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O racismo (do pai) do Pedrinho*

Eu adorava ver “O Sítio do Pica-pau Amarelo” na TV. Não li, quando criança, os livros do Monteiro Lobato porque eles eram muito caros pra gente ter em casa e até a minha adolescência eu não tinha o hábito de frequentar bibliotecas, a não ser por imposição no colégio. E também durante muito tempo não pensava nas relações entre o autor e a sua obra ou o quanto da própria vida do autor estaria representado no seu trabalho. Esse é o gancho que eu preciso pra fazer um corte e transcrever algumas palavras do criador da Emília, que não estão nas obras literárias propriamente ditas.

Em carta a Godofredo Rangel:

(…)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!…” (em “A barca de Gleyre”. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

Sobre a escrita:

“é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, ‘work’ muito mais eficientemente”.

Em carta ao médico eugenista Renato Kehl, sobre o livro “O presidente negro ou o choque das raças”: 

“Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (…) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha”.

Em outra carta a Godofredo Rangel, sobre a impossibilidade de encontrar editora para a publicação do livro nos EUA:

“Meu romance não encontra editor. […]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.” 

Tempos depois:

“Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (…) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos – o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos”.

Em carta a Arthur Neiva, desde Nova Iorque, em 1928:

“Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. “Nós defendemos o front da raça branca – diz o sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil”. Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.” 

Tudo isso aí eu retirei de uma carta aberta destinada ao cartunista e escritor Ziraldo, escrita pela escritora Ana Maria Gonçalves, por ocasião da publicação desta charge do criador pai do Menino Maluquinho:

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A íntegra da carta está em http://banhodeassento.wordpress.com/2011/02/19/lobato-ziraldo-e-a-carnavalizacao-do-racismo%E2%80%8F/  e a celeuma toda pode ser melhor entendida em http://opiniaoenoticia.com.br/brasil/politica/monteiro-lobato-ziraldo-e-o-racismo-maluquinho/.

Hoje, no STF, às 19h30min, haverá uma audiência de conciliação, convocada pelo ministro Luiz Fux, sobre o Mandado de Segurança nº 30.952, impetrado pelo Instituto de Advocacia Racial – Iara e pelo professor Antônio Gomes da Costa Neto, em que é questionada a liberação do livro “As caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, para uso nas escolas públicas do país. Alegam os autores da ação que o livro contém mensagens racistas explícitas.

Por trás dessa discussão há muito mais coisas e coisas muito mais complexas do que se pode imaginar a uma primeira leitura. Há quem diga que esse tipo de posicionamento e ação está no contexto do patrulhamento politicamente correto, que se disseminou na nossa sociedade nos últimos tempos. Não se pode mais contar piada de negro, não se pode mais chamar um homossexual de bixa, não se pode, enfim, fazer mais nada, sob pena de se estar ferindo a cartilha dos preceitos politicamente corretos. O cerceamento de certas espontaneidades é muito chato e acaba por transformar a vida numa caretice sem fim, mas isso não se aplica quando a tal espontaneidade é, na verdade, a manifestação de uma prática que se consolidou na sociedade. Piadas preconceituosas sempre serão preconceituosas, mesmo quando ditas por alguém que não é preconceituoso e/ou para pessoas não preconceituosas. Eu já contei? Sim, muitas. Conto ainda? Às vezes, infelizmente, escapa alguma coisa, mas não me omito e tento mudar. Entretanto, não é exatamente disso que se está tratando nessa questão. O problema é bem mais amplo. Há ainda quem diga que, no caso concreto, se trata de uma tentativa de censurar uma obra literária, impedindo que próprio público ao qual é destinada tenha contato com ela. Também não é por aí que a coisa se explica, creio eu.

Como ficou claro pelas declarações transcritas aí em cima, o Monteiro Lobato era um racista convicto e tinha muita consciência de como a mensagem poderia ser passada de forma bem sutil (ou não) através dos textos. É ele próprio quem diz que a escrita é um processo indireto de fazer eugenia. Evidentemente não se pode desconsiderar a questão do momento em que ele viveu. Era uma sociedade abertamente racista, cuja abolição da escravatura ainda não havia sido bem digerida. Como, aliás, ainda não foi, não acho que aquele momento histórico seja muito pior do que o racismo velado que existe hoje, mas a pregação segregacionista do escritor transcende a questão temporal, em virtude da sua postura abertamente preconceituosa.

Por outro lado, como defendeu Ziraldo, na manifestação que gerou a carta aberta da escritora Ana Maria Gonçalves, não se pode se desconsiderar a qualidade da obra literária do Monteiro Lobato, que introduziu em muitas gerações o gosto pela leitura, que poderia ser responsável por capacitar as crianças que se alfabetizavam a partir de suas obras para que tivessem elas próprias, quando atingissem a maturidade, a consciência crítica de analisar o teor de um texto literário. Concordo com isso e quero dizer que acredito que dificilmente um adulto se tornaria racista por ter lido Monteiro Lobato, da mesma forma que nenhum adolescente sairia matando lobos por aí porque leu isso na Chapeuzinho Vermelho. Isso parece evidente, mas não deve afastar a necessidade de que se façam observações acerca do que diz um livro quando este é apresentado a uma criança. Quando aparece lá no livro uma alusão à Tia Anastácia como uma macaca que pode facilmente trepar em árvores, cabe ao professor dizer algo sobre isso, sob pena da criança ficar com essa ideia introjetada e tê-la realimentada quando for a um jogo de futebol e ouvir uma torcida chamar a outra de macacada imunda ou ainda quando escutar na rua a famosa expressão “isso é serviço de nego”.

A questão suscitada lá em cima, sobre a relação do autor com a sua obra, é por demais complexa pra ser analisada nesse momento em que o objeto central é outro. Mas, a título de ilustração, grandes nomes da cultura mundial têm seus trabalhos questionados a partir das suas ideologias. Elia Kazan, autor da obra-prima “Sindicato de ladrões”, até hoje é visto com desconfiança por suas supostas colaborações com o macartismo; dizem algum analistas que se encontram nas obras do magistral Richard Wagner faíscas que acenderiam a chama do ideário nazista; Jorge Luís Borges era sabidamente admirador de Videla e Pinochet, e assim teríamos inúmeros exemplos de artistas cuja qualidade da obra poderia ser relativizada pelas suas convicções políticas. Entendo isso como uma visão bastante limitada, mas não quero estender esse debate agora.

A censura não é, por óbvio, a melhor maneira de se corrigir distorções que podem ser encontradas nas obras de arte. No que tange à questão das manifestações racistas que podem ser observadas em textos de Monteiro Lobato ou em outros, a censura teria, inclusive, um efeito adverso. Não se pode simplesmente varrer a sujeira para debaixo do tapete e dizer que a casa está limpa. A negação do racismo tem efeitos tão maléficos quanto ele próprio e essa é, provavelmente, uma das maiores dificuldades do combate ao preconceito, porque se quer passar a ideia de que vivemos uma democracia racial e que o racismo não existe no Brasil. Ele existe sim e está presente diariamente nas nossas vidas e nas coisas que ouvimos, vemos e lemos, inclusive nos livros do Monteiro Lobato. A maneira certa de trabalhar pela erradicação do racismo é apresentá-lo, contextualizá-lo e deixar bem claros os seus efeitos nocivos. Por isso acho que os livros dele, Monteiro Lobato, e outros que tenham qualidades literárias inegáveis, devem sim fazer parte do currículo da rede pública de ensino e servir, também, como um importante instrumento para mostrar uma realidade histórica que persiste até hoje, ainda que se queira varrer tudo para debaixo do tapete. Ou queimar, à moda Rui Barbosa…

 

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 11/9/2012.

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