Jornalismo, Linguística, Republicados

Certo x Errado*

Dias atrás, ouvindo o programa Bom Dia, na rádio Guaíba, me deparei com uma discussão dos apresentadores sobre a maneira correta de pronunciar o prefixo da rádio. Diziam eles que é um absurdo dizer 101 ponto 3, pois o “certo” é 101 vírgula 3, já que a separação dos números decimais é feita por vírgula e não por ponto.

Absurda é a discussão em torno disso. Já é mais que consagrado o uso do ponto. Ao ligar um rádio digital, então, esses senhores jamais conseguiriam sintonizar a frequência da emissora desejada, pois os números aparecem invariavelmente separados por pontos. Estariam errados os fabricantes dos equipamentos eletrônicos? Ora, por favor!

Pois bem, esse episódio me levou a reler dois livros que eu li quando ainda cursava Letras na UFRGS: “Preconceito linguístico – o que é, como se faz”, do linguista, escritor e professor Marcos Bagno, e “Língua e liberdade”, do professor Celso Pedro Luft. Recomendo a leitura dos dois àqueles que têm preocupação com as formas de discriminação no nosso país (racial, religiosa, por opção sexual, etc.), mas que em geral acabam deixando passar batido um tipo de preconceito bastante sutil, eis que não explícito, salvo em alguns casos, que é o preconceito linguístico.

Eu disse que o preconceito linguístico é, em geral, velado, porém há exceções, como no texto assinado pela “consultora gramatical” Dad Squarisi, publicado no Correio Braziliense em 22/06/1996 e no Diário de Pernambuco de 15/11/1998, o qual retirei do citado livro do professor Bagno¹, cujo sugestivo título é “Português ou Caipirês”. Abre o seu texto  assim: “Fiat lux. E a luz se fez. Clareou este mundão cheinho de jecas-tatus. […] A definição do caráter tupiniquim lançou luz sobre um quebra-cabeça que atormenta este país capiau desde o século passsado. Que língua falamos? A resposta veio das terras lusitanas. Falamos o caipirês. Sem nenhum compromisso com a gramática portuguesa. Vale tudo: eu era, tu era, nós era, eles era. Por isso não fazemos concordância em frases como ‘Não se ataca as causas’ ou ‘Vende-se carros’. Na língua de Camões, o verbo está enquadrado na lei da concordância. Sujeito no plural? O verbo vai atrás. Sem choro nem vela. Os sujeitos casas e carros estão no plural. O verbo, vaquinha de presépio, deveria acompanhá-los. Mas se faz de morto. O matuto, ingênuo, passa batido. […] Dica: use o truque dos tabaréus cuidadosos: troque a passiva analítica pela sintética. […] Na dúvida, não bobeie. Recorra ao truque. Só assim você chega lá e ganha o passaporte para o mundo. E encerra com chave de ouro: Adeus, Caipirolândia.”

O texto é tão elucidativo que fala por si próprio. Deixa ele aí por enquanto. Mais adiante comento mais.

¹BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico – o que é, como se faz. 21ª ed. São Paulo, Edições Loyola: 2003.

*Publicado originalmente no blog Na Cidade de Cabeça pra Baixo, em 7/3/2012.

 

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