Arte, Cultura, Ideologia, Música, Política, Racismo

A panela, o prato e a hipocrisia programada – parte 2

Com a marcha fascista em pleno curso, é preciso se ater a certos detalhes pra compreender a lógica do esquema. As panelas baratas que soavam sem ritmo nenhum pra derrubar umA PresidentA não lograram êxito pra derrubar UM presidentE. Entretanto, um prato, usado com ritmo perfeito e altamente refinado, escancara a hipocrisia e a falta de cultura da gente batedora de panelas.

Caetano Veloso fez a sua live, junto com os filhos. Quem já teve oportunidade de ver ao vivo Caetano e os Filhos sabe que essa é uma experiência inesquecível. Pois um sujeito lá, que eu não sei quem é, achou que o prato e faca que Moreno usou de forma magistral, na melhor tradição dos sambas dos bambas, era algo inusitado e cômico e tratou o caso como uma improvisação pela falta de instrumentos. O texto da infeliz e ignorante observação é:

“um dos momentos mais inusitados e cômicos aconteceu em ‘Pardo’, quando Moreno Veloso, na falta de instrumentos, usou um prato e um talher para fazer o som. Quem sabe faz ao vivo, não é?”.

O sujeito que escreveu isso ainda se valeu de uma referência ao “glorioso” Fausto Silva, que quando quer puxar o saco de algum/a artista que se apresenta no programa solta esta bobagem: “quem sabe faz ao vivo”.

Caetano desvelou a imbecilidade do comentário, que tratou como ignorância inacreditável: https://www.blogdoarcanjo.com/2020/08/12/ignorancia-inacreditavel-diz-caetano-de-artigo-da-rolling-stone-sobre-sua-live/. Foi elegante, porque ignorância é desconhecimento e o que está por trás disso vai além de desconhecimento, embora também o seja.

A Rolling Stone, que é uma das mais conceituadas revistas de música do mundo, se retratou: https://rollingstone.uol.com.br/noticia/6-melhores-momentos-da-live-de-caetano-veloso-bronca-nos-filhos-tributo-moraes-moreira-e-mais/

Mas o que está nas entrelinhas do comentário qualificado pelo Caetano como de inaceitável ignorância e qual a relação disso com as panelas?

O próprio Caetano tratou de contextualizar as coisas e trazer um pouco de conhecimento ao comentador engraçadinho e espirituoso, mostrando que prato e faca é um instrumento ligado às raízes da música brasileira. Neste documentário https://www.youtube.com/watch?v=ZXJEMg5vT40 é possível ver, entre outras maravilhas, o grande João da Baiana, tocando prato e faca, acompanhado por um violonista, um certo Baden Powell. Se alguém ver comédia nisso, o caso não tem mais solução…

A música brasileira tem raízes fincadas no lado de lá do Atlântico, em terras africanas, e tendo isso em mente começa a se tornar um pouco mais clara a relação entre o comentário da Rolling Stone e a história racista que acompanha a formação e a evolução do nosso país, particularmente no que diz respeito à involução dos últimos anos. Vamos esmiuçar um pouco mais essa coisa, esse racismo brasileiro, que por ser estrutural é absorvido e normalizado, fazendo com que se torne velado.

O Chico César, grande compositor, cantor, ativista, de forma genial criou um samba, cheio de sutilezas:

nasceu pra lavar prato e está tocando prato na tv
edite o prato

o prato não pode aparecer
nunca no sentido estrito
menos ainda no sentido lato
isso é coisa do brasil mulato
que a gente quer esconder
edite o prato
o prato não pode aparecer
o prato batucando vazio
é a metáfora do brasil
da incessante fome e o cio
que bota tudo a perder
edite o prato
o prato não pode aparecer

Reparem na diferença: o Chico César faz um trocadilho com a Dona Edith do Prato, conterrânea de Caetano, que gravou com ele no experimental (e fenomenal) Araçá Azul, de 1973, já dividiu o palco do Teatro Castro Alves com o próprio Caetano, Chico Buarque, MPB4, e era uma monumental tocadora de prato e faca. (Aqui a maravilhosa Mariene de Castro fala nela e explica a técnica que ela usava pra preparar o INSTRUMENTO prato e faca: https://www.youtube.com/watch?v=d1F2RPoAC3c.) E o cara da Rolling Stone citou… o Faustão. É, Raulzito, falta cultura pra cuspir na estrutura…

Mas por que o prato tem que ser “editado”? Simples, porque ele representa o Brasil Mulato. E o que é esse Brasil Mulato? Será que o Chico César não sabe que o termo mulato é pejorativo, que tenta associar um determinado ser humano a um animal híbrido, resultado do cruzamento “artificial” do asno com a égua? Garanto que sabe. E justamente por saber é que ele falou em Brasil Mulato e não em Brasil Negro. Por que o Brasil Negro é um país que se quer apagar (ou branquear), que não pega bem lá fora, então fica melhor dizer mulato, que tem a ver com a democracia racial, com a convivência pacífica, harmoniosa e amorosa das raças que formaram este Brasil brasileiro, mulato inzoneiro. O que o Chico usou de forma irônica e como uma sutil figura de linguagem escancara um recurso ideológico que sustenta desde os primórdios do século 20 o racismo que estrutura a nossa sociedade. Ora, se a gente diz que o Brasil é um país mulato e a gente sabe que a mula é a cruza de dois bichos diferentes, de raça pura, mas capazes de se misturar a ponto de gerar um outro ser, isso mostra que o povo brasileiro também é a cruza de “bichos” diferentes, mas que se amam, se cruzam e geram um outro “bicho”, que não é puro, mas que simboliza a união das raças, que, no fim das contas, não tem raça nenhuma (raça humana, lembram?). Não é isso que nós queremos? Mostrar que no Brasil não há discriminação de cor nem de raça? Que somos formados por essa mistura linda de gentes diferentes? Então este é um país mulato. E o Chico César, negro que é, conhece essa retórica, claro que conhece. E sabe que ela é mentirosa. E com a sua genialidade transformou isso num “sambinha despretensioso”, tocado provavelmente no quintal de casa, sem camisa, entre pessoas amigas: https://www.facebook.com/marcelodalcom/videos/10223435963995742

Está posto, então, o paradoxo brasileiro. Ou melhor, um deles. O mesmo país que usa panelas pra derrubar uma Presidenta, mulher, e que é incapaz de fazer o mesmo com um Presidente, homem, afirma publicamente que um cara toca prato e garfo em rede mundial pra criar um efeito cômico na live (ou porque a produção não providenciou instrumentos adequados). E antes que alguém diga que um infeliz comentário de uma única pessoa não pode representar o pensamento de uma nação, lembro que a hipocrisia se programa e é programada.

*Imagem de destaque copiada do site http://pitayacultural.com.br/musica/o-prato-a-faca-e-os-ingredientes-desconhecidos/, consultado em 3/9/2020.

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Política

A panela, o prato e a hipocrisia programada – parte 1

O Brasil (BraZil?) é um país estranho. Recentemente a panela virou instrumento político. Ou dito de outra maneira, ideológico. Uma bateção de panelas sem nenhum ritmo foi a forma de manifestação encontrada pela classe média brasileira, essa entidade tão esquisita quanto o próprio país, para derrubar uma Presidenta da República. A Presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita para o seu segundo mandato, o quarto do Partido dos Trabalhadores, era a representante de um processo de implementação de políticas sociais no governo federal. Isso é fato inconteste que as elites – as genuínas e as que sonham em ser – teimam em contestar. Para maiores informações, sugiro a leitura do livro “Dez anos que abalaram o Brasil. E o futuro?: Os resultados, as dificuldades e os desafios dos governos de Lula e Dilma”, do Economista e Professor João Sicsú, lançado em 2013.

Percebam que eu não estou qualificando os governos petistas como Socialistas ou Comunistas, mas sim governos que implementaram políticas sociais importantes, o que é bem diferente. Tais políticas sociais deslocaram uma expressiva parcela da população do contexto da iminência da morte por fome para uma condição um pouco mais digna. Nova condição que estava ainda longe da ideal, por óbvio, mas ao menos um pouco mais distante da miséria absoluta e da total falta de perspectiva. Por conta disso, na época dos panelaços criou-se uma figura interessante: as pessoas pobres não poderiam bater as panelas, porque pela primeira vez nas suas vidas elas estavam cheias.

Pois bem, a orquestra de panelas, que, repito, não tinha nenhum ritmo, foi viabilizada por um movimento que aconteceu algum tempo antes, que surgiu de forma legítima, mas que pela falta de uma consciência política mais refinada, foi absorvido por quem andava há alguns anos sem rumo. A juventude que foi às ruas no outono/inverno de 2013, pautando políticas importantes, como a redução das tarifas de transporte público, rechaçou o apoio de partidos políticos e qualquer entidade similar. Infelizmente o que poderia ter sido um grande movimento, talvez de características Anarquistas (sem deuses nem mestres), acabou por se transformar no mecanismo de apropriação dos discursos reivindicatórios por parte daquela elite que já estava há algum tempo vagando solitária, à procura de um caminho. Ao levantar a bandeira do antipartidarismo, aquela gente jovem que mostrava coragem suficiente para sair às ruas e fazer o enfrentamento com as forças que seriam naquele entendimento de opressão e repressão, não percebeu que eram justamente as verdadeiras forças opressivas e repressivas que acabariam por encampar os seus protestos. Porém essa apropriação do discurso não tinha o objetivo de colaborar e reforçar a luta, mas de assumir o protagonismo, com vistas a incluir na ordem do dia a retórica burguesa da luta contra a corrupção e da busca por melhores equipamentos de segurança pública, principalmente. À narrativa urdida nos gabinetes políticos e salas empresariais, que já vinha, num recorte curto, desde o processo do “mensalão do PT” – e aqui cabe lembrar que o mensalão tucano nunca saiu do papel -, juntou-se a insatisfação de boa parte da juventude, com suas pautas legítimas. Estava anexado o componente fundamental, sem o que não se faz qualquer movimento de mudança: o apoio popular.

É importante estabelecer essa relação com a ação da população jovem, porque, sendo da natureza da juventude a rebeldia e a contestação, ela andava já há alguns anos sem causa. Ao longo a história do Brasil, como no mundo todo, a juventude sempre andou do “lado de lá”, na oposição aos regimes. Acontece que naquele momento, o regime havia deixado de ser autoritário e conservador, como sempre fora, e o governo tinha tendências socializantes. Jovens agora não tinham mais as bandeiras da Esquerda, que sempre foram as causas que moviam as ações e movimentos para contrapor o poder, pois, em tese – e friso a observação: em tese – ali o poder era da Esquerda.

Retornando para o “caso das panelas”. A cada pronunciamento da Presidenta Dilma, a elite ia às janelas para bater panela. Por certo eram panelas compradas especificamente para isso em lojas populares, porque não se valeriam dos seus jogos “Le Creuset, para esse fim. E, mais, a compra dessas panelas de alumínio baratas evidentemente ficou a cargo das domésticas, porque as patroas, mulheres belas, recatadas e do lar, não se dignariam a ir ao comércio inferior adquirir a preços módicos os equipamentos adequados para que pudessem externar a sua revolta. E era preciso que assim fosse, porque para recolocar as coisas em ordem (e progresso) era necessário que essas pessoas, as empregadas, compreendessem o seu lugar no espaço social, que não era o dos aeroportos e dos hotéis turísticos em Paris. (Lembram da revolta de uma certa socialite ao dizer que não achava mais graça de viajar à França, pois sempre corria o risco de encontrar o porteiro do prédio no aeroporto? Aqui: https://www.brasil247.com/cultura/danuza-lamenta-que-todos-possam-ir-a-paris-ou-ny , consultado em 2/9/2020.)

O que aconteceu e vem acontecendo nesse tempo que vai dos protestos de 2013 aos dias de hoje é sabido por todes. A resistência ainda tentou se apropriar do já icônico instrumento das elites, a panela, que voltou a algumas janelas quando dos pronunciamentos do atual presidente. Mas essa capacidade de incorporar elementos e armas de outros exércitos não é o nosso forte e o “panelaço da Esquerda” não vingou. Talvez porque a população mais pobre naquele momento já nem tivesse mais panelas, furadas que deveriam estar de tanto serem raspadas para tentar buscar restos e enganar a fome.

Sobreveio, porém, a pandemia, que mudou tudo. Tudo mesmo. Ou quase. A necessidade de isolamento tirou as pessoas da rua e sem o povo na rua a gente já sabe que as coisas não mudam. Os protestos e manifestações passaram a ser virtuais. Só que quem têm acesso às plataformas digitais não são as pessoas das panelas vazias e furadas, então o movimento fica muito restrito e quase sem efeito. A cada notícia de crime ou patrolada do presidente e seu séquito em cima do povo, chovem manifestos, notas de repúdios, cartas abertas etc., que não têm nenhum efeito que não seja talvez uma demarcação de terreno das entidades, algo do tipo: “Estamos atentos!”. Mas esse estado de alerta permanente por si só não muda nada, o povo não está nas ruas e a marcha fascista segue livre, leve e solta. (Continua)

*Imagem de destaque copiada do site https://www.dw.com/pt-br/antipartidarismo-%C3%A9-perigoso-para-a-democracia-alertam-especialistas/a-16910048, consultado em 2/9/2020.

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Arte, Literatura, Política

Vida e arte, quem imita?

Infelizmente as notícias e os fatos perderam a capacidade de nos surpreender. Há algo que imaginamos não possa acontecer? Não. E tudo acontece.

Uma ONG chamada Rio de Paz fez uma instalação na Praia de Copacabana para homenagear as pessoas – mais de 40 mil pessoas – que perderam a vida em função daquilo que o chefe do Executivo chamou de gripezinha. Mais do que isso, a exposição tinha por objetivo dizer para as pessoas que perderam entes queridxs que essas vítimas não foram esquecidas e que não morreram em vão. Não era uma obra bonita, conforme o que convencionamos chamar bonito por aqui. Mas qual é a beleza da arte? Qual a função da arte? É possível que uma obra de arte não atenda uma função social? Atendendo essa função, a obra deixa de ser artística? Não, não vou propor aqui um debate sobre a estética da arte. É uma boa discussão, mas não é a questão que quero trazer.

Um sujeito chamado Héquel da Cunha Osório, um senhor de 78 anos, bastante jovial, entendeu-se no direito de ir lá e destruir a instalação. “Vou tirar essa aqui. Se eles têm direito de botar… A praia é pública. Eu tenho direito de tirar. Isso aqui é um atentado contra as pessoas. Isso aí é um terror. Tá criando pânico. Usando as cruzes… A cruz de Jesus para aterrorizar o povo. Sacanagem” Eis o argumento.

A afirmação “A cruz de Jesus para aterrorizar o povo.” precisa de uma atenção especial. Ao dizer isso, o senhor Héquel deu mostras de ser cristão. E como cristão deve saber quem foi Jesus (personagem histórico) e porque ele morreu (personagem bíblico). E deve saber também – ou pelo menos deveria saber – porque a crucificação foi o método escolhido para sacrificar o Messias, de acordo com o texto bíblico. Não vou entrar nessa seara da discussão religiosa também, basta por aqui lembrar que a cruz era um instrumento de tortura que o Império Romano utilizava nos piores criminosos. Então, se a ideia da instalação fosse de fato espalhar o terror entre a população, nada mais adequado.

Ao senhor Héquel, porém, não bastava ser naquele momento um imbecil, precisava que as pessoas soubessem da sua imbecilidade. “Alguém viu minha indignação, derrubando cruzes que a esquerda montou em Copacabana hoje? Não resisti”. Com essa chamada ele botou fotos e/ou vídeos nas suas redes sociais. Uma andorinha sozinha não faz verão. E um boi sozinho não faz boiada. Não que o senhor Héquel seja um boi, muito menos uma andorinha. Jamais faria essa comparação. Acho muito inadequado quando as pessoas fazem esse tipo de relação. O que os pobres animais têm a ver com essas coisas, afinal?

O fato me lembrou de uma passagem do livro “Cinzas do Norte”, do Milton Hatoum. Livro maravilhoso. Num dos momentos marcantes da história, Mundo, que é artista, cria uma instalação num bairro que foi aberto pelo coronel-prefeito-dono da cidade em que critica a destruição da floresta e dos povos originários. Chama-se “Campo de Cruzes” essa obra, que tem o seguinte destino: “No dia seguinte, bem cedo fui ao Novo Eldorado. O ‘Campo de Cruzes’ havia sido destruído pela polícia na tarde do feriado.” O relato é feito por Lavo, outro personagem central, e o fato acontece em meio ao nebuloso tempo da ditadura militar, quando autoridades sem autoridade se achavam no direito de fazer esse tipo de coisa. Nossas autoridades sem autoridade não fazem mais isso. Não porque hoje seja melhor, mas porque têm idiotas que fazem o trabalho sujo.

Tanto no livro quanto na praia, o que se escancara é um sentimento muito ruim, que faz as pessoas misturarem tudo, acharem argumentos onde eles são mais improváveis para destilar o seu ódio. O sr. Héquel, provavelmente eleitor do presidente atual, é mais uma prova de que o que levou Bolsonaro ao poder foi o ódio e não o antipetismo. Quando associa à Esquerda o manifesto feito na areia, ele passa por cima de tudo o que aquele trabalho representava, inclusive, e principalmente, do sofrimento humano. Ele simplesmente enxerga naquilo o que o ódio lhe permite ver. O resto é cegado por esse veneno.

Como tantas vezes se diz, a arte é a representação da vida. Casos há, porém, em que o caminho é inverso. Parece que a vida se vale do que o artista criou para ela traçar a sua história. Infelizmente, neste caso, a parte da obra que foi tirada do livro para descer à vida real foi a mais cruel. Pena que isso não nos surpreenda mais.

*Imagem de destaque copiada do site http://serfelizeserlivre.blogspot.com/2019/08/chamas-na-amazonia-cinzas-de-mentiras-e.html, visitado em 16/6/2020.

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Política

Quem avisa, amigo (não) é

Os serviços e as pessoas que trabalham na prevenção ao suicídio têm como certo que quem pretende abreviar a própria vida não faz isso sem antes ter dado vários sinais. Muitas vezes esses avisos são explícitos, porém às vezes aparecem como mensagens cifradas. Fechar os olhos é uma estratégia perigosa. Claro que é natural que ninguém acredite que isso possa acontecer com uma pessoa da família ou das amizades e a negação acaba muitas vezes sendo uma estratégia interna e inconsciente de defesa. Até que um dia acontece, e aí o sentimento de culpa é inevitável. Então, para se evitar o remorso, e principalmente para se evitar o desfecho trágico da perda de uma vida, é preciso ter sempre atenção aos sinais.

Sinais são o que mais temos visto no Brasil nos últimos tempos. Mas se olharmos com um pouquinho mais de atenção, veremos que eles estão sendo emitidos há bastante tempo. E de forma clara e direta. Ao usar a tribuna do Congresso para prestar homenagem a um dos maiores criminosos já nascidos no Brasil, num dos momentos mais graves da nossa história, Bolsonaro escancarou ao mundo o que algumas pessoas mais atentas e interessadas no debate político já sabiam acerca da sua personalidade. Ali foi talvez o mais contundente recado até então, eis que transmitido para uma audiência gigantesca, espalhada pelo mundo. Antes disso, como se sabe, Bolsonaro era um parlamentar apagado, que de vez em quando ganhava algum holofote de passagem, exatamente por dizer alguma atrocidade com algum potencial de polêmica. Naquele dia, porém, a frequência do sinal foi muito bem captada pelas antenas de quem desejava a todo custo frear o avanço progressista no país e já não admitia mais a possibilidade de queimar cartucho com Aécios e outros quetais. A partir de então, foi relativamente fácil o trabalho de criar uma caixa de ressonância para esse discurso virulento, que clama por segurança e conclama à reação, que não pode vir por outra forma que não seja materializada na mais pesada violência, tão ao agrado da classe média brasileira, esta que a Marilena Chauí tanto critica.

Nesse contexto, é um equívoco dizer que o antipetismo elegeu Bolsonaro. A repulsa ao PT e a tudo o que ele representa na história recente do país foi um componente importante, sem dúvida. Muito menos pela necessidade de exterminar as práticas de corrupção, conforme a narrativa habilmente construída pelas elites, do que pelo perigoso empoderamento que os segmentos desfavorecidos da população vinham ganhando nos governos de plataforma com inclinações socializantes. Mas fundamentalmente o que elegeu Bolsonaro, na verdade, foi o ódio, já que havia uma espécie de “caminho do meio”, com outras candidaturas à direita, que foram preteridas em favor do extremismo nazi-fascista. (Mais sobre o assunto aqui.*).

Para evidenciar o cumprimento da plataforma apresentada pelos Bolsonaros desde antes da campanha eleitoral à presidência, seria desnecessário listar os momentos em que o presidente e seu pequeno (mas barulhento) exército de filhos raivosos ameaçou a frágil estabilidade democrática do país. Hoje se vê que é preciso um pouco mais do que um cabo e um soldado para derrubar a Corte Suprema, mas o recado já havia sido dado e o generalato está aí para dar força à tropa. E esta é justamente a novidade recente. A retórica bolsonarista começou a ser empregada também abertamente por aqueles que são realmente os que podem sustentar um golpe. A recente manifestação do General Heleno no caso do celular presidencial foi um recado direto e em letras de manchete. Ainda não se sabe muito bem se foi uma voz isolada na caserna ou se a sua resposta foi trabalhada e concebida pelo grupo militar que está cada vez mais presente no governo. Não se pode ter dúvida, porém, que não foi uma manifestação intempestiva, precipitada e/ou promovida por desinformação do militar acerca dos procedimentos judiciais. Não, ninguém chega ao posto máximo do Exército e assume o mais importante cargo da república na área da segurança sendo desinformado. O Chefe do Gabinete de Segurança Institucional sabia muito o que estava fazendo e a forma como a mensagem seria compreendida pelos destinatários.

Por outro lado, alguns recados não são tão diretos quanto a nota emitida pelo GSI ou a manifestação do filho zero dois quando fala da relação entre “se” e “quando”. Podem simplesmente ser colocados estrategicamente em meio a uma conversa de tom aparentemente menos agressivo. Bolsonaro falou numa live sobre a possibilidade de “desaparecimento” de um terceiro ministro do STF ainda durante o seu mandato. Dois sairão pela compulsória, mas teoricamente os/as nove restantes sobreviverão à gestão bolsonaro. Todavia, para acomodar o homem mais poderoso da república neste momento, o presidente se sente autorizado a sugerir o surgimento de uma terceira vaga na Corte ainda durante a sua gestão, o que possibilitaria a nomeação do atual Procurador-Geral da República ao cargo vitalício de Ministro. Este recado certamente foi muito bem compreendido pelo Chefe do Ministério Público e agora ele, que tem nas mãos a possibilidade de apertar de forma muito grave o cerco em torno da família presidencial e seu séquito, vislumbra com nitidez a possibilidade de ser presentado com um cargo no Supremo, caso algum ministro (ou ministra) “desapareça” nos próximos dois anos. É claro que nessa conversa sinistra e nada republicana, não se pode desconsiderar a possibilidade de uma manobra bolsonarista para não comprometer o plano de neutralizar a ação do PGR, tornando pública a sua intenção antes do tempo. Isso porque talvez nem seja preciso abrir uma vaga imprevista para que o seu potencial algoz seja “promovido” na carreira. O escolhido original para a primeira vaga, cabo eleitoral de primeira hora, virou desafeto, logo, saiu da disputa. Será verdade que ainda sobram três possibilidades de nomes na disputa pelas duas vagas já prestes a abrir, como Bolsonaro falou? Ou uma dessas vagas já foi destinada ao PGR e a conversa da live foi apenas uma forma de tentar mascarar e desviar a atenção dessa tenebrosa negociação, cuja contrapartida por parte do chefe do MP é bastante evidente?

Os próximos movimentos do Procurador-Geral darão algumas pistas do que pode acontecer, mas o certo é que os sinais estão sendo emitidos, uns mais claros, outros mais velados, e, diante da quase inércia das instituições (notas e manifestos têm pouquíssimo efeito neste momento), é urgente que o povo assuma a frente do combate e entre com força na guerra, que já está posta e vai muito além do maniqueísmo retórico de disputa entre Esquerda e Direita. Se as manifestações de rua não são recomendadas no momento, não obstante já tenham começado a acontecer, é preciso que a população encontre formas de pressionar de maneira contundente e efetiva quem tem o poder de, apenas fazendo cumprir a Constituição Federal, barrar a cavalgada fascista, que mais cedo ou mais tarde pode dar (e dará) um passo decisivo, armando um “golpe por dentro”. Os avisos estão sendo dados a todo momento e, neste caso, quem avisa não é amigo.

*https://oximarraoalucinogeno.com/2018/10/29/hora-de-derrubar-mitos/

Imagem ilustrativa copiada de https://istoe.com.br/stf-investigara-ato-pro-intervencao-militar-do-qual-bolsonaro-participou/, em 1º/6/2020

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Política

Crônica de uma nau à deriva – Parte 2: o capitão

Desde que o ser humano se lançou pela primeira vez em aventuras náuticas se sabe que quando o barco começa a afundar os ratos saem na frente na corrida pela salvação. Na última sexta-feira, o ex-presidente da República de Curitiba pulou da barca. Também é da tradição que o capitão afunde com o navio. Às vezes mesmo por falta de opção.

O (des)governo bolsonaro é algo patético como nunca se viu na história recente da humanidade. Eu sempre fico na dúvida se o sujeito é tão mentalmente limitado como parece ser ou se isso é parte de uma estratégia muito bem engendrada de desviar a atenção para imbecilidades enquanto se levam os planos diabólicos em frente sem importunações. Ultimamente o presidente tem dado ares de imortalidade. Não faço referência ao grotesco episódio da suposta tentativa de assassinato, mas sim ao mandato. Já não é de hoje que se tem vários fatos consumados aptos a abrir processo(s) de impeachment com enormes possibilidades de condenação, mesmo que se considere a configuração putrefata do Congresso. E o homem não cai. Isso também pode ser uma estratégia da caserna, buscando o momento para o general assumir em condições ideais. Conjeturas, enfim.

Para fazer um histórico mais fiel das trapalhadas e das ilicitudes praticadas pelo Messias seriam necessárias muitas páginas de escritos, por isso o objetivo aqui é pensar apenas no que que aconteceu em relação ao ex-ministro e cabo eleitoral. Logo após a delação (ainda não) premiada, Bolsonaro foi às redes, seu palco predileto, dizer que em poucas horas faria um pronunciamento com o condão de restabelecer a verdade. O que se viu, porém, foi mais uma ária da Ópera-bufa que é este (des)governo desde o seu início. O quadro montado para a fala parecia querer reproduzir a imagem da Santa Ceia, apenas com a ausência do traidor, que, afinal, já havia feito o serviço. Durante quase uma hora, o Chefe do Executivo de um dos maiores países do planeta desfiou seu carretel de bobagens sem trégua nem pena da audiência mundial. Falou do desmonte do Inmetro; de como ficou magoado que a investigação do assassinato de Marielle tivesse para a pasta da Justiça mais importância que o seu próprio (mas… não foi consumado, foi?); se jactou pelas peripécias sexuais do filho número zero quatro; tudo isso e mais um monte de asneiras. Só não aprofundou o que realmente interessava.

Da perspectiva da manutenção do (des)governo, foi muito melhor não ter entrado em detalhes sobre a crise provocada pelo ministro demissionário, porque o pouco que fez já complicou a sua própria situação. Estou me referindo ao momento em que ele falou que o então ministro pediu que segurasse o Diretor da Polícia Federal até novembro, quando ocorreria a sua nomeação para o STF. Mesmo que tenha dito logo em seguida que não negociava cargos (ou algo parecido, o que não faz muita diferença no meio daquele festival de idiotices), essa referência foi uma confissão de culpa. Qualquer pessoa que tenha um cérebro minimamente apto a fazer a comunicação entre dois neurônios sabe que o ex-juiz não teria trocado uma promissora carreira na magistratura federal (promissora não pela competência, mas pelo papel desempenhado) pela aventura ao lado do descerebrado presidente da república sem a garantia de uma contrapartida que valesse a pena. Ao falar com toda a naturalidade do pedido de Moro para segurar o cargo do delegado até novembro, Bolsonaro não deixou dúvidas que esse era o acordo. E se esse não pode ser considerado o pior dos crimes – nem de longe o é – neste momento talvez seja o mais emblemático, porque escancara o tipo de artifício utilizado para o sucesso da empreitada fascista rumo ao poder. Ter no governo o homem que garantiu a eleição era ponto crucial para o projeto. E assim foi feito. E foram felizes pelo tempo em que durou o amor. A ruptura que ocorre agora pode ser algo que de fato não era esperado, como também pode ser mais um movimento de peças no tabuleiro do complexo jogo de xadrez armado (sem trocadilho) pela equipe bolsonarista. Isso porém, é coisa que talvez tenhamos a sorte de saber nos próximos dias. Ou talvez nunca saibamos, do mesmo jeito que quase tudo o que se sabe sobre a queda do inaufragável Titanic é especulação.

*Foto copiada do site https://jc.ne10.uol.com.br/politica/2020/04/5607293-paulo-guedes-nao-estava-descalco-no-pronunciamento-de-bolsonaro–era-uma-sapatilha.html, consultado em 27/4/2020.

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História, Política

Crônica de uma nau à deriva – Parte 1: o roedor

O ex-presidente da República de Curitiba chutou o balde. Há quem diga que foi o pior golpe externo sofrido pelo Messias no seu pontificado. Isso pode ser verdade, considerando que o ocupante do cargo máximo do Executivo nacional é pródigo em se autoflagelar e expor a própria imagem ao ridículo (refinadíssima manobra de diversionismo?). Algumas coisas, porém, exigem um pouco mais de atenção nos pronunciamentos que abalaram ainda mais a já frágil situação do (des)governo.

O ex-ministro-popstar, que, não esqueçamos, foi o grande artífice da tomada do poder pelo projeto bolsonarista, deixou escapar, propositadamente ou não, algumas coisas que sempre foram óbvias para quem quer que analisasse as conjunturas com um pouco menos de ódio. Ao dizer que nos governos Lula e Dilma não houve nenhuma interferência do poder nas investigações e processos, embora a corrupção tivesse grassado naqueles tempos (palavras suas), não fez mais do que confirmar os fatos, já que quadros políticos do mais alto escalão petista foram pegos nas operações da Polícia Federal e do MPF, e alguns julgados – e invariavelmente condenados, por vezes até sob meras suspeitas – pelo titular da 13ª Vara Criminal da Justiça Federal de Curitiba, inclusive. Ora, que governo que tivesse o ânimo de pautar as ações dos órgãos investigativos não o faria para proteger os seus, inclusive o presidente e depois a presidenta? Essa forma de corrupção não houve nos governos petistas, e isso foi dito pelo ex-ministro.

Por outro lado, o ministro demissionário, escancaradamente e sem nenhuma vergonha (nem cautela), jogou para a torcida na introdução da sua fala. Para afastar o que sempre se disse sobre a troca de favores, no caso a nomeação para o STF, falou que fez apenas uma exigência para aceitar o convite de integrar o (des)governo: que sua família não ficasse desamparada caso algo lhe acontecesse no heroico trabalho de combater a alta criminalidade. Se ficasse apenas nessa menção genérica, a questão poderia passar in albis, porém ele foi objetivo, dizendo que pediu uma pensão à família na sua eventual ausência, já que contribuiu por pouco mais de 20 anos à Previdência etc. Se isso é fato de menor gravidade, quase um crime de bagatela diante do que viria pela frente, é outro debate, porém que se constitui em ilicitude que em nada combina com a imagem de incorruptível paladino da ética cuidadosamente construída pelo ex-juiz, ninguém há de questionar.

Diz-se que a corrupção no Brasil foi trazida na frota de Cabral, tendo em Pero Vaz de Caminha relator da viagem, o primeiro corrupto. O pedido, ou melhor, a condição, conforme o próprio ex-ministro, não tem nenhuma sustentação legal, pelo contrário, trata-se justamente da troca de favores que tentava desconstituir. Moro nitidamente quis fazer média com o povo, consolidando a imagem do homem que se sacrifica pelo país, se importando pouco com a própria vida, mas que mantém a preocupação com a família, instituição tão cara no discurso que levou o projeto fascista ao poder. Porém, ao tentar construir essa narrativa, acabou por tropeçar nas palavras e se tornar confesso de ato de corrupção. Algo muito semelhante ao que fez o escriba d’El Rey nos idos de 1500.¹

A partir daí, o que se ouviu e viu foi algo que algumas pessoas muito bem chamaram de delação (ainda não) premiada. Cabe aqui, porém, mais um questionamento. Desde que assumiu as ações da Lava Jato, se transformando quase em parte de algumas delas, Moro se consubstanciou no cabo eleitoral perfeito de Bolsonaro, já que era responsável direto por botar atrás das grades o inimigo público nº 1 de boa parte dos brasileiros, lavando assim a alma de uma parcela da população sedenta por vingança contra algo que ainda não se sabe direito, mas que se especula. (Uma representante desta classe disse que não havia mais graça ir a Paris, pois era grande o risco de cruzar com o porteiro do prédio no aeroporto.² Lembram?) Mais do que cabo eleitoral, Moro, ainda como juiz, foi o fiador da eleição. Tê-lo no governo era questão estratégica para levar me frente o projeto. E um reconhecimento por serviços prestados, pois tirou de campo o único que poderia fazer frente a Bolsonaro na campanha. Fazendo uma analogia com o futebol é como se o árbitro que apita uma final de campeonato entre dois grandes rivais, e neste jogo prejudica um dos times a ponto do outro conquistar uma vitória relativamente fácil, fosse convidado para ser diretor do clube vitorioso logo ao fim do campeonato. É mais do que evidente que um juiz em franca ascensão não botaria no lixo uma carreira promissora na magistratura para se lançar num voo (cego) político ao lado de um sujeito tresloucado como Bolsonaro. Diante de tamanha aventura, talvez o cargo vitalício na Corte Suprema tenha sido apenas uma parte do acordo. A parte que ele decidiu abrir mão para agir como os roedores que abandonam o barco quando a água começa a entrar na casa das máquinas.

Mas, vamos pensar bem, será razoável que o ex-ministro privou da intimidade do chefe por pelo menos um ano e meio, contado só o tempo que durou o seu mandato, e somente agora conheceu o verdadeiro Bolsonaro? Ele não sabia que o corrupto presidente era no mínimo capaz dos crimes que denunciou, apesar de ter dito que não era novidade a tentativa de interferência do patriarca dos números (filho 01, 02, 03…) nas investigações da PF? Se não sabia mostra-se um homem de ingenuidade incompatível com os cargos que ocupou. Se sabia, era seu dever ético e legal, uma vez que ocupante do cargo de ministro, que denunciasse as práticas do seu superior. Em não o fazendo, Moro cometeu crimes típicos de servidor público, na melhor das hipóteses.

As pessoas que tinham em Moro um ídolo coadjuvante, escudeiro do … Mito, e que agora o elegem como o esteio moral da nação, por cair atirando para todos os lados, deveriam ampliar um pouco o campo de visão e tentar enxergar os pés dos seus santos, que talvez sejam de barro. Ou patas com garras afiadíssimas…

¹https://www.recantodasletras.com.br/textosjuridicos/6367625

²https://www.geledes.org.br/o-perigo-de-dar-de-cara-com-o-porteiro-do-proprio-predio-danuza-leao-pede-desculpas-a-porteiros-e-leitores/

*Foto copiada do site https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-diz-nao-ter-compromisso-com-moro-no-stf-e-querer-evangelico-na-ancine/, consultado em 26/4/2020.

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Música

Clara homenagem

Não tive a oportunidade de ver a Clara Nunes ao vivo, mas me apaixonei por ela desde a primeira vez que ouvi . E nem sei quando foi, mas lembro que a música era “O mar serenou”. Clara era/é uma força da natureza, assim como a música feita pra ela cantar pelo João Nogueira e pelo Paulo César Pinheiro.

Ontem, porém, fomos ver o show “Na linha do mar”, em que a cantora Deborah Rosa interpreta algumas músicas que foram imortalizadas por Clara. O início foi meio estranho, Deborah atravessou a letra de “Conto de areia”, misturou com “O mar serenou” e foi salva pela proximidade das músicas e pela competência da banda, que segurou a onda, sem trocadilhos. Quem não conhecesse bem o canto da Clara poderia achar que a mistura das músicas era proposital, mas para os fãs foi perceptível a atrapalhação da cantora, que no bis acabou reconhecendo que errou, ao dizer que desta vez conseguiria cantar o “Conto de areia”. Isso poderia prejudicar o show, mas logo em seguida Deborah retomou o controle e desfilou uma série de sucessos, apoiada pelo excelente trabalho da banda, um trio formado por baixo, bateria e violão (guitarra), respectivamente: Diego Ciocari, Ricardo Vivian e Daniel Rosa. Os arranjos foram adaptados para essa formação, o que deu alguns ares mais jazzísticos em alguns momentos, sem nenhum comprometimento da força das canções. A voz de Deborah é poderosa e ela tem uma boa presença de palco, apesar do nervosismo inicial. Eu fiquei com curiosidade de ouvi-la cantando Alcione, porque me parece que o timbre de voz é mais adequado para a Marrom, o que de maneira nenhuma prejudica as interpretações dela para a Clara.

Os momentos mais altos do show se dividiram em duas músicas extremamente fortes e significativas, que na voz de Clara traziam toda a ancestralidade africana para a frente da interpretação: “Canto das três raças”, verdadeiro manifesto explicativo da formação étnica do Brasil, composta por Paulo César Pinheira e Mauro Duarte, e “Morena de Angola”, canção que mostra a genialidade de Chico Buarque, que conseguiu inserir uma mensagem política exatamente ao seu gosto, de maneira que só os conhecedores da coisa pudessem compreender (“Morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA…).

Enfim, quem esperava ver uma imitação da Clara Nunes no palco deve ter saído frustrado do teatro. Mas a receptividade do público mostra que não era disso que se tratava, mas sim de uma homenagem, dentro dos limites que é possível se fazer a uma figura mitológica como é Clara. Saímos felizes do show e recomendo o espetáculo pra quem é fã da Guerreira.

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Música, Rock

Sorry, Mick!

Camisa blog (3)O Camisa de Vênus veio aqui começar a turnê do disco/dvd Dançando em Porto Alegre. Nada mais apropriado. O Camisa é foda! E bota pra fudê!

A formação atual é, pra mim, a mais roqueira de todas. A “tosqueira” punk que existia lá no começo não perdeu a essência. 4 décadas depois, o Camisa continua sendo uma banda transgressora, mesmo quando o rock quase não transgride mais nada. Eu acho, na real, que esta é justamente a maior transgressão, continuar fazendo rock. E rock o Camisa faz bem desde sempre.

A banda já teve por um tempo o genial Luiz Carlini na guitarra, mas a dupla de hoje é espetacular. O Drake Nova é filho do homem, mas não é no carteiraço que ele garante lugar, não, o cara toca uma barbaridade. Os timbres que tira da guitarra são incríveis e é impressionante a capacidade que ele tem de reproduzir o clima de músicas que foram compostas quando nem tinha nascido. Na parceria, outro puta guitarrista, Leandro Dalle, que também toca muito e, talvez por ser também um baita baixista, sabe exatamente quando precisa economizar e quando pode voar. Quando os dois dobram as guitarras, criando uma sonoridade que lembra o Iron Maiden, por exemplo, realmente o circo pega fogo.Camisa blog (4)

Quando o Marcelo apresenta a banda, invariavelmente ele chama o batera, Célio Glouster, de Celinho Cadilac, O Trem. É um bom apelido, porque o cara realmente parece um trem, toca pesado, mas com balanço, e com uma precisão que mantém a banda o tempo todo nos trilhos, não importa a loucura que Mr. Marceleza e os outros estejam inventando.Camisa blog (5)

Robério Santana é a lenda, segundo Marcelo. Não é um baixista de jazz rock, daqueles de técnica altamente refinada, é um baixista de rock, e andando há mais de 30 anos juntos, ele e Marcelo têm uma parceria rara em bandas de rock.Camisa blog (2) Dá pra notar que a maneira como Robério toca fecha direitinho com a precisão já falada do baterista, o que deixa a banda tranquila pra viajar alto e voltar sempre pra música no tempo certo.

A história de uma banda de rock não é um conto de fadas, como algumas pessoas imaginam. Quando uma banda fica grande, alguma dose de profissionalismo é necessária e isso não falta pro Camisa. Só que o profissionalismo implica outras questões, contratos, direitos de uso do nome da banda e das próprias músicas, enfim, a parte do rock que não aparece no show. E o Camisa teve problemas com isso. Os dois guitarristas da formação clássica* tinham uma banda, em que tocou também por um tempo o Robério, e a chamavam de Camisa de Vênus. Depois de algum tempo, o Marcelo não gostou de como a coisa estava andando e entrou na Justiça pra impedir os ex-colegas de continuarem usando o nome. Brigas e trocas de farpas se seguiram, claro, e aí eu lembro que um amigo já me disse há muito tempo que se eu quisesse continuar sendo fã de alguém, era melhor nunca ler a sua biografia. É verdade isso, porque quando a gente admira e idolatra um/a artista, lembrar que ele/a é uma pessoa comum e que faz coisas de pessoa comum, pode ser um balde de água fria. A ideia de que o artista paira acima das coisas mundanas vale pra imagem idealizada que costumamos fazer dele, mas às vezes deparar com a humanidade do ídolo pode atrapalhar um pouco. Mas não é disso que estava falando e nem é exatamente o caso, porque o Marcelo Nova é adulto e vacinado e sabe conduzir as coisas da sua vida privada, que é… privada!, então voltemos ao show.

Bastidores à parte, o Camisa de Vênus é pra mim uma das maiores bandas da história do rock feito no Brasil e cada show deles é uma celebração ao rock and roll. E o momento atual do Camisa, com o Marcelo cantando a plenos pulmões e com uma performance de palco endiabrada como sempre, é excelente. Como eu disse, a formação atual é puro rock e o público sabe disso. E gosta. A piadinha que já virou clichê da banda, em que o Marcelo diz que o Mick Jagger se ressente de não ter um grito de guerra como o Camisa, se justifica quando um teatro cheio grita “Bota pra fudê” a cada intervalo de música. E o Camisa faz isso mesmo, Bota pra Fudê!Camisa blog (1)

*A formação clássica do Camisa tinha o Marcelo no vocal, o Robério no baixo, o Karl Franz Hummel (falecido em 2017) numa guitarra, o Gustavo Mullen na outra e o Aldo Machado na bateria. Mas antes disso, o Gustavo era o baterista e um cara chamado Eugênio Soares tocava guitarra. A título de curiosidade, o Aldo Machado largou o rock depois que se converteu ao cristianismo. Coerente, porque, afinal, quem é o pai do rock?

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Cinema

O filme mais feliz do mundo

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Don’t stop me now foi considerada a música mais feliz do mundo, aquela capaz de despertar as melhores sensações em quem ouve. Isso é subjetivo, mas não é absurda essa conclusão, porque a música do Queen é realmente uma maravilha. Pois se eu tivesse que escolher o filme mais feliz do mundo, grandes chances de ser o Mamma Mia, ou melhor, os Mamma Mia, 1 e 2. Poucos filmes podem trazer sentimentos e sensações tão boas. Assisti o segundo no fim de semana (3 vezes!) e fiquei tão feliz como quando vi o primeiro.

Li alguns comentários ao filme (2) e há várias críticas. Mas o que pode ser mais interessante e menos relevante ao mesmo tempo do que crítica de cinema feita por quem “entende do assunto”? Critica-se a falta de continuidade, os erros cronológicos, a falta de profundidade etc. etc. etc. Fosse um filme mais denso, como gostam de dizer os entendidos, até daria pra considerar essas críticas, mas o filme é entretenimento puro, não é pra provocar reflexões sobre a condição humana, embora algumas sejam bem possíveis.

O elenco é maravilhoso. Colin Firth é um grande ator, Cher e Meryl Streep, que fazem apenas aparições pequenas, são deusas, Amanda Seyfried é um talento desde criança, e por aí vai. Mas a interpretação de Lily James é um caso à parte. Nunca tinha reparado nessa atriz, mas ela realmente rouba a cena. Vê-la como Donna é praticamente ver a Meryl Streep alguns anos mais jovem no mesmo papel.DilQ-IiUYAAp-uT.jpg

Os trejeitos, as expressões, o jeito de andar, tudo é uma perfeita recriação da personagem. A cena em que ela levanta da mesa e vai correndo pro banheiro, no primeiro enjoo da gravidez, mostra que a atriz estudou todos os detalhes da interpretação da Meryl Streep. E além de tudo, a interpretação que ela faz das músicas é excelente. Enfim, apenas a atuação dessa guria já valeria o filme, mas o momento em que a Sophie olha os barcos chegando e dois dos seus pais brincando de Titanic, ao som de Dancing Queen, é uma cena pra ser vista dezenas de vezes sem cansar.images

Não sou crítico de cinema e não tenho as habilidades e as habilitações que permitem ver detalhes que precisam ser vistos (ou não) numa análise técnica, mas gosto de cinema, gosto de música e, sobretudo, gosto de me sentir bem vendo um filme. E fazer com que as pessoas se sintam bem é um atributo inegável deste Mamma Mia 2, assim como é do 1.

Assistam!

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Política

Hora de derrubar mitos

Não foi ontem que as pessoas progressistas e amantes das liberdades e da democracia descobriram que as coisas no Brasil vão de mal a pior. Nem foi no golpe engendrado para tirar do governo uma presidenta legitimamente eleita. Presidenta, aliás, que soube que não levaria a cabo o segundo mandato no exato instante em que o TSE proclamou a sua reeleição, em 2014. Naquele momento, o candidato derrotado anunciou que as forças conservadoras tornariam o país ingovernável. E cumpriu o prometido. Só que também não foi naquela ocasião que passamos a entender o que estava acontecendo. A gênese de tudo está no aeroporto, quando a socialite começou a encontrar o porteiro do prédio em Paris, e na Universidade, quando o filho preto da empregada pobre começou a dividir a sala de aula com a filha do patrão. (Sobre isso, recomendo “Que horas ela volta?”, filme brasileiro de 2015, dirigido por Anna Muylaert e magnificamente estrelado por Regina Casé.) “A Casa-Grande pira quando a Senzala vira médica”, foi o que disse a estudante Bruna Sena, ao ser aprovada em primeiro lugar para Medicina na USP, vestibular mais concorrido do país. E num país de elite historicamente escravocrata, como é o  nosso, quando a Casa-Grande pira, as consequências podem ser trágicas.

A eleição de um projeto autoritário e com matizes notadamente fascistas, porém, não é fruto somente de uma insatisfação das elites. Acreditar nisso é seguir trilhando o caminho de um erro que já provocou um resultado devastador. É preciso ir além, é preciso olhar para o nosso interior e detectar precisamente o ponto em que começamos a nos equivocar. A avaliação mais precisa do contexto político que se estabeleceu nas eleições deste ano não foi feita por um cientista político e nem por um jornalista, mas pelo rapper Mano Brown. E aconteceu durante um evento do próprio Partido dos Trabalhadores. Ao dizer que o PT deveria voltar a dialogar com as bases, Mano Brown não fez mais do que a crítica que o próprio partido deveria ter feito internamente há muito tempo e que vinha sendo feita, a bem da verdade, por alguns quadros históricos, como Olívio Dutra. Mas da mesma maneira que a dura reprimenda feita corajosamente por Mano Brown às vésperas do pleito não significou que ele estivesse “passando para o outro lado”, ou “dando um tiro no pé”, como tentaram dizer algumas figuras petistas de expressão, também as reflexões de Olívio não o afastaram das lutas democráticas. Pelo contrário, Olívio, do alto de seus mais de 70 anos, esteve engajado de corpo e alma na campanha pró-Haddad e Manuela, e no último sábado esteve de casa em casa em alguns bairros populares de Porto Alegre, fazendo a luta pela “virada”. E as palavras de Mano Brown, que certamente foram extremamente incômodas a quem sempre fechou os olhos para os erros cometidos pelo PT, estimularam a militância a seguir firme na busca por votos possíveis de inversão. Como depoimento pessoal, posso dizer que conquistei alguns votos para a chapa Haddad/Manuela a partir do discurso dele, pois algo que sempre incomodou e irritou os antipetistas é a incapacidade do partido em assumir os seus próprios erros. Quando o partido reconhece que não foi perfeito, as barreiras e restrições começam a ser relativizadas.

Todavia, a coisa toda não se explica somente por essas constatações. Há que se analisar também o caso do antipetismo, que teria levado milhões de brasileiros e brasileiras a eleger Bolsonaro e sua plataforma antidemocrática pela via da exclusão e da rejeição. Essa é uma meia verdade. Fosse a intenção do eleitorado bolsonarista tão somente barrar o PT, havia outras possibilidades, à direita e ao centro, ainda no primeiro turno. Alckmin, Marina, Amoedo e o próprio Ciro eram candidaturas viáveis a combater a ascensão petista, mas foram preteridas em favor de um discurso extremado, que agradou, sim, ao povo ávido por vingança. Eu escrevi vingança. O que pode agradar mais a chamada classe média do que a promessa de poder se vingar de quem lhe ameaça a segurança? E nesse caso, pouco importa se quem promete nada fez pela segurança pública nas últimas trés décadas, mesmo ocupando um cargo político importante. O cidadão mediano, que vive com medo de ser assaltado na rua, é seduzido pelo canto da sereia que representa a possibilidade poder usar uma arma de fogo para se defender. E empolgado com essa ideia, certamente não vai buscar informações sobre o que realmente está por trás dessa conversa, sobre que interesses serão contemplados com isso. Sequer essa pessoa vai se informar sobre o que acontece em países cuja posse e porte de arma de fogo é facilitada, como os EUA. A ele basta sonhar que vai poder dar um tiro na cara do assaltante, afinal, bandido bom é bandido morto. As causas que levaram esse bandido ao mundo da criminalidade também pouco lhe interessam, pois é suficiente que ele esteja morto. Se morrer um inocente, paciência, o próprio Messias já aliviou essa culpa. Ou seja, se há um componente de antipetismo na eleição do capitão, há muito mais do lado Mr. Hyde que habita o interior de cada “cidadão de bem”, que clama por justiça, mas quer ter o mórbido prazer de executá-la com as próprias mãos. Esse é o pensamento de quem reduz a luta pelos direitos humanos a uma defesa da bandidagem e é o pensamento que elegeu um projeto que afirma abertamente legitimar o justiçamento.

Conforme muito bem observou um amigo, Marcelo Cougo, o eleitor e a eleitora de Bolsonaro são as únicas pessoas que acreditam que ele não vai fazer o que prometeu. Isso leva a uma situação surreal, em que o voto é dado pela certeza do não cumprimento das promessas de campanha. Pessoas minimamente politizadas e conscientes votam em candidatos/as na esperança de que cumpram com o que se comprometeram, caso sejam eleitos/as. Algumas até mesmo deixam de votar em qualquer candidatura por entenderem que nenhum/a agente político é capaz ou tem interesse em cumprir as suas promessas. Mas votar num candidato porque ele não vai cumprir o que prometeu parece ser um caso singular na história democrática do Brasil e talvez do mundo. Ao longo da campanha, circularam inúmeros vídeos que mostram Bolsonaro afirmando com convicção as suas ideias de defesa da tortura e de admiração por torturadores, por exemplo. E não foram falas descontextualizadas. Estão aí disponíveis no Youtube. Também é da própria boca do presidente eleito que se ouviu a exortação à expulsão dos adversários políticos do país, assim como a defesa da tese de que o voto não pode mudar nada, que é preciso um golpe e que se for necessário matar alguns inocentes, não tem problema. Não vou me dar ao trabalho de incluir aqui os links para essas declarações, porque é só jogar no Google. O bolsonarianismo, porém, insiste em dizer que não é bem assim, que ele não disse o que disse, embora esteja tudo gravado e registrado, ou que ele disse isso em contexto diferente, ou ainda pior, que ele estava só brincando. Se alguém se dispõe a brincar de elogiar o maior facínora e mais sádico torturador da história do Brasil no momento mais crítico da história política recente do país (o voto no processo de impeachment da Presidenta Dilma), a coisa é ainda muito mais grave.

Com isso quero dizer que o processo que levou Bolsonaro ao cargo político máximo da República não se explica pela ideia simplista do antipetismo, e também afirmo que o próprio antipetismo não se explica pelas próprias mazelas do Partido dos Trabalhadores. Todos esses elementos estão presentes, por óbvio, na eleição de Bolsonaro, mas o que está na origem de tudo é o desejo de vingança, o ódio que o “cidadão de bem” passou a nutrir por tudo aquilo que ele não pode explicar racionalmente, seja por incapacidade mesmo ou por preguiça intelectual. Ao fugir da análise dos fatos geradores das desigualdades sociais e optar por trilhar o caminho fácil da eliminação da “bandidagem”, o eleitorado bolsonarista escancarou a sua face fascista, gostem ou não os meus amigos e as minhas amigas que votaram no B17. A prova de que a luta não é anticorrupção é o elemento que se tornou simbólico dessa cruzada moralista: a camisa da CBF, uma entidade mergulhada na roubalheira e na corrupção. E a prova de que a questão central nunca foi a segurança é a falta (ou omissão) de conhecimento de que o presidente eleito não apresentou sequer um projeto na área da segurança pública em quase 30 anos de atividade parlamentar.

De um lado, então, cabe à esquerda e as forças do campo democrático uma reflexão séria sobre os próprios equívocos, e a união em torno de um projeto de resistência e reconquista do terreno perdido nas áreas sociais, a fim de que o projeto fascista representado pela eleição de Bolsonaro não consiga se consolidar. E ao eleitorado bolosonarista não assumidamente fascista (porque fascismo não se discute, se combate) cumpre fazer uma reanálise acerca do discurso de ódio que motivou a votação em massa na plataforma autoritária de um candidato que, agora eleito, tem sim as condições de cumprir tudo aquilo que prometeu durante a campanha e ao longo da sua trajetória na vida pública. É preciso, em resumo, derrubar alguns mitos para que possamos recolocar o país no rumo de crescimento em que estava há pouco tempo. A minha esperança é que isso não seja um problema muito difícil de resolver, porque, como ouvi muito durante esses últimos tempos, se ficar ruim a gente tira…

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