História, Imprensa, Jornalismo, Política, Republicados

Saudade do pau-de-arara*

Nos piores anos da ditadura eu era bem piá. Meus pais nunca tiveram nenhum tipo de atuação política que lhes pudesse causar problemas com a repressão. Pelo contrário, o político preferido da mãe era o Marchezan (o velho). O mais próximo que eu estive de alguma atitude rebelde na família foi quando a minha vó votou no Pedro Simon contra o Jair Soares. Entretanto, quando aprendi a ler, as coisas começaram a mudar, e então tenho certeza que se eu fosse um pouco mais velho e tivesse vivido aquele período já na juventude ou como adulto, hoje não estaria aqui escrevendo. E mesmo que tenha dito em uma postagem anterior que sinto saudade do tempo em que a gente brincava tranquilo na rua o dia inteiro, isso não quer dizer que eu achava que aquele período era melhor do que a democracia que vivemos hoje, com todos os seus problemas, que não são poucos.

Na postagem anterior eu falei que existem entre nós muitos saudosos dos anos de chumbo. Pois vejam o que foi publicado na última segunda-feira no Blog do Prévidi (previdi.blogspot.com.br) e tirem suas conclusões:

 
 
PENSANDO BEM

Na época da ditadura…
Podíamos namorar dentro do carro até a meia- noite sem perigo de sermos mortos por bandidos e traficantes.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ter o INPS como único plano de saúde sem morrer a míngua nos corredores dos hospitais.
Mas não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos comprar armas e munições à vontade, pois o governo sabia quem era cidadão de bem, quem era bandido e quem era terrorista,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos paquerar a funcionária, a menina das contas a pagar ou a recepcionista sem correr o risco de sermos processados por “assédio sexual”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Não usávamos eufemismos hipócritas para fazer referências a raças (ei! negão!), credos (esse crente aí!) ou preferências sexuais (fala! sua bicha!) e não éramos processados por “discriminação” por isso.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos tomar nossa redentora cerveja no fim do expediente do trabalho para relaxar e dirigir o carro para casa, sem o risco de sermos jogados à vala da delinqüência, sendo preso por estar “alcoolizado”,
Mas, não podíamos falar mal do Presidente.

Podíamos cortar a goiabeira do quintal, empesteada de taturanas, sem que isso constituísse crime ambiental.
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Podíamos ir a qualquer bar ou boate, em qualquer bairro da cidade, de carro, de ônibus, de bicicleta ou a pé, sem nenhum medo de sermos assaltados, sequestrados ou assassinados,
Mas, não podíamos falar mal do presidente.

Hoje a única coisa que podemos fazer…
…é falar mal do presidente!

P.S.: e hoje podemos falar mal da PRESIDENTA!

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 18/7/2012.

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