade, etc. Os dois últimos papas eram muito conservadores, e nomearam outros conservadores para os principais cargos e para o Colégio de Cardeais. Este novo papa tem visões conservadoras sobre questões de sexualidade e gênero. Creio que ele recentemente recusou o pedido de algumas líderes religiosas para liberalizar as regras sobre as irmãs e as freiras.

 

ZH – A primeira década do século XXI foi marcada pelo conflito entre algumas das principais superpotências cristãs ocidentais e nações e movimentos islâmicos. Como a senhora vê as relações entre cristãos e muçulmanos no mundo contemporâneo, e qual o seu prognóstico para esta relação nos próximos anos?

 

KA – Creio que muitos dos nossos problemas atuais derivam do fato de que não adotamos a Regra de Ouro. A Regra de Ouro que foi desenvolvida por todas as grandes tradições religiosas, que a consideram central para a espiritualidade e teste para a verdadeira religiosidade: nunca tratar os outros como você não gostaria de ser tratado. Se nós, britânicos, por exemplo, houvéssemos nos comportado com mais respeito pelas pessoas em nossas colônias do Oriente Médio, não estaríamos tendo tantos problemas hoje. Os problemas entre o mundo islâmico e o Ocidente são em grande parte de natureza política, ainda que sejam expressos em uma linguagem religiosa. A não ser algumas questões pendentes que são dirigidas pelos Estados Unidos – em particular, a questão da Palestina – temo que nossos problemas atuais continuarão.

 

ZH – Nos últimos anos, aumentaram as manifestações do ateísmo militante, lideradas por pensadores como Richard Dawkins ou Sam Harris. Como pesquisadora sobre Deus, o que a senhora pensa desse tipo de discussão?

 

KA – Sou totalmente a favor de discussões teológicas com os ateus; no passado, ateus e grandes teólogos mantiveram debates muito frutíferos. Mas eles foram conduzidos com cortesia e respeito mútuo. Meu problema com Dawkins e Harris – e conheço superficialmente a ambos – é: 1) que eles parecem saber muito pouco sobre religião e 2) a intemperança com que eles atacam a religião e quem acredita em uma. Eles denunciam a intolerância religiosa, mas correm o risco de tornar-se intolerantes eles próprios. Na verdade, na Grã- Bretanha, pelo menos (que é uma nação muito secular), as pessoas estão ficando cansadas deles. Para mim, o ateísmo é a liberdade de pensar por si mesmo: ela não deve significar a ridicularização da ideias e das crenças dos outros.

 

ZH – No Brasil, grupos de evangélicos neopentecostais têm ganhado mais influência na política, o que culminou em um acalorado debate contra as posições dessas denominações sobre questões como casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nos Estados Unidos esse tipo de igreja contemporânea já exerce grande poder. Como essa ascensão neopentecostal pode mudar o debate político?

 

KA – Esta é uma situação muito interessante no Brasil, e estou ansiosa para aprender mais sobre isso quando chegar ao país. Parece provável para mim, no entanto, que o neopentecostalismo só pode reforçar, política, social e etnicamente, as tendências conservadoras.

 

ZH – A senhora vem estudando há anos as fundações das maiores religiões do planeta. Por que quase todos os povos ao longo da História consideraram necessária a ideia de uma religião?

 

KA – Vou falar a respeito disso em minha palestra. Somos criaturas que buscam um sentido para as coisas, e desde o início de nossa existência, o Homo Sapiens criou religiões ao mesmo tempo e pela mesma razão que criou obras de arte. As duas tentam encontrar significado, beleza e sentido em um mundo trágico. Vejo a religião como uma forma de arte – não como um conjunto ou regras ou doutrinas.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 5/5/2013.

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