Jornalismo, Língua Portuguesa, Linguística, Republicados

A língua sob risco de vida. Ou de morte?*

Foi com grande satisfação que li, no último sábado, no caderno Vida, da Zero Hora, o título “Livre acesso ao risco de vida”, atribuído a uma matéria que tratava dos suplementos alimentares usados pelos praticantes de musculação e halterofilismo.

Hoje em dia, existe um ostensivo patrulhamento do uso da língua portuguesa, feito por pessoas que se julgam profundos conhecedores do idioma FALADO NO BRASIL, PELOS BRASILEIROS, e avocam o direito de determinar o que é certo e o que é errado na língua materna do povo. Sustentam-se, esses doutrinadores, nas cartilhas concebidas pelos gramáticos normativos, que, por sua vez, entendem ter poder para enquadrar, em suas regras arbitrárias, um organismo vivo, que é a língua, de acordo com uma norma pretensamente culta.

Algum tempo atrás, ouvi um desses iluminados detentores do conhecimento se insurgir violentamente contra um repórter de TV que transmitia um boletim sobre o desabamento de alguns prédios no Rio de Janeiro, e que informava o número estimado de pessoas soterradas. O guardião da língua em questão sugeriu a demissão de um jornalista que usa o termo soterrar para falar em pessoas que estavam debaixo de toneladas de concreto e não de terra. Certamente ele se regozijaria se o repórter tivesse dado o número de pessoas concretadas pelo desabamento…

Assim como o termo soterrar, que deveria ser usado apenas quando se trata de algo que está debaixo de terra, segundo a visão anacrônica desses experts, a expressão “risco de vida” também é alvo de ataques coléricos dos defensores da língua de Camões, que a entendem como absurda, eis que a vida não representa nenhum risco e que este se encontra na possibilidade de morrer, portanto, “risco de morte” é o certo.

Vejamos a expressão “risco de morte”: a palavra “risco” refere-se diretamente ao evento morte e a construção poderia ser substituída por “risco de morrer”. Teríamos, então,por exemplo: “o doente não corre mais risco de morrer.”

Já em “risco de vida”, podemos acrescentar um elemento à construção: “o doente corre risco de perder a vida”. Aqui, a palavra risco refere-se a um termo subentendido, que diz respeito à perda da vida. Ou seja, o que está em risco de extinção é a própria vida. Esse termo, que não aparece, mas faz parte do processo de compreensão da frase, aproxima esse caso ao do famoso “obrigado”, que usamos para expressar agradecimento. A palavra “obrigado” solta não parece ter muito sentido, mas quando lembramos que é uma simplificação da frase “fico obrigado a retribuir o obséquio”, tudo fica claro.  Alguém contesta o uso do singelo “obrigado”? Por que, então para um caso vale e para outro não?

Qual a diferença de usar “risco de morte” e “risco de vida”? Que regras gramaticais sustentam a correção da primeira e a incorreção da segunda? Nenhuma! Ambas as formas estão perfeitamente corretas.

Não obstante essa análise, há um fato mais importante, que autoriza plenamente que se fale em “risco de vida”: o seu uso continuado pelos falantes da língua, que são os seus verdadeiros donos, ao contrário do que pensam os gramáticos de plantão. A expressão é usada há muito tempo, por muitas pessoas e sempre atingiu o seu objetivo precípuo, que é estabelecer a comunicação entre quem fala e quem ouve.

Essa ideia tacanha de limitar o uso da língua a formas tidas como cultas, definindo de maneira absolutamente autoritária e arbitrária todas as outras como erradas, é responsável pela propagação do preconceito linguístico, que tal como todas as outras formas de preconceito, deve ser erradicada.

O que os cultores desse idioma padronizado, totalmente ilusório, não entendem, ou não querem entender, é que a língua, como já se disse, é um organismo vivo e está em constante mutação. Qualquer dicionário razoável inclui o verbete mouse. No míni Houaiss, edição de 2001, está lá no pé da página 515: “mou.se [ing.; PL.: mouses] s.m. INF dispositivo manual que controla a posição do cursor sobre a tela (…)”. Não acredito que o mais conservador e puritano defensor da “última flor do Lácio” advogue pelo uso de “rato” em vez de “mouse”… Acontece que de um dicionário editado há 30 ou 40 anos esse verbete não fazia parte, pelo simples fato de que se trata de uma palavra relativamente recente na língua, cujo uso contínuo fez com que fosse incorporada. Outro exemplo: alguém falaria em garagem no séc. XVIII? Claro que não, afinal não existiam carros para guardar naquela época e, portanto, não existia a palavra “garagem”.

As línguas, TODAS, mudam com o passar dos anos e isso é fruto do uso que delas é feito pelos seus falantes. Desconhecer ou negar esse fato, é aceitar a ideia que deveríamos hoje estar falando latim.

Sempre recomendo a leitura de “Preconceito lingüístico – o que é, como se faz”, de Marcos Bagno, e “Língua e liberdade”, de Celso Pedro Luft.  Ou, para quem prefere a comodidade e a facilidade de um teclado e uma telinha, http://www.marcosbagno.com.br

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 10/5/2012.

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