Música, Republicados

Nos tempos da brilhantina*

Não foi exatamente um retorno aos tempos da brilhantina, mas foi quase como. O primeiro elepê de roque que eu ouvi na vida, e enlouqueci (Raulzito é outra conta), chama-se Volume 4, e quem toca ali é: Toni Iommi, Terry Geezer Butler, Bill Ward e Ozzy Osbourne, ou, dito de outro modo: Black Sabbath. O Ozzy ficou por último propositadamente, porque é o mais pop deles e estampa a capa do disco. Isso aconteceu na minha vida antes mesmo dos Beatles (heresia, dirão talvez) e mais ou menos junto com o AC/DC, O Led Zeppelin e o Deep Purple. Eu ouvia esse negócio incansavelmente, com requintes de crueldade, porque botava as caixolas do meu Conjuntojunto Polyvox na janela, pra que todos que passassem  tomassem conhecimento que ali havia um roqueiro, ou melhor, um metaleiro, era assim que eu queria passar à história.

Bueno, digo tudo isso por que mesmo? É porque ontem, depois de décadas, sim décadas, voltei a curtir um rock pauleira (putz, essa veio do fundo falso da arca do noé). Trata-se da banda Bladde, cujo guitarrista, um dos dois, é o Daniel, primo da Patrícia. Então fomos lá pro segundo show. O primeiro, que não conseguimos ir, ocorreu, ironias da vida, na Casa do Gaúcho. O evento estava marcado para um lugar chamado La Bodeguita, onde a Patrícia esperava talvez encontrar um tango e eu uma rumba ou quem sabe uma cumbia uruguaia (beijo Flavinha e Julinho!). La Bodeguita poderia ser uma sinistra casa escura e cavernosa que abrigaria um show de Révi Metal? Sim, senhoras e senhores, é isso mesmo. Show da Banda Bladde, heavy metal na veia, em La Bodeguita.

Passamos de carro pelo local e a primeira impressão é que o show tinha sido transferido e o Daniel esqueceu de nos avisar, desconfiança amparada também no fato de eu ter tentado falar com ele pelo telemóvel a tarde toda, sem sucesso. Vamos conferir, foi a ideia. Chegamos na frente, um cartaz do show, com a data certa, mas a casa hermeticamente cerrada. E agora, quem poderá nos salvar? Talvez a Patrícia não queira que eu fale, mas ela pensou em desistir -faríamos o que, sertanejo universitário ou samba de raiz? – na dúvida, resolvemos esperar um pouquito. Nisso chega um casal mais ou menos como nós, seja lá o que isso quer dizer em se tratando da possível plateia de um show heavy, dá uma olhada, pensa um pouco, troca uma ou duas letrinhas e se vão lá pra dentro. Vamo nessa! Quando adentramos a casa, o aspecto funesto ficou mais evidente. E aí estava o casalzinho trovando o cara do bar pra assistir a passagem de som, tentativa negada. Fomos eles e nós lá pra frente e entabulamos um começo de conversa. Ele não curte rock pesado e a moça nem rock curte, porque ela olhou o cartaz e achou que eram umas quantas bandas, incluindo Pantera. Perguntei quem eles vieram prestigiar e o cara disse simplesmente: – o Iuri. – Em que banda ele toca? – Não faço a mínima ideia. Nessa altura já tinha uma rapazote ali na frente, que eu achei era da plateia, mas depois vim a descobrir tratar-se do crooner da Bladde. Logo em seguida saiu o Iuri, com um par de tampões pros ouvidos, o que poderia denunciar que nem ele aguenta o (volume do) som. Conversaram um pouco, ele e o colega de trabalho, soube isso no decorrer dos eventos, e descobri que ele toca na Bladde. Então, convite pra entrar, o show vai ter início, ele se foi, nós ficamos um pouquinho mais e… porta fechada. De novo! Talvez os caras do bar estivessem a fim de um show mais intimista, só pra convidados, champanhe no gelo, sei lá…

Poucos minutos, talvez sete ou oito, depois, abriu-se a porta da esperança e finalmente penetramos o local de forma definitiva. Quando chegamos perto do palco, a Patrícia quase me mata de susto: – Olha ali quem tá aqui, a Carmela! – Foi isso que eu ouvi. No breu da coisa toda, divisei uma moça lá dentro e não identifiquei. Por alguns segundos imaginei a minha cunhadinha querida numas de head banger. Deus não joga mas fiscaliza, não era a Carmela e sim a Gabriela, a queridíssima senhora Daniel Portella (porque dois eles não sei), que é a fã número zero da banda, sem dúvida (ou será que é só colheita de material de pesquisa pra Psicologia? – brincadeirinha, gente!). Naquele momento vi que havia me livrado do pesadelo de ter que ver o Roberto pedir uma versão aditivada de Luiza ou do Canto de Ossanha… A Gabi veio nos receber cheia de surpresa, que eu não sei porque, afinal eu fui metaleiro quando era jovem e a Patrícia conhece mais músicas do Metallica do que eu talvez jamais venha a conhecer a não ser pelas bocas e instrumentos da Bladde. A propósito, eu achava que conhecia duas, mas quando eles tocaram uma delas, que eu marquei na cabeça, deu zebra, porque era do Iron Maiden, ou seja, de Metallica eu não entendo patavinas!

Começa o show, pelo menos era o que eu achava, e eu faço um comentário negativo sobre o baterista, que atravessou toda a música, no mínimo uns três compassos atrasado (ou adiantado, dá na mesma). Na segunda música eu disse que ele já estava melhor. E na terceira já não era mais ele. Só fui entender que ele era o batera da outra banda e que eles estavam apenas descontraindo um pouco, já comendo um Boka Loka no Cavanha’s. Deus de novo, porque eu estava ficando decepcionado. O Daniel tinha me mostrado umas duas músicas num estúdio e eu tinha achado tri bom, como é que agora era esse samba do crioulo doido? Na hora, olhando pro palco, vi que não tinha caixas de retorno e e me ocorreu que o batera não estivesse ouvindo a banda. Mas depois tudo ficou claro e cristalino, tal qual o ambiente.

E a banda? Bueno, a banda… Duas guitarras, formação clássica, o Daniel numa delas, um pouco mais econômico e contido, o que é excelente, porque solos “infinita highway” já não me gustam mais, embora às vezes eles sejam necessários no formato e na proposta da banda (certa feita, Eric God Clapton disse que o amadurecimento fez com que os solos dele perdessem alguns quartos de hora); o outro guitarrista, equipado com uma pedaleira maior, embarcava mais nos solos, o que confere um equilíbrio bem legal pra banda, mesmo quando os dois solam juntos, num efeito típico do estilo. (Já vi o Iron Maiden com quatro guitarras e todo mundo solando junto!) O baixista, o Iuri, toca tri bem também, tem uma segurança de veterano e me lembrou, vejam só, justamente o Gezzer Butler. O baterista, Flávio, se não me traem os recuerdos, é o que tem que ser: bate forte e pesado. Muito bom! Uma observação um pouco mais apurada cabe sobre o vocalista. Achei o timbre bem parecido com o Bruce Dickinson, o que faz com que os Iron Maiden saiam quase perfeitos. Pros Metallicas também fica muito bom. Quando eles tocaram Heaven and Hell, me pareceu que ele ficou um pouquinho acima do tom, mas isso não prejudicou a interpretação. Como ele é um piá (isso não é nenhuma ofensa, pelo contrário, apenas a constatação que ele é bem mais novo que este escriba), certamente vai evoluir muito, mas já é muito bom, inclusive na performance de palco.

Bueno, gente, era o que tínhamos para o momento. Dado o avançado da hora, deixo assim as côsa tudo. Só pra fazer um desfecho, se eu fosse o Veloso, diria que foi lindo, mas como o meu negócio é com outro baiano, prefiro dizer: FOI DUCARALHO! Obrigado pela noite, gurizada!

Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 8/2/2013.

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